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quinta-feira, 26 de maio de 2016

DAVID REDWINE: ENDOMETRIOSE NO DIAFRAGMA - OS SINTOMAS, O DIAGNÓSTICO E O TRATAMENTO!

 Já colocamos no blog um texto de perguntas e respostas do doutor David Redwine com tudo que você precisa saber sobre a endometriose no diafragma, mas hoje tornamos a abordar o tema num texto direcionado aos sintomas, ao diagnóstico e ao tratamento. Toda endometriose no diafragma tem sintomas? Existe também a assintomática? Quais são os sintomas? Como o médico poderá suspeitar que a mulher tem endometriose diafragmática? Como é feito o tratamento deste tipo de endometriose? Mais um texto exclusivo do A Endometriose e Eu. Abril nosso mês de festa! Beijo carinhoso! Caroline Salazar 

Por doutor David Redwine
Tradução: doutor Alysson Zanatta
Edição: Caroline Salazar

Endometriose Diafragmática: Sintomas, diagnóstico e tratamento.

Primeiramente descrita por Brews em 1954 [1], a endometriose sintomática do diafragma é rara, com menos de 30 casos relatados em toda a literatura médica mundial. A maior parte desses casos está em duas séries [2,3]. O músculo diafragma direito está acometido 27 vezes mais do que o esquerdo. A doença bilateral é rara, ocorrendo em apenas dois de 28 casos. A idade das mulheres com endometriose sintomática do diafragma varia de 19 a 43 anos, com uma idade média de 34 anos. Após o início dos sintomas, pode haver uma demora de vários anos para o seu diagnóstico.

Os sintomas podem ser clássicos e consistem de dor ipsilateral (nota do tradutor: no mesmo lado) no tórax e no ombro que surgem pela primeira vez durante as menstruações. Com o passar do tempo, os sintomas podem iniciar antes da menstruação, sendo que algumas pacientes têm sintomas leves crônicos que pioram fortemente antes e durante as menstruações. A dor pode se irradiar para o pescoço ou os braços no lado afetado e simular uma dor muscular. Quando a dor é mais severa, esta pode ser perceptível com a respiração ou ao se deitar. Raramente, a paciente pode ter que dormir sentada devido à dor e muitas limitarão suas atividades diárias quando a dor estiver em seu pior grau. Calor, massagem e analgésicos são utilizados em um esforço para aliviar a dor.

O diagnóstico da endometriose diafragmática é suspeitado inicialmente pelos sintomas, já que os exames de imagem serão negativos. Derrame pleural e pneumotórax são raramente diagnosticados nessas pacientes [4]. A cirurgia é necessária para confirmar a suspeita de doença diafragmática, e essa pode ser feita por laparoscopia. É necessária a visualização de toda a superfície de cada hemi-diafragma. Uma ótica de laparoscopia posicionada na cicatriz umbilical poderá visualizar apenas a porção anterior do diafragma porque o grande volume do fígado esconde a sua face posterior (Fig. 1). Enquanto pequenas lesões “sentinelas” podem ser visíveis, a maior parte das lesões sintomáticas estará localizada na metade posterior do diafragma [2]. O diafragma esquerdo pode ser visto praticamente em toda sua extensão. A mesa cirúrgica pode ser colocada na posição de Trendelenburg reversa (nota do tradutor: com a cabeça mais elevada que os pés) para que o fígado seja deslocado do diafragma, mas ainda assim a metade posterior do diafragma não será visualizada em todas as pacientes. A melhor maneira de se ver a porção direita posterior do diafragma em sua totalidade é colocando um trocater de 5-mm na região subcostal na linha clavicular média (Fig. 2). Isso permite que um laparoscópio de 5-mm seja avançado bem mais adiante sobre a cúpula do fígado do que um laparoscópio colocado na punção umbilical, permitindo assim que todo o diafragma seja visualizado (Fig. 3). A endometriose sintomática do diafragma ocorre como lesões nodulares únicas ou agrupadas que chegam a medir 1,5 cm cada, estendendo-se por até 10 cm na superfície do diafragma, geralmente paralela à parede torácica posterior. Algumas lesões estarão aderidas à superfície hepática adjacente (Fig. 4). 
Figura 1: O hemi-diafragma direito e fígado são vistos com um laparoscópio de 10-mm colocado na punção umbilical. As porções anterior e média do diafragma podem ser vistas, mas o diafragma posterior não é visível
Figura 2: Visão externa de um laparoscópio de 5-mm colocado inferiormente à margem costal direita para visualização do diafragma posterior
Figura 3: Visão laparoscópica demonstrando o quão mais longe um laparoscópio de 5-mm pode avançar pela incisão subcostal. Todo o diafragma pode ser visto

Figura 4. Endometriose do folheto direito do diafragma com adesões à superfície hepática
O tratamento cirúrgico requer a realização de laparotomia para obtenção de melhores resultados [2]*. As medicações têm sido ineficazes na maioria dos casos onde foram utilizadas, e a castração pode não resolver todos os sintomas.

O procedimento cirúrgico é simples. Se a doença for unilateral, faz-se uma laparotomia subcostal no lado afetado. Se houver doença bilateral, faz-se uma incisão mediana epigástrica. Utiliza-se um afastador na incisão, o fígado é mobilizado inferiormente (Fig. 5), e secciona-se o ligamento falciforme. As lesões superficiais podem ser removidas por ressecção de espessura parcial com eletrocautério ou tesoura (Fig. 6). Como o diafragma tem apenas alguns milímetros de espessura, e como os nódulos sintomáticos podem ocupar toda a espessura do diafragma [2], a ressecção de espessura total poderá ser necessária. Pinças longas de Allis são utilizadas para tracionarem o diafragma doente e afastá-lo do pulmão subjacente (Fig. 7). Incisa-se o tecido entre as pinças de Allis junto ao nódulo (Fig. 8), com eletrocautério ou tesoura. Então, o diafragma sadio ao longo da lesão é incisado em ambos os lados (Fig. 9) até que se penetre na espessura total do diafragma (Fig. 10), e o segmento do diafragma doente seja ressecado (Fig. 11). Eventualmente, a lesão diafragmática (Fig. 12) pode estar aderida ao pulmão subjacente (Fig. 13). Algumas vezes, são necessárias áreas separadas de ressecção para lesões não contíguas (Fig. 14).

