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A história de Clara Flaviane, de 16 anos, mostra que a endometriose não tem idade
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No fim de setembro recebi por email um breve relato da paulista Clara Flaviane, de 16 anos, de Caçapava, interior de São Paulo, contando como as dores da endometriose estão arruinando sua vida de adolescente. Pois é, você leu bem. Já falamos no blog sobre o tema - leia o texto do médico e cientista americano doutor David Redwine e do cientista inglês Matthew Rosser. Infelizmente a endometriose pode acometer qualquer mulher, até mesmo as mais jovens. Estima-se que 2/3 das adolescentes que sofrem com dor pélvica crônica e dismenorreia (dor durante a menstruação) têm endometriose, destas 1/3 tem a doença de moderada a severa. Além dos fortes sintomas, Clara tem parentes com a doença, ou seja, mais um motivo para desconfiar que ela poderia ter a doença.
Mas, infelizmente, o preconceito e o julgamento estão enraizados em nossa cultura, e por muitos médicos acharem que a doença só acomete mulheres mais velhas ou em idade reprodutiva (que vai dos 15 anos 44 anos), a Clara e tantas outras adolescentes continuam a sofrer por conta da endometriose. Prontamente convidei Clara para relatar aqui sua "ainda" breve história com a endo, pois sei que muitas meninas irão se identificar com seu testemunho. Confesso que em muitos momentos me vi na história de Clara. Quantas e quantas vezes precisaram me carregar para ir da escola para casa por conta das fortes dores que eu sentia. E só eu sentia essas dores, minhas amigas não sentiam! Isso também aconteceu com Clara. E acontecem com muitas por aí. Por ser menor de idade pedi autorização à sua mãe, Roselaine Santos Ferreira, que permitiu a publicação no A Endometriose e Eu. Está mais que comprovado que a endometriose não tem idade. Beijo carinhoso! Caroline Salazar.
"Meu
nome é Clara Flaviane, tenho 16 anos, sou de Caçapava, no interior de São Paulo.
Primeiramente quero agradecer pela oportunidade de compartilhar minha pequena
história e por toda ajuda que o blog A
Endometriose e Eu me proporciona.
Tive minha menarca aos 13 anos e, desde
as minhas primeiras menstruações, tenho fluxo muito intenso, mas com o tempo fui
adquirindo outros sintomas. Em 2014, aos 14 anos, fui à minha primeira
ginecologista. Contei a ela sobre o fluxo e as cólicas fortes que estava sentindo,
e ela me respondeu que era normal nos dois primeiros anos, e me receitou o
Cicloprimogina. Tomei durante um ano, mas não melhorou.
Nessa
época as dores começaram aumentar e o fluxo também. Com isso comecei a
faltar algumas vezes na escola durante o período menstrual, pois ficava fraca
e precisava de repouso. Comecei a me achar estranha, pois
aquilo só acontecia comigo. Não via nenhuma outra menina sentir algo parecido durante
seu período menstrual.
No início de 2015 os sintomas começaram a piorar. Comecei a
trabalhar com a minha mãe em uma lanchonete e ficava apenas três horas lá, mas
toda vez que eu estava no período menstrual era quase impossível sair de
casa. Eu não tinha forças, passava muito mal, não conseguia ficar em pé, pois o
fluxo me derrubava de tal forma. Muitas vezes pensei em desistir do emprego
porque a cada ciclo estava ficando mais difícil.
Cheguei
a ouvir coisas de pessoas próximas que me deixavam triste como: "O que
você sente é psicológico", "Parece que você gosta de sentir dor",
"Você não se esforça pra melhorar", "Só reclama por isso não
melhora" , "É drama". Essas pequenas coisas acabavam comigo,
porque apesar de tudo que eu passava, não sabia o que havia de errado.
Os
meses foram passando e cada vez mais eu ia piorando. Analgésicos simples já não
faziam efeito. Meu intestino, que sempre funcionou normalmente, começou a desregular. Evacuar durante e antes da menstruação era algo quase
impossível, pois sentia tantas dores que nem sabia de onde elas vinham. Junto
com as cólicas comecei a sentir pontadas no útero que pareciam facadas,
às vezes não conseguia levantar de algum lugar de tanta dor. Minha mãe já não
aguentava mais me ver tão mal. Então decidimos que era melhor eu trocar de
ginecologista.
Logo
na minha primeira consulta essa nova ginecologista pensou na possibilidade de
ser endometriose, pois a maioria das mulheres da minha família do lado paterno
tem. Porém, ela me achou muito nova para isso. A médica optou por um
anticoncepcional mais fraco (Adoless) e alguns analgésicos mais fortes. Tomei
Adoless durante seis meses, e nada adiantou.
Durante
esse período só piorei. Passei muitas noites em claro só para não ir ao
hospital, pois sabia que haveria incompreensão até mesmo por conta da minha
idade. Não iriam acreditar na intensidade das dores que eu sentia.
