quarta-feira, 22 de outubro de 2014

"COM A PALAVRA, O ESPECIALISTA" DOUTOR HÉLIO SATO!!

"Com a Palavra, o Especialista" vai dar uma bela aula sobre a classificação de embriões, assunto de extrema importância para quem passa pela fertilização in vitro. O doutor Hélio Sato também aborda os possíveis exames a serem feitos para evitar as falhas de implantação. Muitas mulheres, infelizmente, fazem sucessivas tentativas de fertilização in vitro e/ ou de inseminação artificial, mas não obtém sucesso. É preciso investigar a fundo o porquê dessas falhas antes de novas tentativas. O doutor Hélio esteve presente no congresso mais importante do mundo em reprodução humana, o European Society of Human and Embryology (ESHRE), realizado em Munique na Alemanda, em junho e julho de 2014, e nos conta o que foi apresentado de novo para avaliar os embriões e, assim, ajudar ainda mais quem passa pela F.I.V. Nada é mais gratificante para um especialista em reprodução humana quando a mulher engravida logo na primeira tentativa, como no meu caso, algo raro, já que implantei apenas um único embrião prestes a completar 36 anos. Quando enviei meu Beta HCG a ele por email, não deu dois minutos toca o meu celular: "Parabéns, Carol, você está grávida!". Demorou para cair a ficha do doutor Hélio no decorrer da semana sobre meu milagre. E a minha também!! Exatamente hoje completo 18 semanas! Já estou escrevendo a segunda parte de minha história. Beijo carinhoso!! Caroline Salazar

- O que pode acontecer quando se tem embriões de qualidade A e não há implantação? Sendo que foi feito exames na mulher e tudo estava bem. Há exames específicos a serem feitos em relação a isso? Há também a possibilidade de rejeição do organismo feminino? Vanessa Silva, Vitória – ES

Doutor Hélio Sato:  Os embriões são classificados de acordo com o grau de fragmentação do citoplasma, ou seja, as células dos embriões ao se dividirem podem perder parte do citoplasma, formando vesículas e o grau de fragmentação varia de:

A – Sem fragmentação
B – Fragmentação discreta
C – Fragmentação moderada
D – Grande fragmentação

E, as evidências apontam que quanto maior for a fragmentação menor é a capacidade de implantação dos embriões. No entanto, algumas pesquisas não observaram esta relação. Conclui-se que a avaliação da fragmentação é uma forma rápida, simples e barata de avaliar os embriões, porém, ainda é muito falho.

Assim, existem diversas pesquisas que avaliaram outras formas não invasivas de avaliar os embriões a fim de poder prognosticar a taxa de implantação e poder selecionar os melhores e assim aumentar a taxa de sucesso do tratamento.

Dentre muitos, a avaliação full time dos fenômenos celulares conhecido como time lapse mostrou ser uma alternativa mais eficaz, porém, ainda assim, demanda mais avanços. O time lapse não é nada mais que uma câmera tipo “big brother” que acompanha tudo que acontece com os embriões no meio de cultura, ou seja, quando aconteceu a primeira divisão, a segunda, a terceira, etc... e como aconteceu. Porém, ainda é uma tecnologia não disponível na maioria dos centros de reprodução, pois, os custos do uso aumentariam ainda mais o valor do tratamento. Recentemente, no congresso europeu que ocorreu em Junho de 2014 (Munique, Alemanha) observamos equipamentos que acoplam o time lapse juntamente com as estufas que não necessitam serem abertas para avaliação dos embriões, porém, os valores ainda são muitos altos.

Outra alternativa que pode ser utilizada é avaliação da integridade cromossômica dos embriões pela técnica de CGH (Comparative genomic hybridization) e, para tanto, é necessário que os embriões alcancem o 5º dia de evolução no meio de cultura, então, são removidos algumas células para esta análise que consiste em comparar 2 cromossomos sendo 1 sabidamente normal e outro a ser testado e assim é avaliado se o número de cromossomos são normais, ou seja, 46, bem como se há partes em excesso ou falta. E, desta forma, são transferidos apenas os embriões com a parte genética íntegra. Essa técnica aumenta significantemente a taxa de implantação. Porém, cabe destacar que a técnica tem custo relativamente alto e, infelizmente, muitos embriões não alcançam o 5º dia de evolução no meio de cultura. Portanto, se nenhum embrião alcançar esta fase conhecida como blastocisto ou se nenhum embrião estiver geneticamente normal também não é feita a transferência. Com isso, o tratamento terá de ser reiniciado novamente.

Quanto às avaliações que podem justificar a falha de implantação, além da avaliação embrionária, são aqueles que visam avaliar o endométrio e o sistema imunológico-coagulação. O endométrio pode ser avaliado por diversas formas, dentre elas, a histeroscopia que busca identificar sinais de endometrite (inflamação do endométrio, a camada interna do útero onde tem de ocorrer a implantação do embrião) e, também, verifica a existência de pólipos endometriais e mioma uterino submucoso. Já a biópsia de endométrio avalia as células que estão no endométrio e suas características e, também, tem objetivo de avaliar a presença de endometrite (teste mais sensível que a histeroscopia) e constata se o endométrio se prepara adequadamente para a implantação.

A forma mais moderna, porém, com custo mais elevado utilizado em pacientes que tiveram falhas de implantação pregressas é o teste de expressão de RNA no endométrio conhecido como microarray. Embora, possa orientar o momento que deve ser feito a transferência seu custo limita o uso rotineiro.

Em relação às doenças autoimunes convém pesquisar as tireoidites (inflamação da tireoide) autoimunes, lúpus eritematoso sistêmico e outros. Outros exames, também, visam avaliar a tendência de trombose, conhecida como trombofilia. Diversas mutações genéticas favorecem a trombose vascular, as mais comuns são o fator V de Leiden, Mutação na protrombina (fator II), deficiência da anti-trombina III e outros. Diante de tantas opções de investigação, sugiro sempre rediscutir com o médico para que novas opções sejam consideradas tanto para investigação quanto para tratamento.