          Figura 6: Algumas lesões superficiais do diafragma podem ser removidas por ressecções de espessura parcial


Figura 7: A ressecção de espessura total do diafragma é necessária para o tratamento da doença sintomática. Um nódulo de endometriose é tracionado com uma pinça de Allis e puxado em direção à incisão abdominal enquanto a caneta do eletrocautério fica pronta para iniciar a dissecção
Figura 8: Utiliza-se eletrocirurgia para iniciar a ressecção adjacente ao nódulo. Note que um líquido achocolatado é pressionado para fora da lesão cística quando tracionada pela pinça de Allis
Figura 9: Com o diafragma fortemente tracionado em direção anterior, as lesões demonstradas à direita da figura podem ser isoladas por uma incisão circunjacente
Figura 10: A incisão rapidamente se torna de espessura total já que o diafragma é bastante fino. A base do pulmão direito é visualizada através do defeito
Figura 11: O pedaço do diafragma que contém uma parte da lesão endometriótica está quase completamente removido
Figura 12: A superfície pleural do diafragma pode ser examinada após a penetração em sua espessura total. Neovascularização hemorrágica e nódulos de endometriose são vistos no diafragma
Figura 13: A base do pulmão direito está aderida à superfície pleural do diafragma direito devido à inflamação causada pela endometriose em toda a espessura do músculo


Figura 14: Após a completa remoção da doença diafragmática por ressecção de espessura total, um ou mais defeitos terão sido criados



O laparoscópio pode ser avançado até o interior da cavidade torácica (Fig. 15) para pesquisar eventual endometriose torácica, a qual raramente irá coexistir com a endometriose diafragmática. Os defeitos no diafragma são fechados com uma sutura contínua de fio permanente (não absorvível). Antes que o último ponto seja fechado, coloca-se um cateter flexível no interior da cavidade torácica e o anestesista infla o pulmão ao máximo enquanto o cateter é removido e a sutura é fechada. Isso elimina a maior parte de qualquer pneumotórax. Radiografias do tórax não são necessárias no pós-operatório para a paciente assintomática, já que mostrarão um pequeno pneumotórax. A fluoroscopia pós-operatória da função diafragmática mostrou-se normal em duas pacientes [2], e parece que não há morbidade decorrente da ressecção diafragmática, especialmente considerando-se os graves sintomas presentes antes da cirurgia.

Figura 15: O laparoscópio pode ser avançado para dentro do tórax para a toracoscopia transdiafragmática. A superfície anterior do pulmão direito é vista no terço inferior da figura. A superfície parietal do hemitórax direito é vista na metade superior da figura. O vaso à direita é a artéria torácica interna, também conhecida como artéria mamária interna. Essa artéria é uma continuação da artéria epigástrica inferior que é bem conhecida dos cirurgiões pélvicos


O alívio dos sintomas após a ressecção da endometriose diafragmática é de praticamente 100% [2], e é muito mais efetiva que a vaporização a laser da endometriose feita pela punção umbilical [3]. A menor resposta observada com a vaporização a laser pode ocorrer devido à visualização incompleta das lesões diafragmáticas, e à destruição incompleta. De fato, como 100% dos casos de endometriose diafragmática em uma série foram de doença que acometiam toda a espessura do músculo [2], a ablação térmica parece ser contraindicada.

* Por favor observem, desde que esse artigo foi escrito e publicado, os avanços nas técnicas laparoscópicas agora permitem frequentemente que os cirurgiões tratem a endometriose diafragmática por laparoscopia ao invés de laparotomia. Esse artigo descreve a técnica de ressecção de endometriose do diafragma por laparotomia. Se você estiver vislumbrando cirurgia para remover doença diafragmática, por favor discuta as opções com o seu cirurgião.


Nota do Tradutor: Talvez o principal fator relacionado à endometriose do diafragma é a sua dificuldade diagnóstica. Na maior parte das vezes, o diagnóstico será feito após um episódio súbito de pneumotórax (ar na cavidade pleural, que reveste os pulmões) ou hemotórax (sangramento na cavidade pleural), quase sempre associados ao período menstrual.

Este é mais um exemplo de como a endometriose “não conhece fronteiras”, e que não pode ser considerada apenas uma doença ginecológica.  Caberá sempre ao ginecologista suspeitar de sintomas atípicos que possam eventualmente ser causados por endometriose, ainda que os sintomas não sejam ginecológicos.




Sobre o doutor Alysson Zanatta:

Graduado e com residência médica pela Universidade Estadual de Londrina, doutor Alysson Zanatta tem especializações em uroginecologia e cirurgia vaginal pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cirurgia laparoscópica pelo Hospital Pérola Byington de São Paulo e doutorado pela Universidade de São Paulo, USP. Suas principais áreas de atuação são a pesquisa e o tratamento da endometriose, com ênfase na cirurgia de remoção máxima da doença. Seus inter­esses são voltados para iniciativas que promovem a conscientização da população sobre a doença, como forma de tratar a doença adequadamente. É diretor da Clínica Pelvi Uroginecologia e Cirurgia Ginecológica em Brasília, no Distrito Federal, onde atende mulheres com endometriose, e Professor-adjunto de Ginecologia da Universidade de Brasília (UnB). (Acesse o currículo lattes do doutor Alysson Zanatta). 


quarta-feira, 29 de abril de 2015

5 ANOS DE BLOG! DAVID REDWINE: ENDOMETRIOSE DIAFRAGMÁTICA - SINTOMAS, DIAGNÓSTICO E COMO TRATAR!


Em mais uma tradução do médico e cientista americano, David Redwine, é de suma importância aqueles que querem entender as várias manifestações da endometriose. Infelizmente a doença pode atingir qualquer órgão do corpo feminino e hoje vamos saber mais sobre a endometriose diafragmática, seus sintomas e como tratar. Não podemos dizer que esse tipo de endometriose é raro, hoje não é mais, infelizmente, ela está cada vez mais comum. Beijo carinhoso! Caroline Salazar


Por doutor David Redwine 
Tradução: Alexandre Vaz
Edição: Caroline Salazar

Endometriose Diafragmática – Semelhante, mas diferente

Esse artigo foi escrito e publicado no início dos anos 1990. Na época, a excisão de doença diafragmática era feita rotineiramente via laparotomia (uma incisão grande, ao invés da cirurgia minimamente invasiva). Mais de 20 anos depois, contudo, as técnicas cirúrgicas evoluíram, e a doença diafragmática é hoje removida rotineiramente via laparoscopia e toracoscopia. 

A endometriose geralmente ocorre na pelve, mas em casos raros foi reportada em outras áreas do corpo. Já foram, inclusive, registados casos em homens. Mesmo se a endometriose existir longe da pelve, ela compartilha semelhanças com a doença pélvica. Quando a doença sintomática ocorre em outras áreas do corpo, o principal sinal de alarme é a dor.

Tal como a dor pélvica com endometriose, a dor pode estar presente por todo o mês e pode ser agravada pelo fluxo menstrual ou por movimento de estruturas próximas. Prestando atenção a essas semelhanças genéricas da endometriose, isso pode ajudar os clínicos a pensar no diagnóstico em diferentes locais do corpo, incluindo o diafragma.

