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quinta-feira, 1 de junho de 2017

"EU VENCI A ENDOMETRIOSE" OU "EU VENCI A INFERTILIDADE"? QUE FRASE MELHOR SE REFERE À ENDOMETRIOSE?



imagem cedida por Free Digital Photos


Por Caroline Salazar
Edição: doutor Alysson Zanatta

A endometriose é uma doença muito séria, que precisa ser levada a sério por toda nossa sociedade, especialmente pelos órgãos públicos. É uma doença que pede políticas públicas (leia meus textos sobre o tema texto 1, texto 2, texto 3) com urgência. Hoje mesmo milhares de brasileiras estão presas às suas camas por conta dessa doença que atinge uma a cada 10 mulheres. Talvez por ser uma doença tipicamente feminina, apesar de mais divulgada nos últimos anos, ainda é pouco conhecida da maioria da população, inclusive, de muitos médicos e, inclusive, de muitas mulheres.  

Apesar de ser a doença feminina que mais causa infertilidade, ser portadora da doença não significa que a mulher será infértil ou que vai demorar mais para conceber. Ou que nunca irá gerar uma vida em seu ventre. Muitas mulheres descobrem ter a doença após algum tempo tentando engravidar, porém, ter endometriose não é sinônimo de que a mulher não vai conseguir ser mãe. Outras tantas mulheres descobrem ter a doença após a maternidade. Cada caso é um caso, e não devemos generalizar. Quero aproveitar que junho é o mês internacional da infertilidade para levar todas as endomulheres à reflexão, em especial, àquelas que já geraram seus filhos e que continuam passando sofrendo com as dores da endometriose. 

Algum tempo atrás comecei a ver mulheres postando a hashtag “eu venci a endometriose” quando conseguia seu tão desejado bebê. Essa expressão ficou ainda mais forte há cerca de dois anos, quando uma atriz, portadora da doença, engravidou naturalmente de seu primeiro filho. Desde a descoberta de sua gravidez, ela começou a postar essa expressão em suas fotos. Quero deixar bem claro que este texto representa a minha opinião mediante minha luta em prol do reconhecimento da doença como social para que haja políticas públicas (tratamento acessível) a todas endomulheres brasileiras. E também pela minha luta em mostrar que a endometriose é uma doença que maltrata e muito as mulheres, que a dor crônica e severa é a principal sintoma da doença.

Até relutei em escrevê-lo, mas desde que comentei sobre a ideia central dele no Insta-stories (siga @aendoeeu no Instagram tenho recebido mensagens diárias para escrever sobre o tema. E já que junho é o mês internacional de conscientização da infertilidade, e o texto tem tudo a ver com tema, pois é bem provável que teremos mais informações erradas sobre a endometriose, resolvi escrevê-lo. Desde a primeira vez que li a expressão “eu venci a endometriose” achei bem sem nexo. Várias e várias vezes fiquei me perguntando qual o real sentido, qual a conotação da frase? Se a ideia é celebrar a gravidez mediante a infertilidade que a doença poderá ocasionar, o correto não seria “eu venci a infertilidade” ou “ eu venci a infertilidade causada pela endometriose” ou "eu venci a infertilidade da endometriose"? 

Se a gravidez fosse a cura da doença com certeza a expressão estaria correta. E eu não precisaria escrever esse texto. Mas como, infelizmente, não é, então, na minha cabeça essa frase não faz sentido. Nos meus mais de cinco anos na luta em prol de políticas públicas e direitos das portadoras tenho percebido que enquanto não desvincularmos a endometriose da infertilidade, já que são duas doenças diferentes, infelizmente, a endometriose não será levada tão a sério quanto ela e suas portadoras, que sofrem com as dores crônicas, merecem. Não porque eu não quero, mas porque vivemos num país machista onde os homens não sabem o que é gerar, não sabem o que é nascer com a vontade de ser mãe, não sabem o que é ter esse sonho como meta de vida.

Já postamos um texto do cientista americano doutor David Redwine falando que agravidez não cura a endometriose e que a gravidez não é tratamento para a doença. Quantas mulheres tiveram um, dois, três ou mais filhos e descobriu ser portadora da doença anos depois? Na coluna “História das Leitoras” temos o exemplo de muitas mulheres que continuaram a sentir dor ou até pioraram após a descoberta da gestação (leia a história da paulistana Hosana Santana parte 1 e parte 2, da capixaba Danielle Balbino, da americana Candice Frederikson e da portuguesa Sara Ferreira, dentre outras relatadas na coluna). A meu ver o mais correto seria dizer “eu venci a infertilidade” ou “eu venci a infertilidade causada pela endometriose” ou "eu venci a infertilidade da endometriose". Por conta das informações equivocadas sobre a doença, milhares de mulheres estão sofrendo não só por causa das consequências dela, mas pela ignorância das pessoas que as cercam. Quem nunca ouviu a expressão: "Engravida que cura", "tenha filhos que você vai melhorar". 

E é justamente por conta destas milhares de vidas em sofrimento que resolvi escrever este texto, mesmo sabendo que ele poderá desagradar alguma pessoas.  A atriz em questão bem que poderia se informar melhor e nos ajudar a passar a correta informação sobre a doença, mas até agora ela só ajudou a espalhar desinformação e uma expressão que aumenta ainda mais um dos mitos da doença. A endometriose não é brincadeira, ela afeta cerca de 200 milhões de meninas e mulheres no mundo, mais de 6 milhões apenas no Brasil. Enquanto  a infertilidade afeta cerca de 40% das endomulheres, as dores severas atinge cerca de 80%. Esses dados são mais que números altos, são milhares de vida sofrendo com o descaso da sociedade e o preconceito que ainda 

Sei bem a alegria que é receber o tão sonhado positivo para quem tem endometriose, mas precisamos desvincular uma doença da outra, trata-las como duas, e não uma. Temos de mudar nossa postura perante esta doença tão devastadora para que aquelas que sofrem em suas camas, aquelas que tomam doses cavalares de morfina diariamente sejam mais respeitadas e para que frases como: “engravida que você ficará curada” ou “engravida que passa”, dentre muitas outras, parem de ser ditas seja por médicos, por parentes, por amigos e até mesmo por outras mulheres.

Espero que esse texto sirva de reflexão ao maior número de pessoas possíveis. Precisamos espalhar a correta informação sobre a endometriose, tirar todos os seus mitos para deixarmos de ser invisível para a sociedade. Precisamos de vozes na sociedade a nosso favor e não aumentar ainda mais os mitos que essa doença carrega há séculos. A mudança está em nossas mãos... e em nossas falas, escritas... Pense nisso! Beijo carinhoso!

quinta-feira, 11 de maio de 2017

A HISTÓRIA DA LEITORA SORAIA SABINO LARA, SUA ENDOMETRIOSE PROFUNDA E SUA GESTAÇÃO DO CORAÇÃO!!

