terça-feira, 30 de junho de 2015

MATTHEW ROSSER: DIÁRIO DE UM PESQUISADOR - O COMEÇO!!!



imagem cedida por Free Digital Photos


Desde quando inciamos a parceria entre o A Endometriose e Eu e o cientista inglês Matthew Rosser, sempre soube que seu futuro na endometriose seria promissor, já que ele é jovem e entrou na área de pesquisa da endo por conta de ver sua mãe e sua esposa sofrerem com a doença. Ou seja, ele faz por amor e não para aparecer, como muitos por aí. Leia a entrevista que ele conta como começou sua história com a endometriose. Neste texto Matthew conta o início de sua jornada como pesquisador. Beijo carinhoso! Caroline Salazar

Por Matthew Rosser
Tradução: Alexandre Vaz
Edição: Caroline Salazar

Diário de um pesquisador de endometriose – O começo

Como os leitores regulares saberão, após uma longa pausa, finalmente tive a chance de estudar para um doutorado em pesquisa sobre endometriose. A entrada nesse doutorado me manteve bem ocupado nesses últimos tempos, daí a falta de postagens regulares no blog. Por isso eu achei que seria bom manter um registro online do meu progresso como pesquisador de endometriose, já que esse é um assunto que estou certo, poucas serão as pessoas que já acessaram (embora possam existir bons motivos para isso).

Isso também irá me lembrar de atualizar o blog, e espero, esclarecer o processo de pesquisa da endometriose do começo até o final. Também irá dar uma percepção dos bastidores do mal afamado mundo da pesquisa científica e das suas 'atividades escandalosas' realizadas por nós estudantes. Ok, quando eu falo de mundo mal afamado e atividades escandalosas, na verdade estou me referindo a ambientes laboratoriais esterilizados e 'ficar olhando gráficos', mas isso não parece tão excitante.
Bom, continuando com o diário, sim, eu sou de novo um estudante a tempo integral, com 31 anos (nota do tradutor: agora ele já tem 32) pesando nas minhas costas como se fosse o pão de açúcar, sendo a minha idade evidente por demais quando comparada com os jovens estudantes que perambulam pelo campus, parecendo que acabaram de cortar o cordão umbilical. Mas para lá da minha aversão à nova geração com seus cortes de cabelo que estão na moda, estou definitivamente onde quero estar - pesquisando sobre endometriose. Eu sei que o termo 'pesquisando sobre endometriose' é horrivelmente vago, mas existem algumas razões que justificam o fato de eu não poder entrar em muitos detalhes no momento.

1.      Existem protocolos de confidencialidade que eu tenho de cumprir, ou serei sacrificado no altar dos deuses da ética da pesquisa.
2.     Pesquisa acadêmica é igual a fazer exame no liceu, sempre tem alguém colando de você. Então, por mais que eu quisesse botar a boca no mundo sobre os meus resultados experimentais, igual a um louco usando uma bata de laboratório, terei de ser paciente até que o trabalho seja concluído, e isso vai demorar uns 4 anos.

Ainda assim, em tudo é filme policial, existem coisas que eu posso revelar, ou isso seria um diário bem curto e chato (em oposicão ao longo e chato em que inevitavelmente irá se tornar). Para começar eu vou investigar o efeito de algumas drogas novas na endometriose, espero que não sejam hormonais, reduzindo assim a lista de efeitos secundários associados com as terapias médicas atuais. Se tiver chance, eu tenho algumas ideias para testes diagnósticos de sangue para endometriose, mas terei de esperar para ver o que acontece.

Durante o período que decorreu entre o começo e o agora, eu tenho escrito muita coisa, (poderia lamentar o trabalho de Sísifo que é cuidar da papelada), leitura e escrita. Todos os estudantes de doutorado, no começo do seu estudo, precisam escrever um 'relatório de literatura', um resumo da pesquisa existente sobre o assunto que irão estudar.
Na verdade eu gosto de escrever sobre endometriose, sendo esse blog a prova disso mesmo, então eu fiquei muito feliz com a possibilidade de poder escrever sobre o assunto e ainda ser pago para isso. Vários rascunhos e muitos dias depois com olheiras, tentando escolher as passagens relevantes de um livro com duas mil páginas depois, a minha revisão literária estava feita. Obrigado meu pai!

Agora a 'verdadeira ciência' poderia começar.