 - Há dois anos tive uma gravidez na trompa e essa trompa foi retirada devido a endometriose. Já passei por três vídeos e agora estou tomando clomid. Quais exames tenho de fazer para verificar a possibilidade de gravidez natural? Com uma trompa, eu consigo engravidar naturalmente ou teria de partir para reprodução assistida? Rosimeire, São Paulo - SP

Doutor Hélio Sato: Nesta situação o exame básico a ser feito é a histerossalpingografia, que verifica se sua única trompa está desobstruída. Dependendo do resultado, há possibilidade de gravidez natural. 

Sobre o doutor Hélio Sato:

Ginecologista e obstetra, Hélio Sato é especializado e endometriose e em laparoscopia. Tem graduação em Medicina, Residência Médica, Preceptoria, Mestrado e Doutorado em Ginecologia pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP),  e foi corresponsável do Setor de Algia Pélvica e Endometriose da mesma instituição.

Hélio Sato tem certificado em Laparoscopia pela Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e de Obstetrícia. É membro da AAGL “American Society of Gynecology Laparoscopy” e é coordenador de pesquisas da clinica de reprodução humana GERA e está à frente nas seguintes linhas de pesquisas: endometriose, biologia celular e molecular, cultura celular, polimorfismo gênico e reprodução humana. (Acesse o currículo Lattes do doutor Hélio Sato). 

sábado, 18 de outubro de 2014

"A VIDA DE UMA ENDOMAMÃE": A VIDA QUATRO MESES APÓS O PARTO E A ENDOMETRIOSE DANDO AS CARAS!!

Imagem cedida por Free Digital Photos

Aos poucos nossa endomamãe vai voltando à ativa aqui no blog. Quatro meses após o nascimento de sua caçula, além de falar de Hadassa e dar alguns alertas às mamães, Tatiana nos fala de um possível retorno de sua endo. Isso quebra o mito de que a gravidez cura a endometriose. Já abordamos esse tema aqui na coluna do Dr David Redwine - A gravidez cura a endometriose? Não podemos esquecer que durante a gravidez as mulheres podem melhorar seus sintomas, mas depois... não significa que continuarão assim. Muitas continuam boas, mas outras não. Não, a gravidez não cura a endometriose. Precisamos ficar atentas aos sinais que nosso corpo apresenta. No meu caso, eu estava ótima antes da gravidez e assim continuo. Em breve vou contar a segunda parte. Vamos torcer e rezar para que tudo dê certo à nossa endomamãe. Beijo com carinho! Caroline Salazar

Por Tatiana Furiate

Olá minhas queridas! Que saudades de escrever no nosso cantinho! Mas confesso que minha vida está uma verdadeira loucura. A Hadassa está linda, ótima, crescendo cada vez mais. Já chegamos ao 4° mês de vida. Seu peso está de quase 8 quilos e ela está medindo cerca de 70 cm. Ela já faz gracinhas, dando gargalhadas para os irmãos, uma linda princesa. A fase mais complicada já passou. Júlia e Arthur aproveitam para brincar com ela e, assim, ela vem se desenvolvendo muito rápido. Ela já consegue virar sozinha na cama, acredita?! Não posso mais deixá-la nem um minuto se quer sozinha e dar aquele pulo na cozinha, por exemplo. Quando volto, ela não está no mesmo lugar. Nós, mamães de bebês, precisamos ficar atentas às atitudes deles, para que não ocorra nenhum acidente. É nessa fase que eles podem cair da cama ou do sofá, por exemplo. Por isso toda atenção é pouco. 

Minha rotina anda muito, mas muito corrida. Não é fácil liderar uma equipe de cinco pessoas diariamente. Não é fácil ter três filhos, cada um com necessidades diferentes. Cuidar da casa mais as crianças requer muito jogo de cintura. Mães e donas de casa precisam ser muito valorizadas. É a profissão que vale ouro no mercado. No pouco tempo livre que me sobra curto a família e também estou aproveitando para fazer cursos. Já fiz o de drenagem linfática especial para gravidinhas. Quero me dedicar a elas. 

Infelizmente, acho que a endo está dando as caras novamente. Após o nascimento da Hadassa, já tive duas infecções urinárias, muitas cólicas e desconforto urinário. O sangramento está pouco, pois tomo Cerazette de uso contínuo e, além disso, amamento exclusivamente minha pequena. 

A amamentação é um momento mágico e de uma intimidade maravilhosa entre mãe e filho. É um vínculo único que temos com nosso pequeno desde quando eles saíram de dentro de nós. Esse assunto também vale um post. Além desse laço afetivo, a amamentação tem para nós, portadoras de endometriose, outro grande benefício. Enquanto amamentamos ficamos livres da menstruação. Vou arrumar um tempo para ir ao urologista, especialista em endometriose do Trato Urinário. Ser portadora não é uma tarefa fácil! E ser portadora e mãe, então, é muito mais complicado, pois não podemos jamais deixar as dores tomar conta de nós, principalmente, àquelas que cuidam da casa e da família todos os dias. Existe uma galerinha que depende de mim, fora as mães que auxilio no grupo de gestante.

No próximo post vou falar um pouco mais com as mamães. Quero abordar alguns assuntos relacionado à maternidade. E, claro, vou dando notícias sobre minha investigação de um possível foco de endometriose na parte urinária. Não poderia terminar essa postagem sem parabenizar minha grande amiga Caroline Salazar, pela chegada da Babi, confesso meninas que foi difícil manter segredo durante as primeiras 12 semanas, que é o tempo ideal para divulgar uma gravidez.

Acompanhei tudo sempre torcendo e orando por vocês. Bárbara seja bem-vinda. Sua endotitia já te ama. Beijo carinhoso.  