O diafragma é um músculo bastante fino que parece uma tigela que usamos no café da manhã para comer cereais, mas virada de ponta cabeça. Ele separa a cavidade torácica da cavidade abdominal e tem a sua ligação no fundo das costelas. Existe uma metade esquerda e uma metade direita. A parte anterior da metade direita está escondida por trás do fígado.

O diafragma é abastecido pelo nervo frênico e é o músculo mais importante usado na respiração. Ele é de interesse principalmente para cirurgiões gerais, que são chamados a reparar estruturas do diafragma resultantes de trauma, ou para reparar hérnias hiatais, entre outros. Os ginecologistas têm noção do diafragma, mas como o diafragma não engravida, geralmente não prestam muita atenção nele.

Contudo, a endometriose pode ocasionalmente afetar o diafragma, então, os ginecologistas não podem ignorar completamente a sua existência. Durante a minha carreira vi uma série de pacientes com endometriose diafragmática espalhados pelo mundo inteiro.

Cada paciente tem uma história muito semelhante. Todas passaram por vários tratamentos conhecidos para endometriose pélvica, mas apenas uma tinha recebido um diagnóstico para endometriose diafragmática por laparoscopia. Existem vários motivos para isso.

A maioria dos ginecologistas não foi treinada para olhar para o abdômen superior durante uma laparoscopia pélvica. Afinal, ginecologistas não são treinados para fazer cirurgia no abdômen superior, então é compreensível que muitos não olhem para onde não conseguem tratar.

Adicionalmente, em muitas portadoras a dor pélvica começou muito antes da dor relacionada com a doença diafragmática, então, o cirurgião pode não ter motivos para suspeitar de algo no abdômen superior.
Cada paciente reporta um começo gradual (ao longo de vários meses ou anos) de dor no ombro direito associada com o fluxo menstrual. A dor era descrita como vinda de dentro do ombro e em parte irradiando para o lado direito do peito. A dor espalharia pela parte superior do braço direito e também um pouco pelo pescoço, como resultado de tensão muscular em resposta à dor.

Uma paciente descreveu a dor como sendo semelhante a dor profunda no peito que se sente quando corre bastante. Várias pacientes descreveram dificuldade em dormir em certas posições, sendo ocasionalmente acordadas pela dor.

Uma paciente não conseguia dormir deitada por conta de dor severa e descobriu que conseguia um alívio parcial dormindo sentada na poltrona com gelo aplicado no ombro. A maioria das pacientes eventualmente começaram a experimentar uma baixa da dor durante o mês. Outra paciente tinha recebido várias rondas de terapia medicamentosa dirigida à sua doença diafragmática, incluindo Danazol (indutor de menopausa) e um hormônio liberador de gonadotrofina.

Ela também tinha tentado fulguração via laparoscopia (nota do tradutor: processo em que é usada uma faísca elétrica para destruir o tecido que contém a lesão) no diafragma, mas mesmo assim a dor dela continuou. Nenhuma das outras tinha recebido diagnóstico ou tratamento para endometriose diafragmática.

Quando o doutor Sharpe e eu realizamos cirurgia nessas pacientes para a doença diafragmática, começamos com laparoscopia segundo o procedimento tradicional, fazendo a inserção no umbigo. Em todas as pacientes observamos pequenas lesões que poderiam ser endometriose na parte visível do lado direito do diafragma em frente ao fígado.

Contudo nós tínhamos suspeitas de que essas pequenas lesões não estavam causando todos esses sintomas, e para certificar, inserimos um segundo laparoscopo no lado direito da parte superior do abdômen, junto da parte inferior das costelas. Isso nos permitiu ver por trás do fígado. E lá estava. Cada paciente tinha uma área feia de doença invasiva, instalada bem atrás do fígado onde não tínhamos conseguido ver com o primeiro laparoscopo. (Ver as figuras 1 a 5 de endometriose superficial e invasiva no diafragma, e a cirurgia necessária para a sua remoção.)


Figura 1: Lesão superficial de endometriose diafragmática


Figura 2: Endometriose invasiva da parte posterior direita do diafragma (atrás do fígado)


Figura 3: Excisão da endometriose diafragmática invasiva durante laparotomia

Figura 4: O diafragma após excisão de endometriose com penetração completa
Figura 5: Os pontos de entrada para inspeção completa do diafragma (incluindo a porção posterior direita do diafragma, atrás do fígado). A paciente foi colocada em uma posição inversa a Trendelenburg bem inclinada (cabeça acima dos pés)
Na nossa primeira paciente, tentamos a resseção da área afetada através de laparoscopo, mas isso não funcionou de jeito nenhum. O fígado estava no caminho e não era possível chegar até aos focos. Mesmo que conseguíssemos ressecar essa área, iríamos nos deparar com um outro problema: em cada paciente a endometriose estava bem espalhada pelo diafragma. Então tínhamos de remover toda a espessura do diafragma e fazer a reparação laparoscopicamente. Isso demoraria uma eternidade, e existia risco de dano para o pulmão agora exposto.

Nós tivemos de abrir a primeira paciente para completar a cirurgia, e tivemos de abrir as outras quatro também. Com cirurgia aberta, o fígado pode ser afastado do caminho, uma porção do diafragma removido e depois reparado com segurança através de sutura. Todas as cinco pacientes obtiveram alívio da dor no ombro direito após a cirurgia, e nenhuma referiu qualquer dificuldade na respiração.

Raios-X pós-operatórios e fluoroscopia nas nossas duas primeiras pacientes estavam normais, e por esse motivo não nos sentimos impelidos a checar as seguintes. A nossa primeira paciente voltou alguns meses depois com endometriose diafragmática no lado esquerdo (estivemos tão focados com a natureza da dor do lado direito que não verificámos direito o lado esquerdo do diafragma).

Aprendemos várias coisas sobre a endometriose diafragmática com tudo isso.