A mineira Soraia Sabino Lara, seu marido, Wellington Lara de Souza,
e o filho, que ainda não pode mostrar o rosto por decisão judicial


Neste mês de maio o A Endometriose e Eu conta uma história muito especial da leitora mineira Soraia Adriana Sabino Lara, de 40 anos, que descobriu ser portadora de endometriose profunda anos após ser diagnosticada com infertilidade sem causa aparente, e quase 10 anos após iniciar suas primeiras tentativas de gestar seu bebê. Cerca de 20% da infertilidade feminina e masculina não tem causa aparente, ou seja, não tem diagnóstico. Como muitas endomulheres, a Adriana só descobriu sua infertilidade após dois anos de frustradas tentativas para engravidar. Mesmo com esse possível diagnóstico, ela seguiu sua intuição e foi atrás por conta própria tentar descobrir o que tinha. No meio do caminho o marido de Adriana também se descobriu infértil. Com o desejo de ser pais, o casal optou pela adoção. Ser mãe é mais que gerar um filho no ventre, é gerar seu filho primeiramente no coração, lugar onde todos os filhos devem ser gerados. Eu gosto muito de contar histórias de leitoras que se tornaram mães no Mês das Mães, e neste ano, minha emoção é maior, pois é a primeira vez que contamos um testemunho de adoção na coluna. É impressionante como nossos filhos são os escolhidos de Deus, sejam eles gerados no ventre ou no coração. E o emocionante testemunho de Adriana é a prova disso. Afinal, quando sabemos se é essa ou aquela criança? E se eu sentir aquela identificação com a criança? Isso aconteceu com Adriana e seu marido. Após o relato de Adriana temos certeza que precisamos espalhar a correta conscientização da endometriose para que outras mulheres não passem o que ela passou. O descaso e o despreparo dos médicos são absurdos e temos de mudar esta realidade o mais urgente possível. E juntas iremos conseguir. Mais um texto que vai inspirar muitas endomulheres que desejam alcançar o sonho da maternidade. Segurem as lágrimas. Beijo carinhoso! Caroline Salazar 

Nota da editoraA Adriana entrou em contato comigo após os textos da coluna "Gestação do Coração", onde nossa querida Ane relata sua maternidade por meio da adoção. Por questão judicial, a Adriana ainda não pode mostrar o rosto do filho e nem falar seu nome, mas com certeza ela voltará na coluna "Gestação do Coração", quando sair a guarda definitiva para mostrar sua preciosidade.

“Meu nome é Soraia Adriana Sabino Lara, tenho 40 anos e sou casada com o Wellington Lara de Souza, de 43, e sou de Ibirité, região metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais. Estamos casados há 20 anos e, desde namorados, sempre planejamos filhos em nossas vidas. Dizíamos que iríamos ter três filhos, mas a história não foi tão simples como imaginávamos.

Quando tínhamos quatro anos de casados, em 2001, começamos a tentar ter filhos. Tentamos por meios naturais por quase dois anos. Como não conseguimos começamos a nos preocupar. Então, procurei médicos e fiz vários exames, mas nenhum deles detectava nada de errado comigo. Com isso meu marido começou a fazer exames também. E ora ele tinha alguma coisa, ora não apresentava nada. Ou seja, parecia que nem mesmo os médicos sabiam o que tínhamos.

Nisso se passaram mais uns dois anos fazendo exames e nada. Aí resolvemos ir a uma clínica de reprodução humana. Fizemos novos exames e o resultado foi: "esterilidade sem causa aparente". Não sei se era bom ou ruim ouvir isso. Mas mesmo assim nunca me pediram para fazer uma vídeolaparoscopia para verificarem se eu tinha algo mais grave ou não.

Decidiram que nós deveríamos fazer uma inseminação artificial na esperança de conseguirmos a tão sonhada gravidez. Fizemos a tal inseminação, mas eles não nos explicaram nada sobre os custos de todo o tratamento. Também não nos falaram que talvez precisássemos fazer três tentativas ou até mais, e que talvez teríamos que partir para fertilização a vitro, que é mais caro que a inseminação.

Fizemos apenas uma tentativa, que não deu nada certo. Quando soube que teria de fazer, pelo menos, três tentativas antes da FIV, desisti do tratamento. Na época não tínhamos conhecimento sobre valores e não sabíamos se dava para investir o pouco que tínhamos, já que os médicos não sabiam direito o que eu tinha. É bom ressaltar que nesta época ainda não se falava muito em endometriose. Comecei a ler muito sobre a infertilidade e suas causas e até achei que eu poderia ter a doença, cheguei a falar para alguns médicos, que não me derem ouvidos. Foi aí que resolvemos entrar na fila de adoção, pela a primeira vez. Eu já tinha certeza que queria adotar, mas meu marido entrou na fila meio que obrigado. Nessa época ele não queria muito a adoção, mas aceitou. E começamos a investigar a infertilidade de meu esposo.

Na época eu mesma falei que se meu marido tivesse feito um ou dois exames tinha sido muito. Ele foi a vários urologistas e depois de muitos, mas muitos exames constatou que ele tinha varicocele leve (nota da editora: inflamação das veias que drenam o sangue dos testículos e é a principal causa de infertilidade masculina, e mesmo tendo boa qualidade de esperma, eles tinham variações, uns eram mortos, outros lentos, outros deficientes e o restante guerreiros (risos). Até aí já era meados de 2003.

Enquanto esperávamos na fila continuei procurando a causa da minha infertilidade. Até que encontrei uma médica, que apesar de ela não tratar a endometriose, sugeriu que eu poderia ter a doença, e me indicou um médico. Passei em consulta com esse médico que me indicou outra. E aí depois de mais e mais consultas e exames, ela solicitou uma vídeolaparoscopia e foi constatada endometriose grau III quase IV. Depois de tanto tempo, em maio de 2010, descobri a causa da minha infertilidade.

Eu tinha focos em vários órgãos, em praticamente toda a minha pelve estava tomada de focos de endometriose. Eu tinha foco em toda a cavidade abdominal, nas paredes abdominais, no intestino, no fígado, na vesícula e meus ovários estavam aderidos ao útero.

Minha pelve também estava toda congelada. Fiz a cirurgia e ouvi da minha médica: “Você é louca de adotar filho. Você vai conseguir engravidar naturalmente agora. Sai da fila que você tem 90% de chance de engravidar”.

