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domingo, 16 de julho de 2017

DAVID REDWINE: QUEM É O MÉDICO E CIENTISTA AMERICANO QUE REVOLUCIONOU A ENDOMETRIOSE?

Eu e o médico e cientista americano doutor David Redwine,
em sua passagem por São Paulo em 2014


No próximo mês, agosto, completaremos quatro anos de parceria com o médico e cientista americano doutor David Redwine. O A Endometriose e Eu é o pioneiro no Brasil em traduzir seus textos e também em difundir suas ideias e sua prática cirúrgica entre as portadoras da doença. Quando o conheci pela internet, em 2013, por meio das queridas Nancy Petersen e Heather Guidone comecei a ler seus textos e percebi que ele é o grande revolucionário da endometriose. A cada novo artigo ficava ainda mais fascinada pela inteligência desse homem que transformou um problema pessoal em esperança a milhares de endomulheres mundo afora ao comprovar que a endometriose tem um tratamento efetivo chamado de padrão ouro: a remoção de toda a doença do corpo da mulher, tirando os focos pela raiz e não cauterizando-os. Eu o conheci em 2014, fiz uma entrevista exclusiva com ele em sua passagem por São Paulo, e lá mesmo percebi a revolução que o doutor Redwine representa para a endometriose quando entrevistei outro renomado especialista, o chinês radicado nos Estados Unidos, doutor Charles Koh (leia aqui a entrevista). Com certeza seu nome ficará marcado na história da endometriose, pois pela primeira vez falou-se em cura para a doença. E eu serei eternamente grata a internet por ter me apresentado esse grande homem e grata por ajudar a difundir suas ideias em meu país. Hoje apresentamos sua trajetória de como um menino atleta se transformou num dos maiores (se não o maior) cientistas da endometriose. Mesmo após sua aposentadoria, em 2012, o doutor Redwine continua a estudar incansavelmente a endometriose. Beijo carinhoso! Caroline Salazar


Tradução: doutor Alysson Zanatta
Edição: Caroline Salazar


Até a sua recente aposentadoria em 2012, doutor David Redwine liderou o mundialmente conhecido e vencedor de prêmios Instituto Oregon de Endometriose no Hospital St. Charles, Bend, Oregon, tratando milhares de mulheres com endometriose dos Estados Unidos, do Canada, e de muitos outros locais.

No período escolar era um atleta de ponta, destacando-se nacionalmente em natação e atletismo, e conseguindo uma bolsa de estudos através do atletismo na Universidade de Stanford, onde completou seus estudos básicos. Já como garoto ele tinha uma atração natural por ciência e sabia que a Medicina o chamava. Após Stanford, ele conquistou seu diploma médico na Baylor College of Medicine, no Texas, antes de se mudar para o Oregon para completar seus estágios práticos.  Ele gostava de todas as subespecialidades, mas decidiu-se por Ginecologia porque “ela tinha tudo”: pacientes jovens e comunicativas que se preocupavam com sua saúde, cirurgia, medicina geral, e pediatria. Em 1978 ele abriu seu consultório particular em Oregon.

A endometriose tornou-se parte central de sua vida devido à sua primeira esposa, debilitada pela doença. Eles lutaram para conseguir tratamento efetivo e viveram a mesma falta de compreensão nas mãos da comunidade médica que tantas outras mulheres vivem em suas jornadas para conseguirem tratamento efetivo. Foi a sua experiência pessoal que o motivou a se aperfeiçoar e fazer o melhor pelas suas pacientes. Ele aprendeu tudo o que pôde sobre a doença, documentado suas aparências visuais, como ela se comportava ao longo do tempo, e como ela se formava, e chegou rapidamente à conclusão de que o que haviam lhe ensinado na faculdade tinha pouco a ver com a realidade do que a endometriose realmente é e como ela pode ser melhor tratada. Com os livros médicos colocados de lado, ele desenvolveu novos conceitos sobre a endometriose e seu tratamento efetivo: a completa ressecção de toda a doença do corpo. De sua pequena cidade rural Bend, suas ideias e seus trabalhos começaram aos poucos a chamar a atenção da comunidade médica geral, e hoje são reconhecidas por líderes da especialidade como representando o padrão ouro de tratamento da endometriose.

Juntamente com a enfermeira Nancy Petersen, que trabalhava no mesmo hospital e que também tinha endometriose, fundou o Instituto Oregon de Endometriose em 1987, quando então o doutor Redwine começou a receber pacientes de fora do Estado. Em 1988 ele estava recebendo um número tão grande de pacientes que decidiu abandonar seu atendimento de obstetrícia para dedicar-se exclusivamente ao tratamento de mulheres com endometriose. O Instituto passou a ser reconhecido mundialmente. Foi destaque na  Hospital Benchmarks, a revista sobre as melhores práticas médicas, e foi citado pela Self Magazine como um dos melhores serviços de saúde do país, além de receber um prêmio por excelência da Associação Nacional de Mulheres Profissionais de Saúde.

Durante a sua carreira o doutor David Redwine publicou mais de 110 artigos científicos, monografias, cartas editoriais, capítulos de livros, e livros. Ele serviu em conselhos editoriais de várias revistas científicas e foi eleito para vários cargos de responsabilidade nos conselhos nacionais e internacionais de associações de ginecologia e laparoscopia. Ele apresentou seu trabalho ao redor do mundo, e durante suas viagens foi convidado a realizar cirurgias em alguns dos mais difíceis e desafiadores casos da doença. Ele também recebeu em Bend cirurgiões de várias partes do mundo que vinham aprender com suas técnicas cirúrgicas.

