No mês em que mulheres do
mundo todo se reúnem para espalhar mais consciência sobre a endometriose, o A Endometriose e Eu conta uma história
muito especial, a da querida Juliana Souza, de São Paulo, capital. Escolhi a
história desta nossa endoirmã guerreira, pois tenho certeza de irá levar mais
esperança a muitas endomulheres, especialmente, àquelas que são tidas como
inférteis e não tem condições de fazer um tratamento para realizar o sonho da maternidade. E olha que a endometriose dela foi brava, como ela mesma já me disse. Já faz um tempo que a gente
se fala por email. O primeiro contato foi há quase um ano quando escreveu para dizer que estava muito bem
com o Mirena, após o primeiro artigo do blog, muito antes de meu testemunho sobre este tratamento. E sabe
o que me chamou atenção no email dela? A última frase que ela escreveu “Boa sorte no seu tratamento e nunca perca as
esperanças, porque Deus é grande e, para Ele, nada é impossível”. Manter a fé e
acreditar que Deus sempre tem coisas boas para nós, mesmo para quem sofre
muito, é uma das coisas que eu mais falo no blog. Na hora pensei: “Nossa que
sintonia a nossa. Adorei!” Ali, já percebi a generosidade e
como ela é do bem e convidei-a para contar sua história aqui. Ela decidiu ter a bebê primeiro para depois contar tudo pra gente, tim tim por tim. Desde então, matemos contato por email,
ela escreveu para contar como foi o parto e eu como toda curiosa que sou (isso
é uma das principais características de um bom repórter), eu já logo quis saber nome, quando seria o parto, etc, etc. Ao editar a história da Juliana fiquei
emocionada, ao saber que ela também encontrou seu “anjo de branco” e que atende
e opera por convênios médicos.
Porém, descobrir sua endometriose não foi
nada fácil. Levou anos, foram muitas dores para ir ao banheiro e quando
descobriu a maldita já estava em alguns órgãos. Foi preciso a retirada de 22 cm
de seu retossigmoide e os focos se infiltrando em outros órgãos. Bom, que persevera
alcança tudo. E quem tem fé também. Acreditar que existe um Deus, um Pai Maior também
é importante. Juliana não tinha cólicas fortes durante a menstruação. A maioria
das mulheres pensa que se não tem cólica, não tem endometriose. Sabe qual
sintoma que a Juliana sempre teve em seus períodos menstruais? A alteração
intestinal. Foi por esse incômodo, cada mês mais forte, é que ela foi a vários
médicos e mesmo sendo diagnosticada com Síndrome do Cólon Irritável, ela sabia
que não era isso e continuou sua saga. Até encontrar um ginecologista que mesmo
não sendo especializado no assunto, entendia sobre a doença, e já a encaminhou
ao especialista. Nesta história percebemos que a fé também foi sua aliada para
ser abençoada com a tão sonhada gravidez natural, mesmo após alguns especialistas
em reprodução dizer que ela só engravidaria com fertilização in vitro. Claro,
que como todas nós, Juliana também teve seu momento de desespero, afinal, ela
não tinha dinheiro para bancar o alto-custo deste tratamento. E também o
otimismo de seu médico especialista foi fundamental para levantá-la nos
momentos mais desesperadores, e assim, continuar com sua fé sempre acesa. Não
vou falar muito mais, porque tenho certeza absoluta que após ler a história de
Juliana Souza e sua endometriose, muitas endomulheres passarão a ter outro
olhar da vida e até mesmo da endometriose. Uma história para ler, reler e se
inspirar! Beijos com carinho!!!
