terça-feira, 28 de julho de 2015

ENTREVISTA EXCLUSIVA COM DOUTOR ALYSSON ZANATTA, ESPECIALISTA EM BRASÍLIA!!



Hoje o A Endometriose e Eu apresenta aos leitores o doutor Alysson Zanatta, de Brasília. Paranaense radicado em Brasília, doutor Alysson é ginecologista especializado em endometriose, é diretor da Clínica Pelvi, professor adjunto de Ginecologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília, e colaborador do blog desde o início do ano onde escreve textos e faz traduções de textos internacionais, em especial, os do doutor David Redwine complementadas com a sua opinião. Ele é um dos poucos cirurgiões brasileiros que faz a chamada "cirurgia de excisão dos focos", a mesma do médico americano doutor David Redwine. Aqui você vai conhecer um pouco mais sobre este grande especialista e sua visão sobre a endometriose. Por alguns anos ele viajava semanalmente a São Paulo para atender endometriose no Hospital Sírio Libanês, que interrompeu após o nascimento de sua filha em 2014. Uma entrevista exclusiva e muito interessante. Boa leitura! Beijo carinhoso! Caroline Salazar

A Endo e Eu: Quando e como começou o seu interesse pela endometriose?

Doutor Alysson Zanatta: Bom dia, Caroline. Parabéns pelo blog A Endometriose e Eu, pelo seu trabalho de promoção da informação sobre a doença. Obrigado pela oportunidade, é um grande prazer falar às leitoras do blog. Meu interesse começou ainda na residência médica, quando eu observava o sofrimento das mulheres com endometriose, e a falta de tratamentos eficientes. Sofri uma forte influência de dois grandes mestres e amigos: o Dr. Ricardo Mendes Alves Pereira, que se dedica de corpo e alma ao tratamento cirúrgico das mulheres com endometriose, e o Dr. Paulo Serafini, esterileuta e renomado pesquisador da área, cuja vida é dedicada ao tratamento das mulheres inférteis, especialmente aquelas com endometriose. Durante 10 anos, tive a oportunidade única de partilhar das experiências desses dois grandes mestres, e, principalmente, das histórias de vida dessas pacientes.

A Endo e Eu: Como o doutor caracteriza a endometriose?

Doutor Alysson Zanatta: Como uma doença de origem ainda durante o período embrionário, cuja evolução se inicia já após as primeiras menstruações sob a influência dos hormônios femininos (estrogênios), podendo, ao longo da vida da mulher, levar à dor, infertilidade, a ambos, ou a nenhum destes.

A Endo e Eu: Com certeza passam muitas pacientes em busca de diagnóstico pelo seu consultório. Como portadora eu sei o quanto essa doença afeta a vida da mulher, e também do nosso companheiro, dos familiares e amigos, além dos aspetos social e profissional. Em termos emocionais, como a paciente típica chega na sua consulta?

Doutor Alysson Zanatta: Elas costumam chegar desacreditadas, com muitas dúvidas pelas informações desencontradas que recebem, e inseguras. Algumas estarão revoltadas pela demora no diagnóstico. Na maioria das vezes, o simples fato de conversarmos que a causa de seus sintomas não tem nada de psicológico, mas sim uma doença orgânica e real, faz com que elas se sintam muito melhor por finalmente encontrarem uma explicação para seus sintomas.

A Endo e Eu: Com sua experiência, a paciente típica já vem com algum conhecimento sobre o que é endometriose? Se sim, ela vem com uma noção correta sobre a doença, ou traz um conhecimento composto de escutar aqui e ali algumas noções desconexas e mitos?

Doutor Alysson Zanatta: Felizmente, elas chegam cada vez mais bem informadas. Algumas já têm a consciência de que a endometriose não é causada pela menstruação, porém a maioria ainda traz esse conceito, que é o conceito (infelizmente) divulgado na mídia, na literatura médica, e pelos formadores de opinião. Os mitos sobre a doença existem sim e muitas ainda os trazem, como aquele de que a gravidez trata a endometriose, ou de que precisará ficar para sempre sem menstruar para que não haja progressão da doença. Em todas as consultas, busco antes de tudo explicar os mecanismos de origem da endometriose que são cientificamente comprovados, pois, para decidirmos como tratar a doença, precisamos antes entendê-la.

A Endo e Eu: Quais os maiores receios da portadora de endometriose?

Doutor Alysson Zanatta: Certamente é o da infertilidade. O medo da dor crônica e intratável também é presente, mas, acreditem ou não, algumas se conformam e aceitam sofrer as dores, simplesmente por acreditarem que não têm outra opção.

A Endo e Eu: Muitas referem à infertilidade como a maior consequência da doença. A dor parece vir em segundo lugar. Mas infertilidade e esterilidade são duas coisas bem diferentes, certo? Poderia nos elucidar sobre essa diferença?

Doutor Alysson Zanatta: Exatamente isso, Caroline, a infertilidade costuma ser a maior preocupação, o que é diferente de esterilidade. Esterilidade é a impossibilidade permanente e definitiva de gestar. Infertilidade é a demora do casal em gestar após 1 ano de tentativas.
A endometriose costuma estar associada à infertilidade, ou subfertilidade, pois algumas mulheres que não gestaram em um ano poderão o fazer após esse período de forma natural.
Quanto maior o tempo de tentativas do casal, menores são as chances de que ocorra uma gestação natural, podendo então haver a necessidade de algum tipo de tratamento.

A Endo e Eu: Entre as frases comuns que se escutam por aí estão: “Engravide que a endometriose passa”, ou “Depois da menopausa, não terá mais endometriose”. O senhor acha sobre isso?

Doutor Alysson Zanatta: São mitos, que infelizmente atrapalham o entendimento da doença e atrasam os tratamentos. Esses mitos são consequência direta do entendimento de que a endometriose é causada pela menstruação retrógrada, o que jamais foi provado cientificamente. No dia que pararmos de acreditar que a endometriose vem da menstruação, esses mitos acabarão.

A Endo e Eu: Um dos meios usados por muitos médicos para tratamento da endometriose é o uso da pílula contínua. Quais os benefícios que esse tratamento tem? Ele é eficaz? E quais os riscos?