Enquanto a abordagem do doutor Redwine não era de forma alguma radical, seus resultados ofereciam esperança onde não havia nenhuma. A base de sua abordagem era simples: melhor identificação da doença e remoção meticulosa de todo tecido doente.  O objetivo do doutor Redwine era remover completamente e com segurança toda a endometriose do corpo de suas pacientes. Na maioria das vezes, seu objetivo era alcançado. Os resultados de longo prazo em seu instituto mostravam uma taxa de recorrência de menos de 19%, mesmo em cinco anos ou mais após a cirurgia. A maioria de suas pacientes ficava curada após uma única cirurgia.

Qualquer pessoa que o conheça apreciará seu senso de humor espirituoso, e sua inteligência afiada. Suas pacientes lembram-se do carinho e do acolhimento com que as tratava e aos seus familiares durante suas estadias em Bend. Ele era um médico realmente dedicado, fazendo tudo o que podia para proporcionar a cada paciente o melhor resultado possível, tendo todo e necessário tempo para conversar e escutá-las, e nunca desistindo independente do tamanho do desafio e da complexidade de suas doenças. Ele ainda detém o recorde no St. Charles Medical Center da cirurgia mais longa já realizada, passando 11 horas ressecando meticulosamente a doença de uma de suas pacientes.

O doutor Redwine passou 35 anos tratando endometriose, mudando a vida de milhares de mulheres em todo o mundo, e inspirando outros cirurgiões a seguirem seu legado fazendo o mesmo.

Para saber mais sobre a carreira e as publicações do Dr. Redwine, faça o download de seu curriculumvitae.


Fotos de David Redwine (esquerda para direita): foto de jornal, 17 anos de idade, vencedor da corrida da milha no torneio regional de atletismo dos estados do sul. Primeiros dias como interno (1975). Momentos antes de realizar cirurgia no hospital Acibadem, Istambul (Maio de 2010). Realizando apresentação no 2. Simpósio Cirúrgico e Encontro Anual da Endometriosis Foundation of America em Nova York (Março, 2011). Com sua esposa, Laurie, no Baile de Gala da Endometriosis Foundation of America, tendo acabado de receber um prêmio por suas contribuições no campo da endometriose (Março, 2011).


Nota do Tradutor: é certamente uma honra e um privilégio a nós, contribuidores (as) e leitores (as) do blog A Endometriose e Eu, podermos desfrutar dos ensinamentos do doutor David Redwine. Esse texto é um breve resumo de sua biografia, uma oportunidade para que todos nós o conheçamos um pouco melhor.

Como citado, a experiência do doutor Redwine influenciou médicos ao redor do mundo, sendo eu um deles. Tive uma influência indireta em um primeiro momento através de outro médico que considero amigo e mestre, e posteriormente tive o prazer de conhecer doutor Redwine pessoalmente. Em várias situações observei em congressos médicos o seu “embate” com outros profissionais da área de endometriose, que alegam ser a endometriose uma doença sempre recorrente e “sem cura”. Parece que não é bem assim.

Considero precoce (porém merecida) a aposentadoria do Dr. Redwine, no auge de sua experiência. Felizmente, nos deixou farto material (que sabiamente traduzimos com exclusividade aqui no blog), além de ser extremamente ativo ao dividir sua experiência com médicos e pacientes nas redes sociais. Obrigado, doutor Redwine.



Sobre o doutor Alysson Zanatta:
Graduado e com residência médica pela Universidade Estadual de Londrina, doutor Alysson Zanatta tem especializações em uroginecologia e cirurgia vaginal pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cirurgia laparoscópica pelo Hospital Pérola Byington de São Paulo e doutorado pela Universidade de São Paulo, USP. Suas principais áreas de atuação são a pesquisa e o tratamento da endometriose, com ênfase na cirurgia de remoção máxima da doença. Seus inter­esses são voltados para iniciativas que promovem a conscientização da população sobre a doença, como forma de tratar a doença adequadamente. É diretor da Clínica Pelvi Uroginecologia e Cirurgia Ginecológica em Brasília, no Distrito Federal, onde atende mulheres com endometriose, e ex-professor-adjunto de Ginecologia da Universidade de Brasília (UnB). (Acesse o currículo lattes do doutor Alysson Zanatta). 

terça-feira, 13 de junho de 2017

DAVID REDWINE: A IMPORTÂNCIA DA REVISÃO DOS PRONTUÁRIOS MÉDICOS NA ENDOMETRIOSE!!

Foto: A Endo e Eu


Neste brilhante texto, o médico e cientista americano David Redwine fala da importância dos prontuários médicos para o diagnóstico e tratamento da endometriose. Claro, nada substitui uma anamnese bem detalhada e o exame clínico, mas ter o histórico da paciente é importante para fechar o diagnóstico. Muitas vezes a mulher pode ter endometriose associada à outras doenças ou outras doenças que podem ter sintomas semelhantes aos da endometriose. Principalmente se ela for mais velha. Com mais de três décadas tratando apenas endometriose, o doutor Redwine descreve os locais mais comuns e previsíveis da endometriose, os sintomas que ela pode causar e os sintomas de doenças que derivadas do útero. Eu tinha muitas, mas muitas aderências, meus órgãos estavam todos embolados dando nó dentro de mim. A dor era insuportável, e eu não conseguia descrevê-las. Quando meu médico disse que minhas terríveis dores não eram da endometriose, eu fiquei p. da vida, mas depois da minha primeira cirurgia consegui distinguir o que era dor da endometriose e o que era das aderências. O doutor Redwine também aborda a questão da dependência para aquelas que fazem tratamento com medicamentos derivados do ópio, como morfina e seus derivados. Eu tive sorte por tê-los usado por pouco tempo, mesmo assim só os usava quando precisava tentar descansar um pouco, preferia passar mais tempo com dor. Acho que fiz a coisa certa. Este é mais um texto importante não só para ser compartilhado entre as endomulheres, mas com médicos e cirurgiões, especialmente, os que tratam de endometriose. Beijo carinhoso! Caroline Salazar 


Por doutor David Redwine
Tradução: doutor Alysson Zanatta
Edição: Caroline Salazar



O papel da revisão dos prontuários médicos no diagnóstico e no tratamento da endometriose

Quando uma paciente considera vir à Bend para realizar cirurgia (nota do tradutor: Bend era a cidade de residência e trabalho do doutor Redwine, no estado do Oregon, Estados Unidos), todo o processo se inicia pela revisão de seu prontuário médico. Se você alguma vez imaginou como seria esse processo, essa é sua chance de vê-lo através de meus olhos.

