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quinta-feira, 3 de novembro de 2016

A HISTÓRIA DA LEITORA ADOLESCENTE CLARA FLAVIANE, DE 16 ANOS, E SUA ENDOMETRIOSE!!

A história de Clara Flaviane, de 16 anos, mostra que a endometriose não tem idade
No fim de setembro recebi por email um breve relato da paulista Clara Flaviane, de 16 anos, de Caçapava, interior de São Paulo, contando como as dores da endometriose estão arruinando sua vida de adolescente. Pois é, você leu bem. Já falamos no blog sobre o tema - leia o texto do médico e cientista americano doutor David Redwine e do cientista inglês Matthew Rosser. Infelizmente a endometriose pode acometer qualquer mulher, até mesmo as mais jovens. Estima-se que 2/3 das adolescentes que sofrem com dor pélvica crônica e dismenorreia  (dor durante a menstruação) têm endometriose, destas 1/3 tem a doença de moderada a severa. Além dos fortes sintomas, Clara tem parentes com a doença, ou seja, mais um motivo para desconfiar que ela poderia ter a doença. 

Mas, infelizmente, o preconceito e o julgamento estão enraizados em nossa cultura, e por muitos médicos acharem que a doença só acomete mulheres mais velhas ou em idade reprodutiva (que vai dos 15 anos 44 anos), a Clara e tantas outras adolescentes continuam a sofrer por conta da endometriose. Prontamente convidei Clara para relatar aqui sua "ainda" breve história com a endo, pois sei que muitas meninas irão se identificar com seu testemunho. Confesso que em muitos momentos me vi na história de Clara. Quantas e quantas vezes precisaram me carregar para ir da escola para casa por conta das fortes dores que eu sentia. E só eu sentia essas dores, minhas amigas não sentiam! Isso também aconteceu com Clara. E acontecem com muitas por aí. Por ser menor de idade pedi autorização à sua mãe, Roselaine Santos Ferreira, que permitiu a publicação no A Endometriose e Eu. Está mais que comprovado que a  endometriose não tem idade. Beijo carinhoso! Caroline Salazar.


"Meu nome é Clara Flaviane, tenho 16 anos, sou de Caçapava, no interior de São Paulo. Primeiramente quero agradecer pela oportunidade de compartilhar minha pequena história e por toda ajuda que o blog A Endometriose e Eu me proporciona. 

Tive minha menarca aos 13 anos e, desde as minhas primeiras menstruações, tenho fluxo muito intenso, mas com o tempo fui adquirindo outros sintomas. Em 2014, aos 14 anos, fui à minha primeira ginecologista. Contei a ela sobre o fluxo e as cólicas fortes que estava sentindo, e ela me respondeu que era normal nos dois primeiros anos, e me receitou o Cicloprimogina. Tomei durante um ano, mas  não melhorou.
  
Nessa época as dores começaram aumentar e o fluxo também. Com isso comecei a faltar algumas vezes na escola durante o período menstrual, pois ficava fraca e  precisava de repouso. Comecei a me achar estranha, pois aquilo só acontecia comigo. Não via nenhuma outra menina sentir algo parecido durante seu período menstrual. 

No início de 2015 os sintomas começaram a piorar. Comecei a trabalhar com a minha mãe em uma lanchonete e ficava apenas três horas lá, mas toda vez que eu estava  no período menstrual era quase impossível sair de casa. Eu não tinha forças, passava muito mal, não conseguia ficar em pé, pois o fluxo me derrubava de tal forma. Muitas vezes pensei em desistir do emprego porque a cada ciclo estava ficando mais difícil.
  
Cheguei a ouvir coisas de pessoas próximas que me deixavam triste como: "O que você sente é psicológico", "Parece que você gosta de sentir dor", "Você não se esforça pra melhorar", "Só reclama por isso não melhora" , "É drama". Essas pequenas coisas acabavam comigo, porque apesar de tudo que eu passava, não sabia o que havia de errado.
    
Os meses foram passando e cada vez mais eu ia piorando. Analgésicos simples já não faziam efeito. Meu intestino, que sempre funcionou  normalmente, começou a desregular. Evacuar durante e antes da menstruação era algo quase impossível, pois sentia tantas dores que nem sabia de onde elas vinham. Junto com as cólicas  comecei a sentir pontadas no útero que pareciam facadas, às vezes não conseguia levantar de algum lugar de tanta dor. Minha mãe já não aguentava mais me ver tão mal. Então decidimos que era melhor eu trocar de ginecologista. 
    
Logo na minha primeira consulta essa nova ginecologista pensou na possibilidade de ser endometriose, pois a maioria das mulheres da minha família do lado paterno tem. Porém, ela me achou muito nova para isso. A médica optou por um anticoncepcional mais fraco (Adoless)  e alguns analgésicos mais fortes. Tomei Adoless durante seis meses, e nada adiantou.

Durante esse período  só piorei. Passei muitas noites em claro só para não ir ao hospital, pois sabia que haveria incompreensão até mesmo por conta da minha idade. Não iriam acreditar na intensidade das dores que eu sentia. 
   
