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terça-feira, 25 de abril de 2017

7 ANOS DE BLOG!! DAVID REDWINE: QUAIS SÃO OS SINTOMAS CLÁSSICOS DA ENDOMETRIOSE?


imagem cedida por Free Digital Photos

Há muitas dúvidas em relação aos sintomas da endometriose, em especial, no que difere as dores da endometriose pélvica da intestinal. Em mais um texto brilhante, o médico e cientista americano David Redwine faz um resumão bem bacana dos sintomas da doença e explica como diferenciá-los dos sintomas de outras doenças pélvicas, como por exemplo, os miomas. Porém,  há sintomas clássicos específicos da endometriose, e saber quais são é muito importante para o correto diagnóstico e tratamento da doença. O doutor Redwine aborda também os sintomas atípicos da doença. Beijo carinhoso! Caroline Salazar

Por doutor David Redwine 
Tradução: doutor Alysson Zanatta
Caroline Salazar



Quais são os sintomas clássicos da endometriose?

Os sintomas da endometriose:

Endometriose é o achado mais comum em mulheres de idade reprodutiva que tenham dor. Certamente é a causa mais comum de dor, e merece toda a conotação negativa que recebe. A dor da endometriose é normalmente localizada pela paciente na região pélvica de acometimento pela doença. Algumas pacientes podem descrever exatamente onde está a doença pela sua característica e localização. Como o fundo de saco (nota do tradutor: região pélvica entre o útero e o intestino), os ligamentos útero-sacros e os ligamentos largos posteriores são as regiões pélvicas mais comumente envolvidas, muitas pacientes têm dor relacionadas à irritação causada pela doença durante a realização de atividades cotidianas comuns. Dessa forma, a endometriose no fundo de saco e nos ligamentos útero-sacros pode ser irritada pela penetração profunda durante a relação sexual, enquanto uma dor mais superficial causada pela relação sexual geralmente não é causada pela doença.

Essas regiões pélvicas inferiores podem também ser irritadas pela passagem das fezes durante a evacuação, portanto pode haver cólicas intestinais dolorosas quando essas regiões estiverem afetadas, apesar dessa dor estar relacionada primariamente ao fluxo menstrual. Quando a parede retal estiver acometida pela endometriose, a paciente pode se queixar de dor a cada evacuação, independente da menstruação.

Nós encontramos que a dor presente aos movimentos intestinais – não a constipação ou a diarreia – independente da menstruação e é o principal sintoma da endometriose intestinal. A bexiga, entretanto, pode estar acometida por extensa endometriose, e ainda a paciente raramente irá ter sintomas urinários.

Eu e o doutor David Redwine quando o conheci, 
em sua passagem pelo Brasil em 2014
Tumores fibroides (miomas):

Fibroides (ou miomas) são nódulos de músculo liso que surgem na parede muscular uterina. Eles crescem de maneira concêntrica, como uma pérola crescendo dentro de uma ostra. Um mioma volumoso terá o terá o tamanho de uma tangerina ou mais. Um pequeno mioma será menor que uma pérola. Eles podem causar cólicas uterinas entre os ciclos menstruais e sangramento severo durante a menstruação, a não ser que estejam na superfície externa do útero, quando, então, poderão ser assintomáticos.

A dor da endometriose costuma ser descrita como em pontada, queimação, ou como uma facada. Ela pode ocorrer durante todo o mês, apesar de exacerbada durante a menstruação. Os conceitos de que a endometriose causa dor principalmente durante a menstruação e que a cólica uterina é o seu principal sintoma estão errados.

Os principais sintomas da endometriose pélvica (não intestinal) incluem uma dor pélvica aguda, em pontada, lancinante, como queimação ou facada, que ocorre fora do ciclo menstrual, mas que pode ser agravada pelo mesmo, dor no fundo da vagina com a penetração profunda durante a relação sexual e cólicas intestinais dolorosas durante a menstruação.

Sintomas atípicos de endometriose:

O sangramento menstrual intenso não é um sintoma típico da endometriose, e possivelmente não mudará com a cirurgia conservadora para tratar a doença. Outros sintomas que não necessariamente sugerem endometriose são dor no clitóris, dor na perna e na virilha, náusea, cansaço, constipação, diarreia e desconforto na bexiga.

Quando as aderências causam dor, elas doem no mesmo lugar onde ocorrem. As pacientes algumas vezes usam termos como “puxando” ou “esticando” para descreverem as dores das aderências. Não se espera que as dores de aderências variem conforme o período do ciclo menstrual, a não ser que aderências que envolvam os ovários que sejam tracionadas pelo simples crescimento de um cisto. Muitas pacientes com endometriose também têm aderências, e geralmente não é possível determinar se a dor é causada por aderências ou por endometriose.

Uma palavra sobre cólicas:

Se a dismenorreia (cólica uterina) for o principal sintoma, então a cirurgia conservadora para endometriose por si só pode não melhorar o sintoma, já que este é o sintoma com menor probabilidade de responder à cirurgia conservadora para endometriose. Se a cólica for proveniente do próprio útero, remover a endometriose de regiões fora do útero não ajudará nessa situação.

Outros dois tratamentos podem ajudar a tratar a cólica menstrual: a secção dos ligamentos útero-sacros e a neurectomia pré-sacral. Esses procedimentos evitam que os nervos transmitam a sensação de cólica, e ambos podem ser realizados por laparoscopia.