Supõe-se que a endometriose seja uma doença enigmática que enganou os médicos por décadas. Como pode, portanto, um médico sentir-se confortável em aconselhar uma paciente, por carta, que esteja a centenas ou milhares de quilômetros de distância com tal doença misteriosa e sem nunca tê-la visto? Bem, algumas vezes isso não é fácil. Eu de fato reviso pessoalmente todo o prontuário médico, e o levo para casa nos finais de semana para terminar durante as noites ou finais de semana. Eu tento reservar algum tempo para lazer, mas sinto que tenho uma responsabilidade com as pacientes que buscam minha ajuda, algumas vezes após 10 cirurgias prévias e várias tentativas de tratamento médico.

É possível fazer uma boa revisão do prontuário de quase todas as pacientes, porque (ao contrário do entendimento comum) a endometriose é uma doença previsível. Posso afirmar isso agora, após ter operado milhares de mulheres com a doença. Há muitas coisas que passam pela minha cabeça durante uma revisão de prontuário, e eu as discutirei agora.

Idade:

Quanto maior a idade da paciente, mais provável é que ela tenha alguma outra doença além da endometriose. Por exemplo, miomas e adenomiose uterina são mais comuns quando as mulheres envelhecem, e então as pacientes com mais de 35 anos podem ter algo além ou simultaneamente como causa da dor. A cirurgia conservadora para endometriose não tratará a dor de origem uterina.

Sintomas inespecíficos:

Se uma paciente tem dificuldade em descrever seus sintomas, como onde e quando eles ocorrem, então é possível que nem haja endometriose; ou seja, pode ser que ela não seja a causa das dores. Tal paciente pode não ter uma boa perspectiva de alívio da dor após a cirurgia.

Sintomas específicos:

A endometriose ocorre mais comumente no fundo de saco (nota do tradutor: região pélvica entre o útero e o intestino) e tecidos adjacentes. Qualquer fator que afete a doença nessa região causará dor, como a penetração profunda durante a relação sexual, exames ginecológicos e movimentos intestinais.

Se a paciente relata que tem dor aos movimentos intestinais durante todo o mês, ela pode ter um bloqueio do fundo de saco (o reto está preso à face posterior do colo uterino, indicando doença invasiva de toda a região). Se ela relata dores aos movimentos intestinais apenas durante as menstruações, pode ser que ela tenha endometriose apenas no fundo de saco e nos ligamentos útero-sacros.

Uma dor menstrual que é relatada na parte central da pelve com irradiação para a face anterior das coxas, além de dor lombar baixa até o umbigo, costuma ser proveniente do útero. A remoção da endometriose pode não tratar esse tipo de dor.

Idade de início dos sintomas: muitas pacientes com endometriose começam a ter dor na adolescência (menstruações dolorosas), e desenvolvem outros tipos de dor com o passar dos anos (dor na relação sexual, dores aos movimentos intestinais, dor ao se sentar, dor fora do período menstrual, etc). Assim, muitas pacientes que eu vejo têm um diagnóstico cirúrgico de endometriose por volta dos 30 anos de idade. Se a paciente relata que suas dores começaram após os 35 anos de idade, é pouco provável que a endometriose seja a culpada pela dor.

História de incapacidade extrema e de dependência de medicações narcóticas:

É extremamente raro que a endometriose cause incapacidade a uma paciente ao ponto dela estar em uma cadeira de rodas, dependente de muletas, ou ficar acamada por vários meses seguidos sem trabalhar. É pouco provável que tal incapacitação seja causada pela endometriose e que a cirurgia melhore essa situação.

A endometriose é uma condição dolorosa que eventualmente requer medicações narcóticas (nota do tradutor: medicações opioides como morfina ou seus derivados) para o tratamento, e há, portanto algum potencial para desenvolvimento de dependência, tolerância ou vício. Isso significa que essa paciente irá necessitar de mais analgésicos após a cirurgia, mas pode ser também que ela seja dependente e peça para ficar mais tempo no hospital para receber medicações intravenosas ou intramusculares e ainda necessitar de desmame de medicação quando ela retornar para casa.

Um dos sintomas da abstinência dos medicamentos pode ser a dor abdominal, a qual pode às vezes se sobrepor aos sintomas da endometriose. Tais pacientes têm mais trabalho a fazer do que apenas a recuperação da cirurgia.

Histórico de gestações:

Apesar da gestação não fazer a endometriose desaparecer, a endometriose pode ser uma causa de infertilidade. Portanto se uma mulher esteve grávidas várias vezes, é menos provável que ela tenha endometriose severa.

Resposta a tratamentos medicamentosos:

O tratamento medicamentoso não erradica a endometriose. O melhor que ele pode fazer é melhorar temporariamente a dor enquanto a função ovariana da mulher estiver suprimida. Uma vez que o tratamento é interrompido, os ovários acordam em algumas semanas e a dor recorre, porque sua causa ainda está presente.