1- Suspeitar de endometriose diafragmática com base na dor do lado direito ou esquerdo que poderá estar associada ao ciclo menstrual;

2 - Usar o laparoscopo para olhar ambos os lados do diafragma de forma tão completa quanto possível. Ainda que o cirurgião detecte uma lesão de endometriose que não se sinta capaz de remover nessa ocasião, pelo menos terá feito o diagnóstico;

3 - Se for detectada uma pequena lesão diafragmática, ela poderá ser uma lesão “sentinela”, e portanto, apenas a ponta do iceberg. A maioria da doença poderá estar escondida atrás do fígado e o diagnóstico correto requer um segundo laparoscopo inserido mais acima no abdômen;

4. Vaporização a laser ou eletrocoagulação de uma pequena porção visível poderá tratar apenas uma fração do foco. Já que a doença que parece ser sintomática sempre envolve a espessura completa do diafragma, seria necessário queimar até o outro lado através do diafragma com laser ou eletrocoagulação para tratar o foco totalmente. Isso implica risco aos pulmões e até ao coração, e o cirurgião ainda acaba com um buraco no diafragma que precisa ser fechado;

5. O laparoscopo é inadequado para tratar endometriose diafragmática. É necessário recorrer a laparotomia.

Atualização sobre endometriose diafragmática (Março de 2013)

O artigo acima foi escrito no início dos anos 1990. As coisas sofreram alguma evolução desde então, por isso, aqui está uma atualização sobre a gestão da endometriose diafragmática.

95% dos casos ocorrem no lado direito devido a padronização embrionária. Os sintomas mais comuns são dor no ombro e peito direitos, que pode irradiar para o pescoço e para a parte superior do braço. A dor começa a aparecer antes e durante a menstruação, mas em algumas portadoras ela pode envolver o mês inteiro, embora continue com um agravamento nos dias da menstruação.

Algumas pacientes precisam dormir sentadas e a respiração pode ser dolorosa quando a dor é mais intensa. Terapia medicamentosa geralmente falha – isso não constitui surpresa.

Quando a endometriose diafragmática é sintomática, ela sempre atravessou a espessura do diafragma na totalidade, o que não é difícil, pois a espessura é em torno de 1/8 de polegada (cerca de 3,2 milímetros).
Endometriose sintomática sempre é descoberta na margem posterior do diafragma, onde o fígado fica junto do diafragma. Essa é uma área que nem sempre pode ser observada com um laparoscopo inserido no umbigo, então fica fácil que passe despercebida.

Outra coisa que pode confundir o diagnóstico é o fato de algumas portadoras tendo doença invasiva no diafragma posterior poder ter pequenas lesões superficiais “sentinelas” na parte anterior do diafragma, que podem ser vistas pela entrada umbilical.

O cirurgião poderá pensar que isso representa a totalidade da doença, e pode até excisar essas pequenas áreas pensando que é tudo o que existe. Quando a portadora continua reportando dor, isso deixa todo mundo confuso. A melhor forma de ver a parte posterior do diafragma é inclinar a mesa operatória para que os pés fiquem para baixo (isso permite que o fígado caia um pouco, ficando afastado do diafragma o suficiente para que a parte traseira possa ser visualizada mais facilmente) e inserido um laparoscopo de 5mm no espaço intercostal do lado direito, para que possa passar por cima do fígado, permitindo a visualização da parte posterior do diafragma.

A resseção de endometriose diafragmática sintomática sempre exige resseção da espessura completa, o que pode ser feito através de laparotomia ou laparoscopia. O truque para operar laparoscopicamente é colocar a portadora na posição decúbito lateral esquerda (deitada sobre o lado esquerdo) já que isso permite que a gravidade afaste o fígado do diafragma.

A função diafragmática é normal na maioria das portadoras após cirurgia, embora ocasionalmente uma portadora possa ter função reduzida por alguns meses até que ocorra re-enervação. Essa função reduzida temporariamente é raramente notada pela paciente, e dado que elas estavam incapacitadas por uma das funções mais importantes do corpo humano, esse é com certeza um pequeno preço a pagar.

Os resultados da cirurgia são espetaculares – alívio completo dos sintomas em mais de 90% dos casos, parcial nos outros, e nenhuma falha. O alívio parcial pode estar relacionado com a formação de aderências entre o diafragma e o fígado, ou a áreas de penetração completa que ocorrem mais no canto do diafragma atrás do fígado.

Essa área é visível através do buraco no diafragma antes de ser suturado e a endometriose ser resseccionada através do buraco ao operar no tórax. Um pequeno dreno deve ser deixado para escoar fluídos que podem acumular durante o processo de cura, de contrário a paciente poderá ter um colapso parcial do pulmão devido a acumulação de fluido, e então terá de ser encaminhada para a radiologia, para que um radiologista instale um dreno.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

ENDOMETRIOSE - NÃO APENAS UMA DOENÇA REPRODUTIVA!!

imagem cedida por Free Digital Photos


Quando falamos em endometriose, muitas pessoas acham que sabe alguma coisa sobre a doença. De algum lugar sempre sai alguém que não entende nada e já vai logo metendo o bedelho: "Ah, tira o útero que você ficará curada" ou "Tira os ovários, o útero que você ficará livre da doença"... esses são apenas dois dos inúmeros comentários que ouvimos ao longo da nossa caminhada. Pois é, agora quando você escutar alguma dessas frases ou alguma outra, pede para essa pessoa entrar no A Endometriose e Eu para aprender um pouco mais sobre a doença. A tradução de hoje aborda exatamente a questão de a endometriose não ser apenas uma "doença do sistema reprodutor da mulher". Não adianta nada tirar os órgãos reprodutores e deixar focos da doença no organismo da mulher. Já contamos aqui a história da americana Candice, que teve endometriose em órgãos da pelve, e também, no pulmão. A capixaba Patrícia e sua endometriose no diafragma, assim como a portuguesa Fatinha. E, se você pensa que ter endometriose em órgãos distantes da pelve é algo raro, está muito enganado. Por isso é fundamental que a portadora tenha acompanhamento médico especializado, com quem realmente entende não só o que ela sente, mas sim, quem conhece muito bem os vários aspectos visuais da doença, ou seja, os vários tipos de focos e quem sabe como retirá-los em sua raiz, para que não haja reincidência no mesmo local. Leia o texto com atenção. Beijo carinhoso!! Caroline Salazar

Por doutora Phillipa Cook 
Tradução: doutor Alysson Zanatta
Edição: Caroline Salazar

Endometriose – não apenas uma doença reprodutiva

A endometriose é comumente entendida como uma doença do sistema reprodutivo, possivelmente devido ao fato de que um sintoma comum é a menstruação dolorosa, e que pode causar infertilidade. A verdade é que a endometriose não é apenas uma doença reprodutiva de fato.  Ela pode afetar os órgãos reprodutivos, mas ela também afeta normalmente outros órgãos como o intestino e a bexiga. Mais raramente, ela também pode afetar áreas fora da pelve como o nervo ciático, o diafragma, e os pulmões, e até mesmo o músculo da panturrilha. Além dos sintomas pélvicos específicos como a dor pélvica, a disfunção vesical e intestinal, e as relações sexuais dolorosas, muitas mulheres com endometriose relatam sintomas sistêmicos como fadiga e mal estar geral, e mulheres com endometriose têm uma incidência maior de doenças como doenças autoimunes, alergias, doença inflamatória intestinal, e até um risco pouco mais elevado de câncer de ovário. As relações entre a endometriose e outras doenças não são bem compreendidas.

