quinta-feira, 11 de maio de 2017

A HISTÓRIA DA LEITORA SORAIA SABINO LARA, SUA ENDOMETRIOSE PROFUNDA E SUA GESTAÇÃO DO CORAÇÃO!!

A mineira Soraia Sabino Lara, seu marido, Wellington Lara de Souza,
e o filho, que ainda não pode mostrar o rosto por decisão judicial


Neste mês de maio o A Endometriose e Eu conta uma história muito especial da leitora mineira Soraia Adriana Sabino Lara, de 40 anos, que descobriu ser portadora de endometriose profunda anos após ser diagnosticada com infertilidade sem causa aparente, e quase 10 anos após iniciar suas primeiras tentativas de gestar seu bebê. Cerca de 20% da infertilidade feminina e masculina não tem causa aparente, ou seja, não tem diagnóstico. Como muitas endomulheres, a Adriana só descobriu sua infertilidade após dois anos de frustradas tentativas para engravidar. Mesmo com esse possível diagnóstico, ela seguiu sua intuição e foi atrás por conta própria tentar descobrir o que tinha. No meio do caminho o marido de Adriana também se descobriu infértil. Com o desejo de ser pais, o casal optou pela adoção. Ser mãe é mais que gerar um filho no ventre, é gerar seu filho primeiramente no coração, lugar onde todos os filhos devem ser gerados. Eu gosto muito de contar histórias de leitoras que se tornaram mães no Mês das Mães, e neste ano, minha emoção é maior, pois é a primeira vez que contamos um testemunho de adoção na coluna. É impressionante como nossos filhos são os escolhidos de Deus, sejam eles gerados no ventre ou no coração. E o emocionante testemunho de Adriana é a prova disso. Afinal, quando sabemos se é essa ou aquela criança? E se eu sentir aquela identificação com a criança? Isso aconteceu com Adriana e seu marido. Após o relato de Adriana temos certeza que precisamos espalhar a correta conscientização da endometriose para que outras mulheres não passem o que ela passou. O descaso e o despreparo dos médicos são absurdos e temos de mudar esta realidade o mais urgente possível. E juntas iremos conseguir. Mais um texto que vai inspirar muitas endomulheres que desejam alcançar o sonho da maternidade. Segurem as lágrimas. Beijo carinhoso! Caroline Salazar 

Nota da editoraA Adriana entrou em contato comigo após os textos da coluna "Gestação do Coração", onde nossa querida Ane relata sua maternidade por meio da adoção. Por questão judicial, a Adriana ainda não pode mostrar o rosto do filho e nem falar seu nome, mas com certeza ela voltará na coluna "Gestação do Coração", quando sair a guarda definitiva para mostrar sua preciosidade.

“Meu nome é Soraia Adriana Sabino Lara, tenho 40 anos e sou casada com o Wellington Lara de Souza, de 43, e sou de Ibirité, região metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais. Estamos casados há 20 anos e, desde namorados, sempre planejamos filhos em nossas vidas. Dizíamos que iríamos ter três filhos, mas a história não foi tão simples como imaginávamos.

Quando tínhamos quatro anos de casados, em 2001, começamos a tentar ter filhos. Tentamos por meios naturais por quase dois anos. Como não conseguimos começamos a nos preocupar. Então, procurei médicos e fiz vários exames, mas nenhum deles detectava nada de errado comigo. Com isso meu marido começou a fazer exames também. E ora ele tinha alguma coisa, ora não apresentava nada. Ou seja, parecia que nem mesmo os médicos sabiam o que tínhamos.

Nisso se passaram mais uns dois anos fazendo exames e nada. Aí resolvemos ir a uma clínica de reprodução humana. Fizemos novos exames e o resultado foi: "esterilidade sem causa aparente". Não sei se era bom ou ruim ouvir isso. Mas mesmo assim nunca me pediram para fazer uma vídeolaparoscopia para verificarem se eu tinha algo mais grave ou não.