Era final de janeiro bem no  inicio das aulas, e lá estava eu com dores novamente. E foi justamente aí que começou mais um problema de incompreensão. A primeira semana de aula coincidiu com meu período menstrual e acabei faltando devido às fortes dores. Tomei analgésicos que não melhoraram, e ainda  fui para o hospital durante três dias seguidos com dores horríveis no estômago. Quase fiquei internada porque não conseguia comer  e estava muito fraca. Fiquei de cama e demorei  duas semanas para me recuperar. Praticamente já  havia perdido um bimestre todo. Estourei em falta e a escola começou a implicar comigo dizendo que poderia ter uma vida normal e que se eu continuasse faltando desse jeito  eu iria reprovar.  
     
Às vezes as pessoas falavam tanto  que realmente parecia ser coisa da minha cabeça. Eu não conhecia ninguém que sentia essas dores. Eu me sentia tão sozinha e tão perdida. A cada mês eu temia mais o período menstrual, pois as dores estavam absurdas.
   
Retornei à ginecologista e contei sobre a piora e ela voltou a desconfiar de endometriose, pois meus sintomas estavam ficando muito parecidos com os da doença. Fiz o exame de sangue CA125 e o resultado foi 51, que ela considerou elevado para a minha idade. Depois fiz ultrassom e ressonância abdominal. 
   
Ao ver o resultado dos exames minha ginecologista não encontrou nada, pois o laudo dizia que havia apenas microcistos no ovário direito e  nenhum foco de endometriose. Estava tudo certo. Então foi descartada endometriose severa. Mas como eu ainda sentia dores ela trocou a medicação para Tâmisa 20mg, e pediu para eu tomar três meses direto e depois fizesse uma pausa. 
   
Clara, à frente, com a irmã, Emily, ao fundo,
 e a mãe, Roselaine Ferreira, no meio, que autorizou
à filha a contar sua história no blog 
Meu medo de reprovar estava sendo tanto que comecei a ir para escola até em dias que eu estava muito mal. Acabava forçando, não aguentava ficar nem três aulas e já ligava para alguém ir me buscar. 

Estou no último ano da escola, bem na época de vestibulares, e eu não consigo estudar. Estou  sem foco e com um cansaço enorme, só pensando em como tudo isso está atrapalhando minha vida. 
 Tem dias que me sinto tão triste. Em apenas dois anos tanta coisa mudou. Realmente as dores têm me perturbado e atrapalhado muito minha vida. Às vezes tenho  palpitação, insônia e como sempre as dores e o cansaço. 

Mesmo com um laudo dizendo que não havia nada de errado eu continuava com as mesmas dores. Então, eu e minha mãe começamos a procurar um especialista e consegui consulta para alguns meses depois.

Desde a primeira consulta esse novo ginecologista  tem sido o meu anjo. Ao olhar minha ressonância ele encontrou pequenos focos no útero. Me explicou tudo o que estava acontecendo e me tranquilizou. Com isso  cortou minha menstruação de vez e pediu outro exame de CA125. 
   
Ao menstruar sem pausa senti uma pequena melhora nas cólicas. Elas estavam um pouco mais fracas, porém as dores no meu corpo e meu intestino desregulado não melhoraram em nada. Também comecei a ter dificuldade para urinar, tenho a sensação de bexiga cheia sempre.
  
Voltei ao ginecologista mês passado e  meu CA125 caiu para 12. Ele me receitou Allurene durante seis meses assim que acabasse minha última cartela de Tâmisa, e me falou que esse remédio deve eliminar todos os sintomas da endometriose que eu ainda sinto. Estou confiante e ansiosa para o resultado desse tratamento, pois se eu não melhorar irei fazer mais exames.

Agora faz apenas 10 dias que comecei o tratamento. Estava com dores e fluxo intenso. Usei um pacote de 32 absorventes em cinco dias, fiquei dois dias de cama e fui parar ao hospital. Ainda tenho muitos sintomas, como dificuldade para urinar, evacuar e as dores fortes no corpo, mas mesmo com essa recaída não perdi minha fé! Tenho uma longa caminhada pela frente e mesmo com as  incompreensões e obstáculos que continuam aparecendo vou conseguir vencer! 

Essa foi a minha pequena história, ainda não sei o grau da minha endo, pois o médico preferiu passar um tratamento medicamentoso antes de videolaparoscopia. Espero ajudar outras mulheres, especialmente, as adolescentes e dizer que nós também podemos ter endometriose. A maioria dos médicos que passei acha que eu era nova para ter a doença.  Quero dizer que estamos juntas, que independente da idade, você não é a única a enfrentar as dores diárias  e a incompreensão da sociedade! Espero que tudo dê certo para mim e para todas as endomulheres que passam por isso! Beijo carinhoso, Clara"

quinta-feira, 12 de maio de 2016

PUBLIEDITORIAL: A ENDOMETRIOSE TAMBÉM AFETA AS ADOLESCENTES. SAIBA COMO REDUZIR A DOR DA DOENÇA!


Por Caroline Salazar

Você sabia que a cólica forte na adolescência já pode ser endometriose? Segundo estudos cerca de 50 a 70% das adolescentes que sofrem de dores menstruais são potenciais portadoras de endometriose. Um número muito alto, principalmente, porque o diagnóstico leva em média de 7 a 12 anos. É muito difícil a adolescente ter o diagnóstico, pois a ausência de alguns sintomas, como as dores na relação sexual e a infertilidade, adiam o diagnóstico. Sem contar que suas dores são constantemente confundidas com outras doenças.