Como não conhecia nada sobre a endometriose e nunca tinha ouvido falar dessa doença, saímos da fila de adoção. Na expectativa de engravidar, tomei muitos hormônios, engordei 10 quilos e fiquei com menopausa precoce. Sofri muito nesta época.

Menos de um ano da primeira fiz outra videolaparoscopia para ver como estava minha endometriose e viram que estava tudo limpinho. Disseram que estava pronta para engravidar, mas como meu marido também tinha problema - mesmo simples -, mas o suficiente para não conseguirmos nosso positivo.

Eu e meu marido entramos numa depressão por causa de toda a situação. A partir daí decidimos entrar na fila de adoção novamente, e desta vez, decidimos que não iríamos mais sair dela. E se eu engravidasse naturalmente, ótimo se não iríamos ter filhos do mesmo jeito (nesta época meu marido já desejava muito a adoção).

Desse dia em diante se passaram mais um ano e eu precisei fazer nova cirurgia, pois com as tentativas para engravidar e os hormônios para ovular, a minha endometriose já estava no grau IV. Era agosto de 2014. Porém, desta vez, a cirurgia foi aberta. Foram 32 pontos com o corte igual da cesárea, e foram retirados 11 miomas, muitos, mas muitos cistos e metade de um dos meus ovários. Depois desta terceira cirurgia minha chance de engravidar já estava em quase 0.

Pelo fato de nesta época já estar na fila da adoção, me dei a chance de pensar mais em cuidar de mim e da minha saúde. Alguns meses depois coloquei o DIU Mirena e, desde então, estou ótima. Hoje faço somente controles anuais. Minha endometriose está controlada. Nesse período em que estivemos na fila apareceu algumas crianças para conhecermos, mas em nenhuma houve a identificação de pais e filho.

Mas seguimos em busca do nosso tão sonhado filho. No dia 16 de fevereiro de 2015 recebemos uma ligação de que tinha um menino de 1 ano e 5 meses à nossa espera. Ele tinha tamanho e trejeitos de um bebê de 10 meses. Os genitores eram usuários de drogas. A genitora era moradora de rua e o genitor desconhecido. Ele tinha micro pênis, hérnia inguinal, um leve problema cardíaco, baixo peso devido a não ter recebido alimento no período gestacional, não andava e não falava nada cm 1 ano e 5 meses.

Mas mesmo com todos “esses problemas” meu coração e o do meu marido diziam que ele era o nosso filho. Quatro dias depois do telefonema, no dia 20, fomos conhecer nosso tão esperado filho. E realmente foi confirmado que ele era o nosso filho. Durante uma semana o visitamos no abrigo. E finalmente no dia 27 o levamos para casa.

Tivemos apenas uma semana para comprar todo o enxoval, pintar o quarto, comprar móveis, comidinha de neném e tudo que um bebê tem direito. Na primeira noite em casa ele dormiu em nossa cama e parecia um sonho. Tudo era um sonho. Fizemos um chá de boas-vindas para ele, onde ele ganhou muitos presentes e a recepção dos amigos. Neste dia todos viram a nossa alegria por termos formado nossa família. Foi lindo. Mas nem tudo foi  flores.

Nos primeiros meses dele em casa eu ia com ele aos médicos, pois ele fazia alguns acompanhamentos e foi muito desgastante, pois eu não estava acostumada com nada disso e tudo foi diferente. Perdi os 10 quilos que eu tinha ganhado (risos) nos tratamentos de reprodução assistida. Mas tudo foi uma fase.

Ao passo que nosso filho ia ganhando amor, cuidados só para ele, atenção, comidinha caprichada, ele foi ganhando alta dos médicos também. Nessa época ele fazia acompanhamento com as seguintes especialidades: fisioterapeuta, cardiologista, endocrinologista pediátrico, nutricionista, geneticista, ortopedista, neurologista. Hoje ele só vai ao endocrinologista e ao geneticista.

Ele é um menino esperto, corre por todo canto, fala demais, já está na escolinha, conhece o Abc completo e conta de um a 100. Conhece as cores, inclusive, em inglês. O que nosso filho precisava para ajudar em seu desenvolvimento era de uma família que o amasse, de muito amor e cuidados, mais nada.

Hoje ele está com 3 anos e meio e posso dizer que agora sim nossa vida está completa. Agora estamos muito perto de ele ganhar definitivamente nosso sobrenome. Por isso não vamos mostrar ele de frente. Estamos seguindo uma orientação judicial de não expor ele ainda sem nosso sobrenome. Mas em breve vocês o verão de frente.

Eu sempre quis ser mãe, mas não necessariamente precisaria engravidar para realizar esse sonho. Eu tentei e muito ter meu biológico, mas Deus tinha outros planos para mim. Eu queria construir minha família ao lado de meu marido e hoje sou muito feliz e grata por ter conseguido. Meu filho não foi gerado em minha barriga, mas sim no meu coração e na minha mente.

Se você está passando por uma situação semelhante, meu conselho è: “Família é quem você escolhe para você. Família é quem você escolhe para viver”.  Quero muito agradecer o grupo Gaabh - Grupo de Apoio à Adoção de Belo Horizonte, que me manteve focada no nosso sonho e nos ajudou a conquistá-lo.

Um beijo carinhoso a todas que leram minha história e que você possa realizar o sonho da maternidade e da família, independente de onde eles venham. Eu amo minha família e espero que minha história inspire muitas endomulheres que lutam contra a infertilidade. Soraia”.



terça-feira, 10 de janeiro de 2017

"COM A PALAVRA, O ESPECIALISTA" DOUTOR HÉLIO SATO!


Depois de explicar o que é a endometriose, como deve ser feito o diagnóstico da doença e como a doença afeta a qualidade de vida de uma mulher, no quarto vídeo o doutor Hélio Sato aborda a infertilidade. A endometriose é a responsável por cerca de 40 a 50% da infertilidade feminina. É um número muito alto quando se trata de apenas uma doença. A endometriose também pode estar associada a outras doenças que interfere no potencial reprodutivo da mulher, tais como: miomas uterinos, pólipos endometriais e baixa reserva ovariana. A doença também aumenta a chance de uma gravidez ectópica. Como sempre falamos aqui: a endometriose não é sinônimo de infertilidade.  Aperte o play e saiba mais sobre porque a endometriose provoca a infertilidade na mulher. Beijo carinhoso! Caroline Salazar

domingo, 2 de outubro de 2016

DIREITO REPRODUTIVO E ACESSO ÀS TÉCNICAS DE REPRODUÇÃO ASSISTIDA: VOCÊ SABE QUAIS SEUS REAIS DIREITOS?

imagem cedida por Free Digital Photos


Por Caroline Salazar
Edição: doutor Alysson Zanatta

Direito reprodutivo e acesso às técnicas de reprodução assistida: você sabe quais são seus reais direitos?