Doutor Alysson Zanatta: A pílula contínua pode ser um método eficaz de CONTROLE dos sintomas associados à endometriose. Digo controle porque nenhuma medicação é capaz de erradicar a doença (fazê-la desaparecer), o que não significa que a mulher não possa tomar medicações. A pílula também não terá influência sobre o desenvolvimento da doença. Ou seja, ela nem evita, e nem piora as lesões. Ela simplesmente controla as dores, em maior ou menor grau, e esse é o seu grande benefício. Os riscos associados às pílulas vêm sendo bastante discutidos na mídia, como riscos de trombose, por exemplo. Penso que esses riscos são raros, e os benefícios superam os riscos, quaisquer que sejam as indicações para uso de pílula.
Em relação à endometriose, talvez o principal malefício da pílula seja o atraso no diagnóstico da doença. Como costuma haver uma melhora dos sintomas, deixamos de pensar que possam existir lesões, e essas mulheres podem ser surpreendidas com uma doença avançada e com relativamente poucos sintomas. Outro malefício é acreditarmos que estamos tratando a doença, ou evitando a sua progressão, quando na verdade estamos apenas controlando os sintomas.

A Endo e Eu: Com sua experiência, qual o melhor tratamento para eliminar a endometriose e devolver à portadora a qualidade de vida que ela tinha antes de começar a ter sintomas que alteram sua rotina?

Doutor Alysson Zanatta: Caroline, o tratamento sempre deverá ser individualizado e baseado em dois fatores principais: presença de dor e/ou infertilidade. A PRESERVAÇÃO da fertilidade daquela mulher que ainda não tem planos para engravidar também tem que ser levada em conta. Considerando uma mulher que tem sua qualidade de vida bastante afetada pela endometriose, penso que a cirurgia de remoção máxima da doença pode ser altamente eficaz para restabelecer seu bem-estar. Não falo de cirurgia de cauterização de focos, ou de cirurgia apenas para os cistos ovarianos de endometriose (endometrioma), mas sim de uma cirurgia que buscará a remoção máxima e completa dos focos profundos. Quando bem indicada e bem realizada, as taxas de sucesso são superiores a 80-90% para melhora de dor.

A Endo e Eu: Quando a paciente entra no seu consultório, e o senhor conclui que ela precisa ser operada, quais os cuidados que geralmente tem na informação sobre o quadro clínico e a preparação emocional da portadora? O senhor envolve também o parceiro dela nas consultas?

Doutor Alysson Zanatta: Certamente o parceiro da paciente, ou uma pessoa próxima, será fundamental para o sucesso do tratamento. Busco sempre informá-los ao máximo sobre a cirurgia, seus riscos e benefícios, para que decidam da melhor forma. A minha decisão jamais será suficiente para indicar uma cirurgia, mas sempre uma decisão em conjunto.
Se houver instabilidade emocional, a cirurgia é adiada até que haja um melhor momento. A informação e a empatia são as melhores armas para o restabelecimento da estabilidade emocional. E conseguimos isso após muitas horas de conversa, durante várias consultas. Assim, as pacientes chegam decididas e confiantes à cirurgia.

A Endo e Eu: Existe um enorme impacto para o casal e para a família quando a mulher é acometida por essa doença. Qual a importância que o doutor atribui à participação do homem nessa terrível jornada que é a endometriose?

Doutor Alysson Zanatta: O homem tem papel fundamental. Ele será o suporte, o ponto de apoio, durante a jornada que as mulheres enfrentam. Eles deverão entender que a mulher não se sente daquela maneira porque elas querem, mas sim porque têm uma doença real. Eles deverão reforçar positivamente que as dificuldades serão superadas, e de que sempre haverá um caminho a seguir. Com o acolhimento e o suporte positivo, os desafios tornam-se mais fáceis de serem enfrentados.

A Endo e Eu: São frequentes os casos em que o Dr. recomenda a histerectomia? Em que situações pode ser justificada a remoção dos ovários, das trompas e do útero?

Doutor Alysson Zanatta: Como tratamento exclusivo da endometriose, NÃO HÁ indicação de retirada de útero ou ovários, por um simples motivo: a doença não é causada pela menstruação. Entretanto, haverá situações onde existe simultaneamente a ADENOMIOSE, que se caracteriza por um “amolecimento” e crescimento irregular do miométrio (o músculo uterino), e que pode também ser fonte de dores e sangramento irregular, entre outros. A adenomiose costuma ser mais frequente após os 35 ou 40 anos de idade, idade em que muitas mulheres tiveram os filhos desejados. Assim, se houver adenomiose associada, e se a mulher já tiver realizado seus planos reprodutivos, podemos recomendar a histerectomia associada à remoção das lesões de endometriose. Cabe observar que a retirada única do útero em vigência de endometriose pode não ser suficiente para tratamento da dor, pois as lesões persistentes podem continuar prejudicando. Assim, o benefício ocorrerá apenas com a remoção da endometriose. A endometriose pode sim afetar as trompas uterinas, e maior ou menor grau. Devemos sempre ser conservadores, e a remoção das trompas estará indicada apenas nas distorções severas, especialmente quando houver hidrossalpinge (dilatação). Felizmente, são raras as situações onde são necessárias as remoções de ambas as trompas. Quanto aos ovários, estes deverão ser preservados quase sempre, salvo em raríssimas situações de comprometimento completo de sua função. Observo que muitas mulheres que chegam a mim já foram operadas no passado e tiveram um ovário retirado. Isso é extremamente ruim para a mulher, pois são nos ovários onde está concentrada toda sua reserva de óvulos, além do seu papel fundamental na produção de hormônios que dão proteção óssea e cardiovascular. Novamente, os ovários são retirados acreditando-se que a doença venha da menstruação, e que se retirássemos os ovários e interrompêssemos o estímulo para a menstruação, a doença estaria tratada. Isso não é verdade, e a retirada dos ovários pode apenas prejudicar ainda mais a mulher com endometriose.

A Endo e Eu: A maioria das mulheres são mutiladas numa cirurgia de endometriose e ainda continua com a doença. Como o senhor vê essa mutilação e como promover a preservação da capacidade reprodutiva da mulher?

Doutor Alysson Zanatta: Os melhores resultados cirúrgicos (efetividade na remoção da doença sem complicações cirúrgicas) dependerão de melhor capacitação da equipe médica, além da disponibilidade de materiais e condições hospitalares adequadas. A capacitação prevê uma longa curva de aprendizado. Lesões podem acontecer mesmo com equipes experientes, mas essas devem ser a exceção, e não a regra.

