Já faz tempo que quero escrever sobre isso, mas, até então, acho que eu não tinha sabedoria para tanto. Quando descobri ser portadora de endometriose, eu pensava que a doença era como uma gripe, que eu iria tomar um remédio ou até mesmo fazer um tratamento, mas que, em pouco tempo, iria melhorar e que, em menos tempo ainda, eu teria a minha vida de volta, ou melhor, de que eu tomaria as rédeas dela. Porém, o que eu mais desejava era ter uma vida normal, e, para mim, ter uma vida normal seria ter uma vida sem dores. Infelizmente, só quem tem endo é que sabe o que é ter essas dores. Dores que não cessam até mesmo quando dormimos. Como sei que todas passam por isso, inclusive, acabei de ler um depoimento aqui no blog sobre isso, decidi escrever hoje sobre as "mentes ignorantes". Sim, eu também tinha esta mente ignorante. Lembro-me que, por diversas vezes, fui alertada por uma amiga, a Marlene, sobre os riscos que eu corria de ter iniciado o tratamento com um ginecologista, que não era especialista em endo, e por não acreditar que a doença poderia ser algo sério. Sim, eu também pensei que a endo era uma doença qualquer. E como eu queria que isso fosse verdade. Foi no ambulatório de algia pélvica e endometriose da Unifesp em 2009, que comecei a entender um pouco mais sobre a mais enigmática das doenças que já surgiu até hoje. Como tudo em nossa vida tem um propósito, inclusive, nossos sofrimentos, eu demorei um pouco a acreditar em tudo que estava acontecendo em minha vida. Afinal, tudo o que eu mais queria era ser feliz e viver a vida, no sentido literal da palavra. Quem quer passar necessidade? Quem quer parar de trabalhar? Quem quer depender de outros? Quem quer ficar na miséria? Porém, o destino nos prega muitas peças e são esses sustos, que nos tornam pessoas melhores. Até mesmo quando sofremos.
Mesmo com o dr. Schor me explicando, semanalmente, o que era a endo, eu não queria acreditar. Precisei ter muita fé, já que nem todos os psicólogos estão preparados a nos tratar, para entender o propósito da endo em minha vida. Se até ginecologistas não sabem o que é a endo, falam que a doença não existe (e eu passei por um deste tipo, que nojo!) imagine os psicólogos. Ao ler hoje a seguinte frase num comentário do blog: "Eu cansei de relatar minha dores porque se nem os profissionais da saúde nos compreendem, como pessoas leigas irão nos entender?", pensei... preciso escrever sobre isso, pois preciso acabar com esta ignorância humana. Quando comecei o blog, em 2010, ouvia de algumas pessoas que era para eu tirar o foco da doença da minha vida. Infelizmente, o ser humano está tão cruel que muitos querem fazer cosias só para aparecer. Ou para o próprio ego. Eu não sou assim. Quero deixar bem claro que a endo e muito mais do que uma doença enigmática, é uma condição de vida, pois somos portadores da doença. O
A Endometriose e Eu é o primeiro blog social a relatar o dia a dia de uma portadora e, também, o primeiro que deu voz à outras mulheres para contarem suas histórias. Essa ideia surgiu, pois lembro-me muito bem do dr. Schor falar que, em cada corpo, a doença é de um jeito. Foi daí que eu tive a ideia de criar a seção "História das leitoras". Outro dia, eu levei um susto quando escutei de uma amiga: "O que você conta, além da endo?" Eu, o quê? "O que você está fazendo além da endo?" A minha resposta foi curta e grossa: "nada". Eu fico passada com essas "mentes ignorantes", que é de uma pessoa muito inteligente. Confesso que fico mais triste escutar isso de uma mulher, do que de um homem, fato que também me aconteceu recentemente. Esses meus dois amigos (sim, sei que eles são pessoas boas, mas são ignorantes quando à doença, apenas) não falaram isso por mal. Um é homem e, talvez, nunca terá filhas para saber o que é sentir esta dor. A outra é mulher e tem três filhas pequenas. Por alguns segundos, eu pensei: "E se alguma de suas filhas tiver e sofrer muito, será que ela vai passar a entender a doença?" Sempre quando escuto esse tipo de frase, eu desejo, por apenas alguns segundos, que essas pessoas tivessem endo e, em muitos casos, a endo severa mesmo. Eu queria muito que a doença afetasse os homens também. Já pensou parte deles assexuados? E aquelas mulheres que só pensam em sexo, o iria dizer se, um belo dia, elas se tornassem assexuadas? Talvez, muitos não deem devido atenção a nós, pelo fato de a doença ser muito relacionada à infertilidade. Eu já escutei, muitas vezes, porque eu não retiro todos os meus órgãos reprodutores para tentar acabar com a endo. Agora, eu só tenho 33 anos e sem filhos, mas qualquer pessoa que tem um pouco de inteligência sabe o quão grave é retirar todos os órgãos reprodutores de uma mulher tão jovem como eu. É mutilar o direito de ser mulher! Ser mulher não é apenas ter uma vagina, mas, sim, ter todos seus órgãos reprodutores.