 Para amenizar as dores da endometriose sem ter que fazer o tratamento invasivo (a videolaparoscopia) os médicos têm recomendado o uso de drogas modernas, como o dienogeste 2mg. Dentre elas está disponível no mercado o Alurax, da Momenta Farmacêutica, o dienogeste que você já conhece, mas com 30 comprimidos e com o melhor custo benefício. Segundo especialistas o dienogeste 2mg reduz a dor logo no primeiro mês, com diminuição progressiva nas próximas 24 semanas de uso.

O Alurax é fabricado pela Momenta Farmacêutica. Uma das missões da Momenta é justamente "promover o acesso à saúde e à qualidade de vida com tratamentos a preço justo”. Com cerca de três anos de atuação, a Momenta tem qualidade garantida e já é reconhecida pela comunidade médica, pelos farmacêuticos e pelos farmacistas. Converse com seu especialista em endometriose a respeito do Alurax. Vale lembrar que todo medicamento deve ser prescrito pelo seu especialista. Não tome nenhum remédio sem o consentimento de seu médico.

Se você tiver dificuldade de encontrar o Alurax em sua cidade, vou deixar o telefone do SAC para você saber quando ele estará disponível na farmácia mais próxima de sua casa: 0800 703 1550 ou se preferir envie email para central@momentafarma.com.br

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

DAVID REDWINE: ENDOMETRIOSE EM ADOLESCENTES!

imagem cedida por Free Digital Photos

Já falamos sobre o tema "Endometriose em adolescentes", na coluna do cientista inglês Matthew Rosser, e agora voltamos ao assunto na do doutor David Redwine. Aqui o cientista americano relata casos da literatura científica, onde a mais nova tinha 10 anos e meio e a mais velho 78 anos. Infelizmente, a endometriose independe da idade da mulher. O que precisa existir são médicos mais capacitados a diagnosticarem a doença o mais breve possível para acabar com o sofrimento de milhões de meninas e mulheres no mundo todo. A atenção dos pais, em especial, das mães é muito importante para ajudar a ver que há algo de errado no corpo da filha. Já falamos aqui na coluna do doutor Redwine sobre a evolução da cor da endometriose relacionada à idade. Por isso o conhecimento do especialista e o olho bem treinado é muito importante para eliminar todos os focos numa cirurgia. Beijo carinhoso! Caroline Salazar