A endometriose é a maior causadora de infertilidade feminina. Cerca de 40 a 50% das endomulheres são consideradas inférteis. Por isso a doença é tão relacionada à dificuldade de engravidar. Entende-se por infertilidade quando o casal é incapaz de gestar num período de 12 meses, mantendo relações sexuais regulares e sem o uso de contraceptivos. A infertilidade atinge homens e mulheres em porcentagem iguais - 40% para cada sexo, e 20% é a chamada de infertilidade sem causa aparente.

Mas e quando ou homem ou a mulher se descobrem inférteis? É uma dor que provoca depressão, suicídio, desfaz uniões e deixa cicatrizes profundas na alma do ser humano. O desespero toma conta, e poucos se lembram de que a infertilidade já é uma doença com, inclusive, código na Classificação Internacional de Doença (CID). Aliás, poucos cidadãos brasileiros sabem quais de fato são seus reais direitos. Direitos estes garantidos pela Constituição Federal de 1988. Os deveres de cidadania não são apenas o voto obrigatório nas eleições, mas também a exigência dos seus direitos não como um favor, mas por garantia constitucional de um acordo celebrado entre os cidadãos e o Estado.

Infelizmente com a precariedade do nosso Sistema Único de Saúde (SUS) não há tratamento de técnicas de reprodução assistida suficientes para atender às necessidades dos casais inférteis. O Censo 2010 já indicava que as mulheres são a maioria no país, representando 53% da população brasileira. Ou seja, somos as principais usuárias do SUS. Segundo o Censo 2010 estima-se que no Brasil há cerca de 11 milhões de milhões de pessoas com algum problema reprodutivo, ou seja, um a cada seis casais. Se a infertilidade é uma doença, tanto o SUS quanto os planos, seguros de saúde deveriam disponibilizar recursos financeiros para tratamento.

O que poucas sabem é que segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) é direito básico da mulher ter seu “planejamento reprodutivo”. O termo “Direito Reprodutivo” foi introduzido em 1994 na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento realizada no Cairo, no Egito, e destaca dois pontos:

- Decidir livremente e responsavelmente sobre o número, o espaçamento e a oportunidade de ter filhos;

- Ter acesso à informação e aos meios para decidir e gozar do mais elevado padrão de saúde sexual e reprodutiva, livre de discriminações, coerções ou violências.

Quando falamos em direito reprodutivo ele não se limita apenas à proteção da reprodução, com a distribuição de contraceptivos. Mas, sim, no direito da mulher e do homem de utilizarem as técnicas de reprodução assistida na realização do sonho da maternidade/ paternidade. Inclusive há no Ministério da Saúde a cartilha de Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos. A média é que a mulher fique na fila do SUS por no mínimo cinco anos ou mais, e quando chega o momento de ser chamada muitas já estão beirando seus 35, 36 anos e aí não são atendidas por estarem “velhas” demais para fazer o tratamento. Isso não é uma vergonha? Já os planos de saúde só pagam quando a paciente entra na justiça e ganham liminar. As que ganham, pois pelos relatos que vejo a maioria tem seu direito à maternidade vetada. A meu ver um dos problemas é a grande demanda de pessoas e poucos centros especializados.

Em Israel, país onde se busca povoar a cidade, o governo além de incentivar ainda arca com os custos dos tratamentos de reprodução assistida. Aliás, Israel é considerada a capital mundial da fertilização in vitro. Além de ter o maior número de clínicas de reprodução, a lei do país garante direito a um número ilimitado de tentativas toda mulher casada ou solteira que tenha até 45 anos e o tratamento é totalmente gratuito na rede pública.

Segundo a Sociedade de Reprodução Assistida cerca de 100 mil casais fazem tratamento para engravidar por ano. Um governo democrático é aquele que serve seu povo. E servir significa garantir aos seus os principais pilares que um ser humano necessita como base para a sua dignidade. Infelizmente, as atuais carências do SUS ainda precisam de muitas correções. Todos nós pagamos os nossos impostos para ter um atendimento digno em caso de necessidade. Como tal, não dá para encarar como lógico que, perante um quadro de infertilidade, para constituir família, o cidadão tenha de pagar inteiramente do seu bolso a realização dos tratamentos.

O direito à saúde, instituído na Constituição, somente se efetivará em sua plenitude quando for dado o apoio às novas possibilidades de tratamento disponibilizadas pela ciência médica atual, e cobertura à toda a população nacional. De que valeria a ciência se não fosse empregue na maioria dos necessitados? A saúde e a procriação são manifestações dos direitos e liberdades fundamentais de cada um. Só existirá o direito fundamental à procriação, quando o acesso às técnicas de reprodução assistidas for independente da classe social.

Mais uma vez está em nossas mãos tentar mudar nosso país. Este é mais um ano de eleições e é preciso votar com consciência pensando não só no presente, mas no futuro. Não podemos acreditar em promessas, precisamos agir, de pessoas que fazem, pois o tempo está passando, as novas gerações nascendo, crescendo. Para mudar nosso futuro temos de fazer um novo presente. Beijo carinhoso!


terça-feira, 13 de setembro de 2016

A HISTÓRIA DE FABY CAYRES, SUA ENDOMETRIOSE GRAU IV, SUAS QUATRO FERTILIZAÇÕES ATÉ A GRAVIDEZ GEMELAR!!

Faby com Mariana e Gabriel em seus braços - Foto: Arquivo pessoal

Neste mês o A Endometriose e Eu conta a história de fé e superação da nossa querida Fabiana Cayres, de São Paulo. Faby, como é carinhosamente conhecida, descobriu ser portadora de endometriose após se casar quando começou as tentativas para engravidar. Porém, ela sempre teve o principal sintoma da doença: as fortes cólicas que a levaram muitas vezes ao pronto-socorro. Mais um alerta às mulheres que sofrem com cólicas incapacitantes. Depois de muita luta, muitos choros, 4 fertilizações in vitro e três abortos (um, inclusive, foi no Dia das Mês), ela realizou seu sonho da maternidade e hoje se dedica exclusivamente aos geminhos Mariana e Gabriel. Mais um testemunho que vai levar esperança e fé às endomulheres que estão enfrentando a infertilidade.  Compartilhe os artigos do A Endometriose e Eu e espalhe a correta conscientização da endometriose. Beijo carinhoso! Caroline Salazar



“Me chamo Fabiana Cayres, tenho 35 anos e sou portadora de endometriose profunda grau IV.  A Carol me convidou para contar um pouco da minha história e aqui estou eu. Menstruei pela primeira vez com 13 anos e, desde a primeira menstruação, sentia cólicas.  Nos primeiros meses eram bem fracas, mas conforme o tempo ia passando a intensidade aumentava gradativamente.