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

"SAÚDE E BEM-ESTAR": O PERFIL DA ENDOMULHER É DIFERENTE DAS DEMAIS? NOVA COLUNISTA NO BLOG!!

imagem cedida por Free Digital Photos

Hoje iniciamos mais uma parceria com o objetivo de esclarecer ainda mais sobre esta doença pouco conhecida que afeta cerca de 10 milhões de brasileiras e mais de 200 milhões de meninas e mulheres no mundo todo. Quem de nós já não foi chamada de louca por sentir dores, muitas delas inexplicáveis? Quem já não foi chamada de mole, de fraca, dentre muitos outros adjetivos de inferioridade por aqueles que não sabem o que é a doença? Pensando em tudo isso, e sempre à frente levando informações de qualidade, a psicóloga Ana Rosa Detilio Mônaco passa a ser nossa colunista mensal para esclarecer do âmbito da psicologia como a doença pode afetar nosso corpo e, principalmente, nossa mente. O mais interessante é que além de atender as endomulheres, Ana Rosa também tem endometriose, o que facilita seu entendimento sobre a doença. Faz uns 2 anos que namoro sua participação aqui no A Endometriose e Eu, desde que a conheci no programa “Papo de Mãe”. Quem persevera alcança. Agradeço à Ana Rosa por ter aceitado nosso convite. Nosso objetivo é que o A Endometriose e Eu continue a ser o blog mais completo do mundo sobre a doença. Em seu primeiro artigo, Ana Rosa traça o perfil da portadora e dá alguns recados essenciais às endomulheres. E às portadoras nunca se esqueçam que somos mulheres fortes, guerreiras, decididas, muitas vezes, pilares da família, vencedoras, perfeccionista e mil e uma utilidades! Beijo carinhoso!! Caroline Salazar

Psicologia versus Endometriose: O perfil da endomulher é diferente das demais?

Por Ana Rosa Detilio Mônaco
Edição: Caroline Salazar

Pensar em psicologia e em endometriose é um desafio imenso, já que nos deparamos com um tema que aborda uma patologia que está contida em um diagnóstico médico. Porém, quando abordamos a endometriose questionando o olhar da psicologia, nos deparamos com a necessidade de analisar cada indivíduo frente sua singularidade. Por mais que atualmente tenhamos mais informações a respeito desta doença tão enigmática, também nos deparamos com as questões enigmáticas dos serem humanos. E aí temos  um lugar muito fértil para refletir.

Um estudo de 2002 (Low et Al) aponta que mulheres com endometriose apresentam um determinado perfil: elas têm nível de ansiedade aumentado em relação às outras, auto exigência, insegurança, mecanismos de defesa estruturais, portanto, são mais rígidas. Alta capacidade de controle e comando, intolerância as falhas humanas ou frente as frustrações, não contato com suas emoções e onipotência.

Fico um pouco apreensiva frente tais questões, pois desde que tal pesquisa veio à tona , sinto que de certa forma muitas mulheres com a doença se sentiram acolhidas, considerando que finalmente alguém as compreendeu depois de tanto tempo. Antes dessa pesquisa muitas se sentiram e ainda se sentem sozinhas nesta vivência. E falar do perfil psicológico de mulheres com esta doença pode significar para muitas um conhecimento muito além das questões físicas, algo que remete intimidade, já que falar de comportamento é algo que gira em torno de questões muito mais primitivas. Não tenho aqui a intenção de desmerecer tal estudo, e sim, prosseguir além dele.

Pois bem, aonde quero chegar é que saber como estas mulheres funcionam, como é seu perfil psicológico, não tem apresentado conforto para suas vidas frente aos sintomas que a endometriose pode apresentar. Pode apresentar? Sim, pois nem todas as mulheres com a doença apresentam sintomas que tiram sua qualidade de vida, algumas se deparam com a doença quando tentam engravidar sem sucesso ou ainda podem demorar muito mais para descobrir ou ainda nunca chegar a este conhecimento. Questiona-se também paralelamente a relação entre tal perfil e a intensidade da dor da portadora.

Penso que percorrer uma abordagem de acolhimento, respeito e compreensão da paciente com endometriose e seus sintomas independente da intensidade. O caminho mais indicado seria oferecer um ambiente de suporte para elas. E as pessoas mais próximas e envolvidas com as endomulheres são a família e, em especial, o companheiro quando há, e o médico especialista - o profissional que elas buscam quando necessitam de ajuda -, seja para esclarecimento quanto para orientações.  Atualmente sinto que traçar características, diagnósticos ou ainda perfis é uma realidade, principalmente, na área da saúde, pois se apresenta à falsa sensação de controle e conhecimento. Por este caminho estaríamos todas no mesmo “balaio” e assim seria mais fácil ter algo a oferecer. É claro que o conhecimento médico-cientifico é fundamental para termos noção do corpo humano. Aqui estou percorrendo outro caminho, este que a medicina não pode alcançar: os sentimentos.

Portanto, mulheres portadoras de endometriose, cuidem-se e não somente do corpo, cuidem de suas emoções, conheçam-se a si próprias e não sejam vulneráveis quando dizem que vocês têm determinado perfil, pois muito do que se engloba neste “perfil” pertence a própria condição humana e não somente em mulheres com endometriose. Sinto que acolher estas informações pode levá-las a culpa, pois o que teoricamente alimentaria a doença seria características da personalidade de tais mulheres, e eu conheço mulheres que passam muito longe do “perfil” que também sofrem com a endometriose.

Doença da mulher moderna (linkar artigo), como tem sido nomeada também nos culpa por termos deixado somente de cuidar da casa e da família e soa como um castigo por termos mudado de foco. Sei de mulheres com mais idade que dão sinais legítimos de ter tido endometriose e que eram donas de casa e não produziam por outro caminho.

A qualidade de vida pode, sim, fazer a diferença para todos, mas não nos livrará totalmente de estarmos expostos a problemas com a saúde. Portanto, mulheres, não se culpem pela doença e sim busquem forças para lutar contra ela, já que ela já é presente. E a saúde emocional é um passo fundamental para encontrar saídas e força para enfrentar esta batalha que é a convivência com a endometriose.

Sobre Ana Rosa Detilio Mônaco:

Há 17 anos atuando na área cínica, a doutora Ana Rosa foi residente e atuou como psicóloga hospitalar no Centro de Referência da Mulher no Hospital Pérola Byington, em São Paulo. É especialista em saúde, em psicoterapia breve e atua também em reprodução assistida. É professora convidada do Instituo Gerar e atende em seu consultório em São Paulo.  