Não sei o que essas e outras pessoas pensam, (eu juro que queria entrar dentro de seus cérebros para ver o que tem lá) quando digo que estou escrevendo meus artigos para o blog. Será que eles acham que eu quero mais doença? Ou que escrevendo a minha endo vai aumentar? Ou que a minha dor persiste só pelo fato de escrever? Só pode. Quando eu escutava isso, três anos atrás, eu ficava doida e p. da vida. Como sou chorona, nossa, eu chorava muito, mas hoje, como estou muito bem psicologicamente e, melhor ainda, espiritualmente, eu fico apenas triste por existir essas "mentes ignorantes", em pleno século XXI. É incrível como essas pessoas apenas criticam e não veem o trabalho social por trás disso. Meu amigo nunca entrou aqui, mas minha amiga, sim. O que dizer quando você faz um belo trabalho social, que já salvou e ainda vai salvar muitas vidas femininas do sofrimento? Salvar vidas femininas do sofrimento da dor da endometriose... é para isso que o blog existe.Aqui, eu não falo nada além da verdade. Aliás, eu sempre digo aos meus amigos que, mais importante do que ler meu artigos, é ler os depoimentos das leitoras. Outro dia, pesquisando na net sobre blogs de endo, eu levei o maior susto ao ver que o meu é o que mais tem seguidores e a maior audiência do todo o mundo. Vocês acreditam? Quase tive um treco, porque isso nunca passou pela minha cabeça. Faço apenas aquilo que sei fazer na vida: escrever. Aliás, eu também tenho o poder da persuasão. Então, Deus me deu dois dons, o da fala e o da escrita. Por que não usá-lo a favor de uma causa? Compartilho minha experiência para salvar muitas outras vidas. Por muitas vezes, eu sinto vergonha de mencionar a palavra endometriose aos outros, justamente poque a maioria das pessoas tem esta visão errônea do meu trabalho. Porém, a partir de hoje, prometo espalhar a palavra endometriose, pelo menos, uma vez uma semana às pessoas que ainda não conhecem. E às que conhecem também. Para mostrar que sempre estive certa sobre isso, estou preparando um artigo sobre a última palestra da apresentadora indiana Padma Lakshmi, na semana de conscientização sobre a endometriose, em março deste ano, nos Estados Unidos. Sabe qual foi o tema: espalhar ou mencionar a palavra endometriose por pele menos, um vez por semana. Ufa! Encontrei uma mulher com endometriose conhecida da mídia, pois, ela é tida como celebridade, que pensa a mesma coisa do que eu. Por que será? Com certeza, ela quer salvar vidas do sofrimento, assim como eu. Como ela é famosa e mora nos Estados Unidos, será que alguém a recrimina ou a discrimina lá também por esta atitude? Aliás, faz mais de um ano que fiz um post sobre a minha vontade de
difundir ainda mais a palavra endometriose. Como a palestra dela foi em março de 2012 e meu artigo foi escrito em abril de 2011, será que foi uma transmissão de pensamento? Não, isso só comprova que, de fato, estou no caminho certo. Beijos com carinho!!