Decidiram que nós deveríamos fazer uma inseminação artificial na esperança de conseguirmos a tão sonhada gravidez. Fizemos a tal inseminação, mas eles não nos explicaram nada sobre os custos de todo o tratamento. Também não nos falaram que talvez precisássemos fazer três tentativas ou até mais, e que talvez teríamos que partir para fertilização a vitro, que é mais caro que a inseminação.

Fizemos apenas uma tentativa, que não deu nada certo. Quando soube que teria de fazer, pelo menos, três tentativas antes da FIV, desisti do tratamento. Na época não tínhamos conhecimento sobre valores e não sabíamos se dava para investir o pouco que tínhamos, já que os médicos não sabiam direito o que eu tinha. É bom ressaltar que nesta época ainda não se falava muito em endometriose. Comecei a ler muito sobre a infertilidade e suas causas e até achei que eu poderia ter a doença, cheguei a falar para alguns médicos, que não me derem ouvidos. Foi aí que resolvemos entrar na fila de adoção, pela a primeira vez. Eu já tinha certeza que queria adotar, mas meu marido entrou na fila meio que obrigado. Nessa época ele não queria muito a adoção, mas aceitou. E começamos a investigar a infertilidade de meu esposo.

Na época eu mesma falei que se meu marido tivesse feito um ou dois exames tinha sido muito. Ele foi a vários urologistas e depois de muitos, mas muitos exames constatou que ele tinha varicocele leve (nota da editora: inflamação das veias que drenam o sangue dos testículos e é a principal causa de infertilidade masculina, e mesmo tendo boa qualidade de esperma, eles tinham variações, uns eram mortos, outros lentos, outros deficientes e o restante guerreiros (risos). Até aí já era meados de 2003.

Enquanto esperávamos na fila continuei procurando a causa da minha infertilidade. Até que encontrei uma médica, que apesar de ela não tratar a endometriose, sugeriu que eu poderia ter a doença, e me indicou um médico. Passei em consulta com esse médico que me indicou outra. E aí depois de mais e mais consultas e exames, ela solicitou uma vídeolaparoscopia e foi constatada endometriose grau III quase IV. Depois de tanto tempo, em maio de 2010, descobri a causa da minha infertilidade.

Eu tinha focos em vários órgãos, em praticamente toda a minha pelve estava tomada de focos de endometriose. Eu tinha foco em toda a cavidade abdominal, nas paredes abdominais, no intestino, no fígado, na vesícula e meus ovários estavam aderidos ao útero.

Minha pelve também estava toda congelada. Fiz a cirurgia e ouvi da minha médica: “Você é louca de adotar filho. Você vai conseguir engravidar naturalmente agora. Sai da fila que você tem 90% de chance de engravidar”.

Como não conhecia nada sobre a endometriose e nunca tinha ouvido falar dessa doença, saímos da fila de adoção. Na expectativa de engravidar, tomei muitos hormônios, engordei 10 quilos e fiquei com menopausa precoce. Sofri muito nesta época.

Menos de um ano da primeira fiz outra videolaparoscopia para ver como estava minha endometriose e viram que estava tudo limpinho. Disseram que estava pronta para engravidar, mas como meu marido também tinha problema - mesmo simples -, mas o suficiente para não conseguirmos nosso positivo.

Eu e meu marido entramos numa depressão por causa de toda a situação. A partir daí decidimos entrar na fila de adoção novamente, e desta vez, decidimos que não iríamos mais sair dela. E se eu engravidasse naturalmente, ótimo se não iríamos ter filhos do mesmo jeito (nesta época meu marido já desejava muito a adoção).

Desse dia em diante se passaram mais um ano e eu precisei fazer nova cirurgia, pois com as tentativas para engravidar e os hormônios para ovular, a minha endometriose já estava no grau IV. Era agosto de 2014. Porém, desta vez, a cirurgia foi aberta. Foram 32 pontos com o corte igual da cesárea, e foram retirados 11 miomas, muitos, mas muitos cistos e metade de um dos meus ovários. Depois desta terceira cirurgia minha chance de engravidar já estava em quase 0.