A Endo e Eu: Vários cirurgiões falam que a cirurgia pélvica para endometriose é a mais complexa que pode ser realizada no corpo humano. O que sustenta essa afirmação?

Doutor Alysson Zanatta: A completa distorção anatômica que pode ocorrer com a endometriose é o que pode tornar a sua cirurgia bastante complexa. Porém, nem todas as mulheres com endometriose têm essa distorção. Eu diria que a cirurgia é uma cirurgia de detalhes, de minúcia. Depende fundamentalmente da identificação das lesões (o que acontecerá apenas se você tiver visto endometriose no passado), do conhecimento da anatomia pélvica, da paciência em removê-las, e da iniciativa da equipe cirúrgica, assumindo riscos controlados para o maior sucesso da cirurgia.

A Endo e Eu: Tivemos o enorme prazer de tê-lo conosco na marcha de São Paulo, junto com o doutor Hélio Sato, que ocorreu simultaneamente em cerca de 60 países pela conscientização da endometriose. Como o senhor vê esse movimento iniciado pelo doutor Camran Nezhat a partir dos Estados Unidos?

Doutor Alysson Zanatta: Acho fantástico. Minhas maiores esperanças para avanços reais na luta contra a endometriose estão na conscientização e informação das mulheres e da sociedade. Só assim venceremos os mitos e avançaremos nos tratamentos.

A Endo e Eu: Agora como professor-adjunto de ginecologia na Universidade de Brasília o que o doutor pretende passar a seus alunos?

Doutor Alysson Zanatta: A empatia, a sensibilização com o sofrimento das mulheres que têm endometriose. Tento passar a não rejeição que nós médicos, involuntária e inconscientemente, podemos ter com os doentes para os quais nos sentimos incapazes de tratar. Ensino-os a fazer o diagnóstico precocemente a partir da história clínica e do exame ginecológico, pois isso pode mudar para melhor o destino da mulher.

A Endo e Eu: Desde os países mais desenvolvidos até aos mais modestos, mulheres de todo o mundo lutam para entender esse flagelo e para conseguir que os seus governos reconheçam a doença, implementando políticas de tratamento humanas e acessíveis a qualquer cidadã. Essa marcha tem vindo a unir essas vozes que nesse evento se juntam em coro. Hoje já verificamos que existem mais pessoas familiarizadas com o nome da doença. Esse movimento do povo para o povo, que importância tem na sua opinião?

Doutor Alysson Zanatta: A mobilização das portadoras é o principal movimento de todos, Caroline. Mais importante até do que movimentos científicos originados da classe médica. Quanto mais pessoas tiverem ouvido o nome da doença, maiores serão as chances de que as mulheres sejam diagnosticadas mais precocemente, e portanto com maiores chances de serem tratadas adequadamente.

A Endo e Eu: Por ser uma doença que não é visível exteriormente, muitas pessoas não acreditam no sofrimento das portadoras. Muitas vezes somos xingadas de toxicodependentes quando pedimos analgésico forte, ou de folgadas porque não conseguimos levantar da cama para fazer tarefa doméstica ou ir trabalhar. Isso gera muita frustração e desgosto, que um pouco por todo o mundo levou à utilização das redes sociais para criar grupos onde as portadoras se entreajudam e podem desabafar. Muitas delas resistem ao suicídio através desses grupos. Enquanto cirurgião, é importante que elas tenham essas âncoras emocionais?

Doutor Alysson Zanatta: Sem dúvida. O diálogo e o extravasamento de nossas angústias são necessários para que possamos vencê-las. A coragem em se manifestar é importantíssima. A troca de experiências tornará a mulher mais forte, mais orientada sobre a doença, e com maiores chances de tomar as decisões corretas para seu próprio tratamento.

A Endo e Eu: Poderíamos continuar nossa entrevista por horas sem esgotar o tema. Para finalizar, gostaria de referir que muitas portadoras partilham experiências sobre medicação, e também sobre o tempo de recuperação pós-operatório, inclusive, para reiniciar a atividade sexual. Pode nos dar uma opinião sobre os riscos e benefícios dessa partilha?

Doutor Alysson Zanatta: Caroline, entendo que as experiências serão diferentes e variadas, pois as cirurgias costumam ser diferentes. Além disso, há diferentes graus de endometriose, o que levará a essas diferentes experiências. Mesmo assim, não vejo risco algum nessa troca de experiências. Ela é importante para que a mulher possa discutir com o seu médico os aspectos de seu tratamento. É a partir da troca de experiência que surgem as dúvidas, e isso é muito bom. Mais uma vez, agradeço a ótima oportunidade de estar em contato com as leitoras do blog. Parabéns pelo seu trabalho, pela linda Bárbara e toda sua família. E vamos em frente sempre! 


Sobre o doutor Alysson Zanatta:
Graduado e com residência médica pela Universidade Estadual de Londrina, doutor Alysson Zanatta tem especializações em uroginecologia e cirurgia vaginal pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cirurgia laparoscópica pelo Hospital Pérola Byington de São Paulo e doutorado pela Universidade de São Paulo, USP. Suas principais áreas de atuação são a pesquisa e o tratamento da endometriose, com ênfase na cirurgia de remoção máxima da doença. Seus inter­esses são voltados para iniciativas que promovem a conscientização da população sobre a doença, como forma de tratar a doença adequadamente. É diretor da Clínica Pelvi Uroginecologia e Cirurgia Ginecológica em Brasília, no Distrito Federal, onde atende mulheres com endometriose, e Professor-adjunto de Ginecologia da Universidade de Brasília (UnB). (Acesse o currículo lattes do doutor Alysson Zanatta). 

terça-feira, 21 de julho de 2015

DE MÃE PARA MÃE: ALERTA PARA AS MÃES DE MENINAS!!