A melhora da dor com medicações não significa necessariamente que a paciente tenha endometriose porque várias outras causas de dor podem melhorar por um tempo com medicações, como miomas, adenomiose, dor da ovulação e a dismenorreia (nota do tradutor: cólica de origem uterina sem origem aparente).

Achados em cirurgias prévias:

Os relatos de cirurgias prévias podem ajudar bastante. Algumas vezes a endometriose é óbvia e “clássica” em sua descrição e eu posso ter clara certeza de que está presente mesmo que não tenha sido realizada nenhuma biópsia. Algumas vezes o bloqueio do fundo de saco é descrito como “aderências severas atrás do colo do útero” ou “o intestino estava bastante aderido ao útero”.

Tais relatos carecem de significado. A paciente tem mais do que apenas aderências – ela tem endometriose profunda dos ligamentos útero-sacros, fundo de saco, região posterior do colo uterino e geralmente na parede anterior do reto.

Resposta clínica às cirurgias:

A cauterização de focos e o tratamento com laser podem deixar doença para trás, especialmente se a doença é profunda abaixo da superfície. Eu quase sempre encontro endometriose nessas pacientes, e sou otimista quanto ao seu prognóstico. Mas se a paciente passou por uma boa cirurgia de remoção, eu geralmente não encontro endometriose ou encontro muito pouco, já que a remoção pode curar a doença. A dor que persiste após uma cirurgia de remoção extensa da doença é normalmente causada por outros motivos.

Exames ginecológicos prévios:

Na maioria das pacientes é fácil acessar o fundo de saco durante o exame ginecológico. A região costuma ser dolorosa mesmo se a paciente estiver tomando remédios. Quando eu leio que um exame ginecológico anterior demonstrou dor ou nódulos dolorosos (nódulos indicando endometriose profunda), é altamente provável que haja endometriose e que ela seja a responsável pela dor.

Se o exame reproduz a dor da paciente, a perspectiva de alívio da dor após a cirurgia é alta. Se o exame não reproduz a dor, significa que o (a) médico (a) não atingiu a região correta (dedos curtos?) ou que talvez nem haja endometriose. Tais pacientes têm poucas chances de melhora após a cirurgia.

Coisas que não ajudam:

Exames de Papanicolaou (citologias oncóticas), exames laboratoriais normais, registro de medicações utilizadas no hospital em cirurgias prévias, registros obstétricos.

Coisas que ajudam:

No mínimo, é necessária uma história clínica detalhada da paciente, mas registros de cirurgias prévios também são sempre úteis. Algumas pacientes passaram por tantas cirurgias que elas não conseguem localizar todos os relatórios, especialmente daquelas mais antigas. Os relatórios cirúrgicos recentes são mais úteis.

Resumindo:

A revisão dos prontuários é uma arte, mas em minha experiência ela pode fornecer uma quantidade enorme de informações com alto grau de acerto, sendo uma ferramenta indispensável na prática clínica. Você nem sempre é preciso, mas um exame ginecológico em uma paciente antes da cirurgia pode preencher várias lacunas e responder várias perguntas.

A avaliação final deverá sempre aguardar a recuperação completa da paciente, já que a dor que é causada pela endometriose terá desaparecido após a sua remoção. A dor persistente significa que ela era causada por algum outro fator, e não pela persistência de “focos microscópicos” ou doença que está escondida em algum outro local e que não possa ser encontrada.

Nota do Tradutor:

Nesse texto, doutor Redwine faz uma distinção entre os sinais e os sintomas que sugerem endometriose daqueles que possivelmente não são causados pela doença. O assunto é muito importante, pois, ao formarmos um raciocínio clínico sobre a real causa das dores de uma mulher (seja endometriose ou não), teremos mais chances de acertarmos em nossas decisões.

Assim, o ponto mais importante na avaliação da mulher é estabelecermos uma relação de causa e efeito entre sua doença e seus sintomas. Em alguns casos encontraremos mulheres que de fato têm endometriose, mas cuja doença não explicaria suas queixas. Ter o entendimento e o “feeling” dos sintomas comuns da endometriose é fundamental na principal decisão a ser tomada: operar ou não operar?

Há poucas coisas tão frustrantes quanto passar por uma cirurgia e não ter melhora. A maior frustrada é a própria mulher, mas o médico também o é. Há um ditado em Medicina que diz que “mais importante do que saber operar, é saber quando não operar”. Isso é nítido no caso da endometriose. O grau de satisfação de ambos paciente e médico dependerá de uma correta indicação cirúrgica e de uma remoção máxima e efetiva da doença. E a indicação correta depende não mais do que uma boa conversa (impossível em consultas de 15 minutos), um exame ginecológico que identifique a dor e um exame de imagem feito por especialista. Fechando-se o raciocínio clínico, a cirurgia terá alta chance de sucesso. Não se fechando, pode ser que paciente fique ainda mais satisfeita por não passar por cirurgia desnecessária. 


Sobre o doutor Alysson Zanatta:
Graduado e com residência médica pela Universidade Estadual de Londrina, doutor Alysson Zanatta tem especializações em uroginecologia e cirurgia vaginal pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cirurgia laparoscópica pelo Hospital Pérola Byington de São Paulo e doutorado pela Universidade de São Paulo, USP. Suas principais áreas de atuação são a pesquisa e o tratamento da endometriose, com ênfase na cirurgia de remoção máxima da doença. Seus inter­esses são voltados para iniciativas que promovem a conscientização da população sobre a doença, como forma de tratar a doença adequadamente. É diretor da Clínica Pelvi Uroginecologia e Cirurgia Ginecológica em Brasília, no Distrito Federal, onde atende mulheres com endometriose, e ex-professor-adjunto de Ginecologia da Universidade de Brasília (UnB). (Acesse o currículo lattes do doutor Alysson Zanatta). 

domingo, 3 de janeiro de 2016

DAVID REDWINE: MULLERIOSE - A MELHOR TEORIA PARA A ORIGEM DA ENDOMETRIOSE!