Pelo fato de nesta época já estar na fila da adoção, me dei a chance de pensar mais em cuidar de mim e da minha saúde. Alguns meses depois coloquei o DIU Mirena e, desde então, estou ótima. Hoje faço somente controles anuais. Minha endometriose está controlada. Nesse período em que estivemos na fila apareceu algumas crianças para conhecermos, mas em nenhuma houve a identificação de pais e filho.

Mas seguimos em busca do nosso tão sonhado filho. No dia 16 de fevereiro de 2015 recebemos uma ligação de que tinha um menino de 1 ano e 5 meses à nossa espera. Ele tinha tamanho e trejeitos de um bebê de 10 meses. Os genitores eram usuários de drogas. A genitora era moradora de rua e o genitor desconhecido. Ele tinha micro pênis, hérnia inguinal, um leve problema cardíaco, baixo peso devido a não ter recebido alimento no período gestacional, não andava e não falava nada cm 1 ano e 5 meses.

Mas mesmo com todos “esses problemas” meu coração e o do meu marido diziam que ele era o nosso filho. Quatro dias depois do telefonema, no dia 20, fomos conhecer nosso tão esperado filho. E realmente foi confirmado que ele era o nosso filho. Durante uma semana o visitamos no abrigo. E finalmente no dia 27 o levamos para casa.

Tivemos apenas uma semana para comprar todo o enxoval, pintar o quarto, comprar móveis, comidinha de neném e tudo que um bebê tem direito. Na primeira noite em casa ele dormiu em nossa cama e parecia um sonho. Tudo era um sonho. Fizemos um chá de boas-vindas para ele, onde ele ganhou muitos presentes e a recepção dos amigos. Neste dia todos viram a nossa alegria por termos formado nossa família. Foi lindo. Mas nem tudo foi  flores.

Nos primeiros meses dele em casa eu ia com ele aos médicos, pois ele fazia alguns acompanhamentos e foi muito desgastante, pois eu não estava acostumada com nada disso e tudo foi diferente. Perdi os 10 quilos que eu tinha ganhado (risos) nos tratamentos de reprodução assistida. Mas tudo foi uma fase.

Ao passo que nosso filho ia ganhando amor, cuidados só para ele, atenção, comidinha caprichada, ele foi ganhando alta dos médicos também. Nessa época ele fazia acompanhamento com as seguintes especialidades: fisioterapeuta, cardiologista, endocrinologista pediátrico, nutricionista, geneticista, ortopedista, neurologista. Hoje ele só vai ao endocrinologista e ao geneticista.

Ele é um menino esperto, corre por todo canto, fala demais, já está na escolinha, conhece o Abc completo e conta de um a 100. Conhece as cores, inclusive, em inglês. O que nosso filho precisava para ajudar em seu desenvolvimento era de uma família que o amasse, de muito amor e cuidados, mais nada.

Hoje ele está com 3 anos e meio e posso dizer que agora sim nossa vida está completa. Agora estamos muito perto de ele ganhar definitivamente nosso sobrenome. Por isso não vamos mostrar ele de frente. Estamos seguindo uma orientação judicial de não expor ele ainda sem nosso sobrenome. Mas em breve vocês o verão de frente.

Eu sempre quis ser mãe, mas não necessariamente precisaria engravidar para realizar esse sonho. Eu tentei e muito ter meu biológico, mas Deus tinha outros planos para mim. Eu queria construir minha família ao lado de meu marido e hoje sou muito feliz e grata por ter conseguido. Meu filho não foi gerado em minha barriga, mas sim no meu coração e na minha mente.

Se você está passando por uma situação semelhante, meu conselho è: “Família é quem você escolhe para você. Família é quem você escolhe para viver”.  Quero muito agradecer o grupo Gaabh - Grupo de Apoio à Adoção de Belo Horizonte, que me manteve focada no nosso sonho e nos ajudou a conquistá-lo.

Um beijo carinhoso a todas que leram minha história e que você possa realizar o sonho da maternidade e da família, independente de onde eles venham. Eu amo minha família e espero que minha história inspire muitas endomulheres que lutam contra a infertilidade. Soraia”.



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