“Sou a Juliana Souza, tenho 35
anos e moro em São Paulo. Minha primeira menstruação veio aos12 anos e sempre
foi desregulada. Lembro-me como se fosse hoje: vinha muito sangue, a ponto de
vazar pelas minhas pernas, e às vezes vinha umas duas vezes ao mês. Minha mãe
me levou ao ginecologista eue constatou um cisto em um de meus ovários e me
receitou anticoncepcional (Diane 35). Comecei a tomá-lo aos 14 anos e o tomei
por muito tempo, até meus 18, 20 anos. Porém, mesmo tomando o Diane, tinha
cólicas insuportáveis e meu fluxo era muito intenso. Todos os ginecologistas que
eu passava falavam que era por causa do tal cisto de ovário. Pois bem,
quando eu tinha uns 20 anos, comecei a sentir uns sintomas intestinais
estranhos. Eram sempre perto da menstruação: tinha cólicas menstruais e
intestinais, mas ia ao banheiro todo dia. E comecei a notar alterações nas
fezes: elas vinham com um muco esquisito. Fui ao gastro e fiz minha primeira
colonoscopia. O médico não conseguiu introduzir o aparelho da colono porque
mesmo eu estando anestesiada, sentia dor. Voltei ao gastro e o mesmo disse que
eu tinha Síndrome do Colón Irritável (SCI) (nota da editora: O SCI é
sinônimo de SII – Síndrome do Intestino Irritável) e que deveria iniciar um
regime alimentar. Pois bem, fiz o regime
alimentar por muito tempo, porém os sintomas intestinais e menstruais foram se
agravando. Ao invés de muco nas fezes, começou a vir sangue também. Entrei numa
empresa nova que me dava um ótimo convênio. Então aproveitei pra passar em
outro gastro. Fiz a segunda colonoscopia e o aparelho novamente não entrou. O
gastro deu o mesmo diagnóstico do anterior: Síndrome do Cólon Irritável e
receitou alguns remédios, inclusive corticoides. Mas os sintomas foram se
agravando, a ponto de eu ir parar no pronto socorro. Numa dessas paradas no PS,
me reviraram do avesso, fiz até ressonância magnética e nada encontraram. Meu
gastro começou a desconfiar de endometriose. Fiz a terceira colonoscopia, e o
aparelho não entrou. O médico do exame, no laudo, também levantou a hipótese de
endometriose no intestino. E as dores... iam me corroendo. Cada vez que vinha a
menstruação era um pesadelo. Eu não saia do banheiro, pois não sabia se era
cólica menstrual, cólica intestinal, prisão de ventre..... parecia que o útero
e intestino tinham virado uma coisa só – e o pior é que tinham quase virado
mesmo, por causa do monte de aderências que a endo fez nesses órgãos. Nesta
época, tomar buscopan, era como beber água. Por mais um pouquinho, eu chegaria
na morfina.
Foi meu gastro quem me explicou o que era endometriose.
Até então eu não conhecia a fundo - apesar de ter uma tia com a doença e
algumas conhecidas - e me encaminhou para um proctologista. Chegando ao procto,
ele também suspeitou de endometriose, e me passou um monte de exames a fzer.
Confesso que muito chatos e constrangedores por sinal, como o Enema Opaco (nota
da editora: exame
de imagem onde é colocado uma substância opaca no interior do intestino para
fazer raio-X em diversas posições distintas. É preciso enchê-lo com um pouco de
ar para que as bordas de suas paredes fiquem mais claras. Para realizá-lo é
preciso preparo intestinal com clister e jejum de 10 horas). Mais uma vez nada foi encontrado. Então, ele solicitou um
ultrassom com preparo intestinal com o dr. Manoel Orlando, pois pelo jeito
minha endometriose estava bem escondida - e esse exame teria que ser feito só
com esse médico, por ser especialista no assunto, etc, etc. Como o convênio não
cobria o exame com ele, acabei fazendo particular mesmo. Foi um dinheiro bem
gasto, pois ele sim descobriu a dita cuja, e já
foi me falando o que eu temia ouvir: que meu caso só seria resolvido com
cirurgia. Nesse meio tempo a empresa que eu trabalhava
mudou de convênio, então não teria como passar no gineco indicado pelo
proctologista. Comecei a caçar um bom ginecologista e que fosse especialista em
endo. Fui em vários, até cair nas mãos do dr. Nicolau Damico, que não tenho
vergonha em dizer que é um anjo na minha vida. Foi em 2006. Fui numa consulta com
outro gineco e quando comecei a mostrar o meu dossiê de exames, o médico ficou
assustado. Falou que minha endometriose já estava "corroendo" meu
intestino e que era urgentíssimo - e na hora ligou para o dr. Nicolau, que
aceitou me atender de imediato. Quando cheguei nele com os exames, ele também
já falou na lata que meu caso só resolveria com uma vídeolaparoscopia e com a
retirada do segmento do intestino que tinha endometriose, o retossigmoide, pois
este pedaço já estava 80% comprometido. Ou seja, não dava pra esperar muito
tempo: meu intestino iria fechar e eu daria entrada num PS e corria o risco de
ser operada por alguém que não entendia nada do assunto! Continuei indo ao especialista até que, em 2008, minha
cirurgia foi marcada, e o meu sonho de estar livre das dores seria realizado!
