segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

"A VIDA DE UM ENDOMARIDO": O DESCASO QUE PACIENTES DE DOENÇAS 'INVISÍVEIS' PASSAM' - DESABAFO DE UMA PARAMÉDICA!


imagem cedida por Free Digital Photos

O texto que nosso endomarido Alexandre traz hoje é de muita importância não só para as pessoas que têm doenças consideradas invisíveis, mas principalmente, aos profissionais de saúde. Muitas vezes, eles são nossa única saída que temos para fazer as pessoas mais próximas acreditarem em nós, em nossas dores. Porém, muitos desses profissionais não acreditam em nossa dores. Muitos que se dizem especialistas não acreditam que uma mulher que tem endometriose de grau leve pode sim ter mais dores que uma que tem endometriose de garu mais severo. Infelizmente, o relato da paramédica abaixo é muito comum para as portadoras de endometriose. Muitas vezes a endo é sim uma doença invisível. Precisamos de mais compreensão e menos julgamentos. Por isso compartilhe este texto para chegar aos mais diversos profissionais de saúde, pois só assim poderemos mudar essa triste realidade: a de quem não acredita nas nossas dores. Beijo carinhoso! Caroline Salazar


Por Ashley Mould
Tradução: Alexandre Vaz
Edição: Caroline Salazar

Para as pessoas com doenças invisíveis de uma paramédica que não acreditava em vocês

Sou paramédica há 10 anos, mas dei algum tempo na carreira durante esses anos. Tenho assistido ao bom e ao ruim, provavelmente mais ruim do que bom, mas passei a enxergar a realidade de um jeito diferente.

Assisti muitas pessoas em grupos do facebook postando sobre como profissionais de saúde fazem descaso dos pacientes com doenças invisíveis por não as entenderem. Eu era uma dessas profissionais.

Quando você é uma paramédica novata, tudo o que você quer é se enturmar e pertencer ao grupo de trabalho. Você pode ser colocada com um parceiro mais experiente (oficial de treinamento na área) que está ativo há muito tempo. Porém, muitas vezes, eles estão esgotados, e para eles, cada paciente é mais uma chamada que os fazem levantar da cama ou do sofá, interrompendo os programas que estão passando na televisão.

Infelizmente eu acabei me tornando esse tipo de médico. Se alguém falasse que tinha fibromialgia, por exemplo, eu admitia que a pessoa estava querendo drogas (remédios). Eu achava que todo mundo conseguia caminhar até a ambulância. Se você não tinha uma doença visível, era tratado como lixo. Eu falaria “vamos lá, você consegue caminhar.”

Só depois que minha saúde começou a deteriorar e eu mesma comecei a precisar da ajuda dos outros, que eu passei a entender.

Fui de médico em médico tentando explicar o que tinha de errado comigo. Eles olhavam pra mim como se eu estivesse mentindo. “Eu não sei o que tem de errado com você, mas pegue esses antidepressivos”. Era isso que eu escutava. “Tente isso porque está tudo na sua cabeça (como se fosse psicológico).”

Agora eu entendo o que acontecia com os meus pacientes. Eu não tinha a noção do tanto que estava diminuindo-os quando falava para eles desse jeito. Eu apenas queria ser igual os meus colegas.

Peço desculpa a todos os que tratei desse jeito. Agora eu entendo. Não trabalho mais na estrada, mas ainda assisto casos desses no hospital. Ainda dou por mim fazendo alguns comentários com meus colegas, mas nesse momento fico quieta.

O que precisamos é de um pouco de compaixão e isso é algo que não é ensinado na faculdade de medicina. Eu gostaria que tivesse mais conscientização. Então, por favor, continuem educando os médicos por aí. Nós gostamos de aprender.

Comentário do endomarido:

É de uma tremenda coragem o que essa médica acaba de fazer. Ainda que tenha aprendido do jeito mais doloroso, mas ultrapassar o ego e o status publicamente pedindo perdão para todos aqueles com quem ela sente ter sido injusta no exercício das suas funções, é digno de louvor.

Segundo as suas próprias palavras, é uma pena que as faculdades não desenvolvam aquilo que diferenciaria um médico de um mecânico. Uma pessoa não é um carro. No carro você troca peça, lubrifica, e se não der certo ou ficar muito caro, envia pra sucata e compra outro.

As pessoas precisam de outro cuidado, inclusive ao nível emocional.  De que serve fazer a manutenção do corpo, um trabalho tecnicamente perfeito, se você não é gentil com o emocional e ou psicológico do paciente?

Como você sabe que não está agravando uma situação já bem complicada a nível psicológico? E se esse paciente que você está recebendo hoje em seu consultório estiver dando uma última chance para a vida? Já pensou que a falta de um sorriso, um momento de atenção de sua parte, pode fazer com que esse paciente que você atendeu hoje desista de viver? Porque, você nem imagina por quanto tempo essa atenção tem sido negada para ele, essa pessoa pode estar no limite. E, talvez, você tome conhecimento ou não, mas é possível que alguns dos pacientes que você atende, acabem a própria vida por descaso de quem deveria estar do lado deles. Você pode não ser o único responsável, mas pode ser a gota d’água que faz derramar o copo.

Conscientemente ou não, o médico que age dessa forma falhou. Pode pegar o diploma e jogar no lixo. Ele pode ser formado em medicina, mas não é médico. Vive correndo atrás dos números e cada vez mais afastado das pessoas que jurou ajudar até o limite das suas capacidades.

Felizmente nunca é tarde para mudar. E esse foi o caso da corajosa Ashley que compartilhou o seu testemunho, assumindo que errou, que ainda erra, mas está dando tudo para não errar novamente.

Mas não são apenas os médicos e enfermeiros que erram. Todos nós erramos. A falta de apoio não acontece apenas nas clínicas, nos hospitais ou nos postos de saúde. Ela ocorre também na rua, em nossas casas, nas nossas próprias famílias e nos grupos de amigos. Quando alguém que sofre não acha conforto em lugar nenhum, não deveria ser surpresa que surja uma depressão e que um dia essa pessoa possa se suicidar. E não me venha com historinha de pecado mortal. 

Cada um que negou um sorriso, um momento de atenção, um ombro para chorar também pecou. Essa pessoa é parcialmente responsável pela aproximação do abismo. E quando alguém está na beira desse abismo, por vezes, basta uma leve brisa para que a pessoa se deixe ir. A dor pode ser grande demais para suportar. Sabia que um sorriso pode ser o suficiente para que essa pessoa dê um passo para atrás?


Estamos todos cheios de problemas, e por vezes, não é fácil pensar em outras coisas fora do nosso mundinho. Mas sempre que puder, ofereça um sorriso. Faça um elogio sincero para alguém. Você não tem noção até que ponto esse pequeno gesto pode ser a diferença entre a vida e a morte para alguém.

Um comentário:

  1. levei uma ressonância para uma especialista da rede pública e ela me disse: _vc tem uma endometriose discreta (no laudo estava escrito profunda) e tirou umas caixas de anticoncepcional sem pausa de brinde e disse tchau.

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