O
ser humano é frágil e sempre tem de optar por uma ou outra coisa, mesmo a
contragosto. Não tem jeito, sempre é preciso escolher. A dedicação de um marido à sua esposa também é outro destaque do texto. Assim é
um casamento, mesmo que seja para quem junte os trapos. Assumir um ao outro como
“marido” ou “esposa”, é dedicar-se um ao outro por inteiro, independente da
situação que tanto um ou o outro se encontre. Aproveito para pedir sugestões aos endo maridos sobre os artigos ao
Alexandre. Peço que enviem sugestões de tema para alexandre.vaz.endo@gmail.com com cópia para carolinesalazar7@gmail.com e coloque no título Endo Marido, pois assim irei arquivá-lo sem
abrir. E só para termos controle nas respectivas pastas. Ele também aceita
sugestões para escrever o artigo sobre a falta de libido, dentre outros, ligados ao sexo, e como solucionar
esta conseqüência que acomete muitas de nós. Beijos com carinho! Caroline Salazar
"Sete dias após a operação
de minha Susana, ela teve o retorno pós-cirurgia. Ao contrário daquilo que
esperava, tive de ir trabalhar. E eu tive de contar com a irmã dela para acompanhá-la
ao hospital enquanto eu fui trabalhar. Não é um momento crítico como foi o da
cirurgia, mas era importante na mesma proporção. Porque quero que ela saiba
sempre que estou ao seu lado, que a apoio, que somos um casal. Que para mim
acabou a definição de “meu destino”, tendo sido substituída por “nosso
destino”. Para onde formos, vamos os dois. Ainda que bastantes vezes isso
significa que mesmo com ela doente eu tenho de ir trabalhar. Vê-la com dores,
por vezes sem saber o que fazer ou pensar da situação em que se encontra, com a
ausência de respostas, a espera pelo fim do dia em que eu chego. E, por vezes,
o dia tem 16 horas em vez de 8, em que eu tenho de deixar a vida
compartimentada, separada pelos portões de uma empresa. Aquela fronteira
precisa de ser intransponível e impermeável. Mal o torniquete roda à minha
passagem, aconteça o que acontecer, eu preciso isolar a outra parte da minha
vida. Deixar pensamentos, angústias e dúvidas para trás. Porque na hora do
patrão, eu tenho de conseguir dar sempre o meu melhor. E acho que até nem
disfarço mal, mas cá dentro sei que poderia ser melhor. Nem que fosse 1%
melhor, mas podia.
Porque nenhum de nós, que seja
saudável emocional e psicologicamente, deixa de ser afetado pelo sofrimento de
quem amamos. Porque nos dói no peito ver um olhar sofrido e, por vezes,
desesperado antes de fecharmos a porta de casa enquanto saímos. Porque ali fica
alguém que redimensionou a nossa vida, as nossas prioridades viraram o mundo ao
contrário, e está a precisar de colo. E, por vezes, esquecemo-nos de coisas
importantes que prometemos. E, por vezes, levamos broncas dos superiores porque
não fizemos tudo o que estava combinado. E, por vezes, temos de brincar e rir
com os colegas para manter a capacidade de funcionar mais um dia. Entretanto,
quem precisa urgentemente de colo ficou em casa, sem capacidade de funcionar. E
dói. Dói muito. Dói não estar sempre que seria preciso. No retorno médico de
minha amada esposa foi um dia em que doeu, justamente por não estar onde e
enquanto era preciso para quem é mais importante para mim. Porque minha equipe
do trabalho estava desprovida. E lá fui eu. A minha cunhada, que sabe Deus tem
problemas e cansaço de sobra, tomou o meu lugar e levou minha Susana à consulta
em seu retorno pós-operatório. E eu fui trabalhar, imaginando que levaria 8
horas até ter a minha liberdade. Tal não aconteceu. Após regressar para casa, durante
a tentativa de fazer o jantar, tive de interrompê-lo e retornar ao trabalho e
ajudar na resolução de uma avaria. E sete dias após a cirurgia da minha Susana,
tornei a não ter tempo para estar com ela, nem sequer no final do dia.
A minha Susana é de uma compreensão
extraordinária. Também tem momentos em que se queixa, o que é perfeitamente
normal. E eu sinto-me muitas vezes dividido entre o que fazer. Porque se por um
lado está a minha família, que é para quem eu trabalho e essa é a minha
prioridade número 1, se não trabalhar e não for capaz de colocar em casa o
necessário para manter as nossas coisas, tudo desmorona. E lá tenho de lhe
negar colo mais uma vez. Mas o meu amor por ela nunca abandona o meu coração.
Onde quer que esteja, é por nós que eu lhe nego o colo que por vezes ela tanto
precisa, e que me custa tanto dizer-lhe que não. E nunca se compensa. É
impossível compensar um momento de carência, porque quando não o fazemos na
hora, puff... já foi. Tenta-se que não seja sempre assim. Mas enquanto
consigamos chegar a casa, ou telefonar a meio do dia para saber como estão as coisas,
às vezes para dar um encorajamento, marcamos uma pequena presença que apesar de
tudo é importante. Aqueles 2 ou 3 minutos, vilmente roubados ao patrão durante
a sua hora, são para dar a quem mais precisa, e aguente-se o patrão e o chefe e
o resto daquela corja que me rouba o tempo que eu preciso para dar a quem amo.
Aguentem-se antes que eu vire bicho. Porque durante o dia, tenho a necessidade
de fazer um exercício mental e relembrar-me de quem mais importa para mim, e
porque é que eu trabalho.
Por isso, neste dia amar a minha
Susana foi pedir-lhe desculpa enquanto lhe explicava que tinha de regressar à
empresa, negando-lhe quase por completo o meu dia. O 7º dia após a cirurgia, em
que eu devia tê-la acompanhado e afinal nem sequer restou o final. Fiz o trajeto
até casa para simular um jantar e pedir desculpa à minha esposa por ter de
regressar ao trabalho. Mas levei comigo o amor que temos, e que me lembra o
porquê de eu lhe negar colo quando ela precisa para manter o meu posto e a
confiança dos meus superiores. Apesar disso, não deixa de doer. Mas a esperança
faz-me acreditar que um destes dias, vou vê-la a sorrir continuadamente como
até hoje só tive alguns exemplos espaçados no tempo. Neste dia amá-la foi assim. Abraço!"