Quando eu tinha 16 anos minha mãe me levou ao ginecologista para verificarmos o porquê de tantas dores.  Não cheguei nem a fazer exames, a médica passou apenas analgésicos. Desde então, uma vez ao ano, eu ia às consultas de rotina e passei a fazer os exames pedidos pelos médicos.  Ultrassons, papanicolau, exames de sangue para dosagens de hormônios e etc. Todos os exames eram sempre normais, porém as minhas dores continuavam cada vez mais fortes.

Aos 25 anos as dores se intensificaram tanto que os analgésicos não faziam mais efeito, e eu tinha que ir ao pronto-socorro todos os meses para tomar medicação na veia, só assim conseguia seguir com as minhas atividades do dia a dia, como trabalho e estudos. Nessa fase, cheguei a questionar à minha médica se eu não poderia ter endometriose, já que eu sentia tantas dores. Ela deu risada e me disse que endometriose era a doença da “moda” e que eu não tinha não, pois todos os meus exames estavam normais.

Segui minha vida e as dores sempre aumentando. Nessa fase eu já tinha outras “queixas”.  Sempre que estava menstruada eu sentia uma vontade absurda de urinar junto com um ardor incontrolável. Precisava sempre sair correndo para ir ao banheiro e muitas vezes não conseguia segurar a vontade. E sentia também “facadas” no intestino. Geralmente essas pontadas vinham junto com as cólicas.  A essa altura já estava sentindo bastante dor durante as relações sexuais.

Em 2012, quando eu tinha 30 anos, uma semana antes do meu casamento, cheguei a desmaiar no meu trabalho de tanta dor.  Foi uma dor tão forte que eu não suportei. Me levaram para o hospital e ligaram para o meu marido, na época meu noivo, para ele ir me encontrar. Chegando lá, ele me encontrou convalescente tomando a medicação na veia e foi conversar com o médico que me atendeu no pronto atendimento. Meu marido não suportava mais ver o meu sofrimento. Todos os meses era a mesma situação. Eu sentia muitas dores, tomava muitos remédios e quase sempre tinha que ir ao pronto-socorro, e me ver ali na emergência foi a gota d´agua.

Ele pressionou o médico e o mesmo disse a ele para pesquisar sobre endometriose, pois pelo meu relato poderia ser esse o meu diagnóstico. Ali mesmo no hospital ele pesquisou pelo celular e viu que tudo se encaixava com os meus sintomas. Fui para a casa, nos casamos na semana seguinte e partimos para a lua de mel. A nossa ideia já era iniciar os “treinos” para aumentar a família na lua de mel.  Na verdade começamos as tentativas, mas a gravidez não aconteceu. Voltamos de viagem e de novo eu passei mal no meu ciclo menstrual. Dessa vez, o meu marido teve que me levar de madrugada para o pronto-socorro.  Eu não conseguia ficar ereta de tanta dor. Chegamos ao hospital e me encaminharam para fazer uma tomografia, pois suspeitaram de apendicite. Fiquei em observação durante toda a madrugada e quando saiu o resultado a médica me chamou e me deu o diagnóstico:  apenas um “cistinho” no ovário.

Voltamos para casa e confesso que me senti muito mal com a forma que a médica me deu o diagnóstico, pois parecia que a minha dor era incompatível com o tal “cistinho” ou que eu estava inventando a dor.   Me senti mal perante meu marido e comigo mesmo. Uma semana depois, eu estava trabalhando e lá comecei a relembrar desse dia no hospital e me lembrei que me deram o protocolo para retirar a tal tomografia que fiz no pronto-socorro. Decidi ir lá buscar. Cheguei ao hospital, peguei o envelope e abri ali mesmo.  Quando eu li o que estava escrito minhas pernas ficaram bambas: ENDOMETRIOSE PROFUNDA COM ACOMETIMENTO DE BEXIGA, INTESTINO, OVARIOS...

Como assim?? Não era apenas um “cistinho” conforme a médica havia me dito? Senti uma revolta muito grande naquele dia. Fiquei sem rumo. Liguei para o meu marido e não sabia o que fazer. Decidimos ir até a emergência de outro hospital e pedir para o médico me orientar. Como eu estava tentando engravidar aproveitei para pedir um exame de Beta HCG, pois tinha a esperança de estar grávida, mas não estava e nem imaginava a batalha que ainda travaria para ser mãe.

O médico viu o meu exame e confirmou que eu era portadora de endometriose no grau mais avançado da doença. Disse também que, provavelmente, eu precisaria de cirurgia e de tratamentos para engravidar. Ele não me pediu nenhum exame, pediu apenas para eu procurar algum médico especialista. Marquei a consulta com o médico e tivemos uma longa conversa onde ele me explicou todos os detalhes da endometriose. Em apenas um exame de toque ele conseguiu ver que eu realmente tinha a doença e me pediu outros exames para mapearmos. Solicitou a ressonância magnética, o ultrassom com preparo intestinal e vários exames de sangue. Os exames ficaram prontos e lá tivemos a confirmação de que eu tinha endometriose atrás do útero, no intestino, na bexiga, nos dois ureteres - que estava quase comprometendo meus rins -, no apêndice e endometriomas nos dois ovários. O meu caso era realmente assustador e já sai da sala do médico com a cirurgia marcada.   
Mariana e Gabriel aos 9 meses de idade - Foto: Arquivo pessoal

Além do especialista em endometriose, um urologista e um proctologista participaram da minha cirurgia. Como o médico sabia que eu queria ser mãe, ele pediu para eu tentar uma Fertilização in vitro antes da cirurgia, pois dessa forma congelaríamos os embriões, já que eu corria o risco de perder os dois ovários na cirurgia, porque estavam muito comprometidos. Fiquei muito assustada e anestesiada com tudo isso. Tudo era novidade e isso me assustava demais. Eu morria de medo de injeções e de repente me via no meio de um tratamento que necessitava de muitas “agulhadas”.   Mas isso era de menos perto do meu medo de não ser mãe. Era dezembro de 2012 quando comecei a estimulação ovariana e neste momento o meu medo era de ter muitos óvulos, pois eu não queria ter que descartar nenhum “filho”. Nessa fase o meu conhecimento era muito cru e imaturo.