Nota do tradutor: Neste texto, o doutor David Redwine sintetiza os principais sintomas causados pela endometriose, e como distingui-los dos sintomas causados por outras doenças ginecológicas, como os miomas uterinos.

Apesar de poder haver uma sobreposição de sintomas entre as diversas doenças, há certos sintomas que sugerem fortemente a presença de endometriose, como sintomas intestinais, dores na penetração profunda durante a relação sexual e, sim, cólicas menstruais intensas. Identificar corretamente se os sintomas são causados por endometriose implica em maiores chances de sucesso no tratamento.


Sobre o doutor Alysson Zanatta:
Graduado e com residência médica pela Universidade Estadual de Londrina, doutor Alysson Zanatta tem especializações em uroginecologia e cirurgia vaginal pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cirurgia laparoscópica pelo Hospital Pérola Byington de São Paulo e doutorado pela Universidade de São Paulo, USP. Suas principais áreas de atuação são a pesquisa e o tratamento da endometriose, com ênfase na cirurgia de remoção máxima da doença. Seus inter­esses são voltados para iniciativas que promovem a conscientização da população sobre a doença, como forma de tratar a doença adequadamente. É diretor da Clínica Pelvi Uroginecologia e Cirurgia Ginecológica em Brasília, no Distrito Federal, onde atende mulheres com endometriose, e ex-professor-adjunto de Ginecologia da Universidade de Brasília (UnB). (Acesse o currículo lattes do doutor Alysson Zanatta). 

terça-feira, 28 de março de 2017

A HISTÓRIA DA LEITORA ROBERTA PICONEZ E SUA ENDOMETRIOSE PROFUNDA!!

A mineira Roberta Piconez, de 35 anos, que mora em Brasília
Foto: arquivo pessoal


O A Endometriose e Eu conta a história da leitora mineira Roberta Piconez, de 35 anos, e sua endometriose profunda. O relato de Roberta é mais um que comprova que a endometriose não escolhe idade para "atingir" a mulher. Infelizmente a mulher está sujeita a ter a doença desde a primeira menstruação, ou seja, em qualquer idade e não apenas na "idade reprodutiva". Geralmente é na idade reprodutiva que as mulheres são diagnosticadas, mas não que a doença tenha começado nessa época. Como as meninas estão menstruando mais cedo, é muito comum ver meninas de 8, 9 anos já sofrendo com os sintomas severos da endometriose. E é o caso da Roberta, que sofre desde seus 12 anos. Depois de quase duas décadas sofrendo com a doença, e diagnóstico errado na adolescência (olha a mesma história se repetindo), Roberta encontrou alguém que valorizasse seus sintomas e a encaminhou a um especialista. Eu realmente aplaudo médicos que sabem da importância do tratamento com um especialista e encaminham suas pacientes ao colega. E depois de tanto sofrimento Roberta teve sorte de cair nas mãos de um excelente especialista e cirurgião. Hoje, sete meses após sua cirrugia, Roberta menstrua normalmente e sem nenhuma dor. Este é mais um texto que vai ajudar a tirar mais um mito da doença: de que a doença acomete a mulher em idade reprodutiva. Compartilhe nossos textos e espalhe a correta conscientização da endometriose. Beijo carinhoso! Caroline Salazar

“Meu nome é Roberta Piconez, tenho 35 anos, sou mineira de Muzambinho, sou empresária de moda e há 12 anos moro em Brasília. Sou casada há 10 anos e não temos filhos.

Minha luta começou logo na minha primeira menstruação, aos 12 anos. Desde que menstruei sempre tive cólica.

Como, infelizmente, sofrer com fortes cólicas é uma cultura normal no Brasil falavam assim: ”Isso é normal, toma um remedinho que passa” ou “Quando casar passa” ou “Quando você engravidar tudo isso vai passar”.. E o tempo passou, mas as dores não passaram.

Quando tinha por volta de 15, 16 anos minha mãe me levou pela primeira vez a ginecologista, pois, minhas cólicas estavam cada dia mais insuportável. Já nesta época até desmaios aconteciam.

Descobriram um cisto pequeno no meu ovário e comecei a tomar pílula.

Os anos foram passando, continuei com a pílula e sempre me cuidei. Ia ao médico regularmente, fazia todos os exames que davam tudo normal, apesar das cólicas e idas ao hospital mensalmente.

Eu conheço todos os remédios imagináveis para dor e cólica.

Em 2014 resolvi parar com a pílula para dar um tempo mesmo ...ficar quase 15 anos tomando remédio não é fácil.  Parei ! Então, minha vida virou uma loucura... fluxo terrível, dores intermináveis, gases, médicos, exames e nada!

Em 2016, quando fui fazer meus exames periódicos, minha médica doutora Marta de Betânia, solicitou  uma transvaginal com preparo , onde apareceu a endometriose. Já havia ouvido falar sobre a doença, porém era leiga. Minha médica me encaminhou para um especialista, o doutor Alysson Zanatta.

No dia da consulta, logo de cara já me simpatizei com ele. Minha consulta demorou umas duas horas ele fez questão de me explicar tudinho. Já estava com endometriose profunda. Sai de lá com dois sentimentos: aliviada por descobrir o que tinha, e ao mesmo tempo, assustada com tanta informação e falta de conhecimento.

Depois de muitas conversas, pesquisas, decidi operar. Dia 27 de julho de 2016, o doutor Alysson Zanatta com sua equipe me operou no Hospital Santa Luzia em Brasília. Foi uma cirurgia monstra, com duração de oito horas e foi retirado 30 cm do meu intestino.