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

ENDOMETRIOSE É ENCONTRADA EM FETOS NA MESMA PORCENTAGEM DAS MULHERES!!

Nota do tradutor: Neste texto, a doutora Phillipa Cook resume com clareza e exatidão as terríveis consequências de acreditarmos que a endometriose é causada pela menstruação retrógrada. Além do simples fato desta teoria jamais ter sido comprovada diretamente, o fato de haver endometriose em fetos, na mesma proporção e nos mesmos locais encontrados nas mulheres adultas, falam contra essa teoria. As pesquisas que demonstraram endometriose em fetos, apesar de amplamente conhecidas pela classe médica, não são divulgadas proporcionalmente à sua grande importância, por algum motivo incerto.

Acreditar que a endometriose é causada pela menstruação significa tomar remédios hormonais, ou suspender a menstruação, acreditando que estaríamos ˜tratando" a endometriose. Significa a mulher acreditar que ela é culpada por ter endometriose, por ter postergado a maternidade ou por não ter tomado medicações prescritas. E como mencionado pela doutora Phillipa "é uma ótima justificativa para a persistência da doença mesmo após cirurgias e tratamentos de longo prazo".

É hora de refletirmos e avançarmos, para o benefício real de milhões de mulheres ao redor do mundo que têm esta terrível doença chamada endometriose. 

Por quê a endometriose em fetos é importante?

Por doutora Philippa Bridge-Cook
Tradução: doutor Alysson Zanatta
Edição: Caroline Salazar


Os médicos aceitam amplamente teorias imprecisas sobre como e porque a endometriose se desenvolve, apesar das muitas evidências contra. A aceitação dessas teorias leva à perpetuação de tratamentos médicos que não funcionam. É importante entender a origem da endometriose para que se possa mover adiante e desenvolver tratamentos efetivos para essa doença devastadora.

Endometriose e a Teoria de Sampson:

A endometriose é definida com a presença de um tecido similar ao endométrio fora da cavidade uterina. Muitos médicos e a imprensa leiga simplificam essa teoria ao dizerem que a endometriose ocorre quando o revestimento do útero é encontrado fora da cavidade uterina. Entretanto, há muitas publicações enumerando as várias diferenças entre o endométrio e as lesões de endometriose que são encontradas fora do útero. As evidências dessas diferenças datam de, pelo menos, 1981, ou possivelmente antes, e as pesquisas sobre essas diferenças seguem em andamento. Entretanto, persiste  a percepção comum que a endometriose é simplesmente o endométrio fora do útero.

A teoria de Sampson é uma teoria proeminentemente citada para explicar o surgimento da endometriose. Essa teoria sugere que a menstruação retrógrada, o sangue menstrual que flui para trás (fora do útero) através das trompas de Falópio em direção à cavidade pélvica, deposita fragmentos de endométrio na pelve, que podem então se implantarem e crescerem como lesões de endometriose.

Há vários problemas com essa teoria. Primeiro, não há nenhuma evidência que células endometriais presentes no líquido peritoneal possam aderir-se ao revestimento da pelve (o peritônio), e as células endometriais não costumam estar presentes no líquido peritoneal. Também, como mencionado anteriormente, há muitas diferenças entre o endométrio dentro do útero, e as lesões de endometriose. Além disso, 90% das mulheres têm menstruação retrógrada, mas apenas 10% têm endometriose. A teoria de Sampson não pode explicar a presença de endometriose em fetos, o surgimento de endometriose em homens (leia nossos dois textos de endometriose em homens - texto 1 e texto 2), e garotas que têm sintomas no início da puberdade ou mesmo antes da puberdade. E também não pode explicar a presença de endometriose em áreas fora da pelve, como nos pulmões, no diafragma, na pele, dentre outros.

Teorias alternativas da Endometriose – Um componente Fetal:

Teorias alternativas que se encaixam melhor às evidências têm sido propostas, incluindo a metaplasia (transformação de um tipo de célula em outro tipo de célula), defeitos do desenvolvimento embrionário (também conhecida como Müllerianose), fatores genéticos e ambientais. Entretanto, nenhuma teoria mostrou-se correta, e o mais provável é que uma combinação de várias influências contribua para o desenvolvimento da endometriose. A teoria da Müllerianose explica o desenvolvimento da endometriose como um tecido endometrial que foi deslocado (ou “colocado” em local errado) durante o desenvolvimento fetal (ainda no útero da mãe), e que mais tarde se transforma em lesões de endometriose. A evidência para suportá-la vem do fato de que a endometriose foi encontrada em fetos femininos com a mesma incidência do que nas mulheres, em torno de 10%.

A persistência da teoria de Sampson – uma rede segura para o tratamento inadequado

Por quê a teoria de Sampson continuou a ser tão persistente apesar de todas evidências contrárias? Primeiro, nenhuma teoria alternativa foi suficientemente comprovada para sobrepô-la, apesar que certamente há evidências contrárias suficientes que precisam ser derrubadas. Segundo, muitos médicos que tratam a endometriose não se especializam na doença, e a ciência por trás da sua origem é provavelmente algo que eles não tenham muito interesse.

É devastador para as pacientes com endometriose que a teoria de Sampson continue a ser aceita apesar das evidências contrárias. Ela dá aos ginecologistas um motivo para não se esforçarem para realizarem uma remoção completa da endometriose de todos os órgãos, porque não há nenhuma justificativa em se remover toda a doença já que ela irá se reimplantar na próxima menstruação. A teoria de Sampson justifica as altas taxas de recorrência observadas com cirurgiões que não se especializam em tratar a endometriose.
Entretanto, cirurgiões que se especializam na ressecção da endometriose, que removem toda a doença cuidadosamente, têm demonstrado que é possível obter baixas taxas de recorrência após uma ressecção completa. Isso requer não apenas o conhecimento de todas as aparências visuais possíveis da endometriose, mas também a habilidade cirúrgica para ressecar a doença de muitas áreas que os ginecologistas não conseguem, como a bexiga, o ureter, o intestino, ou o diafragma, por exemplo.