Foto: arquivo pessoal


O texto de hoje é muito importante e tem de ser lido por todas as mães de meninas, ou para o máximo possível. Conheci a Giselle em dezembro de 2013, quando ela me procurou pedindo informações sobre a EndoMarcha. Ela tinha 18 anos e uma garra que muitas de 40 não tem. De imediato me encantei por ela e por sua determinação. Ela comandou com maestria a marcha no Rio Grande do Sul em 2014 e em 2015. Pouco tempo depois conheci sua mãe. E tal como a filha, fiquei maravilhada com essa mãe. A dedicação, o carinho, a amizade, a preocupação, uma mãe nota mil que merece ser ouvida. Foi graças a sua insistência que sua filha foi diagnosticada com endometriose. O diagnóstico, antes do médico, veio da mãe que observando tudo que a filha sentia pesquisou e encontrou a palavra endometriose. Eu quero ser assim muito amiga da minha filha, para não dizer sua melhor amiga. "De mãe para mãe", uma história real que todas as mães devem ler. Beijo carinhoso! Caroline Salazar

Por Kátia Del Sent
Edição: Caroline Salazar

"Desde seu nascimento minha filha Giselle foi atendida por um médico clínico e homeopata fazendo consultas de revisão com o pediatra. Até os doze anos só tomou homeopatia com tratamentos específicos para alergias de pele e rinite. Tomou o primeiro anti-inflamatório aos 12 anos quando fez a retirada dos dentes sisos. Sua primeira menstruação foi aos 11 anos sem muitos problemas. Não tinha cólicas e o fluxo era normal. Desde a infância alimentava-se bem a qual mudou um pouco na adolescência. Por isso, aos 14 anos, quando começou a queixar-se de dificuldades para evacuar e dores no abdômen. Primeiro a incentivei a alimentar-se melhor, explicando e levando-a até à nutricionista, pois essas dores poderiam ser em função da alimentação inadequada, mas as queixas continuaram. Desde a primeira menstruação eu costumava levá-la ao ginecologista. Nós sempre tivemos diálogo aberto o que a deixava segura para conversar comigo sobre o que quisesse me pedindo sempre que a acompanhasse nas consultas interagindo com ela e a médica. Após iniciar a atividade sexual as queixas tornaram-se constantes passando a ter infecções urinárias repetitivas passando a fazer uso de remédios para dor e antibióticos com frequência. Os tratamentos com homeopatias não surtiam efeito, o que me estranhava.

Aos 16 anos sua ginecologista pediu uma ecografia transvaginal, que ela fez utilizando um convênio pela empresa do pai. Por ser menor de idade e por vontade dela entrei junto na sala e, enquanto o médico a examinava, observei que ela sentia uma DOR que não é normal para este tipo de exame. Falei para o médico, que me disse que era normal sim por ser a primeira vez, mas eu não concordei. Logo ele me disse que estava tudo bem e que ela só tinha um líquido livre na pelve. Levamos o resultado para a médica que achou normal. Talvez tivesse tido alguma “infecção” sem se importar muito e pediu que voltássemos em um ano para revisão.

As dores tornaram-se mais frequentes. Retornamos, então, para o clínico homeopata com os exames. De imediato ele solicitou novos exames e indicou uma ginecologista de sua confiança. Agora a Giselle passava a ser atendida no plano de saúde da empresa onde ela trabalhava como jovem aprendiz, por isso tivemos acesso a esse tipo de atendimento, pois pelo SUS ou pelo convênio do pai dela seria impossível. Fizemos a consulta com a médica indicada que, pela primeira vez, examinou a Giselle onde novamente eu mostrei a médica o quanto ela estava sentindo dor. A médica também ficou surpresa e eu perguntei a ela sobre a possibilidade de ser endometriose, apesar de conhecer pouco sobre a doença sabia que causava muita dor. Porém ela me respondeu que os sintomas eram muito fortes para quem menstruava há pouco tempo. Com a outra ecografia, que mostrava estar tudo normal, a médica pediu outros exames e a encaminhou para um urologista para descartar a possibilidade de problemas de trato urinário. Ela indicou também um profissional de sua confiança. No dia seguinte consegui um encaixe com ele no final do expediente da Giselle. Ela havia passado a tarde toda com muita dor, já sofrendo as dificuldades e preconceitos por parte dos colegas de serviço que pela quantidade de atestados faziam comentários pensando que ela poderia estar grávida. Chegamos à consulta com muita dificuldade, pois ela quase não conseguia caminhar. Queixava-se de dor também na perna. O médico pediu vários exames complexos a serem realizados em hospital. Eu a acompanhei e sempre fiquei junto dela dentro da sala de exames. Em um deles ela teve um princípio de desmaio e eu a socorri até que os médicos chegarem na sala.

Retornamos ao consultório do urologista com os exames, que deram todos normais. Ele sugeriu um tratamento por três meses de antibióticos como prevenção às infecções urinárias. Porém, pela segunda vez, ele fez um comentário desnecessário, que as dores poderiam ser psicológicas e que seria interessante consultar um psicólogo. Eu logo interferi, pois a Giselle já se tratava com uma psicoanalista há alguns anos, e ele ficou sem ter o que dizer. Retornamos à ginecologista que agora concordava comigo: tentaríamos de interromper a menstruação dela com anticoncepcional, pois ela também suspeitava que a Giselle poderia ter endometriose. Retornamos ao clínico homeopata que indicou um especialista em endometriose, pois deveria ser feito uma vídeolaparoscopia para cauterizar os focos e depois seguir o tratamento.

 Conhecemos então o Dr. Sérgio Galbinski que fez algumas perguntas específicas e concluindo de imediato que os sintomas eram de endometriose. Ele sugeriu que ela fizesse a vídeo nas próximas semanas, mas resolvemos pensar, pois ela estava em datas de provas na escola. Buscamos opinião de outra médica que também é bastante envolvida em endometriose em Porto Alegre ela pediu uma série de exames, entre eles, a ressonância magnética. Infelizmente nenhum exame mostrou a endometriose. Então, ela sugeriu que a Giselle fizesse atividade física e passasse a se alimentar melhor e retornasse em seis meses para novos exames. Depois desta consulta concluímos que o melhor seria fazer a vídeo. Conversamos novamente com o médico homeopata que nos deixou segura quanto ao trabalho do Dr. Sérgio. A Giselle concordou em fazer a cirurgia, pois para tratamentos mais invasivos, é preciso que a paciente mesmo sendo menor de idade aprove e tenha segurança que é o melhor caminho. Marcamos a vídeo para as férias da Giselle. A cirurgia foi um sucesso apesar do estresse para obtermos a autorização do convênio. Foram constatados poucos focos de endometriose (mas, sim ela estava com endo) e obstrução em uma das trompas. Após a vídeo a Gi começou a usar Gestinol sem pausa reduzindo muito suas dores e as infecções urinárias. Foi sugerido a ela o Mirena, mas ela não aceita muito bem esta ideia ainda e respeitamos sua opinião.