Fiquei cinco dias internada, meu pós-cirúrgico foi bem tranquilo, dentro do esperado.
Tive que ficar 20 dias de sonda, porque como mexeu muito, o doutor Alysson achou melhor. Fiz fisioterapia pélvica por alguns meses e menstruei normalmente logo depois da cirurgia, e o melhor de tudo: sem nenhuma dor.

Já completei sete meses pós-cirurgia, desde então, tenho minha menstruação normal, pois não tomo nenhuma medicação, nenhum hormônio e não sinto mais nenhuma dor (nem na relação sexual e muito menos cólica menstrual). Tenho certeza que estou curada!

Gostaria de falar para todas as leitoras, que não me arrependo nem um minuto da cirurgia, ela só me fez bem. Fiquei com muito medo, chorei, sofri. Mas graças a Deus estava com um médico maravilhoso, meus pais e meu esposo juntos de mim. Ter a confiança no cirurgião me deixou segura. Por isso é muito importante que você encontre um bom especialista, que seja um excelente cirurgião e que saiba fazer a remoção máxima da doença. Só assim podemos exterminar a endometriose de nossas vidas. E isso é possível.

Durante muito tempo tive minhas dores negligenciadas. Se eu puder dar um conselho às mulheres que sofrem no período menstrual é: busque ajuda! Não é normal sentir dor. O período menstrual tem de ser como qualquer outro: sem dor.

Próxima fase da minha vida: Ser mãe! Espero voltar em breve para contar esta novidade para vocês. Torçam por mim! Beijo carinhoso, Roberta”.Descrição: https://ssl.gstatic.com/ui/v1/icons/mail/images/cleardot.gif


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

TEORIA AUTOIMUNE, RETIRADA DOS OVÁRIOS... FUJAMOS DOS CAMINHOS TORTUOSOS DA ENDOMETRIOSE!!

Crédito: Clínica Pelvi/ doutor Alysson Zanatta


A endometriose ainda é uma doença de difícil entendimento, tanto por parte das pacientes quanto dos médicos. Informações equivocadas a respeito da doença são difundidas e dadas como corretas há décadas. E, infelizmente isso ocorre, principalmente, por parte de médicos que se dizem especialistas. Essa verdade é dada como absoluta fazendo com que suas pacientes passem a acreditar no que foi dito no consultório.  O problema é que muitos não sabem tratar a doença, pois não sabe sua origem. Muitos culpam os ovários ou o útero, o estrogênio e o endométrio de "darem" a doença à mulher. Mulheres são mutiladas diariamente e perdem seus órgãos reprodutores, outras tão jovens começam a querer retirar esses órgãos por acharem que se livrarão da endometriose se não tiver mais os ovários e ou o útero. Mediante esses fatos equivocados que passam pela mente das portadoras e para ajudar médicos a esclarecer mais sobre a doença pedi ao doutor Alysson Zanatta, de Brasília,  que esclarecesse um pouco mais sobre isso. Afinal, a doença vem do estrogênio? Dos ovários? Do útero? A teoria autoimune faz algum sentido? Qual a consequência para endomulheres que perdem seus órgãos reprodutores jovens? Mais um texto exclusivo A Endometriose e Eu. que vai te ajudar entender mais sobre a endometriose. Beijo carinhoso!! Caroline Salazar

Por doutor Alysson Zanatta
Edição: Caroline Salazar 



Teoria Autoimune, Retirada dos Ovários... Fujamos dos Caminhos Tortuosos na Endometriose 

Queridas(os) leitoras (es),        

Discutir as causas da endometriose é caminho fundamental para entendermos a doença, e assim conseguirmos tratá-la adequadamente. Tamanha a sua importância que existem revistas científicas e até congressos médicos mundiais dedicados exclusivamente à doença. De igual (ou maior) importância é a discussão que ocorre entre as portadoras nas mídias sociais e nos fóruns online (como aqui, no blog A Endometriose e Eu). A troca de informações entre as mulheres e seus familiares é caminho concreto para evitarmos os caminhos tortuosos aos quais a doença nos leva.

Quando falamos de endometriose, entendemos que há poucas verdades científicas absolutas, infinitas suposições, e muitos caminhos tortuosos. Caminhos tortuosos capazes de tolherem os anos mais felizes e produtivos da vida de uma mulher. Isso ocorre pelas características enigmáticas e confusas da doença, e pela tendência que nós, humanos, temos a acreditar em fatos que reforçam positivamente nossas crenças. Temos uma tendência inata de acreditar nos fatos da maneira mais simples possível. O psicólogo Daniel Kahneman, prêmio Nobel de Economia (sim, de Economia!), descreve nosso cérebro como “o controlador preguiçoso” (1): chegamos às nossas conclusões da maneira mais “preguiçosa” possível. Isso é inerente ao ser humano.

... a endometriose nos leva a ... caminhos tortuosos capazes de tolherem os anos mais felizes e produtivos da vida de uma mulher. Isso ocorre pelas características enigmáticas e confusas da doença, e pela tendência que nós, humanos, temos a acreditar em fatos que reforçam positivamente nossas crenças...

Façamos um simples teste. Não tente resolvê-lo matematicamente, apenas dê ouvidos à sua intuição:

Um taco e uma bola de beisebol custam R$ 1,10.
O taco custa um real a mais que a bola.
Quanto custa a bola?
                (...)