Para começar a 'verdadeira ciência', vou ter que aprender várias técnicas básicas das quais vou precisar durante o meu doutorado. Felizmente no meu grupo existe um outro aluno que já está aqui faz um ano e pode ajudar os restantes colegas (graças a Deus ele tem a paciência de um santo, o que será bem útil para todos os envolvidos).
Se eu quiser fazer alguns experimentos, vou precisar de algo com que experimentar, e dada a natureza da minha pesquisa, as células do endométrio são um bom ponto de partida.

Cultivar células de endometriose em laboratório é, então, a primeira coisa que eu preciso dominar, e para conseguir isso, eu precisaria conseguir células em algum lugar. Provavelmente seria considerado uma tremenda grosseria se eu chegasse para uma senhora na rua com um speculum e pedisse para ela me fornecer algum do seu endométrio.

Então, em vez disso, nós temos um acordo com um cirurgião de um hospital local para nos providenciar amostras de endométrio de pacientes que deram o seu aval antes de ser feita uma laparoscopia nelas, pelos mais variados motivos.

No outro dia nós recebemos um lote de várias amostras que não pareciam ser mais do que uma pasta sangrenta de tecido, mas após um período de 12 horas cuidadosamente processando-as, conseguimos células de endométrio crescendo felizes em seus frascos de plástico. Embora tenha demorado uma eternidade para fazer isso, essa foi a parte fácil.

A parte difícil é conseguir manter as células vivas, o que é chamado de cultura de células. Se eu tivesse de comparar a cultura de células a algo, eu diria que é semelhante a jardinagem - você tem que alimentar as células, garantir que elas crescem nas condições adequadas, transferir para caixinhas maiores quando a cultura cresce demasiado para o espaço onde estava antes, e cantar para elas (Ok, essa parte é opcional).

Algumas células, bem como algumas plantas, são fáceis de cuidar e não requerem muito esforço. Outras pelo contrário são como aquelas plantas extremamente raras que crescem apenas em pedacinhos de terreno muito específicos na floresta tropical, e morrem se você respirar em cima delas. Adivinha qual a categoria a que pertencem as células do endométrio humano?

Enquanto que o endométrio cresce fácil no útero (e para as mulheres com endometriose, fora dele também), cultivá-las em laboratório exige cuidados geralmente reservados a pandas bebês. Nem precisa falar que as células endometriais são muito delicadas e frequentemente morrem antes que a gente consiga matá-las com drogas. Uma das competências que é necessário adquirir rapidamente para manter as células é a 'técnica de esterilização'.  Sempre que lidamos com culturas de células, tudo tem que ser esterilizado. Não apenas o equipamento, mas até a forma como trabalhamos.  Por exemplo, você precisa trabalhar em um gabinete com atmosfera esterilizada, tem que pensar cada movimento que faz com as mãos igual um jogador de xadrez faz, e precisa limpar as mãos com álcool tantas vezes por dia que faria com que a pessoa mais obcecada pela higiene parecesse o personagem da novela Tieta, o Bafo de Bode.

Apesar de toda essa confusão de requisitos, acreditem em mim, ela é absolutamente necessária. Não tem coisa pior do que ficar cuidando de uma cultura de células por uma semana, para perder tudo por conta de uma infecção bacteriana.  Ainda assim, estou no começo e espero que nas próximas semanas irei aperfeiçoar a minha técnica de cultivo de células. Embora existam obstáculos que preciso ultrapassar, eu não poderia estar mais feliz com o que estou fazendo. E sendo isso o começo da minha pesquisa, qual tem sido a literatura? Aqui ficam alguns artigos grátis para quem tiver interesse em aprofundar o seu conhecimento.

Nota do tradutor: Lamentavelmente não existe tempo para traduzir esses links, como devem imaginar é bastante trabalho e muito dirigido a uma camada da população que trabalhando nisso profissionalmente, dominará decerto a língua inglesa.

A Case of Multisystem Endometriosis
Whilst endometriosis outside the pelvic cavity is considered rare, there are still cases that come up with a degree of regularity; this is a case report of a woman with endometriosis near the lungs

Extrapelvic Endometriosis: A Rare Entity or Underdiagnosed Condition?
Continuing along the lines of endometriosis outside the uterus, here is a short review of different locations endometriosis

Endometriosis and Physical Exercises: A Systematic Review
This review summarises what little information there is on the effect of exercise on endometriosis symptoms


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