Passados dois anos, ela vai fazer outra vídeo, pois na última ecografia o útero aparece colado ao ovário sendo necessário nova intervenção cirúrgica. Acredito que por ter o diagnóstico precoce e o médico também afirma a Giselle tem poucas complicações, conforme opinião do cirurgião. Ela tem sintomas muito fortes e pouca doença o que comprova o quanto esta doença é instável e diferente para cada pessoa. Quando a Giselle descobriu que em 2014 teria a 1ª Marcha Mundial da Endometriose pedindo informações para Caroline Salazar, ela foi convidada a organizar aqui, em Porto Alegre como coordenadora, pois não havia ninguém para coordenar e ficaríamos fora. Ao saber logo a incentivei a participar pois ajudar as pessoas que dependem só do SUS nos faz desviar o olhar dos nossos problemas amenizando também as nossas dificuldades. Na época a Gi tinha apenas 19 anos e em 40 dias conseguiu organizar tudo com minha ajuda e a parceria do Hospital Fêmina, ajudada prontamente pelo seu médico. O ano de 2014 foi um ano muito positivo à Giselle. Ela entrou na faculdade de Administração com bolsa pelo Pro Uni e no segundo semestre foi chamada para a UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Seguiu seu tratamento com Dr. Sérgio, estudando, trabalhando e apoiando as portadoras de endometriose aqui no RS através do Grupo Endogaúchas. Em 03 de fevereiro deste ano realizou a segunda vídeo. Assim como na primeira vídeo a Giselle tinha poucos focos e todos cauterizados. Sua recuperação foi muito boa. Agora, aos 20 anos, minha filha deve seguir tomando anticoncepcional contínuo e terá suas consultas de rotina. Foi uma longa e difícil caminhada, agradecemos a Deus por nos guiar e nos aproximar de profissionais competentes que nos ajudaram a chegar ao diagnóstico a tempo de tratar a endometriose antes de ficar mais grave e com sequelas.

Meu alerta às mães é que fiquem sempre de olho em suas filhas e, a qualquer sinal de anormalidade, que as incentive a procurar ajuda. Acho que a descoberta precoce da doença na Giselle foi graças a minha suspeita e insistência de que ela poderia ter endometriose, mesmo quando os médicos não descobriam nada. Não abandonem seus filhos. Prestem atenção neles. Em especial as mães precisam ser amigas de suas filhas, suas confidentes. Um beijo carinhoso! Kátia"

terça-feira, 14 de julho de 2015

MATTHEW ROSSER: ENDOMETRIOSE EM CADELAS?


imagem cedida por Free Digital Photos
A cada dia que passa, em nossas traduções, descobrimos que a endometriose ultrapassa a questão de ser apenas uma doença da mulher. E isso se comprova em mais um artigo do cientista inglês Matthew Rosser, grande estudioso da doença. Já vimos que a doença já foi encontrada em macacos e, agora, pasmem, ela foi achada em uma cadela, na forma de endometrioma, cisto chocolate no ovário. Pode ser um caso raro, ou como diz o próprio Matthew, talvez, alguma endometriose em cadelas pode ter sido confundida com tumores, já a doença aparece na forma de uma massa. Um texto interessante para leitura que vai desmistificar ainda mais a endometriose. Beijo carinhoso! Caroline Salazar

Por Matthew Rosser
Tradução: Alexandre Vaz
Edição: Caroline Salazar
 Endometriose em cadelas?


Só para esclarecer, sim estou falando de um cão fêmea, a que foi alvo desse artigo e a ocorrência daquela que provavelmente é a forma mais rara e intrigante de endometriose que já encontrei até hoje. 

Sabemos que a endometriose pode ocorrer em locais estranhos, como o coração ou o cérebro, ou em animais que não esperaríamos como nos macacos, ou em pessoas que não esperaríamos como em homens ou crianças do sexo feminino de tenra idade (nota da editora: crianças de pouca idade, geralmente, menores que 10 anos), mas esse caso ultrapassa tudo.

Existem vários motivos que fazem com que esse caso sobressaia tanto. Em primeiro lugar, olhando todas as ocorrências estranhas da endo, embora bizarras, elas não são de todo inesperadas. Por exemplo, endo ocorre em humanos, então descobri-las em outras partes do corpo para além dos órgãos reprodutores, em homens e em moças jovens é estranho, mas não totalmente irracional.

Pela mesma lógica porque estamos geneticamente muito próximos dos primatas, não é inesperado que algumas espécies de macacos tenham endometriose também. O que é inesperado é encontrar endometriose em um animal tão diferente dos humanos, e um que para todos os efeitos nunca teve descoberta da doença e nem deveria poder ter.

Para resumir o caso, uma cadela de 11 anos de raça pastor alemão foi levada ao veterinário no Brasil, mas morreu inesperadamente durante um exame. Durante a autópsia o veterinário encontrou uma massa de grande dimensão atrás do útero e dos ovários, que mais tarde foi identificada como sendo endometrioma, um cisto cheio de tecido sólido e sangue.

Os endometriomas são cistos em que a camada exterior é composta por tecido semelhante ao endométrio normal e que enche de sangue que acaba virando um fluido castanho, dando origem ao nome “cisto chocolate”. Os endometriomas surgem com alguma frequência nos ovários das mulheres, mas podem surgir em outros locais como a parte posterior do útero e nos ligamentos que seguram o útero no lugar (nota da editora: ligamentos redondos).

Porque não deveríamos esperar ver endometriose em cachorros? Essencialmente porque o sistema reprodutor do cadela é muito diferente do da mulher. Cachorros não têm ciclo menstrual como os humanos, mas um ciclo estral. E enquanto as variações hormonais de um ciclo estral podem ser vistas como semelhantes ao do ciclo menstrual, as alterações físicas e o tempo entre estágios dos diferentes ciclos variam significativamente.

Um dos exemplos mais importantes é que se a cadela não engravidar, o endométrio é reabsorvido pelo útero, enquanto que o da mulher descama e é expelido durante a menstruação. Isso coloca a questão de como foi que o endometrioma surgiu.