Fiz a cirurgia com a retirada de 22 cm do
retossigmoide, retirada de focos no útero, bexiga, ovários e no septo- retovaginal,
além de retirada de um mioma e de um cisto de ovário.
Na cirurgia, foi colocado o DIU de Mirena (dispositivo
intrauterino à base de progesterona), para bloquear minha menstruação, o que
poderia dar uma brecada no avanço da doença. Em 2008 eu me casei e embora os médicos falavam para eu tentar
engravidar após a cirurgia, não quis já que acabara de casar. Em 2010 começou a
surgir em mim e em meu marido a vontade de ter filhos. O dr. Nicolau disse que eu teria todas as possibilidades
de engravidar naturalmente, pois estava limpa da endometriose e todos os exames
de controle estavam perfeitos. Então, decidi tirar o DIU, o que foi feito, e
então começamos com as tentativas. Os
meses foram passando e nada, nada... a menstruação vindo novamente, com ela o
medo da endo voltar... e nada de gravidez. Passados 6
meses de tentativas, meu médico pediu que eu passasse em um especialista em
infertilidade. Passei e ele foi categórico: no meu caso, só engravidaria com
fertilização in vitro - pois mesmo com a cirurgia, a endo ainda estava agindo
no meu organismo. Como assim???? Uma revolta tomou conta de mim, simplesmente
eu não aceitava que depois de tudo o que eu passei, a endo continuasse agindo
no meu corpo!!! Simplesmente não aceitava isso. Comecei a realizar alguns exames que ele solicitou e percebi
que o valor para fazer a tal FIV era muito caro para mim. Eu e meu marido não
tínhamos dinheiro para bancar o tratamento. Comecei a ver as possibilidades.
Fiquei sabendo que o Hospital Pérola Byington
abria sua agenda para o setor de FIV na terceira quarta feira do mês, e durante
dois meses tentei ligar lá pra tentar agendar um horário, sem sucesso. Ou o
telefone só dava ocupado, ou chamava e ninguém atendia. Então, fiquei sabendo da Faculdade de Medicina do ABC.
Fui lá, assisti a palestras, passei pela médica
- que também disse que no meu caso só com FIV - mas os valores pra gente, ainda
assim eram muito caros. Eu e meu marido
começamos a pirar, ficamos muito frustrados. E eu fiquei desacreditada de tudo,
não achava justo passar por aquela situação, parecia um pesadelo.
