No começo desse trabalho dos sonhos, apenas uma pessoa sabia de minha condição. Como uma das editoras havia me conhecido gorda e bem inchada, por conta da endo, quando me viu bem magra, ela levou um susto e perguntara e se eu tinha feito uma lipo. Bom, aí contei bem por cima, mas pedi segredo, pois precisava muito desse trabalho. Eu estava tão feliz, que até parecia um sonho e, como todo sonho, há um momento em que ele acaba. Foram oito meses de uma plena felicidade. Mesmo com as dores, nunca encontrei um lugar como aquele. Lá, aprendi muito. Trabalhei com pessoas inteligentes e que ensinavam muito, mas sem serem arrogantes ou prepotentes. Quando tudo acabou, chamei minha editora-chefe para conversar e expliquei um pouco sobre tudo que eu havia passado. Mas, na verdade, o que eu fiz mesmo, foi agradecê-la por esta chance tão especial e importante em minha vida. "Você já fez algum bem a alguém?", perguntei, à minha querida ex-chefitcha. Nem esperei ela responder e já emendei: "Se você nunca fez isso, saiba que você foi a pessoa que me deu a chance de recomeçar minha vida profissional." Ela começou a chorar e nos abraçamos por alguns minutos. Depois falei um pouco sobre meu caso. Não dá para falar tudo, porque assusta. Mas ela já conhecia a doença, já que uma prima dela tem e ela já fez uma matéria sobre endometriose. Se eu tivesse contado antes, de tão bom coração que ela é, com certeza, eu teria continuado com a minha fisioterapia. Infelizmente, não dá para adivinhar como são as pessoas. Confesso que até bateu um remorsozinho de ter deixado a fisio, mas nçao tinha o que fazer.
Para suportar trabalhar o dia inteiro sentada em frente ao computador, eu já vivia à base de remédios. A essa altura continuava com o tratamento, mas não ia ao médico. Além de ser longe da minha casa, eu dependia de terceiros para me levar. O que eu iria fazer lá, se nem ele mesmo acreditava em minhas dores? Nada. Comecei a me automedicar. Isso é um perigo para quem tem doença crônica e farei até um artigo sobre o tema. Eram muitos remédios: dipirona 500, nimesulida, buscopan composto, relaxantes musaculares, enfim, um coquetel venenoso que ingeria diariamente. Com o desemprego, veio também o desespero de perder o convênio. Quase o perdi e foi preciso ajuda de amigos para resolver o problema. Fiz a ressonância magnética imediatamente, pois sem convênio, não teria como fazer esse exame, que é muito caro particular e uma burocracia no SUS. Isso quando a máquina está funcionando. Confesso que fiquei apreensiva até a data do resultado. E se não desse nada? Mas é claro que vai dar, não sou louca para inventar dores. Ao sair do laboratório Cura, onde faço todos meus exames, abri o exame antes mesmo de entrar no ônibus. O laudo confirmou todas as minhas dores. Mesmo em tratamento, a endo estava se espalhando. Antes da primeira cirurgia, o único lugar que mostrava minha endo, era no ligamento úterossacro. Agora, além deste, a maldita também pegou os ligamentos largos e direitos e essa região do peritônio. Fiquei assustada, mas ao mesmo tempo, muito aliviada. Marquei consulta no ambulatório da Unifesp para conversar com o dr. Schor. Antes fui ao consultório do dr. Roberto Hiroshi Ieiri, um excelente gastro e coloproctologista, que é médico de minha família e quem tenho total confiança, para ouvir sua opinião. Tanto o dr. Roberto, quanto o dr. Eduardo Schor, confirmaram que uma nova cirurgia será necessária.
Na Unifesp fui atendida pelo dr. Alexander. Eu ainda não o conhecia. Nem preciso dizer que ele, assim como toda a equipe, é maravilhoso. Após a consulta, dr. Schor veio falar comigo. Disse que tenho de operar novamente, mas que antes, eu precisaria passar com o dr. Nucélio, no ambulatório ao lado, especializado em uroginecologia. É a mesma especialidade da fisio. Foi aí que o dr. Schor me disse que o dr. Nucélio vai verificar se há foco em algum nervo meu. Será que eu sinto muita dor, por conta disso? E, que, se isso for confirmado, a cirurgia terá de ser redirecionada também para esse lado. Huuum, ao ouvir isso, eu tive a certeza de algo que eu já tinha: que o ambulatório da Unifesp é, em minha opinião, o centro mais capacitado para atender uma portadora de endometriose no Brasil. Porém, muitos médicos ainda não acreditam nesta possibilidade. Ao ouvir do dr. Schor que ele acredita e todas as minhas dores, mesmo tendo uma endo, até então, leve me deixou com mais confiança e esperança de um futuro sem dor. Por conta da nova cirurgia, voltei às sessões de fisioterapia, toda quarta-feira, às 9h da manhã. Já estou na terceira sessão e, assim que terminar as avaliações, falarei sobre meu tratamento. Torçam por mim! Beijos com carinho!