Possivelmente, o número dez centavos veio à sua cabeça. Mas essa é a resposta errada. Faça as contas, e veja que se a bola custasse R$ 0,10, o valor total seria de R$ 1,20, e não de R$ 1,10. Assim, a resposta correta é que a bola custa R$ 0,05 (cinco centavos de real).

Sigamos em frente.

A endometriose provoca dores durante a menstruação.

Durante a menstruação, há células de endométrio que refluem da cavidade uterina para dentro da cavidade pélvica.

O que causa a endometriose?
                (...)

Cá estamos, um século após a proposição da teoria da menstruação retrógrada (e apesar da ausência de comprovação científica direta), tirando nossas conclusões e embasando nossas decisões terapêuticas de maneira automática e “preguiçosa”.

O cerne de toda a discussão é a teoria da menstruação retrógrada. A prova definitiva de sua veracidade seria documentarmos as células endometriais aderindo-se e invadindo os órgãos da pelve (ovários, intestino, apêndice, etc.) para formarem as lesões de endometriose. Mas essa prova não existe. Simplesmente não existe.

Para justificar a teoria da menstruação retrógrada, cuja comprovação direta não temos, surgiram outras teorias secundárias: fatores psicológicos, teoria autoimune, fatores sociais (mulheres que adiam a gestação para buscarem estabilidade profissional é argumento presente), etc. “Blame the patient” (“culpe o paciente”) é uma atitude milenar dos praticantes médicos (sejamos nós médicos, ou enfermeiros, ou fisioterapeutas, ou psicólogos), feita de maneira inconsciente, quando não sabemos as causas de determinada doença. Assim, fica mais fácil culpar o paciente pelos seus males.

... para justificar a teoria da menstruação retrógrada, cuja comprovação direta não temos, surgiram outras teorias secundárias: fatores psicológicos, teoria autoimune, fatores sociais (mulheres que adiam a gestação para buscarem estabilidade profissional é argumento presente), etc...

Por exemplo, analisemos a teoria autoimune da endometriose. Ela se baseia no suposto fato de que as células endometriais que refluem para a cavidade pélvica (uma verdade científica) não seriam “atacadas” e destruídas pelo nosso sistema de defesa autoimune (uma suposição), fazendo com que elas se tornassem persistentes e pudessem “invadir” os órgãos pélvicos (outra suposição).

O fato científico que comprovaria a teoria autoimune da endometriose seria demonstrarmos que nossas células de defesa (macrófagos, linfócitos) “atacam” e “destroem” as células endometriais. Deveríamos provar que a fagocitose (“destruição”) de células endometriais é um evento biológico comum em nosso dia a dia. Mas, essa prova não existe. Simplesmente não existe.

... deveríamos provar que a fagocitose (“destruição”) de células endometriais é um evento biológico comum em nosso dia a dia. Mas, essa prova não existe. Simplesmente não existe...

Por outro lado, conseguimos comprovar nos laboratórios que os macrófagos são capazes de fagocitar bactérias, por exemplo. Mas jamais comprovamos que eles fagocitem células endometriais. Nós também não observamos na prática clínica que mulheres com endometriose tenham mais doenças autoimunes do que a população geral. Além do mais, não há nenhuma medicação imunossupressora (que reduz a atividade do sistema imune) usada clinicamente para tratar a endometriose.

Mas será que existem apenas teorias não comprovadas para explicar a endometriose? Não, temos sim algumas verdades científicas. Uma delas é que a doença é dependente do estrogênio, o hormônio feminino.

Conseguimos documentar laboratorialmente que o estrogênio estimula o crescimento e a inflamação dos focos de endometriose. Clinicamente, observamos que as dores da endometriose costumam surgir com as primeiras menstruações (coincidente com o aumento dos níveis de estrogênio da mulher), e que as dores costumam desaparecer após a menopausa (apesar de algumas mulheres ainda persistirem com dor mesmo após a menopausa).

A comprovação da dependência hormonal na endometriose é à base do desenvolvimento de medicações (pílulas, injeções) capazes de controlar a dor da endometriose, e de amplo uso na prática clínica. Esse fato biológico também levou ao desenvolvimento de outras teorias para o tratamento da doença, como a de que a retirada dos ovários poderia tratar a endometriose.

Espere aí...

O estrogênio estimula os focos de endometriose, provocando inflamação e dor.

Os ovários são a principal fonte de estrogênio na mulher.

Por que não retirar cirurgicamente os ovários, e assim tratar a endometriose?
                (...)

E cá estamos novamente, com nosso cérebro “preguiçoso” ditando nossas ações.

A retirada dos ovários não trata a endometriose. Pelo contrário, pode levar a graves consequências: impossibilidade de gestação natural àquelas mulheres que o desejarem, e menopausa em uma fase precoce da vida da mulher, com suas intensas repercussões (sintomas incapacitantes de “calores”, alteração do humor, alterações psicológicas, e aumento do risco cardiovascular). Perguntem a uma jovem mulher que necessitou retirar os ovários, e ela poderá explicar melhor as consequências de uma menopausa cirúrgica precoce.

... a retirada dos ovários não trata a endometriose. Pelo contrário, pode levar a graves consequências: impossibilidade de gestação natural àquelas mulheres que o desejarem, e menopausa em uma fase precoce da vida da mulher, com suas intensas repercussões (sintomas incapacitantes de “calores”, alteração do humor, alterações psicológicas, e aumento do risco cardiovascular)....

