terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

ACONSELHAMENTO REPRODUTIVO À MULHER COM ENDOMETRIOSE - PARTE 1!

Crédito: Clínica Pelvi/ doutor Alysson Zanatta

Quando falamos em endometriose, não tem jeito, a primeira coisa que vem à cabeça da mulher  ou de qualquer outra pessoa é a questão da tão temida infertilidade. Já falamos muito no A Endometriose e Eu que a doença não é sinônimo de infertilidade. Para esclarecer mais sobre o assunto, o doutor Alysson Zanatta escreveu o texto "Aconselhamento reprodutivo à mulher com endometriose", que vai sanar as dúvidas de muitas endomulheres. O texto será dividido em duas partes para que haja melhor entendimento. Como ele diz abaixo, a doença pode estar relacionada à subfertilidade, mas não à infertilidade absoluta. leia com bastante atenção  a primeira parte do texto e você vai ver que quando está em boas mãos, principalmente, quando é preciso fazer a cirurgia, a maioria das portadoras conseguem engravidar naturalmente após a cirurgia. Não podemos perder nunca a fé e nunca desistir de nossos sonhos. Beijo carinhoso! Caroline Salazar

                        Aconselhamento reprodutivo à mulher com endometriose - parte 1:

Por doutor Alysson Zanatta 

Regra geral, as mulheres preocupam-se com a sua fertilidade. Preocupam-se com o seu potencial reprodutivo, com a sua preservação, e com a idade máxima que poderão gestar, ainda que porventura não tenham decidido se o tentarão algum dia. E, para a mulher com endometriose, essa preocupação poderá ser ainda maior.

Quais as chances de gestação natural com endometriose?

A endometriose costuma estar associada à subfertilidade, ao invés de uma infertilidade absoluta. Isso significa dizer que ela não necessariamente precisará de tratamento para engravidar, mas que a gravidez pode demorar mais para acontecer, ou não acontecer naturalmente, conforme o caso.

Entendamos: a fecundidade de um casal significa as chances daquele casal conseguir engravidar, mês a mês, ou durante um período de um ano, por exemplo, de acordo com a idade. Sabemos que as mulheres com endometriose podem ter sua fecundidade reduzida em todas as faixas etárias (1), mesmo as mais jovens, e mesmo aquelas com formas mais leves da doença. Em geral, a taxa de fecundidade mensal da mulher com endometriose é de 5-10%, comparada a 20-25% da população geral (2). Certamente, haverá entre essas mulheres aquelas com maiores ou menores chances de engravidar, dependendo, principalmente, da sua idade e do grau de extensão da doença.

... a endometriose costuma estar associada à subfertilidade, ao invés de uma infertilidade absoluta. Isso significa dizer que ela não necessariamente precisará de tratamento para engravidar, mas que a gravidez pode demorar mais para acontecer, ou não acontecer naturalmente, conforme o caso...

Estima-se que mulheres inférteis (aquelas que não conseguiram engravidar naturalmente após pelo menos um ano de tentativa) que têm endometriose leve e que não são tratadas, teriam apenas 35% de chances de engravidar espontaneamente dentro de 3 anos após o diagnóstico (3).  Da mesma forma, estima-se que, ao mês, apenas 3% das mulheres com endometriose severa conseguem engravidar naturalmente. A dificuldade para engravidar pode surgir de vários fatores, como:

a) o transporte ovular deficitário;
b) uma qualidade inferior dos óvulos,
c) um ambiente inflamatório proporcionado pela endometriose que dificulta a fecundação;
d) por uma redução nas taxas de implantação uterina.

Assim, podemos afirmar às mulheres que têm endometriose que suas chances de engravidar podem estar reduzidas em relação à população geral, mas que a gravidez é possível dentro de um contexto de idade e grau da doença.

E mais importante: jamais devemos dizer que não ocorrerá a gestação, mesmo em situações de idade avançada e/ou doença extensa. Não raramente, nos “surpreendemos” com gestações consideradas pouco prováveis.

... assim, podemos afirmar às mulheres que têm endometriose que suas chances de engravidar podem estar reduzidas em relação à população geral, mas que a gravidez é possível dentro de um contexto de idade e grau da doença...

Não conseguimos prever com exatidão quais mulheres com endometriose terão dificuldades para engravidar

Sabemos que até metade de todas as mulheres com endometriose pode ter dificuldade para engravidar. A outra metade engravida naturalmente, sem qualquer tratamento. Seria fantástico se pudéssemos prever com exatidão quais as mulheres que teriam dificuldades no futuro, e as aconselharmos a tomar medidas ainda no presente para evitarem que isso acontecesse. Porém, isso ainda não é possível.