A teoria de Sampson e medicações que previnem a menstruação:

A teoria de Sampson fornece às companhias farmacêuticas um excelente motivo para convencer os médicos a prescreverem medicações que previnem a menstruação. Se a teoria de Sampson está correta, então, qualquer medicação hormonal que interrompa a menstruação tratará a endometriose. Muitas drogas que estão no mercado podem interromper a menstruação – Lupron e drogas similares, induzindo um estado de menopausa, e pílulas anticoncepcionais, usadas continuamente. Entretanto, como esperado, já que a teoria de Sampson não está correta, essas medicações nunca curaram a endometriose. Algumas pacientes podem ter uma melhora temporária dos sintomas, especialmente, quando os sintomas são relacionados ao período menstrual, mas as medicações hormonais não tratam a doença subjacente.

A importância da origem da doença:

Mesmo que possa parecer arcaico debater as origens da doença, e irrelevante à maioria das pacientes com endometriose, o debate é altamente relevante porque está ligado ao tratamento inadequado e ineficaz que muitas mulheres com endometriose recebem. Para que realmente haja progresso e se mova adiante na maneira como a endometriose é tratada, deverá ocorrer um reconhecimento amplo de que a teoria de Sampson é mortalmente falha. Se a endometriose está presente no feto, como já foi comprovado por alguns cientistas, então, ela é uma doença completamente diferente de menstruação retrógrada. O entendimento é importante para melhores opções de tratamento.


Fonte: Hormones Matter


Sobre o doutor Alysson Zanatta:
Graduado e com residência médica pela Universidade Estadual de Londrina, doutor Alysson Zanatta tem especializações em uroginecologia e cirurgia vaginal pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cirurgia laparoscópica pelo Hospital Pérola Byington de São Paulo e doutorado pela Universidade de São Paulo, USP. Suas principais áreas de atuação são a pesquisa e o tratamento da endometriose, com ênfase na cirurgia de remoção máxima da doença. Seus inter­esses são voltados para iniciativas que promovem a conscientização da população sobre a doença, como forma de tratar a doença adequadamente. É diretor da Clínica Pelvi Uroginecologia em Brasília, no Distrito Federal, onde atende mulheres com endometriose, e Professor-adjunto de Ginecologia da Universidade de Brasília (UnB).

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

COMO CONSEGUI MINHA "BÁRBARA" VITÓRIA DA MATERNIDADE - PARTE 1!!

Os primeiros vestidinho e sapatinhos da Bárbara, presentes da vovó Reila e das titias Isabella e Renata

Faz muito, mas muito tempo que não escrevo mais sobre minha vida aqui no blog. Depois de ter ficado 100% sem dores, após minha segunda videolaparoscopia em 2012, o A Endometriose e Eu tomou uma proporção tão grande, que ele não é apenas mais meu, mas nosso. De um diário pessoal, o blog se tornou o mais completo do mundo sobre endometriose escrito por uma portadora. Desde então, o show fica por conta dos nossos colaboradores e, de idealizadora, passei a ser apenas a editora. Excepcionalmente hoje volto a escrever mais um capítulo de minha história, pois sei que ele ajudará muitas endomulheres a manterem acesa a fé e a esperança. Vou ser mamãe!! Estou grávida de 17 semanas (4 meses e 1 semana) à espera da princesa Bárbara e, claro, não poderia deixar de compartilhar com vocês tin tin por tin tin como tudo aconteceu.

 Ser mãe nunca foi o grande sonho da minha vida, confesso. Sempre quis ser uma profissional brilhante, ganhar prêmios. Já sonhei em ser correspondente internacional, em cobrir guerras e até mesmo em ser repórter investigativa (plano abortado após a morte do brilhante Tim Lopes). Me achava diferente da maioria das minhas amigas, pois queria trilhar uma carreira antes de construir minha família. Com a descoberta da endometriose e das minhas aderências, nunca fiquei preocupada se um dia iria engravidar ou não. Sei que Deus está sempre no comando e, no fim, a decisão é somente Dele. Se tivesse de ser seria! Bem assim! E esse dia chegou! Por volta dos 34, quase se aproximando dos 35 anos, senti pela primeira vez a vontade de ter um filho. Com a pessoa certa para ser o pai dos sonhos do meu filho, fomos ao doutor Hélio Sato dar à boa-nova!

Era dezembro de 2013, e ele nos deu os primeiros exames a serem feitos. Uma batelada de exames de sangue e, dentre eles, um de extrema importância: a avaliação da minha reserva ovariana pela dosagem do hormônio anti-Mulleriano. Por conta das minhas cirurgias abertas realizadas na adolescência, uma de apêndice e uma laparotomia para a retirada do cisto de ovário, eu já imaginava que a coisa não estaria assim uma Brastemp. Sem contar a idade, pois eu já estava com 35 anos e eu sei que após os 32, 35, a reserva já começa a cair pela metade. Somada às cirurgias, então... Mas eu pensava que pelo menos ela estava no limite. No fim de janeiro de 2014 quando retornamos ao doutor Hélio, senti no seu semblante ao abrir o resultado, que minha reserva não era o que ele esperava. Ela estava um pouco baixa, nada muito, mas não era a ideal. Retirei o DIU de plástico e descobri que não era ele que me deixava sem dores, mas, sim, a cirurgia perfeita que o doutor Hélio e o doutor Roberto fizeram em 2012. Somente na primeira menstruação tive sangramento anormal, por conta da retirada do Mirena. Mas sem dores. As outras foram normais. Saímos do consultório com mais e mais exames!