Por doutor David Redwine 
Tradução: doutor Alysson Zanatta
Edição: Caroline Salazar 
Endometriose em adolescentes
A endometriose é uma doença com oportunidades iguais a todos, afetando mulheres de todas as idades. A paciente mais jovem relatada na literatura tinha 10 anos e meio, com apenas dois ciclos menstruais prévios. A mais velha tinha 78.
Sintomas
Desde 1978, eu operei mais de 3000 mulheres com endometriose, sendo aproximadamente 100 delas com menos de 20 anos. Minha paciente mais jovem tinha 13 anos. As adolescentes com endometriose geralmente tinham dores desde os primeiros ciclos menstruais, apesar que algumas têm dor após alguns anos. O termo médico para menstruações dolorosas é dismenorreia, o que significa ciclos menstruais difíceis.
Muitas pessoas naturalmente entendem a dismenorreia como uma cólica uterina. Isso pode ser verdade, mas um questionamento mais atento mostra que pode haver outros tipos de dor durante o fluxo.
Por exemplo, algumas pacientes têm dores que se iniciam até duas semanas antes do início do fluxo menstrual. Essa dor pode ser aguda, em queimação, ou pode parecer uma cólica mesmo antes do fluxo. Essa dor pode aumentar com a proximidade do ciclo, mas a paciente pode conseguir controlá-la com sucesso com analgésicos, e portanto ela não ser percebida.
Essa mesma dor pode aumentar drasticamente com o surgimento do fluxo menstrual, resultando em absenteísmo da escola, do trabalho, ou de outras atividades. Enquanto possa haver cólicas uterinas severas sobrepostas a esse tipo de dor, as cólicas podem não ser o único componente da dor.
Como a paciente pode estar tão doente durante o fluxo, a dor que a levou a ficar dessa maneira pode parecer trivial quando comparada. Assim, as mães, professores e amigos dizem frequentemente às adolescentes que, “Isso faz parte de ser mulher” ou “são apenas cólicas de menstruação”. Esse reforço de que tudo está bem pode levar a um atraso de vários anos até o diagnóstico de endometriose.
Com o início da vida sexual, elas podem perceber que as relações sexuais são dolorosas porque o local mais comum de ocorrência da endometriose é o fundo de saco de Douglas, que está no fundo da vagina atrás do colo do útero. A doença no fundo de saco pode gerar dor com os movimentos intestinais particularmente durante o fluxo menstrual, já que a passagem das fezes no reto adjacente pode arranhar áreas dolorosas com doença no fundo de saco ou ligamentos útero-sacros.
Algumas vezes a paciente pode perceber dores enquanto se senta, já que o tecido mole do glúteo é empurrado para cima em direção ao fundo de saco. Se a paciente tem um cisto de endometrioma no ovário, pode haver uma dor distinta naquele lado acometido, às vezes com irradiação da dor para o flanco ou abaixo na perna.
Avaliação Médica
Uma questão difícil para os pais de adolescentes que sofrem com dor pélvica é o que fazer a respeito, já que muitos não querem se exceder se “isso é apenas cólica menstrual”. O primeiro passo é perceber que se uma adolescente estiver perdendo dias de escola ou atividades diárias devido à dor, isso não é normal e, portanto, uma ajuda médica deve ser procurada. Se a adolescente ainda estiver sendo vista por um pediatra, essa seria uma escolha inicial aceitável, apesar que os pediatras podem não ter muita experiência com dor pélvica e eventualmente se sentirem desconfortáveis em realizar um exame ginecológico. Pode ser que seja melhor uma consulta com um ginecologista, apesar que nem todos os ginecologistas são igualmente habilidosos em diagnosticar e tratar a endometriose; muitos ginecologistas e obstetras concentram suas atividades no atendimento obstétrico ao invés do ginecológico.
A consulta médica deve incluir um exame ginecológico ou retal, apesar que este nem sempre ocorre. Há uma grande variação entre os médicos nos tipos de exames realizados. Os diferentes resultados dos exames físicos feitos na mesma paciente podem ser devidos a:
  • variação no tamanho dos dedos (médicos com dedos curtos não conseguem atingir o fundo de saco);
  • gentileza (nem todos os médicos realizam os exames com gentileza);
  • experiência (nem todos os médicos sabem as áreas que devem palpar);
  • expectativas sobre o que será encontrado (alguns médicos não querem encontrar nada, enquanto outros esperam encontrar infecções pélvicas);
  • expectativa de reação de uma paciente jovem ao exame (a dor pélvica durante o exame pode ser interpretada como uma resposta vergonhosa normal durante seu primeiro exame).
A endometriose se inicia como ilhas planas de várias cores sobre a superfície pélvica, portanto ela não será identificada à ultrassonografia, tomografia computadorizada ou ressonância magnética pélvica. Os exames de bário do intestino geralmente são normais, assim como os testes de sangue. A paciente pode ser trivializada devido aos resultados normais dos exames. Isso poderia levar a uma demora no diagnóstico, já que nada parece estar errado além de “apenas cólicas” e o médico pode hesitar em recomendar cirurgia sem nenhuma causa óbvia a se procurar.
Infelizmente, a cirurgia é geralmente a única maneira de certificar-se do diagnóstico. Felizmente, a decisão em se realizar a cirurgia é fácil de ser tomada: se uma paciente estiver deixando de fazer suas atividades diárias devido à dor que não responde ao tratamento com medicações, ou se uma paciente estiver tomando analgésicos opioides (nota do tradutor: que contém derivados da morfina) para controlar a dor, então a cirurgia é necessária.
Qual é o tratamento?
A palavra “tratamento” pode ser interpretada de diferentes maneiras por diferentes médicos. Eu penso “tratamento” como algo que erradica a causa da doença, como antibióticos que matam as bactérias que estejam causando uma infecção urinária. Outros acham que tratamento é fazer qualquer coisa para a doença, não importando se a erradicada ou não.
Alguns médicos acreditam que não fazer nada é um tratamento. Pensa-se que assegurar a paciente em dizer que “tudo é normal” será suficiente para que esta lide com sua dor. A pergunta óbvia que se perde com essa estratégia é “Por que a paciente, e frequentemente seus pais, arranjam tempo para se ausentar de seu trabalho ou escola e vir ao médico devido à dor incapacitante? Apenas para perder tempo?”
Eu não acho que o negligenciamento benigno seja uma boa estratégia. Anti-inflamatórios não-esteroides (como ibuprofeno, naproxeno, piroxicam, etc.) podem ser prescritos e podem ajudar de alguma forma algumas pacientes. Remédios opioides (como hidrocodona, oxycontin, tylenol com codeína, tylenol com oxycontin) podem ser necessários para dor severa, e deveriam levantar o alerta vermelho aos pais, pacientes e médicos, porque claramente não é normal para qualquer pessoa tomar opioides, particularmente adolescentes que deveriam ser relativamente sem doenças.
Culpando as doenças sexualmente transmissíveis
Nas faculdades, muitos médicos são ensinados que as doenças sexualmente transmissíveis (DST`s – doença sexualmente transmissíveis) são descontroladas devido a mulheres sexualmente promíscuas. Esse é claramente um ponto de vista simplista e machista, porém geralmente presente na avaliação inicial da dor pélvica. Mesmo quando uma adolescente relata ser virgem, ela pode ser submetida a testes e tratamentos antibióticos para supostas DST`s. Algumas vezes a paciente pode ser hospitalizada para receber antibiótico intravenoso.