Era
final de janeiro bem no inicio das aulas, e lá estava eu com dores
novamente. E foi justamente aí que começou mais um problema de incompreensão. A
primeira semana de aula coincidiu com meu período menstrual e acabei faltando
devido às fortes dores. Tomei analgésicos que não melhoraram, e ainda fui
para o hospital durante três dias seguidos com dores horríveis no estômago. Quase
fiquei internada porque não conseguia comer e estava muito fraca. Fiquei
de cama e demorei duas semanas para me recuperar. Praticamente já havia
perdido um bimestre todo. Estourei em falta e a escola começou a implicar
comigo dizendo que poderia ter uma vida normal e que se eu continuasse faltando
desse jeito eu iria reprovar.
Às
vezes as pessoas falavam tanto que realmente parecia ser coisa da minha
cabeça. Eu não conhecia ninguém que sentia essas dores. Eu me sentia tão
sozinha e tão perdida. A cada mês eu temia mais o período menstrual, pois as
dores estavam absurdas.
Retornei
à ginecologista e contei sobre a piora e ela voltou a desconfiar de
endometriose, pois meus sintomas estavam ficando muito parecidos com os da
doença. Fiz o exame de sangue CA125 e o resultado foi 51, que ela considerou
elevado para a minha idade. Depois fiz ultrassom e ressonância abdominal.
Ao
ver o resultado dos exames minha ginecologista não encontrou nada, pois o laudo
dizia que havia apenas microcistos no ovário direito e nenhum foco de
endometriose. Estava tudo certo. Então foi descartada endometriose severa. Mas
como eu ainda sentia dores ela trocou a medicação para Tâmisa 20mg, e pediu
para eu tomar três meses direto e depois fizesse uma pausa.
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Clara, à frente, com a irmã, Emily, ao fundo,
e a mãe, Roselaine Ferreira, no meio, que autorizou
à filha a contar sua história no blog
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Meu
medo de reprovar estava sendo tanto que comecei a ir para escola até em dias
que eu estava muito mal. Acabava forçando, não aguentava ficar nem três aulas e
já ligava para alguém ir me buscar.
Estou
no último ano da escola, bem na época de vestibulares, e eu não consigo estudar. Estou
sem foco e com um cansaço enorme, só pensando em como tudo isso está
atrapalhando minha vida.
Tem
dias que me sinto tão triste. Em apenas dois anos tanta coisa mudou. Realmente
as dores têm me perturbado e atrapalhado muito minha vida. Às vezes tenho
palpitação, insônia e como sempre as dores e o cansaço.
Mesmo
com um laudo dizendo que não havia nada de errado eu continuava com as mesmas
dores. Então, eu e minha mãe começamos a procurar um especialista e consegui
consulta para alguns meses depois.
Desde
a primeira consulta esse novo ginecologista tem sido o meu anjo. Ao olhar
minha ressonância ele encontrou pequenos focos no útero. Me explicou tudo o que
estava acontecendo e me tranquilizou. Com isso cortou minha menstruação
de vez e pediu outro exame de CA125.
Ao
menstruar sem pausa senti uma pequena melhora nas cólicas. Elas estavam um pouco
mais fracas, porém as dores no meu corpo e meu intestino desregulado não
melhoraram em nada. Também comecei a ter dificuldade para urinar, tenho a sensação
de bexiga cheia sempre.
Voltei
ao ginecologista mês passado e meu CA125 caiu para 12. Ele me receitou
Allurene durante seis meses assim que acabasse minha última cartela de Tâmisa,
e me falou que esse remédio deve eliminar todos os sintomas da endometriose que
eu ainda sinto. Estou confiante e ansiosa para o resultado desse tratamento, pois
se eu não melhorar irei fazer mais exames.
Agora
faz apenas 10 dias que comecei o tratamento. Estava com dores e fluxo intenso.
Usei um pacote de 32 absorventes em cinco dias, fiquei dois dias de cama e fui
parar ao hospital. Ainda tenho muitos sintomas, como dificuldade para urinar,
evacuar e as dores fortes no corpo, mas mesmo com essa recaída não perdi minha
fé! Tenho uma longa caminhada pela frente e mesmo com as incompreensões e
obstáculos que continuam aparecendo vou conseguir vencer!
Essa
foi a minha pequena história, ainda não sei o grau da minha endo, pois o médico
preferiu passar um tratamento medicamentoso antes de videolaparoscopia. Espero
ajudar outras mulheres, especialmente, as adolescentes e dizer que nós também
podemos ter endometriose. A maioria dos médicos que passei acha que eu era nova
para ter a doença. Quero dizer que estamos juntas, que independente da
idade, você não é a única a enfrentar as dores diárias e a incompreensão
da sociedade! Espero que tudo dê certo para mim e para todas as endomulheres
que passam por isso! Beijo carinhoso, Clara"