quarta-feira, 31 de julho de 2013

MATTHEW ROSSER: MULHERES MAIS MAGRAS SÃO MAIS PROPENSAS A TER ENDO E AS MAIS CHEINHAS MENOS CHANCE DE TER A DOENÇA?

No artigo de hoje, uma tradução muito interessante de um estudo americano, mas com a visão do cientista inglês Matthew Rosser, parceiro exclusivo do A Endometriose e Eu no Brasil. Eu já estava com saudades de seus estudos, mas agora com a ajuda de voluntários na tradução, talvez, poderemos ler os artigos de Matthew mais frequentes por aqui. Desta vez, assim como ele, não irei me estender muito por aqui. Mas peço que leia com atenção o texto que fala sobre uma pesquisa que relaciona o índice de massa corporal (IMC) x endometriose. À priori, vocês podem achar esquisito o resultado, mas é só lerem com calma, todo o texto e vai ver o porquê do resultado do estudo que diz: mulheres com maior índice de massa corporal têm menos chance de ter endometriose. A explicação é muito mais complexa que o resultado. Como pode se sabemos que as células de gordura são alimentadas com o grande vilão da endometriose, o estrogênio? Múltiplos fatores são levados em conta, desde a primeira menstruação mais tardia e com menor fluxo em mulheres mais magras, até a Síndrome dos Ovários Policísticos, a SOP, mais comum em mulheres obesas.

E o grande lance no meu ponto de vista é o simples fato de mulheres que estão acima o peso produzirem mais testosterona, o hormônio masculino que pode inibir os implantes de endometriose. Mas as explicações não param por aí. Nas próximas semanas o blog vai passar a traduzir com exclusividade no Brasil outras teorias sobre a doença. Aqui, Matthew pincela sobre elas, mas iremos a fundo, já que eu conversei e muito com o pesquisador que vem revolucionando a teoria de Sampson. Quero saber qual foi sua conclusão! Abaixo, a tabela para quem quiser calcular seu IMC. O meu deu 23, segundo a tabela, normal. Mas porque será que eu tenho endo, se sempre fui magra? Ah, e devemos levar em conta que muitas mulheres com endo que estão obesas podem estar acima do peso por conta dos medicamentos e ou também por conta das aderências (artigo 1, artigo 2), o que era meu caso. Beijo carinhoso!!! Caroline Salazar

IMC = Peso (kg) / Altura 

Até 25 kg/ m²
Normais
de 25 a 30 kg/m²
Pesados (Sobrepeso)
de 30 a 35 kg/m²
Obesos leves (Grau I)
de 35 a 40 kg/m²
Obesos moderados (Grau II)
mais de 40 kg/m²
Obesos severos (Grau III)


A dimensão do problema:

Por Mathhew Rosser
Tradução: Jorge Francisco
Edição: Caroline Salazar

Ultimamente, existe um burburinho a respeito de um novo estudo sobre a endometriose. Esse aborda a relação entre o índice de massa corporal (IMC) e a endometriose. O estudo concluiu que as mulheres mais magras são mais sujeitas à ser portadora da doença. Isso significa que para diminuir o risco de endo, você deve ficar enchendo a cara de comida, ou mesmo esquecer a etiqueta e comer direto com as mãos sem usar talher? Definitivamente não. A maioria das agências de notícias que relataram esse estudo fez um trabalho muito decente ao explicar as descobertas, mas neste artigo iremos olhar para o estudo original e descobrir exatamente o que foi feito, o que foi descoberto e o que poderemos aprender com ele.

No entanto, antes de começar, sei que este estudo é controverso para alguns, por isso não tecerei comentários sobre o valor do estudo. Irei apenas dar um esclarecimento das descobertas e a minha interpretação, deixando que cada leitor tire as suas conclusões. Para começar, é sempre bom relembrar se no passado surgiu outro estudo semelhante. E na verdade surgiu, e fui eu que o escrevi antes, lá no ano obscuro de 2010. Então, a descoberta de que a mulher com baixo IMC é mais suscetível a sofrer de endo não é realmente uma novidade.