Como a dor severa geralmente cede após algum tempo, conclui-se que a paciente esteja respondendo às medicações e que ela realmente tinha uma DST apesar de exames de cultura darem negativos. Algumas pacientes passam por repetidos esquemas de tratamento com antibióticos até que DST`s sejam descartadas como causa da dor.
Frequentemente são prescritas as pílulas anticoncepcionais. Apesar delas poderem ser úteis no controle dos sintomas de algumas pacientes, não há nenhum remédio que erradique a endometriose.
Tratamento antes do diagnóstico?
Um laboratório farmacêutico, o fabricante do Lupron (nota do tradutor: medicação da classe dos análogos do GnRH, assim como o Zoladex), trabalhou durante vários anos para introduzir um novo paradigma no tratamento da endometriose: o tratamento da endometriose com injeções de Lupron sem um diagnóstico cirúrgico preciso. Houve até mesmo o pagamento de uma monografia colorida que foi enviada a todos os ginecologistas na qual vários “experts” em endometriose sustentavam que a laparoscopia é inútil no diagnóstico e tratamento da endometriose porque ela é feita de forma tão ruim. Enquanto a laparoscopia para o diagnóstico da endometriose possa nem sempre ser bem feita, deveríamos condenar um método comprovado porque alguns não tem a habilidade de realizá-la ou a experiência para usá-la efetivamente? Não faria mais sentido melhorar o conhecimento e as habilidades necessárias para sua realização, independente do método?
A conclusão condenando a laparoscopia poderia ser também vista como algo de ajuda própria. Tratar toda mulher com dor pélvica com algum remédio em particular seria certamente lucrativo ao fabricante. Além do mais, essa abordagem levaria a um atraso no diagnóstico da endometriose ou alguma outra real causa de dor pélvica.
Apesar de ser afirmado que a redução da dor sob uso do Lupron prova que a paciente tem endometriose, isso certamente não é o caso. Qualquer doença estrogênio-dependente pode melhorar com o tratamento do Lupron, incluindo miomas uterinos, adenomiose uterina, dismenorreia (já que os fluxos menstruais são interrompidos), dor da ovulação (já que a paciente não ovula sob uso do Lupron), causas desconhecidas de dor pélvica, e endometriose. Portanto a resposta da dor ao Lupron estreita as possibilidades diagnósticas a cinco ou seis causas.
Enquanto o alívio dos sintomas podem ser muito bem-vindos, deve-se lembrar que as medicações muitas vezes tratam os sintomas, e não a doença, como é neste caso. Nenhum remédio erradica a endometriose. Quando o efeito do remédio se acaba, muitas mulheres terão recorrência da dor em curto espaço de tempo após o retorno das menstruações.
Excisão da endometriose
Como os remédios tratam apenas os sintomas, a cirurgia é o único tratamento para a endometriose. A questão que surge então é: “Qual o melhor tratamento cirúrgico?”. A resposta é simples: aquele que erradica consistentemente toda a doença em todas as pacientes. Eu acho que a excisão da endometriose é a que mais chega perto de atingir esse objetivo. Enquanto a vaporização a laser e a cauterização têm algum potencial de destruir a doença superficial, a doença profunda pode escapar de ser destruída, e o cirurgião pode ter receio de cauterizar sobre estruturas vitais.
Resultados dos tratamentos
O mecanismo de origem da endometriose pode afetar o tratamento cirúrgico. A endometriose é possivelmente causada por metaplasia (nota do tradutor: transformação de um tipo celular em outro) de células embrionárias. Isso significa que há certos locais na pelve onde foram depositadas células embrionárias que se transformarão em endometriose sob estímulo do estrogênio após a puberdade. Esses tecidos existem não apenas nas superfícies peritoneal, mas também como um substrato abaixo da superfície.
Esses tecidos começam a formar endometriose durante a adolescência, terminando antes dos 30 anos. Portanto, a endometriose em adolescentes é uma doença mais precoce que pode ser superficial, e mais fácil de ser removida. Ela também pode ter aparência sutil, e pode então passar despercebida mais facilmente se o cirurgião não souber todas as possíveis aparências da doença.
Além disso, pode ser que nem toda a doença tenha se formado quando uma adolescente passa por cirurgia. Baseado em minha experiência cumulativa desde 1978, as adolescentes têm em média 2,9 áreas pélvicas e 0,13 áreas intestinais acometidas pela doença, em comparação a 3,6 áreas pélvicas e 0,41 áreas intestinais em mulheres acima dos 20 anos de idade. Isso significa que nem toda a endometriose pode ter se formado no momento em que a adolescente passa por cirurgia, e portanto há algum potencial para que a doença se forme mais tardiamente.
Enquanto seria ideal operar todas as mulheres com endometriose por volta dos 25 anos de idade, não é justo adiar a cirurgia para adolescentes devido à sua idade. A dor causada pela endometriose responde extraordinariamente bem com a remoção da doença. Infelizmente, nem toda dor pélvica é causada pela endometriose, e pacientes com endometriose podem ter risco aumentado de desenvolverem mais tardiamente outras doenças ginecológicas como miomas uterinos e adenomiose uterina, apesar da dor recorrente ser frequentemente diagnosticada erradamente como endometriose, mesmo quando não é encontrada durante uma reoperação. Também, cólicas uterinas verdadeiras nem sempre respondem à remoção exclusiva da endometriose, e portanto uma neurectomia pressacral (um procedimento de secção de um nervo) pode ser útil para as cólicas.
Impacto na infertilidade
Muitos médicos são contra a cirurgia porque acreditam que reduzirá a fertilidade da adolescente. Porém, a fertilidade em adolescentes após a excisão da endometriose é excelente. Entre 48 mulheres que passaram por excisão da endometriose durante a adolescência (na minha experiência) e que responderam a um questionário em 1999, 17 tentaram gestar e 13 dessas engravidaram. Essas pacientes esperaram até 81 meses após a cirurgia para começarem a tentar a engravidar.
Portanto, não há nenhuma evidência de que a excisão da endometriose reduza a fertilidade da adolescente, ou de que haja uma “janela” obrigatória de seis a nove meses apenas após a cirurgia quando possa haver a gravidez.
Conclusões
Os médicos tornam a endometriose mais difícil do que ela é realmente. A endometriose é a causa mais comum de dores em adolescentes e é tratável apenas pela cirurgia. A melhor cirurgia é a remoção de toda a doença, e isso resulta em excelente alívio da dor e excelente futuro reprodutivo para as adolescentes com endometriose.
Nota do tradutor: Neste artigo, o doutor David Redwine chama a atenção de que os sintomas da endometriose quase sempre começam na adolescência, apesar de serem frequentemente ignorados. O médico destaca que, adolescentes que deixem de ir à escola ou de fazerem suas atividades por dor pélvica, podem ter endometriose, sendo essa a causa mais comum de dor pélvica severa nessa fase da vida da mulher.
Ainda que a probabilidade de nova cirurgia seja maior para mulheres com endometriose operadas durante a adolescência, essa é certamente a melhor época na vida de uma mulher para que a doença seja diagnosticada e tratada efetivamente por cirurgia.