Muitas pessoas podem estar familiarizadas com o fato de que a endometriose é causada por tecido localizado erradamente na pelve e que forma lesões, cistos e nódulos. Entretanto, dada a sua reputação como uma doença reprodutiva, muitas pessoas acreditam que a endometriose geralmente cresce nos órgãos reprodutivos – ovários e útero. Este não é o caso, e apesar das pesquisas que demonstram que os locais mais comuns da endometriose não são os ovários ou o útero terem sido publicadas há 24 anos, este entendimento equivocado ainda persiste nos dias de hoje, mesmo entre os médicos.

O Dr. David Redwine, pioneiro cirurgião laparoscópico da endometriose, publicou em 1989 um estudo sobre a distribuição da endometriose na pelve de acordo com a faixa etária. Este estudo descreveu as localizações da endometriose na pelve em 132 pacientes consecutivas que passaram por cirurgia. O local mais comum onde as lesões de endometriose foram encontradas, em todas as faixas etárias, foi o fundo de saco, que é a área atrás do útero, entre o útero e o reto. Em seguida, as áreas mais comuns foram os ligamentos da pelve (o ligamento largo, o ligamento útero-sacro, com o lado direito sendo mais acometido que o esquerdo). Após os ligamentos, a bexiga foi mais comumente envolvida, e o ovário esquerdo. Então o fundo do útero (a parte superior, oposta ao colo uterino), o cólon sigmoide (intestino), o ovário direito, e finalmente as trompas de Falópio, os ligamentos redondos, e a parede abdominal.

Este estudo também sugeriu que,  ao contrário do entendimento comum de que a endometriose se espalha por outras áreas da pelve com o passar do tempo, a endometriose na realidade não se espalha. As lesões de endometriose podem crescer e se aprofundarem, levando a sintomas mais significativos e potencialmente a lesão de órgãos. Entretanto, neste estudo, mulheres mais velhas não tinham mais áreas da pelve acometidas por endometriose do que mulheres mais jovens, o que seria esperado caso a endometriose se espalhasse com o passar do tempo.

O mais interessante deste estudo não são os resultados propriamente ditos, mas sim a constatação que 24 anos mais tarde, seus resultados e implicações para o tratamento da endometriose não foram incorporados à prática clínica diária por muitos médicos. Antes de tudo, a endometriose como uma doença multissistêmica requer expertise cirúrgica que muitas vezes vai além do que a maioria dos ginecologistas são treinados para lidar. E ainda, muitos ginecologistas que não têm as habilidades cirúrgicas para removerem a endometriose de áreas sensíveis como o cólon sigmoide ainda continuam a tratar pacientes com endometriose, ao invés de encaminhá-las para especialistas em endometriose.

Mais importante porém, a diminuição da endometriose como simplesmente uma doença do sistema reprodutivo parece levar à uma falta de entendimento dos sintomas debilitantes que ela pode causar. Estudos sobre a qualidade de vida das mulheres com endometriose demonstram que mulheres ainda continuam a sofrer com sintomas frequentes como dor crônica, que afetam sua qualidade de vida, mesmo após o tratamento para a endometriose. A dor severa da endometriose é menosprezada de uma tal maneira que as dores causadas por outras doenças não o são. Nancy Petersen, uma conhecida ativista da endometriose, e Diretora Fundadora do primeiro Programa de Ressecção Cirúrgica de Endometriose nos Estados Unidos, comparou a dor da endometriose à dor da apendicite aguda. Durante os episódios agudos de dor, os médicos frequentemente tratam as pacientes com Tylenol ou naproxeno – será que os médicos pensariam nessas medicações para tratar a dor de uma apendicite aguda? Por quanto tempo irá durar o sub-tratamento da dor da endometriose pelos médicos devido à percepção que ela é apenas “um problema de mulher” e que portanto não pode ser séria ou dolorosa?

Nota do Tradutor: Nós, médicos, tratamos a doença da forma como a entendemos, utilizando o melhor de nossos conhecimentos que nos foram passados. Mas quando entendemos a doença de forma errada,  também temos chances de tratá-la de forma errada.

Como bem colocado pela Dra. Phillipa Cook, entender a endometriose apenas como uma doença reprodutiva que é progressiva ao longo dos anos, e que é causada pela menstruação retrógrada, entre tantos outros, contribui para perpetuar os tratamentos ineficazes. Constatações claras e verídicas sobre a doença, como aquelas demonstradas por este estudo do Dr. Redwine há 24 anos, não são incorporadas às práticas médicas de muitos profissionais. Motivos para tal são vários, o principal talvez a crença messiânica de que a doença seria causada pela menstruação.

Faremos progressos reais quando disseminarmos as informações corretas e comprovadas sobre a endometriose. Nesse sentido, talvez as pacientes portadoras da doença, e a população geral, estejam mais avançados do que a própria classe médica.


Sobre o doutor Alysson Zanatta:

Graduado e com residência médica pela Universidade Estadual de Londrina, doutor Alysson Zanatta tem especializações em uroginecologia e cirurgia vaginal pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cirurgia laparoscópica pelo Hospital Pérola Byington de São Paulo e doutorado pela Universidade de São Paulo, USP. Suas principais áreas de atuação são a pesquisa e o tratamento da endometriose, com ênfase na cirurgia de remoção máxima da doença. Seus inter­esses são voltados para iniciativas que promovem a conscientização da população sobre a doença, como forma de tratar a doença adequadamente. É diretor da Clínica Pelvi Uroginecologia e Cirurgia Ginecológica em Brasília, no Distrito Federal, onde atende mulheres com endometriose, e Professor-adjunto de Ginecologia da Universidade de Brasília (UnB). (Acesse o currículo lattes do doutor Alysson Zanatta). 

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

PATRÍCIA GASTALDI, DO ENDOMETRIOSE BRASIL, NO ENDOMULHERES DESTA QUINTA-FEIRA, DIA 21, ÀS 9H!!