O meu medo não aconteceu e o que eu não imaginava aconteceu. Eu tive apenas um único óvulo e esse era de péssima qualidade e nem fertilizou. Ou seja, tive que encarar a cirurgia, sabendo que eu corria o risco de perder os dois ovários e sem ter nenhum embrião congelado. Chegou o dia 06 de janeiro de 2013 e às 6h lá estava eu me internando no hospital para minha cirurgia. Me internei um dia antes para fazer a dieta para limpar o intestino. Era uma dieta apenas líquida. Eu estava muito ansiosa. Meu marido me acompanhou em todos os momentos. No dia seguinte, às 6h da manhã minha cirurgia começou e durou quatro horas. Passei muito mal na sala do pós- operatório após acordar. Sentia um frio absurdo e vomitava sem parar.

Faby com Gabriel e Mariana aos 6 meses Foto: Arquivo pessoal
Assim que melhorei um pouco me levaram para o quarto e ao sair do elevador, ainda na cama, meu marido veio emocionado ao meu encontro. Ele beijou minha testa e segurou as minhas mãos. Fomos para o quarto e a enfermeira tentou me dar um suco, que não ficou no meu estômago por muito tempo. Tive muito medo de perguntar para o meu marido sobre como tinha sido a cirurgia. Tinha muito medo de ouvir que eu tinha perdido os ovários. Percebendo o meu medo, ele logo foi me dizendo: sua cirurgia foi um sucesso!  O doutor manteve todos os seus órgãos! Eu gritei! Gritei de felicidade e não sei de onde tirei forças! Como fiquei feliz. Fiquei internada por sete dias. Esses sete dias no hospital foram bem difíceis. Minha cirurgia foi por videolaparoscopia e por corte de cesárea também.

Nos primeiros dias eu sentia muitas dores devido ao ar que entra na barriga durante a cirurgia. Esse ar vira gases e nos dá cólicas intestinais absurdas. Fui para casa usando a sonda urinária e retirei sete dias após a alta, ou seja, 15 dias após a cirurgia. Fiquei afastada 30 dias do meu trabalho e quando voltei ainda estava abatida e 10 quilos mais magra. No retorno com o meu médico ele me disse que na minha segunda menstruação após a cirurgia eu já poderia iniciar a próxima tentativa de Fertilização in vitro. Mas tinha um porém: eu estava recém-casada, já havíamos pago a primeira FIV e a cirurgia, não tínhamos condições financeiras de pagar, naquele momento, mais uma tentativa de fertilização. Fiquei arrasada. Sou muito ansiosa, ser mãe era um grande sonho e não poder naquele momento fazer a FIV foi um golpe para mim. Fiquei muito triste. Pesquisei alternativas e vi que algumas meninas conseguiram ganhar na justiça uma liminar que obrigava os planos de saúde a arcarem com os gastos dos tratamentos para engravidar.

Não pensei duas vezes e em junho de 2013 entrei com o processo. Nesse meio tempo, decidi tentar engravidar naturalmente, pois tinha lido que após a cirurgia as chances aumentam. Consegui ter uma gravidez química!  Um teste de farmácia com uma segunda linha bem clarinha, um atraso menstrual de dois dias, mas a menstruação logo chegou levando as minhas esperanças. Foram apenas três meses de tentativas e logo tive a minha liminar positiva nas mãos. No dia seguinte já estava na clínica para começar, mas levei um grande balde de água fria na cabeça.

Faby com os geminhos no forninho -Foto: Arquivo pessoal
Com as tentativas de engravidar naturalmente nasceram novos endometriomas nos meus dois ovários. Fiquei arrasada porque esses endometriomas prejudicam a evolução da estimulação ovariana. Essa seria a minha segunda tentativa e eu já sabia como era.  Iniciei a segunda tentativa em novembro de 2013. Estava sim muito ansiosa, mas confiante. Tudo correu bem e, dessa vez, tive bons óvulos e dois bons embriões que vieram para minha barriga três dias depois da fecundação. Após a transferência eu quase enlouqueci de ansiedade. Esperar o beta era um teste de paciência desesperador. E na véspera do Natal de 2013, lá estava eu com meu teste de farmácia positivo! Gente que emoção!

No dia seguinte, no almoço de Natal, contamos para toda a família, que não estavam sabendo que faríamos o tratamento e todos se emocionaram. No dia 26, logo no primeiro horário, estava eu no laboratório para fazer o Beta HCG. Esperei lá mesmo e confesso que foi frustrante ver o resultado de apenas 40. Eu esperava mais e senti um frio na espinha. Será que estava tudo bem com meu bebê? Liguei para o meu médico que prontamente me deu os parabéns e disse para eu aproveitar a gravidez e voltar no consultório em dez dias para fazermos o primeiro ultrassom.

Esses dez dias demoraram uma eternidade para passar e quando chegou o grande dia meu coração parou ao ouvir do médico que não havia batimentos cardíacos no embrião. E, além disso, um dos embriões se implantou na minha trompa o que me levaria a fazer um acompanhamento muito de perto por meio de ultrassons semanais, pois se essa trompa rompesse eu correria risco. Sai do consultório arrasada. Tive uma gravidez heterotópica, que significa quando um embrião implanta no útero e o outro na trompa. Gravidez raríssima e a da trompa, não evolutiva.  No meu caso, nenhum embrião evoluiu e o médico pediu para parar com as medicações e aguardar o aborto natural.

Contei para o médico sobre a gravidez química e esse foi considerado o meu segundo aborto. Por isso ele me pediu alguns exames de sangue para investigar trombofilia. No dia seguinte, fui para o laboratório para colher esses exames e lá comecei a sentir uma cólica muito forte e, no banheiro do laboratório, abortei. Me revoltei e senti a maior dor psicológica do mundo. Briguei com Deus. Não entendia porque eu tinha que passar por aquilo. Por que Deus me deu e ia me tirar? Esqueci-me de comentar que desde que eu descobri a endometriose, por orientação do meu médico, iniciei terapia e me ajudou muito. Dois ciclos depois eu estava pronta para mais uma tentativa. Era março de 2014. Tudo correu bem e transferi dois embriões de ótima qualidade cinco dias após a fecundação, eram blastocistos (nota da editora: embrião com cinco ou seis dias de vida). 