Mas tudo bem. “Eu toparia pagar o preço da retirada dos ovários, já que vou tratar definitivamente a endometriose”, algumas poderiam argumentar. Infelizmente, a retirada dos ovários não trata a endometriose. Isso se deve a alguns motivos:

1.       Os ovários são as principais fontes de estrogênio na mulher, mas não são as únicas. Existe a produção periférica, feita nos tecidos gordurosos, além de pequena produção nas glândulas suprarrenais.

2.      As lesões de endometriose são basicamente lesões de tecido muscular “velho”, fibroso e irregular. Quando identificamos os nódulos de endometriose e/ou os cistos ovarianos, esses já representam fase avançada da doença, uma fase avançada de uma transformação celular que vem acontecendo há longo prazo.  A retirada do estrogênio pode diminuir a inflamação sobre eles, mas não farão com que as lesões regridam ou desapareçam.


Além do mais, o estrogênio é fundamental para o desenvolvimento da mulher, de seus órgãos genitais, e de seu bem-estar. Não podemos simplesmente abolir o estrogênio da vida da mulher.

Imaginem que uma cidade sofra todos os anos com destruição provocada por chuvas excessivas e enchentes. Pois bem, vamos, supostamente, construir uma redoma de vidro sobre essa cidade, e nunca mais irá chover sobre ela. Como ficará essa cidade, sem chuva para sempre? Isso resolve o problema? Será que não estaríamos causando mais problemas? O raciocínio é parecido quando falamos de estrogênio e endometriose.

Hipoteticamente, poderíamos evitar o desenvolvimento dos focos de endometriose se conseguíssemos bloquear, seletivamente, a ação dos estrogênios sobre as células de endometriose, enquanto o hormônio continuasse a exercer suas funções biológicas normais em outros tecidos.

E mais: esse bloqueio deveria ser feito em uma fase muito precoce da vida da mulher, pois já existem células de endometriose no feto (nota da editora: leia os textos endometriose em feto nascido vivo, endometriose é encontrada em fetos na mesma proporção que nas mulheres), antes mesmo do nascimento. Obviamente, teríamos que saber quais crianças seriam propensas a desenvolver a doença, sob o risco de tratarmos inadvertidamente meninas saudáveis.

Uma vez que a lesão de endometriose tenha se desenvolvido, essa lesão muscular, fibrosa e antiga, há apenas o controle analgésico e hormonal da dor como opções conservadoras de controle. Para o tratamento definitivo, a remoção cirúrgica máxima por laparoscopia é opção efetiva, para aquelas mulheres que tenham indicação. Infelizmente a cirurgia de remoção máxima da doença é pouco reprodutível. Mas essa já é outra discussão...

1. Kahneman D. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro, Ed. Objetiva, 2012. 


Sobre o doutor Alysson Zanatta:

Graduado e com residência médica pela Universidade Estadual de Londrina, doutor Alysson Zanatta tem especializações em uroginecologia e cirurgia vaginal pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cirurgia laparoscópica pelo Hospital Pérola Byington de São Paulo e doutorado pela Universidade de São Paulo, USP. Suas principais áreas de atuação são a pesquisa e o tratamento da endometriose, com ênfase na cirurgia de remoção máxima da doença. Seus inter­esses são voltados para iniciativas que promovem a conscientização da população sobre a doença, como forma de tratar a doença adequadamente. É diretor da Clínica Pelvi Uroginecologia e Cirurgia Ginecológica em Brasília, no Distrito Federal, onde atende mulheres com endometriose, e Professor-adjunto de Ginecologia da Universidade de Brasília (UnB). (Acesse o currículo lattes do doutor Alysson Zanatta). 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

OS 10 MOTIVOS PORQUE AINDA ACREDITAMOS QUE A ENDOMETRIOSE VEM DA MENSTRUAÇÃO RETRÓGRADA!

imagem Clínica Pelvi 

Em mais um texto exclusivo o doutor Alysson Zanatta lista os 10 motivos pelos quais ainda acredita-se que a endometriose é causada pela teoria de Sampson, mais conhecida como  menstruação retrógrada. Tanto o doutor Alysson quanto o doutor David Redwine batem na mesma tecla: os médicos apenas irão saber tratar a doença quando eles souberem a causa. Isso parece lógico, não!? Pois é, mas infelizmente não é o que acontece. O que vemos hoje em dia é uma grande reincidência da doença, mulheres perdendo seus órgãos reprodutores, muitas vezes por erro do médico, pois é mais fácil retirar os órgãos que a doença. Precisamos mudar este quadro no Brasil e isso só é possível com a informação, mas não com qualquer informação, mas sim com a correta. Espalhe a correta conscientização da endometriose compartilhando os textos do A Endometriose e Eu. Beijo carinhoso! Caroline Salazar
Por doutor Alysson Zanatta
Edição: Caroline Salazar

Os 10 motivos porque ainda acreditamos que a endometriose seja causada pela menstruação retrógrada.