Mais uma consulta, mais pedidos de exames e todos normais, inclusive, o que rastreia possíveis doenças genéticas, inclusive, a que causa a infertilidade. O exame chamado cariótipo com banda G lê todos os nossos genes, detecta possíveis síndromes cromossômicas e demora cerca de 30 dias para ficar pronto. Foi nessa consulta que eu e meu companheiro decidimos que faríamos a FIV. Na verdade a decisão foi dele, baseada no meu histórico (endometriose aderências + baixa ovulação). Como não íamos fazer a inseminação artificial, não vi se minha única trompa que estava fértil em 2012 ainda continuava boa. Para quem opta pela I.A. essa verificação é de extrema importância antes de realizar o procedimento. A partir desta decisão, o doutor Hélio solicitou o último e decisivo exame para implantação do embrião: a biópsia do endométrio. Nele descobri que estava com endometrite (uma inflamação no endométrio – a cavidade que reveste o útero). Tomei um antibiótico forte por 3 semanas para combater essa inflamação. Creio que esse cuidado especial fez toda a diferença para o sucesso da minha FIV. No dia 15 de junho comecei a indução e, no primeiro ultrassom seriado, mais uma surpresa: descobrimos que meu ovário esquerdo (aquele que retirei o cisto quando tinha 15 anos na cirurgia aberta) estava paralisado e com três alças intestinais em cima dele. Foi um semi-baque, assim posso dizer, mas minha fé me dizia: “Mantenha a serenidade tudo dará certo”. 

Era uma sexta-feira e, nessa mesma noite, o doutor Hélio me disse que se não desse para retirar meus óvulos na terça, a implantação teria de ser feita com outro médico da clínica, pois ele iria participar de um congresso internacional de reprodução na Alemanha. Eu não sabia se me preocupava com o ovário lascado ou com essa notícia. Peguei na mão do doutor Hélio e disse: “Quase não leio nada na internet, mas por acaso li que quanto menos trauma o embrião sofrer, maior a chance de ele vingar. Só vai dar certo se você implantar. Sei que os outros médicos são bons, mas eu confio em você”. Pacientemente, ele respondeu: “Calma Carol vai dar tudo certo. Se no domingo você tiver pelo menos dois folículos de 17mm, podemos fazer a coleta na terça e a implantação na sexta pela manhã”. A viagem dele estava marcada para sexta à noite. Era quase 22h e saí do consultório praticamente de joelhos, rezando e pedindo a Deus e à minha guerreira Santa Bárbara que me ajudassem a ter esses dois folículos. Confesso que estava preocupada, mas ao mesmo tempo serena e confiante. Ter um médico que te dê tranquilidade neste momento e confiar nele é fundamental para mantermos a calma. 

Domingo às 13h estávamos no consultório, e realmente foi constatado que o ovário esquerdo não estava funcionando, mas no direito eu tinha oito folículos, dois de 17mm. Bingo! Era o mínimo que eu precisava para a coleta na terça. Saímos do consultório felizes da vida! No dia 24 de junho às 8h me preparava para fazer a punção (retirar os óvulos). Já tinha escutado algumas mulheres dizerem que esse procedimento doía, que sentiam incômodo depois. Gente, eu não senti absolutamente nada. A sedação é bem pouca, e não senti nenhum desconforto abdominal, nenhum incômodo após o procedimento. As mãos abençoadas do doutor Hélio realmente são incríveis. Após minha recuperação, o doutor Hélio foi nos dar a notícia dos óvulos. Dos oito folículos eu tive apenas dois óvulos. Desses dois, um era saudável, perfeito, sem nenhuma imperfeição, mas o outro não estava bom. Eles iam tentar maturá-lo em laboratório, mas confesso que por conta da minha idade, não achei essa ideia muito boa. Mais uma vez pedi a Deus que preparasse o melhor. Se fosse para implantar um único óvulo eu aceitaria sua vontade. No dia seguinte, o doutor Hélio me ligou confirmando que o segundo óvulo não vingou e que implantaríamos o precioso embrião na sexta dia 27 às 8h, 19 dias antes do meu aniversário de 36 anos. Pela minha idade, o correto era implantar três embriões. Assim eu teria de 30 a 40% de chances de engravidar. Implantando um as chances cairiam para menos de 10%.

O dia mais importante da minha vida chegou! Após minha preparação, a embriologista entrou no quarto e disse: “Caroline não fique nervosa. Sei que um único embrião diminui a chance de gravidez, mas isso não significa ser impossível. Seu óvulo era o que chamamos de perfeito, sem nenhuma fragmentação, estava lindo e formou um embrião de classificação A. Estou sentindo que vai dar certo”. Sorri para ela como agradecimento. Os embriões são classificados de acordo com seu desenvolvimento celular de A a D. Os A’s e B’s são os melhores e podem ter melhores chances de implantação. Estava ansiosa, mas com fé. Foi muito, muito rápido. O doutor Hélio sempre muito atencioso explicou passo a passo para nós e colocou carinhosamente meu único embrião bem no fundo do meu útero. O momento foi registrado com foto, claro. Permaneci alguns minutos de repouso e, antes de ir embora, o doutor Hélio me deu um conselho valioso: “Carol vida normal, como se nada tivesse acontecido. Você só precisa repousar nas primeiras 4 horas, e depois vida normal, só não carrega peso. Boa sorte, estou torcendo”. E me deu os dois pedidos do Beta HCG quantitativo para eu fazer nos dias 8 e 10 de julho.

No dia seguinte participei do lançamento do “Movimento Fertilidade”, que reivindica tratamentos de reprodução acessíveis a todos, seja pelo SUS e pelos planos de saúde. E, no dia 8, quando o Brasil perdia de goleada de 7 a 1 para a Alemanha na Copa, eu estava radiante com o meu beta positivo! Dois dias depois repeti novamente, e com o valor mais que dobrado foi confirmada minha gravidez. Ainda tive alguns obstáculos, mas como o texto já está grande, vou escrever a segunda parte, pois sei que os mínimos detalhes farão a diferença na vida de muitas mulheres. No texto de hoje deixo um recado preciosos que me ajudou: manter a fé e acreditar que Deus sabe o que faz, sempre para o nosso bem me conduziu ao estado de serenidade que precisava nesses percalços e nos próximos que virão. Ah, adianto que espero a princesa Bárbara! Sou devota há muitos anos de Santa Bárbara e presto essa homenagem, mas o nome também tem outro significado para nós. Não senti nada durante os sete dias de indução, foi tudo perfeito! Explicarei tudo no próximo! Beijo carinhoso!!