No texto de hoje, o cientista americano doutor David Redwine fala, mais uma vez, sobre a teoria que para ele melhor explica a origem da endometriose. É um artigo muito interessante onde ele questiona a real origem da endometriose e nos apresenta dados reais de que podemos, sim, ter endometriose desde o nascimento. Aqui Redwine também fala da questão da infertilidade, grupo o qual menos de um terço das endomulheres estão inseridas. Portanto, esse não é o sintoma mais frequente, e sim, a dor severa, mas mesmo assim ainda é o que mais preocupa as mulheres, principalmente, as mais jovens. Vale ressaltar que se bem excisada e tratada e sendo acompanhada por um bom especialista a infertilidade poderá se tornar algo secundário. Cada caso é um caso, não podemos comparar com aquela que tem endo profunda em vários órgãos, dentre eles, nas trompas e nos ovários (endometriomas). Outro ponto forte é o fato de que a gestação não é um tratamento para a doença. Por isso sempre bato na tecla do fato de a endomulher ser muito bem acompanhada por um especialista que realmente entenda sobre a doença. Leia o texto com atenção. Beijo carinhoso! Caroline Salazar

Por doutor David Redwine
Tradução: doutor Alysson Zanatta
Edição: Caroline Salazar

Mülleriose: a melhor teoria para a origem da endometriose 

A histogênese da endometriose permanece controversa. Acredita-se que nenhuma teoria possa explicar todos os casos de endometriose. Devido aos novos conhecimentos, devemos constantemente questionar as crenças tradicionais. Estudos modernos e a reinterpretação de evidências históricas levam inevitavelmente a um modelo único para explicar a origem da endometriose, que é uma extensão da teoria dos restos embrionários. A esse modelo, sugere-se o termo Mülleriose, já que o termo endometriose é muito limitante. Esse modelo para a doença propõe a sua própria comprovação.

Introdução:

As discussões sobre a origem da endometriose são mais que meras discussões acadêmicas, pois, se sua origem fosse conhecida, poderíamos desenvolver um tratamento racional para a doença. Entretanto, as discussões na literatura mudaram muito pouco nos últimos 60 anos, os proponentes das várias teorias sobre a origem da doença apresentando e reapresentando evidências circunstanciais para embasarem seus vícios de observação.

Técnicas modernas de estudo, como a laparoscopia de contato [2], o mapeamento pélvico [3], as biópsias peritoneais múltiplas[1, 2, 3], e astutas observações clínicas [4] originaram novas informações clínicas e básicas sobre a doença, que até então não eram conhecidas pelos antigos cientistas.

Está claro agora que muitas das manifestações visuais caracterizadas pela cor [2,3] e tamanho [5] das lesões são tão sutis que elas foram sub-diagnosticadas, sem dúvida, tanto no passado como no presente. Isso porque muitos dos antigos trabalhos falam das lesões “negras” ou “em pólvora”, ou de outras manifestações escuras resultantes de hemorragia adjacente às glândulas e estroma endometrióticos. Sabemos agora que as lesões escuras constituem apenas um terço das lesões de endometriose [2] e que lesões tão pequenas quanto 100 μm já foram detectadas. Quando se considera todo o espectro de manifestações da doença, fica claro que a dor é o sintoma mais comum, e que a infertilidade está presente em menos de um terço das pacientes.

...a dor é o sintoma mais comum e ... a infertilidade está presente em menos de um terço das pacientes...

Devido a estas observações, é provável que o entendimento convencional sobre a origem da endometriose seja influenciado por um viés de seleção significativo em dois níveis: seleção de pacientes baseada em um perfil clínico inadequado, e falha na identificação da doença durante a cirurgia.

...o entendimento convencional sobre a origem da endometriose é influenciado por um viés de seleção significativo em dois níveis: seleção de pacientes baseada em um perfil clínico inadequado, e falha na identificação da doença durante a cirurgia...

Na verdade, a endometriose é uma doença predominantemente de mulheres férteis em qualquer idade, que sofrem principalmente de uma dor pélvica não menstrual causada mais comumente por lesões não negras que são facilmente despercebidas, e que não se espalham pela pelve com o passar dos anos. A infertilidade e a dismenorreia são sintomas menos comuns, e que frequentemente não são causados pela endometriose. Há frequentes alterações anatômicas e fisiológicas, mas que não necessariamente resultam da endometriose.

Já que sua origem permanece desconhecida, cada médico que trata pacientes com endometriose é obrigado a considerar o seu próprio modelo de doença para escolher o tratamento. Há muitos tratamentos porque existem muitas teorias para sua origem. Seria imensamente satisfatório se uma única teoria pudesse explicar tudo o que sabemos sobre a doença.

...a endometriose é uma doença predominantemente de mulheres férteis em qualquer idade, que sofrem principalmente de uma dor pélvica não menstrual causada mais comumente por lesões não negras que são facilmente despercebidas, e que não se espalham pela pelve com o passar dos anos. A infertilidade e a dismenorreia são sintomas menos comuns e que frequentemente não são causados pela endometriose.

Mülleriose, o meu melhor modelo para a origem da endometriose, refere-se a um defeito na diferenciação ou migração de qualquer componente celular do sistema de ductos de Müller (nota do tradutor: ductos a partir dos quais se origina todo o trato genital feminino interno, incluindo trompas, útero, e porção superior da vagina), quer seja endometrial, miometrial, tubáreo ou cervical, ou do substrato epitelial celômico do peritônio adulto, do qual originam-se ambos os ductos Müllerianos e o peritônio. O conceito de Mülleriose é uma visão ampliada da teoria dos restos embrionários proposta por Russell [6] e outros. Ela é diferente da teoria da Müllerianose de Sampson, um termo que se refere apenas a elementos endometriais ectópicos que ele considerou, e então descartou [7].