Então, no que difere este novo estudo do anterior? Para começar é maior, muito maior. O mesmo grupo de pesquisa nos Estados Unidos que conduziu em 2010 um estudo sobre 1,817 mulheres incluiu nesse estudo 5.504 mulheres portadoras da doença. E quanto mais mulheres forem incluídas em um estudo, maior a precisão dos resultados. De onde vieram todas essas mulheres então? Bom, nos Estados Unidos, desde 1989 que 116.430 enfermeiras de 14 estados diferentes preencheram questionários sobre sua saúde a cada dois anos. Toda essa informação junta forma o Nurse's Health Study II (Estudo sobre Saúde de Enfermeiras 2) – um vasto recurso de informação para pesquisadores que buscam ligações entre estilo de vida, fatores ambientais e o risco de todo o tipo de doenças.

Esse estudo corrente analisou todos os questionários de 1989 a 2011. Puxou a informação das mulheres diagnosticadas com endometriose e comparou com as mulheres que não têm a doença. O maior fator examinado foi o IMC, que é o resultado do peso dividido (em quilos) pela altura (em metros). Meu IMC está em torno de 20, que é classificado como normal, mas eu sou um leviatã desengonçado, portanto alguém com menos 30 centímetros teria um IMC de 28, e seria classificado como obeso. O IMC não é uma medição muito fiável da dimensão do corpo e não leva em conta a forma do mesmo. Felizmente o IMC não é o único fator que esses pesquisadores estavam procurando; para ter uma ideia melhor da forma do corpo eles levaram em conta as medidas racionais, como cintura/quadril, em especial, a circunferência da cintura.

Seja como for, chega de metodologia e vamos nos resultados. A descoberta central desse estudo foi que mulheres com IMC mais elevado seriam menos propensas a ser diagnosticadas com endometriose – de fato, mulheres com obesidade mórbida (IMC superior a 40) tinham menos 39% de chance de serem diagnosticadas com a doença que mulheres com IMC entre 18.5 e 22.4. O que os pesquisadores encontraram foi uma correlação inversa entre endometriose e IMC. O que isso significa é que enquanto o IMC sobe, o risco de endometriose desce. Abaixo podemos ver um gráfico desse estudo que mostra essa relação (a linha a preto é a importante, não se importe com a pontilhada).

Fonte: Endometriosis Update
O interessante nesse estudo foi a descoberta que essa associação (IMC e endometriose) era mais forte em mulheres que também eram inférteis. Porém, existe um detalhe mais importante a levar em conta antes disso. A idade média das mulheres na época do estudo estava próximo dos 35, então é muito provável que elas já tinham endometriose há anos. O IMC tende a aumentar com a idade, e mais importante que isso, mulheres com endometriose por muitos anos tomam medicamentos que causam o aumento de peso. Por isso, não seria melhor olhar para o IMC dessas mulheres quando eram mais novas? Sim, e foi exatamente isso que os pesquisadores fizeram – olharam para o IMC dessas mulheres quando tinham 18 anos. Abaixo, o gráfico com os resultados.
Fonte: Endometriosis Update


Como pode observar, é bastante semelhante, e apesar do fato de que o resultado foi levemente atenuado, as mulheres com obesidade mórbida ainda tinham 25% menos de chance de serem diagnosticadas com endometriose. Um detalhe importante aqui é não tirar a conclusão de que as mulheres com IMC maior não poderão ter endometriose. O estudo apenas sugere que é menos provável que tenham quando são mais novas. Por exemplo, se olharmos para os resultados desse estudo, as mulheres aos 21 anos tinham um taxa média de endometriose que é 1 em 10. Contudo, mulheres com IMC acima de 40, possuíam uma redução de 39%, equivalente a 0.6 em 10. Então, em mulheres com um IMC normal, a estimativa seria de que 10 em cada 100 teriam endometriose. Contudo nas mulheres com obesidade mórbida seria de 6 em cada 100.

Então, mas e os outros fatores que citamos acima estão sendo investigados? Os resultados do estudo mostraram que uma cintura maior também estaria associada a um risco menor, mas apenas para mulheres inférteis, e não haveria associação com a altura e a endometriose. A medida cintura/ quadril foi um dado mais difícil de obter, já que muitas mulheres não tinham registrado essa informação. Apesar de os pesquisadores descobrirem que as mulheres com a medida cintura/ quadril menor teriam um risco aumentado em três vezes de ter endo. Esse estudo foi baseado em dados de apenas oito mulheres. Portanto, não deveremos dar muita importância ao resultado neste momento até que possa ser verificado com mais mulheres.