No EndoMulheres desta quinta-feira, dia 21, às 9h, nossa entrevistada é a portadora de endometriose e coordenadora do grupo Endometriose Brasil, Patrícia Gastaldi. Aproveitei sua rápida passagem por São Paulo e fiz uma excelente entrevista com ela.  Já contamos a história da Patricia  aqui no blog; Portadora de endometriose pélvica e no diafragma, Patrícia vai falar sobre as seis cirurgias as quais já se submeteu, dentre elas, a que ela foi enganada, como já contamos na história dela aqui no blog. Uma história de muita luta, mas que vai servir de inspiração para muitas endomulheres. Patrícia fala também da iniciativa de fazer o grupo junto com a amiga Adriana Heinz, que oferece apoio às portadoras de endometriose, o Endometriose Brasil, um grupo ético que escolhi para ser parceiro do A Endometriose e Eu


O logo do programa desenvolvido especialmente pela nossa querida designer, Monica

EndoMulheres é o primeiro programa do Brasil, e, provavelmente, o primeiro do mundo especializado em endometriose. Além do mais, é o único voltado aos profissionais de saúde. Nosso lema é educar e conscientizar quem tem paixão por cuidar de nós. Todo dia, em horários diferentes, para você ter mais comodidade. Se você não pode assistir em nenhum horário, após serem hospedados na TV UOL, os programas estão armazenados também na coluna  Programa EndoMulheres, na aba superior. Veja os horários da semana na grade de programação. Todos os dias em horários diferentes. E, agora também, na coluna do programa que é hospedado na TV UOL aqui no blog.Assista aqui todos os programas EndoMulheres! Um beijo carinhoso!!

quarta-feira, 3 de julho de 2013

ENDOMETRIOSE É TEMA DA SÉRIE AMERICANA DOCTOR HOUSE!!! E NOVO LAYOUT DO BLOG!!

A endometriose é mesmo uma doença enigmática. Mas tudo, claro, depende de cada mulher. Por isso, costumo falar que a endo é única em cada mulher, assim como o tratamento. Cada uma se adapta a um. Eu falo por mim. Estou maravilhosamente bem com o DIU de Mirena há pouco mais de um ano. Vivo sem nenhuma dor. Mas pelo que recebo nos emails, esse tratamento é mais eficaz quando colocado após retirada de focos e aderências. Bom, mas o artigo de hoje é para mostrar o quinto episódio do doutor House, intitulado "O Bem Maior", onde ele explica um caso mais raro de endometriose. É uma ficção que mescla obviamente uma realidade. Mas não sei até onde uma mulher que sangra tanto pode ser assintomática nas dores, por exemplo. Mas o desmaio do começo do episódio é o que acontece com muitas de nós até mesmo antes de saber que somos portadoras. Eu falo por mim. Fazia muitos e muitos anos que eu desmaiava sem saber a causa. E esse desmaio vem do nada. Após a minha primeira videolaparoscopia (meu renascimento!) descobri que os desmaios e os vômitos constantes e até então inexplicáveis eram das muitas aderências que eu tinha. Afinal, eu já tinha órgãos sem funções dentro de mim e que davam nó um ao outro.

E falando em cirurgia entra outra questão. Eu bato sempre na tecla de como é importante escolher bem o cirurgião. Escolher em todos os aspectos, sabe. E isso está bem claro neste episódio. Nisso conta tudo e não só a técnica, o conhecimento e ou habilidade (os principais pré-requisitos, óbvio). Não se sabe ao certo se a mulher do episódio que estava sangrando sem parar e por vários buracos já tinha endometriose antes da cirurgia de mioma, que ela havia feito 8 meses antes de começar com esses sintomas, ou se foi como realmente como o doutor House explica: na cirurgia de retirada do mioma cada corte do útero com o bisturi pode ter espalhado a doença para a corrente sanguínea da paciente, e ela teve a chamada endometriose ectópica. Daí da corrente sanguínea a doença se espalhou para várias partes do corpo, como pulmões, fígado, espinha, dentre outros, e essas células se multiplicavam mensalmente e, claro, sangravam quando ela menstruava. Agora, só não sei se esse tipo de endo pode ser assintomática. Já contamos história da leitora catarinense Gabriela Rodrigues e sua endo assintomática - ela já estava no grau IV quando descobriu ser portadora -, a da americana Candice e sua endometriose no pulmão e na pelve, e da capixaba Patricia Gastaldi com sua endo pélvica e diafragmática.

Agora, quando contamos a história de outra capixaba, da Danielle Balbino, ela nos contou que descobriu a endo após a cesárea da filha. Ela disse que a endo dela começou após ter tido a filha, Outro dia, eu recebi email de outra leitora afirmando que ela passou a ter endometriose após a cesárea do filho porque o médico dela (a leitora do email) costurou a barriga com a mesma agulha que costurou o útero. Agora entende porque eu disse que é preciso escolher muito bem o cirurgião?! No episódio, mesmo sem partes sabendo que é ficção, percebemos o comportamento traiçoeiro da doença. Não é só em cirurgia que a endo se espalha rapidamente. Como ainda é uma doença considerada enigmática para a medicina, muitas coisas dessa doença ainda são inexplicáveis, dentre elas, o comportamento que pode atacar rapidamente órgãos distintos estando próximo a pelve ou mais distante dela.

Ah, e hoje começamos a estrear o novo layout do A Endometriose e Eu. Há uns 2 meses eu e a Monica estamos vendo isso, a ideia inicial era ter estreado o novo design no mês de aniversário do blog, abril, mas é tanta correria para ambas, que resolvemos estrear em julho que coincidentemente é o mês do meu aniversário.Ver meu filhote de roupa nova está sendo uma grande emoção. Meu maior presente de aniversário!! Confesso que mal dei opinião, apenas alterei a tipografia a ser usada, porque de resto não precisei falar nada. É incrível a minha sintonia com a Monica, desde o primeiro dia que a gente se conheceu, quando trabalhamos juntas. Daí, ela inventou de dar o logo do blog de presente e coitada entrou na dança e se tornou a designer do A Endometriose e Eu e de todos os nossos projetos. Eu amei tudo, especialmente, as fitinhas de fundo!! Parece que ela leu meus pensamentos. Eu tenho o maior orgulho de dizer que trabalho com uma equipe mara, maravilhosa. Uma equipe 100% do bem e onde somos uma equipe de verdade. Eu já amei na primeira prova, e desde então, estava babando sozinha e mostrando às minhas de confiança para elas opinarem, mas a resposta foi a mesma das 3: maravilhoso, perfeito! Por conta dessa troca, algumas pessoas poderão ter problema na visualização, mas tudo será regularizado ainda nesta semana. Aos poucos vou preenchendo as novas abas do filhote de roupa nova!!! Beijo com muito carinho e amor!!!

Fonte: http://redecanais.tv/house-5a-temporada-legendado-episodio-14-o-bem-maior-video_28379aa2b.html

domingo, 17 de junho de 2012

A HISTÓRIA DA LEITORA PATRICIA GASTALDI E SUA ENDOMETRIOSE PÉLVICA E DIAFRAGMÁTICA!!