Para aquela adolescente que tenha cólicas severas e que não melhoram com analgésicos, a laparoscopia pode proporcionar um diagnóstico mais precoce (ao invés dos oito a 10 anos de média de demora), uma remoção mais fácil da doença (já que esta é mais leve e superficial), e a preservação da anatomia pélvica e da fertilidade (possivelmente evitando os casos severos de endometriose avançada diagnosticados por volta dos 30 anos de idade). Certamente faremos grandes avanços no combate à doença se melhorarmos nossos esforços com as adolescentes.



Sobre o doutor Alysson Zanatta:

Graduado e com residência médica pela Universidade Estadual de Londrina, doutor Alysson Zanatta tem especializações em uroginecologia e cirurgia vaginal pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cirurgia laparoscópica pelo Hospital Pérola Byington de São Paulo e doutorado pela Universidade de São Paulo, USP. Suas principais áreas de atuação são a pesquisa e o tratamento da endometriose, com ênfase na cirurgia de remoção máxima da doença. Seus inter­esses são voltados para iniciativas que promovem a conscientização da população sobre a doença, como forma de tratar a doença adequadamente. É diretor da Clínica Pelvi Uroginecologia e Cirurgia Ginecológica em Brasília, no Distrito Federal, onde atende mulheres com endometriose, e Professor-adjunto de Ginecologia da Universidade de Brasília (UnB). (Acesse o currículo lattes do doutor Alysson Zanatta). 

terça-feira, 13 de outubro de 2015

MATTHEW ROSSER: ENDOMETRIOSE EM ADOLESCENTES? SIM, ELAS TAMBÉM TÊM!

imagem cedida por Free Digital Photos
O texto de hoje é extremamente importante, pois ele poderá salvar vidas do sofrimento. Depois de sofrer com as dores severas da endometriose por 18 anos, eu tive o diagnóstico da doença, já pra lá da casa dos 30 anos. Quando comecei meu tratamento num centro especializado descobri que é bem provável que tenho endo desde os meus 13 anos, quando retirei meu apêndice. Ou seja, desde a adolescência. Nunca nenhum médico levou em conta minhas cólicas fortes e minhas dores nas pernas. Dores essas que me impediam de andar durante meu período menstrual. Por conta da doença ter o ridículo rótulo "de que a endometriose é a doença da mulher moderna", pelo fato de hoje as mulheres estarem mais ativas no mercado de trabalho, uma frase machista e extremamente preconceituosa, esse texto vai tirar esse mito e tomara Deus abrir as mentes dos médicos, especialmente, dos mais velhos que meninas jovens, adolescentes podem ter endometriose, sim. Compartilhe este texto e ajude na correta conscientização da endometriose para que haja o diagnóstico precoce da doença. Beijo carinhoso! Caroline Salazar


Por Matthew Rosser 
Tradução: Alexandre Vaz
Edição: Caroline Salazar

Um dos muitos mitos acerca da endometriose é que a doença afeta apenas mulheres adultas na casa dos 30 anos. Essa crença tem sido mantida por muitos, muitos anos e ainda corre por aí.
Contudo, embora possa ser verdade que a maioria das portadoras são geralmente diagnosticadas entre os 20 e os 30 anos de idade, a verdade é que os sintomas surgem muito antes e, ao serem ignorados, isso conduz a um atraso no diagnóstico fazendo com que a idade real em que a endometriose se apresenta não seja enxergada.