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

"SAÚDE & BEM-ESTAR": AS DISFUNÇÕES MUSCULARES, DENTRE ELAS, A DISPAREUNIA E SEUS TRATAMENTOS!!

Na coluna "Saúde & Bem-estar", a fisioterapeuta Ana Paula Bispo fala sobre as disfunções osteomusculares, entre elas, a dispareunia, a dor durante e ou após a relação sexual. Infelizmente, muitas portadoras de endometriose conhecem muito bem esta consequência que, além de causar dor, traz às mulheres uma impotência muito grande pelo fato de muitas.  Ela explica os tipos de dispareunia, os tratamentos, como as disfunções musculares e as alterações musculoesqueléticas podem também afetar e agravar os músculos do assoalho pélvico, os músculos da vagina. Este texto vai ajudar muitas endomulheres e também muitos endomaridos a entenderem melhor como a doença e o diagnóstico demorado podem agravar ainda mais os músculos de quem sofre com a endometriose. 

A partir de meus relatos, o A Endometriose e Eu foi o pioneiro no Brasil a falar abertamente sobre a dor durante e após o sexo. Segue aqui os principais textos (têm muitos outros) que relatei essa minha consequência da endo (dispareunia 1, dispareunia 2, dispareunia 3), inclusive, meu tratamento, escrito pela fisioterapeuta Ana Paula Bispo. Beijo carinhoso!! Caroline Salazar

Por Ana Paula Bispo 

O tempo entre o início dos sintomas e diagnóstico e tratamento da endometriose é de cerca de oito anos. Durante este período de tempo, a mulher permanece com a queixa dolorosa sem diagnóstico o que pode ocasionar inúmeras alterações secundárias à doença como disfunções osteomusculares e emocionais.

Dentre estas alterações, destacam-se as do sistema osteomuscular que podem causar, agravar ou perpetuar os sintomas da dor. Disfunções da musculatura perineal ou das articulações sacro-ilíacas e seus ligamentos também podem ser causa de dor, já que podem ter irradiação para a vagina e ou períneo.       

Além dos sintomas clássicos da doença, alterações musculoesqueléticas, devido à postura antálgica por tempo prolongado adotada pelas mulheres podem estar presentes. Esses padrões de desequilíbrio muscular podem exercer força de alongamento constante sobre os músculos do assoalho pélvico (músculos da vagina), levando a flacidez (relaxamento) que pode exacerbar ou perpetuar a dispareunia, mesmo após o tratamento da doença de base. Este fato se justifica já que a tentativa de ajuste do corpo para aliviar a dor, que leva às alterações no alinhamento da pelve, do quadril e dos membros inferiores, ocasiona danos fisiológicos e, consequentemente, alteração na função dos músculos do assoalho pélvico, interferindo na fisiologia da pelve.

Alterações nos músculos do assoalho pélvico podem ocasionar a dispareunia que é a dor durante ou após a relação sexual. A dispareunia pode ser subdividida em dois tipos: a dispareunia superficial, de entrada ou de introito, e a dispareunia profunda ou de profundidade, com diferentes etiologias.

Em mulheres com endometriose, principalmente, a endometriose profunda não é infrequente encontrarmos a dispareunia de profundidade que pode ser resultante da distensão e inflamação de tecidos pélvicos, como útero em retroversão fixa, pressão exercida em ovários, ligamentos úterossacros ou região retrocervical afetados pela doença. A dor também pode acorrer após a relação sexual, denominada dispareunia tardia. Em razão da dispareunia estas pacientes sentem uma diminuição importante da satisfação sexual e, em alguns casos, optam pela abstinência sexual.

Fisioterapeutas especializados podem utilizar diversas modalidades terapêuticas para tratar as pacientes com alterações posturais e alterações nos músculos do assoalho pélvico decorrentes da endometriose e da DPC (dor pélvica crônica). O objetivo principal do tratamento é a melhora do padrão postural, normalização do tônus muscular, aumento da consciência e propriocepção da musculatura do assoalho pélvico, dessensibilização dos pontos dolorosos na vagina. A liberação miofascial é um dos tratamentos utilizados para a melhora do padrão postural e da dor, pois promove a liberação das restrições das camadas profundas da fáscia, favorecendo estiramento de interligações fibrosas e trocas de viscosidade das camadas miofasciais de um músculo sobre outro.

Visando a normalização do tônus muscular e dessensibilização dos pontos dolorosos dos músculos do assoalho pélvico, a massagem perineal que consiste na introdução de um dedo na vagina e, realização de  movimentos para trás e para e para frente, de um lado para o outro por cima dos músculos elevadores do ânus e obturadores internos, pode ser indicada.

Desta forma, será possível reduzir o quadro álgico dessas pacientes a fim de que elas possam desfrutar de uma melhor qualidade de vida e satisfação sexual.

Sobre a fisioterapeuta Ana Paula Bispo:


Ana Paula Bispo é fisioterapeuta,  atualmente faz doutorando em Urologia na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é mestre em Ginecologia pela Unifesp, mesma instituição que fez especialização em Reabilitação do Assoalho Pélvico. É fisioterapeuta do Ambulatório de Disfunções Miccionais Masculinas da Unifesp, coordenadora do curso de Pilates na Saúde da Mulher na Pilates Institute Brazil e docente do curso de Pilates na Pilates Institute Brazil.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

"A VIDA DE UM ENDO MARIDO": POR QUE RESOLVI TER MEU PRIMEIRO FILHO DE CORAÇÃO?