Depois de muito chorar, aos
poucos fui aceitando os fatos: que tinha um probleminha de saúde e que tinha
que lidar com isso. Quanto ao dinheiro pra FIV, iríamos começar a juntar. A poeira foi
baixando, eu e ele fomos deixando os planos de ter filhos um pouco de lado, e
voltamos a estaca zero. O único que nunca desacreditou que eu poderia
engravidar naturalmente era o dr. Nicolau. Toda vez que eu ia às consultas e
contava o que estava acontecendo, ele sempre tinha uma mensagem de otimismo pra
mim. Numa dessas consultas, em agosto de 2011,
comecei a chorar e ele me disse que faria tudo o que tivesse ao seu alcance para
me ajudar. E que a FIV seria a última possibilidade, que ele só pensaria nisso
quando todas as outras hipóteses estivessem zeradas. Ele me examinou e perguntou quando que seria a minha
próxima menstruação. Eu estava tão desligada de tudo, que na hora me toquei,
falei "doutor, está pra vir essa semana". Fui embora pra casa com a
pulga atrás da orelha. Afinal, a menstruação estava atrasada! Mas eu
tinha medo de pensar que estivesse grávida! E se eu não tivesse? Seria uma
decepção. Meu marido havia comprado um
teste de farmácia, que ainda não tinha usado. Então, no dia seguinte, quando
acordei para trabalhar, lembrei-me daquele teste e pensei: "Vamos tirar
essa dúvida logo". Fiz o xixi no potinho, coloquei a fitinha e deixei em
cima da pia. Fui tomar banho e ao sair, nem lembrava mais daquele teste. Até
que o vi na pia e me lembrei dele. Quando eu peguei..... a surpresa: POSITIVO!!
Eu comecei a chorar e a pular, chamei meu marido aos berros, ele levantou todo
atrapalhado que nem conseguia ver direito o teste. Depois da euforia, veio a
angustia: será que é verdade? E se eu perder?????? Ai meu Deus!!!! (risos)
Cheguei ao trabalho e fui
direto conversar com meu chefe. Contei o que tinha acontecido e falei pra ele
que eu não voltaria pra casa sem fazer um exame de sangue. Ele me dispensou e
fui ao PS para fazer o exame. Consegui passar no ginecologista de plantão e ele
me deu a guia para fazer o exame de sangue. Até essa altura, eu já tinha feito
mais 3 testes de farmácia, e todos deram positivo!!!! Fui ao
laboratório colher sangue e o resultado só sairia no dia seguinte. Cheguei em
casa e meu marido comprou o quarto teste pra eu fazer... positivo de novo. Não
é possível, estamos grávidos!!!! No dia
seguinte, o pessoal do meu trabalho e nós dois (eu e meu marido) estávamos na maior
expectativa. Ao pegar o resultado, a confirmação do que eu já sabia: estava
grávida. A alegria era tanta que eu não esperei
completar os 3 meses para anunciar. Já liguei, mandei torpedo e e-mails
contando novidade para família e amigos. Quem
nos acompanhou e viu o quanto sofremos com o diagnóstico da FIV, chorava
conosco e agradecia a Deus. Eu não tenho dúvidas de que foi um milagre de Deus
em minha vida. Lógico que na hora liguei
para o dr. Nicolau e ele sempre com suas palavras de conforto "Não disse
pra vc que daria certo!" Daí parti para o pré-natal, tive uma gravidez
abençoada e nossa princesinha nasceu supersaudável dia 11/05/2012 às 21h19.
No meio da cesárea, o dr. Nicolau encontrou um
foquinho de endometriose no meu ovário. Falou-me para não preocupar com ele,
pois ainda vou ficar um bom tempo sem menstruar por causa da amamentação.
Depois vou pensar na forma de como suspender a menstruação para que a doença
não avance de novo. Mas quer saber? Tem algo aqui comigo muito maior para eu me
preocupar. E existe um Deus muito maior do que qualquer foco de endometriose,
que pode mudar nossa vida num piscar de olhos. Espero que minha história ajude
muitas mulheres que estão passando pelo que eu passei: a angustia de não
conseguir engravidar naturalmente, o diagnóstico da FIV, a falta de grana pra
fazer o tratamento e realizar este sonho, ou até mesmo, a dificuldade de fazer
o tratamento da endometriose. Nunca deixem de ter esperança, de acreditar que
nada nessa vida é impossível. Acreditem que podemos vencer essa doença, e não
ela nos vencer!! Beijos com carinho!”