Felizmente hoje existe uma vontade de intensificar os estudos e a conscientização sobre a endometriose em jovens moças. Hoje vou falar de um desses estudos com origem nos Estados Unidos, um texto grátis e completo que vocês podem acessar aqui.

Esse estudo contou com 25 casos de moças com idade inferior a 21 anos que fizeram laparoscopia por conta de dor pélvica e que não tinham diagnóstico prévio de endometriose, fosse por laparoscopia ou por métodos radiológicos (ressonância magnética, ultrassom, etc). Foi recolhida informação de todas as pacientes antes e depois da cirurgia para determinar o que as características da endometriose nessas pacientes poderiam nos indicar sobre a doença na adolescência (apesar de ser um grupo pequeno, é necessário começar em algum lugar).

A idade média das pacientes desse grupo era de 17,2 anos. O interessante é que 14 dessas 25 (56%) reportaram um histórico de endometriose na família. Isso é muito superior ao que seria de se esperar se fosse um grupo escolhido ao acaso a partir da população geral. O que isso significa é que o risco de desenvolvimento de endometriose em idade precoce é aumenta significativamente pelo histórico de endometriose na família, um fato que médicos e portadoras precisam ter consciência.

Os resultados desse estudo parecem sugerir que os casais com endometriose são bem capazes de identificarem os sintomas , já que 44% das pacientes do grupo vieram indicadas pelas suas mães.

No que diz respeito aos sintomas experimentados pelas pacientes, os ginecológicos mais comuns eram aqueles tipicamente associados à endometriose, tais como dismenorreia (períodos menstruais excessivamente dolorosos) em 64% dos casos, e sangramento anormal em 60% dos casos. Esse é um assunto de extrema importância, já que esses sintomas poderão levar a ausências na escola todos os meses, potencialmente destruindo os projetos da jovem para a sua vida adulta. Apenas 4 das 25 pacientes reportaram sofrer de dispareunia (relações sexuais dolorosas), mas como apenas 8 das 25 assumiram ser sexualmente ativas, a dispareunia é um fraco indicador de endometriose nesse grupo.

Dos sintomas gastrointestinais, a náusea foi o mais comum, presente em quase metade das pacientes (44%). Entre 20 e 25% do total das pacientes experimentaram outros sintomas gastrointestinais, como prisão de ventre ou diarreia. Fadiga, um sintoma da endometriose frequentemente ignorado, estava presente em cerca de 25% das pacientes, e parece ficar mais comum com a idade.

Foi reportada uma variação muito elevada no intervalo que existiu na primeira visita ao médico e a obtenção de um diagnóstico. Nesse grupo em particular a obtenção de diagnóstico foi entre 1 mês e 9 anos, sendo que a média entre o início dos sintomas e o diagnóstico situou-se em 2 anos.

Isso vem demonstrar quão importante é que os médicos estejam bem preparados para a identificação dos sinais de endometriose em jovens adolescentes e mulheres adultas.

Os autores desse estudo referiram um inquérito a mais de 4 mil mulheres diagnosticadas com endometriose. Dois terços dessas mulheres afirmaram que os seus sintomas eram muito menos valorizados quando eram adolescentes do que após virarem adultas.

Após as 25 pacientes terem feito a cirurgia, foi descoberto que 17 delas tinham endo grau I, 5 tinham endo grau II, 3 tinham grau III e nenhuma tinha grau IV. Essas descobertas são coincidentes com um estudo publicado faz algumas semanas que incluiu 55 jovens de idades inferiores a 19 anos previamente diagnosticadas com endometriose. Não constituiu surpresa verificar que não existiam casos de endo grau IV, já que estudos anteriores revelaram uma taxa muito baixa de cistos endometrióticos ovarianos em adolescentes. Contudo, graus severos de endometriose em jovens moças não são inéditos, em particular após os 17 anos, e portanto não devem ser descartados.

Uma das observações feitas pelos autores é que a aparência da endometriose em adolescentes pode ser diferente da existente em mulheres adultas. Por exemplo, eles notaram que os tipos predominantes de lesões eram sutis, atípicas, translúcidas, brancas ou vermelhas, enquanto que nas portadoras adultas tendiam a ser mais escuras, um tom azul bem escuro, quase preto. Esse é um fator importante que os cirurgiões devem levar em consideração, como sendo formas mais sutis da doença e que podem facilmente passar despercebidas.

Após um ano de acompanhamento das pacientes, 80% tinham melhorado ou eliminado a dor, mas esse foi um acompanhamento curto e como os tratamentos pós-operatórios foram diferentes, fica difícil dizer o que foi que influenciou a resolução dos sintomas.