O A Endometriose e Eu conta a história da leitora Patrícia Gastaldi Gouvêa, de Vila Velha, Espírito Santo. Patrícia só descobriu que era portadora de endometriose, porque parou de tomar seu anticoncepcional contínuo para tentar engravidar. Devido às fortes cólicas que começou a sentir, ela ia à urgência no pronto-socorro, todos os meses. HPV e até suspeita de aborto foram alguns dos diagnósticos que Patricia recebeu antes de saber que tinha endometriose. Como nenhum encontro nesta vida é por acaso, um belo dia ela pegou o ônibus para ir ao trabalho e encontrou com uma conhecida, que trabalhava numa maternidade, onde tinha especialista em endometriose. Deus nos envia pessoas aqui na Terra para nos servir. E isso aconteceu comigo e até hoje acontece. Quando eu menos espero, eis que surge um anjo terrestre! A principal lição da história da nossa leitora capixaba é em relação aos médicos especialistas. Ir a um médico, que se mostra especialista, talvez, até seja, mas que não sabe ou não tenha esta técnica tão afiada para realizar a vídeo é uma grande furada. Como encontrar um bom especialista é algo bem difícil, qualquer uma de nós podemos ser enganada por eles. O pior é se consultar e ser operada com um médico errado. Outro fato que me chamou atenção é a questão que falo muito aqui no blog: como existe médicos desonestos no Brasil. É impressionante, até parece que isso é uma aula obrigatória na faculdade de medicina. Será uma nova disciplina? Vocês acreditam que Patrícia se internou, foi pro centro cirúrgico, voltou pro quarto, ou seja, ela pensou que tivesse realizado sua segunda cirurgia. Certo? Errado, o médico disse que a operou, mas não realizou o procedimento, é mole! Eu sei que existe médicos desonestos, mentirosos, desumanos, mas dizer que vai operar uma pessoa, receber por essa cirurgia, colocar a pessoa num centro cirúrgico e não realizar o procedimento, nunca vi isso. Ela só descobriu porque suas dores ficaram ainda mais intensas após esta, que seria sua segunda vídeo. Com a desconfiança, ela exigiu a outro médico a ressonância magnética e, para sua surpresa, todos os focos de antes da cirurgia e mais alguns, como o endometrioma no ovário esquerdo, estavam lá. Por isso, eu sempre digo: o nosso médico ginecologista especialista em endo tem de ser nosso melhor amigo. E, claro, super de confiança. Por problemas de coagulação, ela teved e fazer duas vídeolaparoscopias de emergência por conta de hemorragias, que ela teve após uma vídeo para remover os focos de endo. Patrícia tem focos em vários órgãos diferentes e também este é o primeiro caso de endometriose diafragmática que o blog conta. Obrigada, querida Patrícia por compartilhar sua história conosco e, assim, ajudar ainda mais mulheres. Ela resumiu bem sua história aqui, que ainda não chegou ao fim. No próximo dia 23, às 7h, ela irá se submeter a sua sexta (isso mesmo!) cirurgia por videolaparoscopia. Desta vez, com seu médico competente e de sua extrema confiança. Você já está em nossas orações e Deus estará contigo na sala de cirurgia e, com certeza, guiará as mãos de seus anjos de azuis. Depois volta aqui para terminar de contar sua história. Em 2011, ela. Adriana Heintz e Lívia Lorenzini idealizaram o Endometriose Brasil, um grupo de portadoras para auxiliar outras mulheres que tem a doença. Estamos juntas nessa, meninas! Parabéns pela iniciativa! Beijos com carinho!

“Meu nome é Patrícia Gastaldi Gouvêa, sou auxiliar de compras, moro em Vila Velha, no Espírito Santo, tenho 29 anos, casada há 11 anos e sem filhos. Tudo começou em 2008, quando decidi parar de tomar anticoncepcional contínuo para tentar engravidar. A cada ciclo menstrual minhas cólicas aumentavam e novos sintomas apareciam. A cada mês, a dor ficava ainda mais incapacitante, a barriga inchava muito, comecei a sentir dor no ombro direito e, um dia antes ou no dia que a menstruação descia, eu ia parar no pronto socorro. Isso já estava acontecendo todos os meses e, nem os remédios que tomava lá, não tiravam a minha dor. Por causa dessas dores, comecei a faltar no trabalho. A cada ciclo menstrual, eu ficava, em média, dois dias na cama. Procurei vários profissionais que não deram o diagnóstico correto. Até HPV (nota da editora: papilomavírus humano, um dos responsáveis pelo câncer de colo de útero, dentre outros), uma médica disse que eu tinha. Como assim? Uma doença sexualmente transmissível? Na época, eu tinha sete anos de casada, fiz a biópsia e deu negativo. Mudei de médico e, dessa vez, a médica foi sensata e disse que ela não podia me tratar, pois eu tinha sintoma de endometriose e precisaria de um especialista. Mais um ciclo menstrual e vou novamente para o pronto socorro. Desta vez, eu já estava andando curvada, minha barriga estava muito inchada, a ponto de a minha roupa nem fechar mais. Eu estava apenas menstruada, mas o plantonista não acreditou que era só menstruação, ele que eu estava sofrendo um aborto, fizeram até um Beta hCG (nota da editora: exame de sangue que mede o hormônio gonadotropina coriônica humana (hCG), que confirma se a mulher está grávida ou não), que, claro deu negativo. Não contente chamou o médico de plantão do ultrassom e me submeti a um endovaginal (nota da editora: conhecido também como transvaginal, ultrassom transvaginal). Foi aí que veio a primeira pista concreta: ele viu o sangue que o sangue da minha menstruação regressava às minhas trompas. Quando soube falei: “Doutor isso tem haver com endometriose?” Ele olhou para mim e disse: “Você tem grandes chances de ter.”

Passaram-se alguns meses e, um dia, ao entrar no ônibus para ir ao trabalho, encontrei com uma conhecida, na verdade uma vizinha de bairro, que estudou na adolescência com meu marido. Conversa vai e conversa vem, eu contei parte desta minha história a ela. Até então, a única coisa que eu sabia era que ela trabalhava numa maternidade. Não é que, para minha surpresa, ela me falou que onde ela trabalhava tinha especialistas em endometriose. E foi assim que anotei o nome de dois que ela dizia que mais operava nessa maternidade. Neste tempo eu já tinha interrompido a menstruação por conta própria porque não aguentava mais as fortes dores que sentia. Com a indicação marquei a primeira consulta com um especialista. Fui muito bem atendida e ele pediu alguns exames, porém quando voltei com os exames, ele estava cheio de restrições para marcar o retorno e não consegui conciliar com o trabalho. Então, marquei consulta com o outro médico que tinha referência, que logo já ouviu meu relato, viu meus exames e fiz minha primeira videolaparoscopia exploratória, onde foi confirmada, que eu era portadora de endometriose.  Na biopsia, assim como na cirurgia, fiquei sabendo que tinha pequenos focos da doença no diafragma. Porém, eu só tinha dor neste local, quando estava menstruada. Como eu não estava menstruando, eu não sentia essas dores. Após essa cirurgia, entrei em tratamento com o Zoladex 10,8 (nota da editora: antagonista de GnRH que inibe a função dos ovários, a ovulação, induzindo a mulher a uma menopausa precoce ). Foram três doses da mais forte e fiquei exatamente nove meses sem menstruação, nem um dia a mais ou a menos. Passado o tempo do tratamento, eu e o médico percebemos que o remédio não fez efeito em meu organismo, pois mesmo sem menstruar, eu continuava com dores.