Entretanto, podemos estimar as chances de gravidez natural daquelas mulheres inférteis que são submetidas à cirurgia para engravidarem, a partir dos achados cirúrgicos e de seu histórico passado. Uma gestação no passado e uma idade menor que 35 anos são dados positivos que favorecem uma gravidez natural. Por outro lado, trompas uterinas e ovários com grandes distorções são fatores negativos, mesmo após a remoção de outras lesões de endometriose.

... sabemos que até metade de todas as mulheres com endometriose pode ter dificuldade para engravidar. A outra metade engravida naturalmente, sem qualquer tratamento...

Vejamos exemplos nos dois extremos: uma mulher que tenha menos de 35 anos de idade, com endometriose leve devidamente tratada por cirurgia, e que não tenha qualquer alteração tubaria ou ovariana, terá até 80% de chances de gestação espontânea em até três anos após o procedimento. Já uma mulher acima dos 40 anos e com endometriose severa, mesmo que tratada adequadamente, terá menos de 10% de chances de gestação espontânea durante este mesmo período (4).

Uma parcela significativa de mulheres inférteis com endometriose situa-se entre esses dois extremos de idade e extensão da doença. Caberá a nós, médicos, avaliarmos individualmente cada mulher para uma decisão conjunta sobre a melhor forma de tratamento.

O uso de pílulas anticoncepcionais não é suficiente para a preservação da fertilidade

Enquanto não houver o desejo de gestação, o uso de pílulas anticoncepcionais (que provoquem ou não a suspensão da menstruação) não altera a história natural da doença. Isso significa que elas não evitam o surgimento de novos focos ou de doença avançada, mesmo que sejam utilizadas por longos períodos (5).

Prova disso é que a maioria das mulheres diagnosticadas com endometriose por volta dos 30 anos de idade refere o uso de pílulas por muitos anos, muitas vezes desde a adolescência. Se as pílulas fossem efetivas, elas não chegariam à essa idade com a endometriose, eventualmente avançada. Ou seja, ao aconselharmos o uso de pílulas anticoncepcionais, devemos destacar que estamos proporcionando um controle dos sintomas de dor, mas que não há efeito direto (positivo ou negativo) sobre a doença em si.


... ao aconselharmos o uso de pílulas anticoncepcionais, devemos destacar que estamos proporcionando um controle dos sintomas de dor, mas que não há efeito direto (positivo ou negativo) sobre a doença em si...

Sobre o doutor Alysson Zanatta:

Graduado e com residência médica pela Universidade Estadual de Londrina, doutor Alysson Zanatta tem especializações em uroginecologia e cirurgia vaginal pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cirurgia laparoscópica pelo Hospital Pérola Byington de São Paulo e doutorado pela Universidade de São Paulo, USP. Suas principais áreas de atuação são a pesquisa e o tratamento da endometriose, com ênfase na cirurgia de remoção máxima da doença. Seus inter­esses são voltados para iniciativas que promovem a conscientização da população sobre a doença, como forma de tratar a doença adequadamente. É diretor da Clínica Pelvi Uroginecologia e Cirurgia Ginecológica em Brasília, no Distrito Federal, onde atende mulheres com endometriose, e Professor-adjunto de Ginecologia da Universidade de Brasília (UnB). (Acesse o currículo lattes do doutor Alysson Zanatta). 

16 comentários:

  1. Anticoncepcional de uso contínuo não traz benefícios? Apenas trata sintomas? Fiquei triste... 8 anos se passaram e eu achando que estava tratando a doença...

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  2. Prezada Kellen, boa tarde. O principal benefício dos anticoncepcionais é o controle da dor causada pela endometriose, em maior ou menor grau, a depender de cada caso. Infelizmente, nenhuma medicação é capaz de fazer a doença desaparecer (apesar de eventualmente divulgado), e as pílulas também não evitam surgimento de doença avançada. Cordial abraço. Dr. Alysson

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  3. Olá Dr. Alysson! Até meus 28 anos, não tinha vontade de ter filho, mas fui chegando aos 30 anos e essa vontade apareceu. Agora estou com 31, com diagnóstico de endometriose ovariana, depois de anos pesquisando dores e alterações celulares. Me indicaram a gravidez para saciar minha vontade e tentar o retrocesso da endometriose. Me deram 3 meses pra engravidar pois não poderia ficar mais tempo menstruando. Tem um mês que estou sem nenhum método contraceptivo, minha última menstruação foi dia 29/08 e fiz um beta dia 29/09 e não estou grávida mas minha menstruação não desce. Preciso de acompanhamento e gostaria de uma indicação de um(a) médico ginecologista, obstetra que entenda de endometriose e se preciso for FIV, pois meu esposo é infertil. Obrigada.