Olá queridas leitoras do Blog A Endometriose e Eu.
Em artigo recentemente traduzido “Samspon estava errado?” (leia a parte 1 e a parte 2), o doutor David Redwine discorre sobre a teoria da menstruação retrógrada como explicação para a origem da endometriose. Essa teoria foi proposta há quase 100 anos por John Samspon, e hoje ainda é a teoria mais aceita para explicar a doença.
No artigo, o doutor Redwine explica as múltiplas falhas dessa teoria, e a sua completa falta de comprovação científica. Ao final, sintetiza os achados de outros pesquisadores (alguns que antecederam John Sampson) e propõe que a teoria da metaplasia celômica pode explicar com maior exatidão os mecanismos da doença. Segundo essa teoria, células indiferenciadas presentes desde o período embrionário (quando as mulheres ainda estão se formando no útero de suas mamães) se transformam, sob estímulo de estrogênio e ao longo da vida da mulher (talvez até os 25 a 35 anos de idade), nas lesões de endometriose que identificamos na mulher adulta. Há de se destacar que o Dr. Redwine escreveu esse artigo antes de surgirem os primeiros estudos que comprovaram a presença de endometriose em fetos (em 2009), o que reforça ainda mais a teoria da metaplasia celômica (ou de doença de origem embrionária que passa por metaplasia celômica). E, diferentemente da invasão tecidual por células da menstruação, o achado de endometriose em fetos é um achado de verdadeira comprovação científica.
Mas, se temos provas que existe endometriose em fetos, e se por outro lado não temos provas que células endometriais refluídas com a menstruação possam “invadir” os órgãos e se transformarem em endometriose, porque ainda acreditamos que a menstruação seja a causa da endometriose?
1 - O útero sempre foi a causa dos problemas das mulheres: na idade média, acreditava-se que ó útero era um órgão que se movia pelo corpo, um ser voraz, e que quando não tratado adequadamente, manifestava sua ira na forma de dores e doenças. Uma das doenças era a histeria ou loucura. Histeria é derivada de histero, que significa útero em grego. Ou seja, a loucura seria causada pelo útero.
As cólicas e os sangramentos excessivos significavam que o útero precisava ser “alimentado”, e recomendava-se atividade sexual como forma de tratamento. Em suma, todos os esforços deveriam ser feitos para acalmar o útero.
 A ideia de que o útero seja o grande responsável por doenças femininas é viva e muito presente no dia de hoje. Prova é que a histerectomia (cirurgia de retirada do útero) é a cirurgia ginecológica mais realizada no mundo. A histerectomia costuma ser recomendada para diversas causas de dor pélvica, mesmo quando não há causa identificada de doença no útero, como é o caso da endometriose. Muitas mulheres persistem com dores após a histerectomia, mostrando que o útero não era a causa da doença.
2- Os sintomas da endometriose costumam ser mais intensos durante a menstruação: a dismenorreia (cólica menstrual) é o sintoma típico da endometriose, especialmente quando acompanhada de sinais vagais (náuseas e vômitos, queda de pressão, sensação de desmaio). Além disso, lombalgia, dores nas pernas, alterações intestinais (intestino “mais solto”) e urinárias são mais intensas e frequentes durante o período menstrual. Portanto, é fácil deduzir que a causa das dores seja a menstruação.
Acredita-se que durante a menstruação a endometriose estaria “aumentando”, estaria “se espalhando” pela pelve. Fato é que muitas mulheres com endometriose veem a menstruação como um fantasma, e sentem que sua doença está aumentando a cada mês que menstruam, sentindo pânico por menstruarem.
Felizmente isso não acontece. Como destacado, não há provas do evento básico que explicaria a menstruação retrógrada como causa da endometriose: a capacidade da célula endometrial proveniente da menstruação aderir e invadir os órgãos da pelve.
3- Os sintomas da endometriose costumam melhorar com medicações hormonais que suspendem a menstruação: os anticoncepcionais, na forma de pílulas, injeção, dispositivos intrauterinos (DIU) ou outros, costumam melhorar as dores causadas pela endometriose, e até mesmo fazê-las desaparecerem. Assim, se a mulher interrompe sua menstruação, e se ao mesmo tempo as dores melhoram, conclui-se que a causa das dores seja a menstruação. Essa conclusão costuma ser extrapolada ao ponto de se dizer que as medicações estão “tratando” a doença, fazendo-a “diminuir ou desaparecer”.
Sim, é fato que os hormônios podem controlar a dor (entretanto, com respostas variáveis e temporárias), e eles podem ser importante ferramenta no manejo da endometriose. Mas infelizmente nenhuma medicação hormonal é capaz de tratar a endometriose, tratá-la no sentido de erradicá-la, fazê-la desaparecer. O principal efeito é no controle da inflamação que ocorre nas lesões. Mas as lesões persistem independentes do tempo e de qual hormônio é utilizado. Seria mais correto afirmarmos que as medicações são capazes de controlar a dor da endometriose, total ou parcialmente.
4 - Os sintomas da endometriose costumam desaparecer durante a gestação e a amamentação: aqui, o raciocínio é o mesmo para o uso de medicações que suspendem a menstruação. Mulheres grávidas, ou que estejam amamentando, não costumam ter dores de endometriose.  Assim, conclui-se da mesma forma que a menstruação estava sendo o motivo da doença, pois, como houve a gestação e a amamentação a menstruação foi suspensa naturalmente, então as dores melhoraram.
Outra extrapolação dessa teoria (e mito) é que a gravidez “trataria” a endometriose. Infelizmente (e novamente), isso não acontece. As lesões de endometriose persistem exatamente iguais após a gestação, podendo estar menos inflamadas e até mesmo deixarem de causar dor. Mas ainda estarão lá, presentes.