A natureza típica da endometriose de não se espalhar [1] e a sua baixa recorrência após a cirurgia conservadora [8,9,10,11,12] seriam uma consequência natural de um defeito de desenvolvimento presente ao nascimento. Como as vias de diferenciação e migração dos ductos de Müller é caudal em direção ao epitélio celômico dorsal [13,14], não causa surpresa o fato de que as lesões sejam mais comuns na pelve posterior, particularmente o fundo de saco e os ligamentos útero-sacros [15]. Uma vez que seja proposto um defeito na diferenciação ou migração, pode-se explicar a ocorrência da doença em qualquer parte do corpo [15, 16, 17, 18, 19, 20]. A ocorrência no tórax ou braço pode ser explicada pelo fato de que as cristas genitais, das quais se originam os ductos de Müller, estão localizadas bem altas, próxima ao tórax e dos cotos dos braços embrionários [21, 22].

A endometriose na bexiga [23] e próstata [24] do homem é explicada pela desdiferenciação incompleta dos ductos müllerianos durante a vida embrionária. A ocorrência concomitante com outros defeitos estruturais Müllerianos, como a atresia cervical [25], a síndrome do dietilbestrol [26, 27] (nota do tradutor: malformações do trato genital interno causadas pela medicação dietilbestrol, bastante usada no passado), e a síndrome de Rokitansky-Kuster-Hauser [28] (nota do tradutor: ausência congênita do útero e da porção superior da vagina) representa possivelmente uma relação ontológica: o que quer que tenha causado um defeito mesenquimal durante o período embrionário, também causou a migração aberrante das células endometriais, levando à endometriose. O ditado que “a endometriose não se desenvolve na ausência de endométrio” não é uma verdade absoluta [28, 29], e não exclui uma relação ontológica do endométrio com a endometriose.

...o ditado que “a endometriose não se desenvolve na ausência de endométrio” não é uma verdade absoluta [28, 29], e não exclui uma relação ontológica do endométrio com a endometriose...

A associação positiva com as falhas peritoneais [4, 19, 20, 30] possivelmente representa outra relação ontológica, um defeito simultâneo na formação do peritônio pélvico associado a uma migração ou diferenciação aberrante do tecido que se tornará endométrio.

A ocorrência de outros tecidos Müllerianos ectópicos, como cervical, miometrial ou tubário (Figura 1) [31] simplesmente significa que qualquer componente celular Mülleriano está sob risco de diferenciação ou migração aberrante. O tecido que se tornará endométrio (a endometriose) é de longe o mais comum, e o que causa mais sintomas.


Figura 1. Estruturas semelhantes a fímbrias tubárias removidas do ligamento útero-sacro esquerdo

Os vários graus de diferenciação histológica que ocorrem nas lesões e entre elas (Figuras 2 e 3) podem resultar da maturação incompleta durante a embriogênese, ou dos vários (e baixos) níveis de receptores de estrogênio e progesterona presentes nas lesões [32, 22, 34]; eles podem resultar por si só de uma maturação incompleta. Um diagnóstico histológico de “resto glandular mesotelial” pode representar ou uma glândula endometrial seccionada longe do estroma, ou uma forma tênue de endometriose.

Figura 2. Alguns elementos glandulares e estromais são mais diferenciados que outros na observação microscópica

Figura 3. Na endometriose, é possível observar uma variação intralesional na diferenciação. As glândulas e estromas bem diferenciados (esquerda) estão em claro contraste com a aparência esparsa em outra parte da mesma glândula (direita). A área negra no canto inferior representa uma dobra de tecido criada durante o preparo da lâmina. Se o corte tivesse sido realizado apenas sobre o material à direita, não haveria o diagnóstico de endometriose. O diagnóstico poderia ter sido de cisto de inclusão mesotelial
Muitas pesquisas relataram mulheres com endometriose que tiveram filhos, enfraquecendo, portanto a associação entre endometriose e infertilidade (1, 4, 35, 36, 37, 38, 39, 40); não há nenhuma evidência de qualquer efeito benéfico da gravidez sobre a endometriose [41, 42, 43]. Como a endometriose nem sempre é a causa inequívoca da infertilidade, uma explicação alternativa para a infertilidade poderia ser a ocorrência de defeitos estruturais sutis das trompas uterinas durante o período embrionário, que levariam à disfunção tubária ou outras alterações em qualquer lugar da pelve ao nível molecular. Seriam as alterações ovulatórias [44, 45, 46, 47] identificadas nas mulheres com endometriose secundárias à doença, ou poderiam ser uma manifestação de um defeito primário durante a embriogênese? O mesmo questionamento se aplica às alterações imunológicas recentemente observadas no sistema imunológico dessas pacientes [48, 49]. Defeitos tubários como fímbrias acessórias e hidátides são vistas mais comumente em mulheres com endometriose, e podem até mesmo ter uma relação positiva com o lado em que ocorre a doença na pelve.