Por muito tempo foi sugerido que endometriose surge das células endometriais descamadas durante a menstruação, em refluxo através das trompas de falópio e para fora da cavidade pélvica, onde se implantam e crescem para formar lesões endometrióticas. Esse é um processo chamado de 'menstruação retrógrada' e é apresentado por muitos (eu não me incluo nisso) como a melhor explicação para a origem da endometriose.

Como podemos então ter um endometrioma em um animal que não menstrua? Uma teoria que surgiu faz muitos anos [metaplasia celômica], sugere que certas formas de endometriose surgem de mudanças hormonais que induzem transformações na fina camada de tecido que envolve os órgãos reprodutores [mesotélio celômico]. Isso também providencia uma explicação decente para as ocorrências extremamente raras de endometriose em homens, todos eles sujeitos a terapia hormonal para tratamento de câncer de próstata. Os autores desse artigo também apontam que tumores e outros tipos de cistos derivados do [mesotélio celômico] são frequentes em cachorros, indicando que esse pode ser outro tipo ainda desconhecido da doença. Isso poderia explicar um endometrioma em uma cadela? Possivelmente, embora os veterinários não tenham notado nenhum desiquilíbrio hormonal na cadela e não existissem patologias nos ovários que resultassem em alterações à produção hormonal.

Outra descoberta que poderá dar uma pista sobre o surgimento desse endometrioma foi a presença de “fardos” de tecido muscular macio dentro do cisto. Não é normal encontrar músculo assim em endometriomas, então a sua presença sugere não um simples endometrioma, mas uma massa semelhante ao útero. Como isso pode ter acontecido é meramente especulativo, poderá ser um defeito genético de nascença que só foi diagnosticado quando viram um problema sério.

Uma questão importante é como esse foi o primeiro caso de endometrioma reportado em cachorros? Eles são levados ao veterinário o tempo todo, existem provavelmente milhões de cachorros que vão ao veterinário por ano, porque será que esse foi o primeiro caso? A resposta simples e curta é: não faço a menor ideia. Poderá ser que os endometriomas simplesmente não são reconhecidos como tal em cachorros.

Nesse caso de estudo os autores referem: “baseado apenas na massa macroscópica, especialmente na coloração vermelha e na presença de cavidades cheias de sangue coagulado, foi feito um diagnóstico inicial de [hemangiosarcoma]. Então é possível que endometriomas estejam sendo confundidos com câncer em cadelas, mas desconheço se a análise microscópica é feita como rotina nos tumores em cachorros, e fica difícil dizer se é esse o caso.


A incidência de endometriose em espécies não-humanas tem sido alvo de muito pouca atenção, exceto algumas espécies de macacos usadas em experimentos laboratoriais. Pode ser que a endometriose seja muito rara fora da espécie humana, ou que não esteja sendo diagnosticada, seja por falta de conscientização ou da falta de análise microscópica de tumores em animais não seja um procedimento rotineiro. Em qualquer dos casos, ao que parece, a endometriose não é um problema exclusivo dos humanos.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

DAVID REDWINE: CUIDADOS PÓS-OPERATÓRIOS E COMPLICAÇÕES DA ENDOMETRIOSE INTESTINAL - PARTE 4!



Após sabermos como é o histórico, os sintomas, o diagnóstico e o tratamento cirúrgico, na última parte do texto sobre endometriose intestinal, o doutor Redwine fala sobre os cuidados pós-operatórios e as complicações que a paciente poderá ter. Essa parte é muito importante não só para as portadoras, mas para os médicos também. Boa leitura! Beijo carinhoso! Caroline Salazar

Cuidados Pós-operatórios 
Não é necessária nenhuma mudança de cuidados em pacientes com ressecção intestinal tipo “shaving” profundo, e elas podem receber alta no dia da cirurgia caso tolerem líquidos e medicações por via oral sem vômitos, e se forem capazes de urinar espontaneamente com sinais vitais normais. Em pacientes com uma ou duas ressecções discoides de espessura total, podem ser permitidos líquidos no mesmo dia logo após a cirurgia, e a paciente pode ser liberada na parte da tarde se estiver estável. Ela deverá receber uma dieta leve até iniciar a eliminação de flatos.
Após resseções intestinais segmentares, administra-se apenas cubos de gelo por via oral até que a paciente inicie eliminação de flatos. Sondagem nasogástrica não é necessária. Os flatos começam geralmente no quarto dia. Começa-se então a administração de líquidos. Se a paciente tolerar, progride-se para uma dieta líquida completa e a paciente pode ser liberada. Em casa, acrescenta-se carboidratos por um ou dois dias, seguida de carne, e então dieta conforme a aceitação. Essa dieta deve conter poucos resíduos para ser facilmente digerida no estômago e intestino delgado. Os principais itens a serem evitados na dieta são aqueles ricos em fibra vegetal, como saladas e vegetais, ou alimentos ricos em proteínas, como carne e feijão. O volume de ingesta hídrica no pós-operatório também é importante, pois água em grandes volumes pode sobrecarregar muito o intestino. A maior parte das pacientes estará com dieta regular em 10 dias após a cirurgia.
Complicações
Caso haja náuseas ou vômitos significativos após a cirurgia, a paciente deverá receber apenas líquidos até que esteja melhor, assim como deverá evitar analgésicos narcóticos. Esses analgésicos podem causar gastrite e estimularem o centro neural de vômitos causando problemas em algumas pacientes. A paciente deverá informar o médico sobre condições incomuns como vômitos persistentes, piora da dor ou distensão abdominal, ou febre, para que eventuais complicações possam ser consideradas. A desidratação causada pela redução da ingesta oral pode às vezes confundir o quadro já que a paciente pode apresentar fraqueza e vômitos nessas circunstâncias. Se a paciente ligar para informar problemas, podemos obter informações clínicas relevantes pedindo a algum familiar que encoste o ouvido sobre o abdômen da paciente e ouça o som de movimentos intestinais, e que meça a sua temperatura. Informações sobre desidratação podem ser obtidas questionando-se o débito urinário nos últimos dois dias.
Se houver preocupação quanto à uma complicação importante, e paciente deverá ser levada ao hospital para que se realize exames de sangue, culturas se houver possibilidade de infecção, assim como testes de integridade dos tratos urinário e intestinal. Para as ressecções de ceco, retossigmoide, e algumas ressecções de íleo, os enemas contrastados com água ou bário podem dar rápidas informações sobre extravasamentos intestinais. Alguns radiologistas podem manifestar preocupação que, caso haja algum extravasamento, a paciente possa piorar com a realização do exame. Esta preocupação é infundada. Tal extravasamento deve ser identificado pois pode ser potencialmente fatal e se for identificado isso levaria a paciente para uma cirurgia imediata de qualquer maneira para correção do problema e limpeza do contraste extravasado. Tomografia computadorizada com contraste oral ou endovenoso ou pielografias contrastadas podem ser úteis na identificação de problemas no trato urinário ou intestino delgado. Radiografias abdominais simples podem identificar íleo paralítico com excesso de gás no intestino delgado e níveis hidroaéreos aumentados. Ar livre sob o diafragma pode estar relacionado à cirurgia recente e também pode indicar um extravasamento intestinal.
Algumas pacientes podem estar tão graves que a realização de exames passa a não fazer sentido, e a cirurgia de urgência torna-se a melhor escolha. Se a paciente for levada à cirurgia de urgência sem a realização de exames de imagem, o corante índigo carmin deverá ser injetado por via intravenosa durante a cirurgia já que algumas pacientes podem ter lesão concomitante do trato urinário. A insuflação de ar no reto imerso em líquido pode ajudar a identificar pequenos extravasamentos no cólon. As grandes perfurações serão óbvias pela presença de líquido fecal de mau odor. Eventualmente, não será encontrada uma perfuração intestinal, e o quadro clínico da paciente poderá ser devido à uma complicação urinária. Um líquido turvo que pode ser encontrado durante a cirurgia pode ser confundido com um abscesso inicial, se o cirurgião estiver focado em uma perfuração intestinal mais preocupante.