imagem cedida por Free Digital Photos


Hoje a coluna "A Vida de um EndoMarido" aborda uma questão que assombra muitos casais, em especial, aos endocasais: a infertilidade masculina e a feminina. Um em cada cinco casais tem algum problema de infertilidade. Isso representa cerca de 20% da população mundial. No mundo todo cerca de 50 a 80 milhões de pessoas afetadas pela infertilidade, no Brasil cerca de 14 milhões. Neste texto emocionante, nosso endomarido, Paulo Soares, conta quando e por que ele e a esposa, Ane, decidiram partir para a adoção, e adiar a fertilização in vitro. Filhos são bênçãos de Deus, e não importa se ele vem de forma natural, por meio de reprodução assistida ou por adoção. Todos são enviados de Deus! A adoção é uma forma de amor incondicional, que a meu ver, é a mais suprema de todas. Hoje vemos tantos pais e mães maltratando seus filhos, que pais são aqueles que criam, independente do DNA, ou do sangue. Pais são aqueles que geram seus filhos no coração, antes de qualquer outro lugar. O desejo do seu coração tem de ser mais forte que E o que mais me chama atenção na vontade de adoção de Paulo e Ane é o fato de eles desejarem seu filho fora dos padrões que os adotantes desejam. Uma história para ler e se inspirar. Beijo carinhoso!! Caroline Salazar

Por que eu e minha esposa resolvemos ter nosso filho de coração?

Por Paulo Soares 

Neste artigo gostaria de falar sobre adoção de crianças pelos endocasais, como um caminho para se ter um filho/filha. Quando eu e Ane ficamos noivos, decidimos que iríamos adotar uma criança, sendo que ela seria fora do perfil mais procurado. Queremos uma criança negra, masculino ou feminino e com idade acima de 2 anos.

Hoje essa decisão está mais perto de se realizar. Há um mês dei entrada no pedido de adoção no Fórum de São Miguel Paulista, na Vara da Infância e da Juventude. Mas antes de chegar neste ponto da história, gostaria de explicar por que temos esse desejo de adotar uma criança. Primeiro, a opção pela adoção foi do casal, ou seja, dos dois, um não precisou convencer o outro sobre adoção. E vemos nesta atitude, uma ação divina, pois Deus adota, cada um, que crê nele. Por isso, meu coração batia forte quando assistia alguma reportagem sobre adoção e/ou quando visitava abrigo de crianças para ajudar com doações ou servindo de alguma forma no local.

Segundo, quando conheci Ane, ela me contara que seu pai foi conselheiro tutelar da cidade, e como na cidade não havia abrigo, eventualmente uma criança ficava abrigada na sua casa até a justiça resolver o que faria com ela.

Mas, nosso plano era ter o primeiro filho/filha de forma natural. No entanto, a situação mudou. Dois anos depois de casados, descobrimos que Ane tem endometriose grau IV, ou seja, endometriose severa. Nós morávamos na Bahia, mas como lá não havia tratamento para endometriose pelo SUS, resolvemos nos mudar para São Paulo para ela se tratar no Hospital São Paulo – UNIFESP. E, graças a Deus conseguimos, Ane fez cirurgia por vídeolaparoscopia para retirada dos focos. Mas, infelizmente, nela descobrimos que suas duas trompas ficaram obstruídas por conta da endometriose, e este problema diminuiu a chance de termos filhos naturalmente.

A esperança estava em mim, se meus espermatozoides estivessem normais. No entanto, após exames de espermograma, foi diagnosticado que meus espermas tinham pouca quantidade, qualidade baixa e formas anormais. Isso se deu ao fato de eu ter feito tratamento de quimioterapia quando criança. Segundo os médicos, eu possuo apenas 5% de chances de gerar um filho naturalmente. Com o resultado meu chão abriu, eu não podia acreditar, como assim? Eu não podia gerar um filho/filha? A gente com a cabeça de homem pensa logo: que tipo de homem eu sou, que não consigo ter um filho/filha, dá aquela sensação de inutilidade ou de inferioridade. Para esta situação eu busquei força em Deus e na minha família, especialmente, na minha esposa, que sempre ficou ao meu lado me apoiando.

Quando falamos com o médico sobre qual seria a possibilidade de engravidar, ele respondeu que apenas por Fertilização in Vitro - FIV. No primeiro momento aceitamos, mas quando ele falou o valor do tratamento, no qual seria cobrado apenas os medicamentos, na quantia de mais ou menos R$ 10.000,00 pela UNIFESP, eu e minha esposa pensamos, não dá! Vai quebrar nossa vida financeira, estamos recomeçando do “zero” nossa vida aqui em São Paulo. Pesquisamos em outros hospitais ou clínicas, em vão, estavam cobrando quase o mesmo valor ou mais. Outras clínicas davam a opção da doação de óvulos com tratamento gratuito, mas recusamos. Fomos informados que no Hospital Pérola Byington realizava a FIV gratuitamente pelo SUS, mas a fila de espera é imensa. E teríamos de refazer todos os exames pelo SUS para comprovar a infertilidade do casal. Não obstante, minha esposa já tem 34 anos, e, com a espera pelo tratamento, provavelmente, chegaria aos 39 anos, ou seja, uma idade de risco para realizar a FIV e o hospital não aceitaria mais fazer o tratamento por causa da idade avançada dela.

Todos esses problemas nos fizeram refletir. Em vez de investirmos numa FIV, que tinha muitas chances de dar errado, e ter que pagar para fazer de novo, eu e Ane decidimos adiantar a adoção e gestar nosso filho/filha do coração, pois a criança está lá em algum abrigo precisando de uma família, precisando de um lar e de uma oportunidade melhor de vida. E eu penso que a adoção é muito mais humano e divino.

Como disse no início do texto, nós já tínhamos o desejo de adotar, não estamos adotando pelo fato de não ter outro jeito, nós estamos adiantando um sonho. E a FIV, não perdemos a esperança. Descobrimos que na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, também existe o programa de tratamento para infertilidade pelo SUS, e menos burocrático que pelo Hospital Pérola Byington, mas por enquanto o sonho da FIV será adiado.

Bom, espero que este depoimento ajude muitos endocasais a refletir na decisão de ter um filho. Eu acredito que a adoção é um bom caminho para se ter filho/ filha. Deus sabe de todas as coisas, e precisamos confiar Nele e em suas decisões. Abraço grande a todos!