Os fatos e especulações citados acima enfraquecem vários pilares da teoria de Sampson. Não há provas para a hipótese de que as raras obstruções do fluxo menstrual, como a estenose cervical, predispõem à endometriose pelo aumento do fluxo retrógrado. Além disso, esta hipótese é menos provável do que aquela de que, ambas as obstrução do fluxo menstrual e endometriose, tenham na verdade uma causa em comum durante o desenvolvimento. Não pode mais se dizer que os ovários sejam os locais mais comuns de endometriose porque eles estão mais próximos ao local de refluxo da menstruação. O efeito da gravidade não é mais a explicação mais plausível para a ocorrência da doença na profundidade da pelve. São falsos os conceitos interligados de que a doença inevitavelmente se espalha pela pelve, e que os índices de recorrência após a cirurgia são altos. É errada a noção de que a gravidez protege contra a doença, e ninguém jamais provou que a endometriose tenha um efeito tóxico sobre a gestação. A ideia de que a endometriose se espalha e se implanta na pelve nunca foi provada microscopicamente, e é difícil de acreditar nisso, pois ninguém jamais definiu as lesões de endometriose em camadas, semelhantes àquelas do endométrio. Além disso, as lesões de endometriose não respondem como o endométrio nativo por causa da baixa e variável população de receptores hormonais.

...não há provas para a hipótese de que as raras obstruções do fluxo menstrual, como a estenose cervical, predispõem à endometriose pelo aumento do fluxo retrógrado. Além disso, esta hipótese é menos provável do que aquela de que ambos obstrução do fluxo menstrual e endometriose tenham na verdade uma causa em comum durante o desenvolvimento...


Em adição a esses argumentos contrários à teoria da menstruação retrógrada de Sampson, há um fato que fala ainda mais alto contra ela: ninguém jamais demonstrou provas microscópicas convincentes da adesão e implantação peritoneal da endometriose. Considerando as milhões de pacientes que foram diagnosticadas com a doença, e as milhões de biópsias que foram realizadas, alguém certamente teria encontrado “a lâmina de ouro” demonstrando esse suposto e mais comum modo de origem. Na verdade, o estudo microscópico das pápulas claras, que estão entre as manifestações mais precoces da doença [2], não demonstrou nenhuma evidência de que estas células tivessem se aderido recentemente (Figura 4). Estudos recentes [50, 51] que demonstraram líquido peritoneal sanguinolento durante a menstruação não comprovaram nem a menstruação retrógrada e nem a implantação de endométrio viável, e as pacientes com endometriose não têm um refluxo preferencial de endométrio [52, 53]. Como a teoria de Sampson evoluiu baseada apenas em evidências circunstanciais, a ausência de provas deve ser entendida como uma forte evidência contra ela.

Figura 4. Fotomicrografia de baixa potência de uma pápula clara de endometriose na superfície peritoneal. Não há nada que possa sugerir uma implantação recente ou antiga

Se a endometriose for vista como uma alteração de desenvolvimento que está ontologicamente relacionada a outros defeitos anatômicos e fisiológicos, segue-se então que poderíamos ter evidências para comprovar essa hipótese se examinássemos o peritônio pélvico antes da puberdade (nota do tradutor: período da adolescência onde há desenvolvimento de caracteres sexuais secundário, e no qual está incluído a menarca, ou primeira menstruação).

...considerando as milhões de pacientes que foram diagnosticadas com a doença e as milhões de biópsias que foram realizadas, não é de se esperar que alguém tivesse encontrado “a lâmina de ouro”  demonstrando a adesão peritoneal precoce e a implantação da endometriose?

Relato de um estudo:

Materiais e Métodos:

Já que o mapeamento da pelve demonstrou que o fundo de saco de Douglas (nota do tradutor: na pelve posterior, “atrás” do útero) é o local mais comum onde ocorre a endometriose [1], eu decidi examinar biópsias peritoneais de crianças que morreram por síndrome da morte súbita do infante (SIDS). O laboratório de Oregon é encarregado de investigar as mortes suspeitas, e realiza rotineiramente autópsias em vítimas de SIDS. Os espécimes obtidos continham a face posterior do colo, fundo de saco, e parte do reto unidos pelos ligamentos útero-sacros. Oito amostras foram obtidas deste laboratório, e uma foi obtida com um legista que trabalhava na comunidade.

Em todos os casos, uma lupa magnificadora foi utilizada para examinar o peritônio do fundo de saco. Em um caso, foi identificada uma placa esbranquiçada e fina de aproximadamente 200 μm de diâmetro. Ela foi retirada, fixada em formol e corada com hematoxilina e eosina para avaliação microscópica.

Resultados:

O achado microscópico da placa encontrada em um bebê de dois meses de idade demonstrou uma estrutura glandular, achatada, com epitélio bem definido, e circundada por possível estroma endometrial (Figura 5).

Figura 5. Fotomicrografia de alta potência de uma lesão glandular encontrada no fundo de saco de um bebê de dois meses de idade

Discussão:

Estudos modernos e a reinterpretação da literatura sobre a endometriose levaram a um modelo de origem da doença na qual poderíamos supor que ela estivesse presente já ao nascimento, e muito provavelmente encontrada no fundo de saco. A evidência acima suporta esta hipótese. Outros investigadores não encontraram tais evidências no feto {21, 22, 54], apesar de não ter ficado claro de quão frequente e próximo o fundo de saco foi examinado (nota do tradutor: pelo menos três estudos subsequentes publicados após esse artigo já demonstraram a presença de endometriose em fetos (nota da editora: leia nossos textos sobre endometriose em fetos: texto 1, texto 2 e texto 3). Ninguém sabe como se pareceria microscopicamente à endometriose em bebês. Apesar dos fetos serem expostos ao estrogênio materno através da placenta, essa exposição pode não ser o suficiente para que células estromais atinjam características identificáveis. Além disso, não há dados sobre a presença de receptores hormonais nestas áreas nos bebês.  Portanto, o tecido encontrado nesse estudo pode ou não representar endometriose. Entretanto, a interpretação é provocativa e sugere a necessidade de mais estudos sobre o peritônio pélvico posterior de meninas antes da menarca, seja durante uma autópsia ou durante uma cirurgia.  Até que isso seja realizado, haverá controvérsias sobre a origem da endometriose.