Durante a cirurgia, o reparo das lesões intestinais e urinárias estará frequentemente sob os cuidados de um cirurgião geral ou urologista, e tais reparos estão além do objetivo desse artigo. Pequenas lesões intestinais que são tratadas precocemente podem necessitar apenas de suturas.
Sobre o doutor Alysson Zanatta:


Graduado e com residência médica pela Universidade Estadual de Londrina, doutor Alysson Zanatta tem especializações em uroginecologia e cirurgia vaginal pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cirurgia laparoscópica pelo Hospital Pérola Byington de São Paulo e doutorado pela Universidade de São Paulo, USP. Suas principais áreas de atuação são a pesquisa e o tratamento da endometriose, com ênfase na cirurgia de remoção máxima da doença. Seus inter­esses são voltados para iniciativas que promovem a conscientização da população sobre a doença, como forma de tratar a doença adequadamente. É diretor da Clínica Pelvi Uroginecologia e Cirurgia Ginecológica em Brasília, no Distrito Federal, onde atende mulheres com endometriose, e Professor-adjunto de Ginecologia da Universidade de Brasília (UnB). (Acesse o currículo lattes do doutor Alysson Zanatta). 

quinta-feira, 9 de julho de 2015

DAVID REDWINE: ENDOMETRIOSE INTESTINAL - TRATAMENTO CIRÚRGICO - PARTE 3!

Após falarmos do histórico, dos sintomas e do diagnóstico da endometriose intestinal, na terceira parte do texto, o doutor Redwine aborda o tratamento cirúrgico da doença, desde as lesões superficiais às profundas. Aqui ele fala porque a cirurgia é o tratamento definitvo para a doença. Boa leitura. Beijo carinhoso! Caroline Salazar

Tratamento Cirúrgico 
A endometriose intestinal pode ser tratada por ressecções que são superficiais, tipo “shaving” profundo, discoides ou segmentares. A maior parte das mulheres com endometriose intestinal não necessitará de ressecção segmentar. Preparo intestinal e antibióticos pré-operatórios serão utilizados caso seja antecipada a necessidade de procedimento intestinal. Com o aumento do número de áreas intestinais acometidas pela doença, cresce a probabilidade de uma ressecção de espessura total ou segmentar (Fig. 13). A remoção dos órgãos pélvicos não é necessária para o tratamento de sucesso da endometriose intestinal.



Figura 13. Com o aumento do número de áreas intestinais acometidas por endometriose, aumenta a probabilidade de ressecção discoide ou segmentar.
A parede do cólon intraperitoneal é composta de quatro camadas: serosa, muscular externa longitudinal, muscular interna circular, e mucosa. Abaixo da reflexão do fundo de saco, a camada serosa está ausente. A parede do intestino delgado é semelhante, porém mais fina. Portanto, a camada muscular do intestino delgado comporta-se cirurgicamente como uma camada única. Essas camadas da parede intestinal podem ser utilizadas a favor do cirurgião durante o tratamento da endometriose intestinal porque geralmente uma camada envolvida pela endometriose pode ser “descascada” (nota do tradutor: separada) das outras camadas subjacentes, resultando em uma ressecção de espessura parcial que pode desnudar a camada mucosa em alguns casos. As técnicas descritas a seguir podem ser realizadas mais efetivamente com três punções e uma tesoura monopolar de 3-mm através do canal operatório do laparoscópio de 10 mm, utilizando-se dissecção por corte ou excisão elétrica com 90 watts de potência em corrente de corte puro [37].  A cirurgia de endometriose intestinal é ditada pelo grau de profundidade de invasão e localização da doença. Desse modo, várias técnicas são necessárias, todas guiadas em parte pela palpação da parede intestinal na busca por nódulos.
Lesões Superficiais
A tesoura corta perpendicularmente na parede intestinal sadia adjacente à lesão, primeiro penetrando na camada muscular externa do intestino. Prende-se a lesão e faz-se a sua dissecção, com a tesoura trabalhando em uma das camadas musculares. A dissecção pode rapidamente evoluir além da lesão, portanto deve-se tomar cuidado para decidir quando deve-se parar de cortar. A sutura da parede intestinal com algodão 2-0 é prática e inteligente. Pode-se adquirir uma valiosa experiência suturando-se pequenos defeitos da parede intestinal. Para que a sutura interna seja fácil, deve-se manter dois pontos em mente: (1) o bordo longo do fio de sutura deve ser seguro de modo a formar um arco apontando para o trocater pelo qual se passa o instrumento para se fazer o nó. (2) O bordo curto do fio de sutura deve ser posicionado imediatamente abaixo do ponto onde o nó será atado (Fig. 14). Isso evita que se fique buscando pelo bordo do fio, o que pode fazer com que a sutura saia do tecido.