Agora que sabemos os resultados, a próxima questão é, porque será que isso acontece? À primeira vista não faz sentido, já as células de gorduras produzem estrogênio. Portanto, mais células gordas iguais é mais estrogênio no corpo da mulher. Sendo que a endometriose é uma doença dependente do estrogênio, não deveriam as mulheres com mais gordura (e, portanto, maior IMC) ser mais suscetíveis à doença? De forma semelhante, ser magra quando criança está associada a ter a primeira menstruação mais tarde e menstruação com menor fluxo. No entanto, as mulheres com endo geralmente menstruam mais cedo, por isso essa também não faz sentido.

Existem algumas teorias para o porquê de estarmos vendo esses resultados. É sabido que as mulheres obesas são mais propensas a ter Síndrome de Ovário Policístico (SOP) e alguns pesquisadores pensam que SOP pode conferir alguma “proteção” contra endo devido a um número reduzido de ciclos menstruais e maiores níveis de androgênio (nota da editora: ou andrógeno é um dos hormônios secretados pelo córtex, dá origem ao desenvolvimento de características próprias do sexo masculino, como a testosterona, o mais conhecido), que pode suprimir lesões de endometriose. Não sabendo quais as mulheres que têm SOP, não podemos afirmar se esse é o caso. A ligação com o androgênio, no entanto, pode ser importante. Estudos sugerem que os níveis de androgênio são elevados em jovens e adultas, independentemente de terem SOP. Níveis mais elevados de androgênio nessas mulheres podem suprimir a endometriose e explicar porque assistimos um risco menor de endo no grupo com IMC mais elevado.

Os autores desse estudo também sugeriram que poderá existir um diagnóstico tendencioso para as mulheres obesas e com obesidade mórbida. Os cirurgiões não são muito favoráveis a realizar laparoscopias nessas mulheres pela dificuldade acrescida, e, portanto, é menos provável a confirmação de endometriose. Contudo, os autores ressalvam que se esse fosse o caso, não haveria uma tão grande associação entre a endo e o IMC em mulheres inférteis comparado com mulheres com sintoma de dor isoladamente. Existem muitos outros fatores que podem modificar o IMC, tais como medicamentos, estilo de vida, doenças comórbidas (nota da editora: doenças como diabetes, hipertensão, colesterol, apneia do sono, triglicerídeos aumentos dentre outras, ou seja, doenças que têm podem melhorar com o controle da obsesidade) e todos eles devem ser levados em conta quando se examinam relações entre a endometriose e o IMC, que tanto quanto posso avaliar esse estudo não levou muito em consideração.

Outra questão sobre esse estudo é sobre a população de onde as mulheres foram recolhidas. Todas as mulheres do estudo são enfermeiras com até 20 anos de profissão. Como a endometriose quando se apresenta com sintomatologia grave geralmente impede que a mulher mantenha o seu emprego a longo termo (especialmente um com tanta exigência física como a enfermagem), é provável que mulheres com sintomatologia de endometriose grave não tenham sido representadas na mesma proporção, o que pode distorcer o resultado a favor de mulheres com formas menos graves da doença, que seriam mais ativas fisicamente, e como tal, com menor IMC.

Claro que pode acontecer que o que quer que faça uma mulher suscetível à endometriose também faça com que tenha um IMC menor quando jovem. Um conjunto de indícios crescente sugere que a endometriose é algo com que já se nasce (nota da editora: este assunto será tema de outros artigos, de outra parceria exclusiva do blog), e que é hereditário. Portanto, pode ou não ser que fatores genéticos/ epigenéticos resultem em que uma mulher desenvolva endometriose, também afete o seu metabolismo antes que comece a tomar medicação hormonal. Infelizmente ainda persistem muitas questões que necessitam ser respondidas antes que possamos concluir alguma coisa mais definitiva, mas quando eventualmente encontrarmos as respostas, teremos um maior entendimento sobre essa doença paradoxal.

Esta é a minha interpretação do estudo corrente, e como sempre encorajo todos os que quiserem fazer as suas próprias pesquisas e retirar suas próprias conclusões.

Fonte: Endometriosis Update 

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