Apesar do achado de elementos glandulares sugestivos de endometriose em crianças suportarem a hipótese de uma origem embrionária, a metaplasia (nota do Tradutor: transformação de um tipo celular em outro tipo celular) ainda poderia explicar a origem da endometriose, apesar de certos pré-requisitos serem necessários: algumas áreas predeterminadas da pelve deveriam, de alguma maneira, ser selecionadas para passarem por metaplasia, e as extensões dessas áreas deveriam ser semelhantes e relativamente constantes em todas as faixas etárias.

Apesar de haver o relato de possível metaplasia em uma paciente [29], a suposta metaplasia que foi ilustrada poderia representar uma diferenciação embrionária que foi interrompida, e as invaginações da superfície ovariana ilustradas podem simplesmente representar uma das muitas formas da endometriose, ao invés de um tipo de metaplasia.

Um filtro de Millipore preenchido com fragmentos de endométrio foi implantado de forma autóloga em coelhos, e resultou na indução de elementos glandulares ao longo do filtro [55]. Este achado não pode ser interpretado como uma prova de metaplasia, já que não ficou claro se os filtros ilustrados foram resultados de implante (seja no fundo de saco, ligamento largo ou parede abdominal anterior), ou se os elementos glandulares representam claramente endometriose.

O conceito de Mülleriose não tenta explicar a implantação cirúrgica da endometriose [56, 57, 58]. Esses casos não provam a implantação sobre o peritônio ou qualquer outro local além do local cirúrgico, já que uma cicatriz cirúrgica é essencialmente diferente do peritônio.

Não há evidências na literatura que comprovem uma implantação endometrial precoce. Para ser convincente, tal evidência deveria demonstrar claramente a aderência dos fragmentos endometriais na superfície peritoneal, sem a penetração. A natureza da adesão, seja fibrosa ou outra, pode ser esclarecida pelo uso da microscopia eletrônica. Além da aderência, a penetração deve ser demonstrada. Sem tal evidência, a teoria da implantação permanecerá como um moinho de vento ginecológico pelo qual sucessivas gerações de teóricos irão lutar. Nova evidência para suportar a teoria de origem embriológica da endometriose
Esse artigo foi originalmente publicado em novembro de 1988. Agora, quase um quarto de século depois, a questão pertinente é se pesquisas recentes suportam a teoria da Mülleriose como o melhor modelo para explicar a origem da endometriose.

Uma sugestão desse artigo foi a realização de pesquisas sobre o peritônio pélvico posterior em meninas antes da menarca, seja durante uma cirurgia ou uma autópsia. Apesar de nenhum estudo semelhante ter sido realizado até o momento, Ebert e colaboradores [59] descrevem um caso de endometriose confirmada por biópsia em uma porção à direita do fundo de saco de Douglas e do ligamento útero-sacro direito em uma garota de 9 anos que nunca tinha menstruado, que tinha uma dor pélvica cíclica sem causa aparente. Além disso, os resultados de uma série inicial de nove fetos femininos foram posteriormente confirmados em uma série de 101 autópsias de fetos humanos femininos, nos quais houve a confirmação de endometriose em 11 deles [60]. Assim como no trabalho inicial, a localização e o padrão da endometriose, e a taxa de recorrência, se parecem fortemente com os padrões da doença em adolescentes e mulheres adultas.

Nota do Tradutor: a comprovação da origem da endometriose é, indiscutivelmente, o fator mais importante para que haja avanços em seu tratamento. Perdemos praticamente um século atados à teoria da menstruação retrógrada, e, infelizmente, parece que esse nó não irá se desfazer a curto prazo. Continuarmos acreditando que a endometriose é causada pela menstruação significa não resolvermos o sofrimento de milhões de mulheres ao redor do mundo, além de desperdiçarmos esforços e dinheiro em tratamentos paliativos.

Nesse artigo, o Dr. David Redwine, com sua grande experiência cirúrgica e o seu típico questionamento dos fatos, nos propõe que enxerguemos a endometriose como uma doença presente desde o nascimento, de origem embrionária. Na realidade, essa teoria, posta de maneira semelhante, mas não exatamente igual, antecede a teoria da menstruação retrógrada proposta por Sampson em 1927. O Dr. Redwine nos coloca essa teoria reformulada 25 anos antes dos primeiros relatos de endometriose em fetos, o que recentemente tem reforçado a hipótese. Entender essa teoria, bem como os seus desdobramentos, torna-se obrigatório para que tenhamos avanços reais no tratamento da endometriose.

Outro fato a se destacar nesse artigo é a observação do Dr. Redwine de que menos de um terço das mulheres com endometriose pode ter infertilidade. A dificuldade para engravidar costuma ser a maior preocupação da mulher com endometriose, mesmo que ela eventualmente tenha dor severa. Com o avanço do diagnóstico, haverá cada vez mais mulheres que receberão o diagnóstico da endometriose antes que considerem ter filhos, mesmo na adolescência, o que pode gerar preocupações sobre seu futuro reprodutivo.

Devemos entender que ter endometriose não é sinônimo de infertilidade. Assim, nós médicos não deveríamos recomendar às mulheres com endometriose que mudem seus planos reprodutivos e antecipem uma gravidez devido à doença, ainda que não estejam preparadas. O planejamento reprodutivo é íntimo e pessoal. Como médicos, devemos informar as mulheres sobre todos os fatores que podem influenciar negativamente suas chances reprodutivas, o mais importante deles sendo, indiscutivelmente, a idade em que buscará a gestação. Com informações corretas, incluindo aquelas sobre a endometriose, as escolhas tornam-se mais fáceis.