Figura 14. O nó intracorpóreo é fácil desde que alguns passos sejam seguidos. A pinça da esquerda segura o fio de sutura de modo que forme um arco cujo eixo de simetria é direcionado ao instrumento que realizará o nó, nesse caso o porta-agulhas passado através do trocater à direita. O bordo curto da sutura é posicionado imediatamente abaixo onde o nó será atado para que seja facilmente alcançado.
Shaving” profundo
Eventualmente, uma grande lesão necessitará de dissecção até a mucosa para uma ressecção completa. Se não houver fibrose submucosa, ambas as camadas musculares podem ser facilmente descascadas da mucosa com uma dissecção cortante e romba (Fig. 15.), uma técnica ocasionalmente referida como “shaving profundo”. Uma vez que a lesão tenha sido isolada, utiliza-se a tesoura para ressecá-la da superfície do intestino. Fique atento para não ultrapassar o nódulo antes de ressecá-lo. Suturas de algodão 2-0 são utilizadas para o fechamento da serosa e da muscular em uma única camada. A profilaxia antibiótica é opcional.
Figura 15. “Shaving profundo” do cólon para tratamento de endometriose intestinal. A pinça à esquerda está segurando o nódulo de endometriose que está sendo dissecado da mucosa subjacente. A tesoura de 3 mm está repousando diretamente sobre a mucosa intacta. Note as estrias lineares da camada muscular circular interna.
Ressecção de íleo
O íleo é mais comumente afetado em sua porção terminal. Uma massa na parede do intestino pode não ser visualizada por alterações superficiais, porém pode ser diagnosticada à palpação com as pinças. A cirurgia laparoscópica no íleo é possível, porém é difícil devido ao posicionamento típico dos trocateres para cirurgias na pelve.  A tesoura pode ser usada para excisão do nódulo na camada muscular pela técnica de “shaving” profundo. Com cuidado, muitos nódulos podem ser removidos sem adentrarmos a luz intestinal. Boa parte das suturas devem ser realizadas com algodão 3-0 em pontos simples já que a parede do íleo é fina.
Como o íleo pode estar acometido por várias lesões que podem ser superficiais ou profundas, a cirurgia laparoscópica pode ser entediante, mesmo que sejam colocados trocateres adicionais. Em muitos casos, é mais eficiente realizar-se a mobilização laparoscópica dos ligamentos peritoneais do íleo e ceco de forma que o íleo possa ser exteriorizado por uma incisão de mini-laparotomia onde as ressecções intestinais possam ser realizadas por “shaving” profundo, discoide, ou segmentares (Figuras. 16-18). Esta incisão de mini-laparotomia pode ser uma ampliação da incisão no quadrante inferior direito ou da incisão umbilical. Eventualmente, o íleo pode ser exteriorizado através da vagina se houver mobilidade suficiente (Fig. 19).
Figura 16. A incisão de 5 mm no quadrante inferior direito foi discretamente ampliada e o íleo é visto através da incisão. Sem tração, essa incisão mede 3 cm.
Figura 17. O íleo foi exteriorizado sobre a parede abdominal para a realização da ressecção da lesão linear sobre a borda anti-mesentérica.
Figura 18. A endometriose do íleo foi removida por ressecção de espessura total. As luzes intestinais proximal e distal são visualizadas. Cada ângulo da mucosa intacta no lado mesentérico da parede intestinal é tracionado por uma pinça. O intestino é fechado em duas camadas de um ângulo ao outro.
Ressecção discoide de espessura total do cólon
Se houver fibrose submucosa, ou se o nódulo for grande, adentrar aa luz intestinal é inevitável. Entrar na luz intestinal permite também a palpação da lesão através da mucosa, e assim pode-se determinar com maior exatidão o ponto de parada da dissecção. A mucosa pode ser fechada com sutura contínua de Vicryl 3-0 e a camada seromuscular com algodão 2-0 em pontos simples. A pelve pode ser irrigada com fluidos e injeta-se ar no cólon através de um retossigmoidoscópio para se observar vazamento de bolhas. Caso haja, este deve ser reparado com suturas.
Apendicectomia
A apendicectomia com energia monopolar é rápida e simples. Segura-se a ponta do apêndice e utiliza-se tesoura monopolar de 3 mm com 50 watts de potencia em corrente de coagulação para dissecção ao longo de sua parede, onde os vasos sanguíneos são relativamente pequenos (Fig. 20). Assim, os vasos sanguíneos são cortados e coagulados simultaneamente até que se alcance o ceco (Fig. 21). Três suturas em alça são aplicadas ao redor da base do apêndice denudado e corta-se entre as suturas (Fig. 22). Segura-se o apêndice com a tesoura e este é retirado pela punção umbilical de 10 mm. O coto do apêndice pode ser levemente coagulado e sepultado abaixo da superfície do ceco com uma sutura em bolsa, se desejado.


Figura 20. A apendicectomia com corrente monopolar começa com a dissecção do apêndice ao longo de sua parede. Isso é realizado imediatamente adjacente à sua parede, onde os vasos sanguíneos são menores.
Sobre o doutor Alysson Zanatta:



Graduado e com residência médica pela Universidade Estadual de Londrina, doutor Alysson Zanatta tem especializações em uroginecologia e cirurgia vaginal pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cirurgia laparoscópica pelo Hospital Pérola Byington de São Paulo e doutorado pela Universidade de São Paulo, USP. Suas principais áreas de atuação são a pesquisa e o tratamento da endometriose, com ênfase na cirurgia de remoção máxima da doença. Seus inter­esses são voltados para iniciativas que promovem a conscientização da população sobre a doença, como forma de tratar a doença adequadamente. É diretor da Clínica Pelvi Uroginecologia e Cirurgia Ginecológica em Brasília, no Distrito Federal, onde atende mulheres com endometriose, e Professor-adjunto de Ginecologia da Universidade de Brasília (UnB). (Acesse o currículo lattes do doutor Alysson Zanatta).