Após minhas queixas meu médico solicitou exames mais detalhados que constataram endometriose profunda e infiltrativa. Porém, devido ao plano de saúde, eu não consegui operar com meu médico. No desespero procurei outro médico e logo marquei minha segunda cirurgia. Só que eu fui enganada por este médico. Foi um tiro no escuro e não saiu como eu esperava. Ele (o médico) disse que me operou, mas isso não aconteceu. Como descobri? Após a cirurgia minhas dores estavam piores do que antes, não senti nenhuma melhora. Com isso fui a consultório de um dos cirurgiões e ele disse que teria de ser operar novamente e com urgência. Porém, eu disse ao médico que só operaria se fizesse nova ressonância magnética. Com o novo exame, o médico comparou-o com o anterior e foi comprovada a suspeita. Tudo o que eu tinha antes da tal cirurgia estava no exame e, para minha surpresa, ainda tinha mais endometriose dentro de mim: no meu ovário esquerdo, que se chama endometrioma, e a minha trompa esquerda estava enorme e com acúmulo de líquido. Marquei minha terceira vídeo para junho de 2011. Desta vez, a cirurgia durou cerca de 10 horas! Imagine como estava dentro de mim. A minha pelve já estava congelada (nota da editora: saiba mais sobre a pelve congelada). Perdi a trompa esquerda, meus ovários estavam menores do que o normal e tinha bolsinhas de sangue neles, as quais tiveram de ser retiradas com cuidado, pois corri o risco perder os dois ovários. Foi retirado um pequeno nódulo no reto e, no total, foram enviados materiais para biópsia de nove lugares diferentes de meu corpo, e o resultado: endometriose! Já saí dessa cirurgia sabendo que teria que fazer outra, pois a endometriose do diafragma evoluiu. Foi aí que começou meio que um filme de terror em minha vida. No dia seguinte da minha alta hospitalar, eu tive hemorragia em casa e tive de ser carregada para o hospital. Para conter essa forte hemorragia fui submetida a mais uma vídeo (a minha quarta!). Segundo os médicos, eu tive uma reação à medicação e, para não dar trombose, eles optaram por mais uma cirurgia. Tive alta, mas após um dia em casa eu voltei de novo ao hospital, pois não conseguia comer, beber e muito menos tomar os remédios. Já estava com anemia e, como eu não conseguia me alimentar, meu organismo não iria se recuperar. Por isso tive de fazer transfusão de sangue. Foram três bolsas de sangue e, quando terminou a ultima bolsa, mais um susto: mais uma hemorragia. Desta vez, meu médico estava na minha frente e, para contê-la, tomei duas bolsas de plasma e mais uma de sangue. Fui para a quinta, a segunda vídeo de emergência, porque uma pequena artéria havia se rompido em baixo do útero. Foi difícil, mas meu médico por videolaparoscopia mesmo conseguiu encontrá-la e a grampeou. Com isso tudo, eu fiquei vários dias com dieta zero, inclusive, sem poder beber água.

O importante é que isso foi resolvido e consegui me recuperar aos poucos. Tomei mais duas doses de Zoladex 10,8. Porém, dessa vez, esse remédio não cessou minha menstruação e, por isso, voltei a tomar o anticoncepcional cerazette. Depois de tudo que passei fiquei bem, voltei a trabalhar, mas as dores no tórax começaram a me incomodar. E sem estar menstruada. Então marquei a cirurgia do diafragma, porém ela foi cancelada porque meu sangue ficou alterado. O TAP (nota da editora: exame que determina a coagulação do sangue) estava muito baixo e, com isso, o risco de hemorragia era enorme. Com o histórico que tenho, não posso correr mais este risco, de ter outras hemorragias. Fui encaminhada para o hematologista que me passou vários testes para verificar meu sangue. E, para nossa surpresa, quando vimos os primeiros resultados, eu realmente estava com o TAP baixo, e, além disso, estava também com deficiência no Fator XIII (nota da editora: deficiência rara de coagulação sanguinea). A partir desses exames, eu recebi a orientação de não fazer nada que pudesse me causar sangramento. Até mesmo me exercitar na academia, é algo proibido para mim, pois eu tenho sangramento muscular. Então, até que descobrisse o que está acontecendo nada de cirurgia. Depois disso precisei fazer uma colonoscopia, pois meu intestino estava muito constipando e como é necessário fazer biopsia, o hematologista receitou vitamina K. Tomei e pude fazer o exame, pois o meu TAP voltou a subir. Porém, para minha surpresa, eu estava com nova lesão de endometriose no intestino. Decidi com ajuda de amigas viajar até São Paulo para fazer o ultrassom endovaginal com preparo intestinal que, infelizmente, não existe no meu estado. Isso é que não dá para acreditar! Bom, viajei, fiz o exame e, para nova surpresa, tenho duas lesões no intestino, que não foram apontadas na colonoscopia e nem na ressonância magnética. Fiz com uma ótima especialista e não tenho dúvida de que ela conseguiu fechar todo meu diagnóstico. Bom, a partir daí, descobri que não tenho de operar apenas a endometriose do diafragma, mas a da pelve novamente e a do intestino. Retomei a questão do meu sangue que virou um quebra cabeça em minha vida. Com o passar dos meses meu Fator XIII voltou ao normal e o TAP, ora estava normal e ora baixo?! Fui encaminhada para uma especialista no hemocentro da minha cidade e repeti todos os exames que havia feito. A diferença agora é que o sangue coletado foi enviado direto para máquina e o exame veio normal. Fui liberada para fazer cirurgia, porém preciso ir com reserva de plasma e sangue concentrado para um eventual sangramento anormal. A questão é depois disso tudo que já passei por causa da endometriose continuo tendo dores sem mesmo menstruar. Minha sexta cirurgia está marcada para o dia 23 de junho, já no próximo sábado, às 7h. Torçam por mim, pois tenho fé de que minha dores estão com os dias contados após essa cirurgia. Beijos com carinho, Patrícia Gastadi.”