5 - Existem diferentes tipos de endometriose, mas elas são interpretadas de forma única: há três tipos de endometriose: (a) peritoneal, (b) profunda, e (c) ovariana. Endometriose peritoneal é aquela lesão superficial e identificada apenas durante procedimentos cirúrgicos. Endometriose profunda é aquela que forma nódulos (enrijecidos, irregulares), capazes de serem detectados durante o exame ginecológico e por profissional capacitado no exame de imagem (ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal e/ou ressonância magnética da pelve). Já a endometriose ovariana é aquela presente na forma de cistos achocolatados, os endometriomas, que são facilmente detectados à ultrassonografia, porém já representando uma fase avançada da doença. Os endometriomas são consequência da endometriose profunda. Praticamente não existe endometrioma sem endometriose profunda (associação maior que 99%)
Mas apesar das lesões terem formas e comportamentos distintos, elas são estudadas e interpretadas como se fosse uma única doença. Quase todos os estudos científicos são realizados com endometriose peritoneal, onde é possível sim reproduzir e mimetizar uma lesão de endometriose de forma experimental. As conclusões obtidas nos estudos de endometriose peritoneal são então, erroneamente, extrapoladas para as outras formas da doença, que são diferentes.
Prova que são diferentes é que, mesmo com modernas ferramentas e pesquisadores capacitados, não é possível desenvolver experimentalmente a endometriose ovariana ou a profunda. Jamais conseguimos produzir endometriose ovariana ou profunda em laboratório. De maneira simplificada, tente injetar sangue menstrual no intestino ou em um ovário de um camundongo e observe se haverá formação de endometriose. Não, esse não é um evento biológico que acontece.
Décadas atrás tentou-se injetar sangue de puérperas (mulheres com parto recente) em suas próprias paredes abdominais para testarem a possibilidade de se formar o endometrioma de parede (uma forma de endometriose profunda). Pasmem, essa foi uma pesquisa realizada em uma maternidade norte-americana na década de 1950, estudo que seria inaceitável nos dias de hoje. O que aconteceu? Nada. Não houve endometriose, pura e simplesmente. Felizmente também não houve maiores complicações com esse experimento absurdo.
Assim, conseguimos reproduzir em laboratório apenas a endometriose peritoneal. Mas, deduz-se erradamente que todas as formas da doença sejam iguais e que sejam causadas pela menstruação. A extrapolação equivocada das conclusões dessas pesquisas colabora para a perpetuação da mentira da teoria da menstruação retrógrada.
6 - A mídia propaga a teoria da menstruação retrógrada: médicos capacitados (e que por cima ainda são excelentes comunicadores) revezam-se diariamente na mídia escrita e televisiva (programas matinais, etc.) para falarem sobre saúde. E quando o assunto é endometriose, um dos primeiros tópicos abordados é a teoria da menstruação retrógrada.  Não porque sejam maus profissionais (pelo contrário, reitero que costumam ser os melhores), mas porque estão repetindo informações que lhes foram ensinadas nas faculdades, que lhes foram passadas pelos seus assessores, mas que não têm comprovação científica.
As consequências da propagação da teoria da menstruação retrógrada na mídia televisiva podem ser extremamente desastrosas. Falamos de milhões de mulheres que podem ter acesso a apenas essa fonte de informação, sem a possibilidade de consultas com especialistas ou acesso a outras fontes de informação.
7 - A indústria farmacêutica propaga a teoria da menstruação retrógrada: graças aos esforços e pesquisas da indústria farmacêutica, hoje podemos contar com medicações capazes de controlarem (em maior ou menor grau) a dor da endometriose, e de proporcionarem melhor qualidade de vida às mulheres. Isso é fantástico.
E para comercializar seus produtos, a indústria vale-se do marketing.  Isso é natural em qualquer negócio. Entretanto, no caso da endometriose, esse marketing pode ser agressivo, e levar a conclusões equivocadas.
Pensem comigo: se a infecção é causada por uma bactéria, e eu comercializo um antibiótico, nada mais natural do que eu fazer marketing demonstrando qual é essa bactéria e os malefícios que ela pode causar, pois eu comercializo justamente o antibiótico capaz de matar aquela bactéria.
Ora, se eu comercializo uma medicação capaz de suspender a menstruação e controlar a dor da endometriose, eu buscarei divulgar que a endometriose é causada pela menstruação, pois eu comercializo justamente a medicação capaz de suspender a menstruação! Não haveria nada de mal nisso, fosse a endometriose causada pela menstruação. Mas não o é. Não há provas que a menstruação retrógrada cause endometriose. Então, como propagandear um fato que não tem comprovação científica? A bula de uma conhecida pílula lançada no mercado há alguns anos começa com a seguinte frase “a endometriose é causada pela menstruação...”. É a primeira frase da bula. O marketing que nós médicos recebemos dos laboratórios é essencialmente direcionado à teoria da menstruação retrógrada. Isso não causaria maiores problemas, não fosse o fato de que alguns médicos têm como fonte de informação científica exclusiva aquela recebida dos laboratórios, por vezes enviesada.
imagem Clínica Pelvi 
Repito que a possibilidade de termos medicações capazes de controlar a dor da endometriose é algo fantástico. Mas devemos ser cautelosos com o tipo de marketing realizado. É como dizer que o cigarro te torna mais saudável, algo que também não tem comprovação científica.