E como fui diagnosticada também com trombofilia, já iniciei a medicação. Sete dias após a transferência fiz o teste de farmácia e lá estava meu positivo! Fiz surpresa pro marido e o levei para jantar. No meio do jantar o garçom entregou para ele uma caixinha com o teste positivo! Que emoção! Eu estava grávida novamente! Chegando em casa notei uma borra de sangue e já me desesperei. Fui dormir e no dia seguinte parecia ter parado. Fui trabalhar e quando cheguei ao trabalho a quantidade de sangue aumentou demais. Falei com o médico que me mandou para casa e me pediu repouso absoluto. Eu já sabia que as coisas não estavam bem. Fiz o Beta HCG que confirmou a gravidez, mas logo confirmamos que a gravidez não evoluiria. Mais um aborto. Dessa vez demorou 40 dias para ocorrer o aborto natural e abortei em pleno Dia das Mães em maio de 2014. Estávamos em 2015. Sofri muito nesse dia.  Não tenho mais a minha mãe e abortei naquele dia que era para ser especial.

Faby com Mariana e Igor com Gabriel no aniverário de
um ano dos geminhos - Foto: Arquivo pessoal
Mais dois ciclos, em julho de 2014, e lá estava eu para a minha quarta tentativa de fertilização in vitro. Nessa tentativa eu sentia uma paz imensa. Não sei explicar. Já estava tão calejada... Tudo correu bem e transferir dois embriões de ótima qualidade no quinto dia após a fecundação. Seis dias após a transferência fiz o teste de farmácia e lá estava um super positivo. Fiz o beta HCG no D9 (nove dias após a transferência) que deu 179 – um número alto - e ali eu já sabia que eram gêmeos. Com cinco semanas vimos os dois sacos gestacionais, com sete semanas ouvimos os dois coraçõezinhos, com 12 semanas descobrimos os sexos e com quase 38 semanas, no dia 22 de março de 2015, Gabriel e Mariana chegaram!

Essa sou eu! Faby, portadora de endometriose profunda. mamãe dos gêmeos Gabriel e Mariana, de um ano e cinco meses e a mulher mais feliz desse mundo! E essa é a minha história em busca da realização do meu grande sonho: a maternidade. Não me arrependo de nada e faria dez fertilizações se fosse preciso. Hoje vivo a maternidade em sua plenitude. Saí do meu trabalho para me dedicar integralmente aos meus bebês. Tinha uma carreira sólida na área de Tecnologia da Informação, e me transformei em blogueira de maternidade, conto todo o meu dia a dia no blog www.mamaedegemeos.com e no Instagram @faby_mamaedegemeos

Se você é portadora de endometriose e sonha em engravidar, lute até onde suas forças permitirem. Se puder vá além. E tenha muita fé, pois ela nos leva à realização dos nossos sonhos. Eu sou  a prova viva de que é possível vencer o impossível. Beijo carinhoso! Faby”


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

INFERTILIDADE SECUNDÁRIA: VOCÊ SABE O QUE É ISSO?

imagem cedida por Free Digital Photos


Por Caroline Salazar
Edição: doutor Alysson Zanatta

Infertilidade secundária, você sabe o que é isso?

Hoje vou abordar um assunto que quase ninguém fala: a infertilidade secundária. Você sabe o que é infertilidade primária e infertilidade secundária? A maioria das pessoas acha que a infertilidade atinge apenas o casal que ainda não tem filhos.  Você sabia que um casal que já tem filhos pode se tornar infértil no decorrer dos anos?

Quando um casal ainda não tem filhos e se descobre infértil ele tem a chamada infertilidade primária. Já quando ou o homem ou a mulher já têm filhos, juntos ou não, e estão com dificuldade de conceber o segundinho ou o terceirinho... eles sofrem da infertilidade secundária. Por isso quando se fala em infertilidade o assunto é muito mais grave do que se pensa e é preciso ter um olhar mais amplo sobre o assunto.

Segundo o Censo 2010 estima-se que no Brasil há 11 milhões de milhões de pessoas com problema reprodutivo, ou seja, um a cada seis casais é infértil. Porém, como pouco se fala em infertilidade secundária é muito provável que nesta estatística esteja apenas àqueles que nunca tiveram filhos. É bem provável que o número de casais inférteis é muito maior se colocarmos esses tentantes secundários na estatística. E isso significa que qualquer um de nós, em qualquer momento de nossas vidas, poderemos vivenciar a infertilidade, seja ela primária ou secundária.

A endometriose é a maior causadora da infertilidade feminina. Cerca de 40 a 50% das endomulheres são consideradas inférteis. Entende-se por infertilidade quando o casal é incapaz de gestar um filho num período de 12 meses, dependendo da idade da mulher, mantendo relações sexuais regulares e sem o uso de contraceptivos. A infertilidade atinge homens e mulheres em porcentagem iguais - 40% para cada sexo -, e 20% é a chamada de infertilidade sem causa aparente. Nos Estados Unidos cerca de 12% das mulheres têm a infertilidade secundária. No Brasil não há uma estatística.

Quem sofre de infertilidade secundária tem sua dor velada e sofre em silêncio. Pelo fato de já terem tido um ou mais filhos, é difícil ver mulheres que sofrem da infertilidade secundária se queixando dela, como é comum no caso da infertilidade primária. Outra questão é a culpa que essas mulheres (ou homens) sentem quando se descobrem inférteis. Por exemplo: quem sempre sonhou em ter dois, três ou quatro filhos, ou quem vem de uma família com muitos irmãos, quando se descobre infértil secundário começam a ter a culpa de que ter apenas uma criança não é suficiente.

As causas da infertilidade secundária, geralmente, são as mesmas das primárias: tubas uterinas obstruídas, baixa reserva ovariana ou algum outro problema de ovulação, cicatrizes no útero, endometriose e baixa produção de esperma para os homens, dentre outras. Independente do tipo de infertilidade temos de lembrar que esta é uma doença reconhecida pelo Ministério da Saúde e com Classificação Internacional de Doenças (CID) e que é um direito de todo cidadão ter tratamento para realizar o sonho da maternidade e paternidade. Mas este tema será assunto para outro texto. Beijo carinhoso!

quinta-feira, 3 de março de 2016

"GESTAÇÃO DO CORAÇÃO": ENFIM ENTRAMOS PARA O CADASTRO NACIONAL DE ADOÇÃO!