Ainda assim, esse artigo levanta várias questões importantes em torno da endometriose em adolescentes. Em particular a forma como ela pode se apresentar com diferentes aspectos, tanto sintomática quanto fisicamente, relativo a portadoras adultas e como melhor caracterizar a endometriose na adolescência podendo conduzir a um diagnóstico mais rápido, melhores tratamentos e a um fardo menor causado pela doença nas portadoras e na sociedade.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

MATTHEW ROSSER: ENDOMETRIOSE - UM PROBLEMA RECORRENTE?!

imagem cedida por Free Digital Photos
Em mais uma tradução do cientista inglês Matthew Rosser o texto aborda a questão da endometriose ser uma doença recorrente. Por que a doença volta com rapidez? Por que sua taxa de reincidência ainda é alta? Por que ela está sendo encontrada cada vez mais em mulheres mais jovens? Apesar de ainda não ter respostas para todas as questões, Matthew coloca em discussão o fato de a endo ser uma doença ainda traiçoeira. Beijo carinhoso! Caroline Salazar

Por Matthew Rosser 
Tradução: Alexandre Vaz
Edição: Caroline Salazar
Um problema recorrente 

Um dos problemas de uma doença como a endometriose é porque o nosso conhecimento sobre ela vai mudando ao longo do tempo. As certezas que temos hoje poderão ser consideradas incorretas, mal interpretadas ou mesmo erradas no futuro. Por exemplo, era comum pensar que a endometriose era uma doença quase exclusiva das mulheres entre os 30 e 40 anos, mulheres que investiram em sua carreira profissional, expressão ainda usada nos dias de hoje. Parece que nunca existiu uma explicação racional para isso, não existem motivos para que as mulheres nessa faixa etária estivessem em maior risco, era simplesmente aceita. Provavelmente pela experiência partilhada por muitas pessoas da área, acabou conduzindo a essa conclusão. No entanto essa percepção parece estar a mudar radicalmente, especialmente nos últimos 5 anos. 

Hoje em dia é cada vez mais reconhecido que os casos estão a aumentar e ocorrem em mulheres cada vez mais jovens, em particular entre jovens adolescentes (foi reportado um caso de uma menina de 11 anos com endometrioma). Se olharmos a literatura, podemos ver que nos últimos 10 anos (nota do tradutor: esse artigo é de 2011) foram publicados 526 artigos contendo as palavras-chave “endometriose” e “adolescente”. Comparando com a década anterior, o número foi de apenas 278 artigos.

Então porque será que isso acontece? Existe alguma prova de que as jovens moças estão ficando mais suscetíveis à doença? Ou será que a maior conscientização, tanto na comunidade médica como no público em geral, leva a que os sintomas sejam investigados em idades menores? Eu sei que o tempo médio está entre 7 e 9 anos (dependendo da pessoa com quem você fala), e sei também que muitas mulheres lutam para que os seus sintomas sejam levados a sério. Para começar, a idade na qual a mulher é diagnosticada não pode servir como indicador para o surgimento da doença. Essa é provavelmente a origem da ideia de que a endometriose é uma doença da mulher a partir dos 30 anos; porque era essa a idade na qual ela obtinha o diagnóstico e não a idade em que surgiram os sintomas. (leia nossos textos sobre Endometriose - a doença da mulher moderna texto 1texto 2).

Você já assistiu um filme de terror em que o protagonista vai em uma sala, esperando dar de cara com algo horrível, para descobrir que afinal a sala está vazia? Ele fica com aquela sensação de alívio, volta atrás e aí um monstro sai da sombra fazendo com que você pule na cadeira por conta do susto que acabou de tomar? Pois a endometriose é meio parecida com esse monstro. Porque mesmo após a remoção cirúrgica dos focos, e de todos respirarmos aliviados, ela ainda pode estar escondida na sombra. Esse estudo exemplifica o potencial recorrente da endometriose, cuja conclusão é de que uma em cada 5 portadoras sujeitas a cirurgia laparoscópica acabam tendo recorrência da doença. Mais estudos sobre uma vasta literatura descobriram que a recorrência pós-cirúrgica pode ser de até 21,5% após 2 anos e 40-50% após 5 anos.

No momento não temos uma ideia clara sobre o porquê dessa recorrência ser tão elevada. Certamente a perícia do cirurgião e a qualidade do equipamento usado desempenham um papel importante nisso, mas se existem outros fatores que podem influenciar a recorrência da endometriose, tais como estilo de vida, medicação ou genética, isso está por descobrir.

O motivo pelo qual estou falando de endometriose em mulheres mais jovens e o problema da recorrência é que existe um artigo publicado recentemente e que combina esses dois temas. Esse estudo também com origem na Itália juntou 57 jovens de idades inferiores a 21 anos previamente diagnosticadas com endometriose e seguiu o seu histórico médico por 5 anos. Das 57 moças que entraram no estudo, 32 (56%) tiveram recorrência de endometriose. Dessas 32, 11 foram sujeitas a nova laparoscopia para tratar a doença. Os autores do estudo descobriram que fatores como: sintomas, estágio/localização dos focos, tipo de cirurgia e tratamento médico não influenciaram quem teve recorrência e quem não teve.

A taxa de recorrência nessas jovens é muito elevada, mais de metade dessas portadoras tiveram recorrência da doença ou dos sintomas. Mas a pergunta valendo 1 milhão de dólares continua sendo, porquê?

Eu não tenho uma resposta clara, mas sei que a endometriose pode ser uma doença sorrateira. Pequenos focos de endometriose podem iludir o olho treinado até do cirurgião mais experiente, e dessas sementes, os espinhos maléficos da doença podem florescer. No futuro, melhores métodos para a visualização da doença poderão ajudar muito o cirurgião a remover todos os focos. Até lá, para muitas portadoras, a endometriose continuará a sendo um problema recorrente.