8 - Futuros médicos são ensinados que a endometriose é causada pela menstruação retrógrada: como ex-professor de Ginecologia da Universidade de Brasília, pude contribuir e vivenciar o ensino aos futuros médicos. E como dizer algo diferente do que está nos livros-textos? Não é simples. Por vezes você certamente pode ser interpretado como “maluco”! Mas fato é que os livros continuam a trazer a teoria da menstruação retrógrada como a principal explicação para a endometriose, por motivos que já destaquei, dentre os quais o principal é a extrapolação de conclusões de pesquisas com endometriose peritoneal.
E, se futuros médicos são ensinados assim, é possível que a teoria da menstruação retrógrada ainda se perpetue por um longo tempo. É necessário que se quebre o ciclo de propagação de informações sem comprovação científica, por mais desafiador que se possa parecer.
9 - A endometriose é visualmente identificada (ou não) de diferentes maneiras por diferentes médicos: como falar de uma doença que pode ser “enxergada” (ou não) de diferentes maneiras por diferentes médicos? Dez diferentes médicos não teriam dificuldade em identificar e retirar um bebê durante uma cesárea. Mas dez diferentes médicos poderiam identificar as lesões de endometriose de dez formas diferentes durante as cirurgias ou simplesmente não identificá-las. Esse é um dos grandes desafios da endometriose.
 Para exemplificar, sugiro às mulheres que passaram por laparoscopia a mostrarem as imagens de suas cirurgias para diferentes médicos. Pasmem, vocês certamente ouvirão diferentes opiniões. Ouvirá relatos como “não há nada, está tudo normal”, ou “são apenas aderências”, ou “há pequenas lesões de endometriose, sem maior gravidade”, ou então “há várias e graves lesões de endometriose, como posso ver aqui, aqui e aqui...”. Ressalto, diferentes médicos vendo as mesmas imagens. E porque isso acontece? Não necessariamente há “maus e bons médicos”, mas sim diferentes experiências.
 Novamente, nos remetemos à formação médica nas universidades, aos nossos livros-texto e professores, e o que eles nos mostram como sendo lesões de endometriose. Meu cérebro só será capaz de identificar uma lesão de endometriose se eu tiver visto antes uma lesão de endometriose, se alguém tiver me falado que aquela lesão é endometriose, se eu acreditar que realmente possa ser endometriose e removê-la em sua totalidade e se a biópsia confirmar que aquela lesão é endometriose. Se nunca me mostraram (ou se eu não tive o interesse de aprender) como é uma lesão de endometriose intestinal, ou uma lesão profunda retroperitonial “escondida” atrás das “aderências”, então eu jamais serei capaz de identificar o que é endometriose.
O mesmo raciocínio vale para os exames de imagem (ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal e/ou ressonância magnética pélvica), onde apenas alguns profissionais serão capazes de “enxergar” onde está a endometriose profunda.
 Pois então, se eu não consigo identificar visualmente a doença, como entender sua evolução e história natural? Parece mais óbvio então eu concluir que, quando eu identificar as lesões, ela foram causadas pelas últimas menstruações, ao invés de concluir que ela já poderia estar presente há muito mais tempo, só que não era identificada.
 Não enxergar a endometriose significa não tratar a endometriose. Não enxergar a endometriose significa perpetuar a noção de que ela seja causada por menstruação retrógrada.
 10 - A teoria da menstruação retrógrada justifica todas as falhas terapêuticas: e por último, o mais importante, conforme destacado no texto referência do Dr. David Redwine. Dizermos que a menstruação causa endometriose justificará, automaticamente, a persistência da endometriose após qualquer tipo de tratamento realizado, seja com uma pílula ou uma fertilização para engravidar ou uma cirurgia. A teoria da menstruação retrógrada justifica as múltiplas cirurgias que algumas (não raras) portadoras de endometriose sofrem ao longo de sua vida. A mulher estaria fadada a conviver para sempre com uma doença crônica, sem cura, até o momento de sua menopausa, pois ela sempre vai menstruar e a endometriose sempre voltará. Seria muito melhor se, ao invés de justificarmos as falhas terapêuticas, encontrássemos maneiras eficazes de tratar a doença.
Conclusão:
Vários fatores contribuem para a perpetuação da teoria da menstruação retrógrada como causa da endometriose, proposta por Sampson em 1921. Fatos seculares (o útero como causa das doenças femininas) e modernos (propagação pela mídia televisiva), associados à dificuldade de identificação da endometriose nos exames e mesmo durante as cirurgias, são responsáveis pela infeliz perpetuação dessa teoria.
A discussão da origem da endometriose é de extrema importância, até mesmo mais importante que a discussão de tratamento clínico ou cirúrgico da doença. Entendida a doença, entendidas serão as maneiras de tratá-la. Os progressos serão então concretos, e milhões de mulheres ao redor do mundo terão a chance de viverem livres da doença. 


Sobre o doutor Alysson Zanatta:

Graduado e com residência médica pela Universidade Estadual de Londrina, doutor Alysson Zanatta tem especializações em uroginecologia e cirurgia vaginal pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cirurgia laparoscópica pelo Hospital Pérola Byington de São Paulo e doutorado pela Universidade de São Paulo, USP. Suas principais áreas de atuação são a pesquisa e o tratamento da endometriose, com ênfase na cirurgia de remoção máxima da doença. Seus inter­esses são voltados para iniciativas que promovem a conscientização da população sobre a doença, como forma de tratar a doença adequadamente. É diretor da Clínica Pelvi Uroginecologia e Cirurgia Ginecológica em Brasília, no Distrito Federal, onde atende mulheres com endometriose, e Professor-adjunto de Ginecologia da Universidade de Brasília (UnB). (Acesse o currículo lattes do doutor Alysson Zanatta).