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    1. Desculpe, Caroline Salazar, esqueci de falar né! Sou de Goiânia, preciso de acompanhamento pois minha menstruação ainda não desceu. Estou com 10 dias de atraso, sinto cólica e o exame de beta deu negativo.

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    2. O Dr Alysson Zanatta é de Brasília, Priscila. Em Goiânia não conheço nenhum para indicar, infelizmente. É bem complicado indicar médicos, pois é preciso conhecê-lo bem para isso. Se você tiver a oportunidade de se consultar com o Dr Alysson. Boa sorte! Beijo carinhoso!

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  4. Boa tarde Dr. Alysson, fui diagnosticada com endometriose em 2008 já em estágio avançado, tive que fazer o procedimento de cirurgia a céu aberto onde meu útero esquerdo juntamente com a trompa foi retirado... Desde então faço o uso de anticoncepcional contínuo e todo ano faço o exame Ca125 entre ultrssonografia para diagnosticar futuros focos de endemetriose. Está correto esse tratamento? Hoje tenho 31 anos e pretendo tentar engravidar, o que o senhor me aconselharia? Obrigada pela atenção

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    1. Como assim seu útero esquerdo foi retirado? Não seria ovário?

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    2. Como assim seu útero esquerdo foi retirado? Não seria ovário?

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  5. Ovário esquerdo, perdão pelo erro de digitação

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  6. Ola boa tarde. Sou casada há 8 anos e temos já um filho de 7. Há 2 anos e meio estamos tentando engravidar novamente e sem sucesso fui buscar tratamento com meu GO. Diagnosticada com endometriose peritoneal (apenas sinais) na RM, e sem a certeza de que foi por causa dela que não conseguimos a gravidez, mas com dores intensas e fortes sangramentos. Iniciei o tratamento do ALLURENE há cerca de 4 meses e agora neste exato momento estou bem desconfiada de que estou grávida! Mas ainda não tive a coragem de fazer o teste...rs. Como vejo que o ALLURENE não é contraceptivo, mas reduz muito as chances de gravidez, Caroline e Dr. Alysson, vcs acham que seria possível espontaneamente?? Tenho 32 anos e meu marido 34 e minha gestação do filho de 7 anos foi muito espontânea e inclusive inesperada...rs. Obrigada.

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  7. Ola , eu tenho 19 anos e sou casada a um ano dois meses , e só tomei anticoncepcional apenas no primeiro mês de casada , depois decidimos ter filho , e eu não conseguio engravidar , eu leio de tudo , todo mês digo que vou no médico e acabo não indo . gente e eu sofro muito com isso , só em pensar que não posso engravidar eu começo a chorar , e meu marido e louco por criança , mim dar uma dor ver ele pedido um filho e planejando mil coisas pró nosso filho , eu sinto muita cólica mais apenas no período menstrual , e sinto dores na relação sexual , faço sexo quais todo dias na intenção de conseguir engravidar , mãos nada funciona. . será que eu tenho mesmo endometriose ?

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  8. Nossa, agora fiquei triste também... Tenho tido minha doença como tratada a tantos anos...
    Descobri que tinha focos de endométrio na bexiga por acaso quando tinha 16 anos. Na ocasião foi em uma vídeo laparoscopoia que fiz por conta de um cisto no ovário que tinha desde os 12 anos e não respondia aos tratamentos convencionais. Vale ressaltar que descobri a endometriose em um estágio inicial.
    Faço uso contínuo de anticoncepcional desde meus 12 anos, primeiro para controlar o cisto, e depois veio a necessidade de melhorar a pele e, após 16 anos faço uso do anticoncepcional (sem interrupção para a menstruação) para "controle" da endometriose e das acnes. Atualmente tenho 30 anos e já faço planos para engravidar.
    Tudo isso foi em vão? Esse uso excessivo de anticoncepcional durante foi desnecessário?

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    1. No post não me identifiquei, meu nome é Aneliza e moro em Belo Horizonte

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    2. No post não me identifiquei, meu nome é Aneliza e moro em Belo Horizonte

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