Imagem cedida por Free Digital Photos

E março chegou!! O mês internacional de conscientização da Endometriose começa e o blog retoma a coluna "Gestação do Coração" com nossa querida Ane. Não é fácil ter filhos. E falo isso não apenas em relação aos filhos biológicos. Infelizmente, a burocracia para a adoção ainda é muito grande. Em mais um texto da coluna "Gestação do Coração", Ane conta que ela e o marido, Paulo, já estão aptos e entraram para o Cadastro Nacional de Adoção (CNA). Porém, todo o processo até aqui levou 10 meses, isso mesmo, e eles já estão há sete na fila de espera. Detalhe: Ane e Paulo querem filhos de idade maior de 3 anos a 7 anos e meio, como ela já falou em textos anteriores. E mesmo assim a demora ainda é longa. Neste artigo Ane conta como foi o segundo encontro do casal no Fórum e o curso que eles fizeram por três meses para estarem aptos a entrarem para o CNA. Beijo carinhoso! Caroline Salazar            

Por Ane Bulcão

Já se passou pouco mais de um ano desde meu último artigo. Confesso que os afazeres do cotidiano vão nos tomando conta e quando percebemos o tempo vai passando cada vez mais rápido e ainda há muito por fazer. O ano de 2015 foi um ano de muitas lutas e, sobretudo, de vitórias, acredito que não só para mim, mas para cada uma endoguerreira. Senti muitas dores é verdade - mesmo depois da cirurgia feita em fevereiro de 2014 - continuei com meu tratamento no hospital São Paulo - que ajudou muito - e assim fui vencendo um gigante por vez com a força vinda da parte do meu Pai celeste. Decidi viver minha vida na alegria que só o Senhor pode me dar apesar de tudo. Hoje estou bem melhor graças a Deus não totalmente sem dores, mas não há comparação de como vivia antes.

Então vamos voltar para o que interessa: falar como é que foi nosso segundo encontro no Fórum e como foi o curso de adoção que tivemos que fazer. No dia 18 de dezembro de 2014 fomos a mais um encontro com a psicóloga e a assistente social - que já eram outras pessoas - no fórum de nossa comarca, também participaram muitos outros casais que assim como nós vão adotar.

A finalidade desse encontro era esclarecer algumas dúvidas sobre o processo em si, explicar que nosso nome ainda não estava na fila de adoção, o que de certa forma nos deixou um tanto frustrados com tanta burocracia, e também informar que nós ainda teríamos que participar de um grupo de apoio à adoção indicado pelo fórum. E só assim depois de cumpridos os três meses de curso seríamos avaliados e, com relatório final da equipe de psicologia - sendo positivo, claro - nosso processo seria encaminhado para o promotor, que também ao ler os anais do processo e dando o parecer positivo, este por sua vez iria para as mão da juíza, que por fim, nos habilitaria para entrarmos para fila de adoção.

Ufa é isso mesmo dá para cansar só de ler (risos). Mas devo dizer que cada comarca tem uma forma diferente de trabalhar, pois já ouvi de amigos que adotaram e não precisaram passar por toda essa romaria. Bastou colocar os papéis em sua comarca e logo após entrevista com a psicóloga e a assistente social do fórum já entraram pra fila. Portanto, quero dizer que se alguém aí pretende adotar não precisa ficar desanimado (a). Gravidez é assim mesmo, demora nove meses até as mamães terem seus bebês nos braços e conosco também não seria diferente.

Chegou 2015 e como janeiro é mês de férias ficamos esperando o retorno das aulas, já que o grupo de apoio a adoção que iríamos participar seria feito por alunos concluintes de psicologia de uma faculdade. Em fevereiro ligamos na faculdade e conseguimos entrar para uma turma que iniciaria em março. Foi maravilhoso porque soubemos que a procura é tão grande, que às vezes os casais têm de ficar em “outra fila” pra fazer o tal curso, afinal estamos no Brasil, o país das filas!

Nosso primeiro encontro se deu no dia 21 de março, num sábado e assim seriam durante os próximos três meses todos os sábados. Éramos eu e Paulo e mais sete casais. Esses encontros visavam oferecer informações sobre o tema em espaço de escuta, discussão e reflexão sobre questões concernentes à adoção, bem como a construção de vínculos, falar sobre maternidade e paternidade, além é claro de abordar aspectos históricos e sociais da adoção ao longo dos anos no Brasil. Tudo isso com todo cuidado para nos manter bem informados e atualizados a fim de que se desfizesse quaisquer ideias romantizadas sobre a adoção. A cada encontro eram trabalhados mitos e verdades sobre o tema proposto o que nos fez crescer muito e reafirmar nossas convicções que já foram abordadas nos textos anteriores (leia texto 1 e texto 2).

Assistimos muitos vídeos que mostravam as crianças em abrigos, suas expectativas e sonhos em serem adotados, o drama daqueles que por serem maiorzinhos ninguém, ou pelo menos a maioria (cerca de 80%) dos pretendentes a adoção não queriam adotá-los. Confesso que quando chegou nessa parte meu coração ficou muito mexido, por vezes até chorei nesses encontros, pois já sinto um amor tão grande por uma pessoinha que ainda nem chegou, mas que já arrebatou meu coração e sei que muitas vezes ele/ela antes de dormir deve estar pedindo ao Papai do Céu um pai e uma mãe que o/a ame mesmo já sendo “grandinhos”, que o leve para sua casa e o/a proteja e lhe dê muito amor e carinho e também que lhe ponha limites. Enfim, que sejam a família de direito que um dia por circunstâncias adversas a vida lhes negou. É difícil para eu escrever sobre isso sem que meu coração não chore... Afinal estou grávida no coração e as grávidas ficam sensíveis, choram por tudo, não é verdade?

Foi muito gostoso participar dos encontros. Pudemos fazer amizade com os outros casais o que ajuda muito enquanto aguardamos a chegada tão esperada. No último dia fomos desafiados a fazer um desenho de nossa família já com nosso filhinho/a fazendo algo que gostamos muito de fazer, e por fim, a parte que eu desabei é claro e que Paulo suou pelos olhos, pois homem não chora (risos)... Tivemos que fazer uma carta para ele/a falando de nossa expectativa em sua chegada, como nos sentimos com essa espera, o que sentimos por ele/a. Aí aguenta coração! Temos todo material do curso guardado, inclusive, nossa cartinha de amor para quando nosso pimpolho/a estiver conosco ver como foram os preparativos para chegada.

Graças a Deus o parecer final dos psicólogos, do promotor e da juíza foram favoráveis. No dia 15 de julho oficialmente entramos para a fila do Cadastro Nacional de Adoção (CNA) e de lá pra cá lá se vão sete meses de pura expectativa, mas também de muita fé em Deus de que tudo acontece no tempo certo e nosso filho/a tem sido gerado em nossa alma, e que nosso pré-natal está sendo feito com tudo nos conformes e que em breve a bolsa vai estourar e o parto acontecerá.

Sigamos em frente, pois a luta continua. Desistir jamais, fé em Deus, pois certamente ele está ao nosso lado sempre para nos ajudar a atravessar os vales dessa vida até chegarmos aos montes, aos lugares onde desfrutaremos da vitória. Beijo carinhoso.