terça-feira, 3 de janeiro de 2017

MITOS E EQUÍVOCOS SOBRE A ENDOMETRIOSE!!

Apesar dos avanços dos últimos anos, em comparação a décadas atrás, a endometriose ainda é uma doença pouco compreendida e cercada de muitos mitos e equívocos. Infelizmente esses mitos e equívocos ainda não proferidos por médicos que se dizem especialistas. Não é raro ver um médico dando como opção de cura da doença à sua paciente a gravidez ou algum tratamento hormonal. Ambos são paliativos e certamente são ótimos controladores dos sintomas. Outra opção de cura de tantos médicos é a histerectomia, ou seja, a retirada do útero. Tadinho do útero! Tornou-se um grande vilão de uma doença que nada tem a ver com o útero. E junto ainda levam os ovários, impossibilitando a mulher de ser mãe. Como o doutor Alysson Zanatta já disse aqui no blog, "a endometriose é caracterizada pela presença de um tecido semelhante ao endométrio". Veja que ele usou a palavra semelhante e não igual. Em 2014, durante uma Jornada de Endometriose a qual participei, escutei na aula do doutor Ricardo Pereira que o endométrio do útero e o endométrio dos implantes de endometriose são diferentes. Ou seja, eles não são iguais. 

É preciso haver um melhor entendimento da doença por parte dos médicos. Outra frase do doutor Alysson em seus artigos aqui no blog é que "os médicos só vão saber tratar a doença corretamente quando eles entenderem de onde ela vem". Mas ainda bem que hoje existe a internet, e uma das missões do A Endometriose Eu é propagar a correta conscientização da doença com informações sérias e com embasamento científico e nunca baseada no achismo. Há cerca de três anos começamos a propagar que a doença não vem da menstruação retrógrada com os artigos do médico e cientista americano doutor David Redwine e os do doutor Alysson Zanatta. Sei que temos um longo caminho pela frente, mas tenho esperança de que muito em breve possamos mudar as informações erradas pelas certas. Tenho esperança de que vá surgir algum jornalista inteligente que irá ler os textos seja do doutor Alysson ou do doutor Redwine e começar a questionar sobre a real origem da doença. 

Neste artigo damos às boas-vindas a mais uma colaboradora-voluntária, a portuguesa Miriam Ávila, portadora da doença que irá traduzir textos para o blog. Seja bem-vinda! Obrigada por acreditar no trabalho do A Endometriose e Eu. Na nota de tradutor, no rodapé, Miriam conta sua história com a doença, e fiquei muito emocionada quando soube que ela encontrou o alento e as informações que tanto precisava aqui no blog. Beijo carinhoso! Caroline Salazar



                                                        Mitos e equívocos na endometriose.

Por Ross Wood, Heather Guidone e Lone Hummelshoj
Tradução: Miriam Ávila
Edição: Caroline Salazar


Questões de gênero e a natureza complexa da endometriose levaram a uma infeliz criação de muitos mitos e equívocos sobre uma doença que afeta cerca de 176 milhões de mulheres (e suas famílias) em todo o mundo.


Aqui estão alguns fatos sobre a endometriose - e iremos dissipar alguns mitos também!

- Endometriose: uma doença difícil de entender:



Do ponto de vista de uma mulher, a endometriose é uma doença cercada por tabus, mitos, diagnóstico tardio, tratamentos errados e uma falta de consciência sobrepostos a uma ampla variedade de sintomas que cercam uma teimosa, frustrante e, para muitos, uma dolorosa condição crônica.

Ela afeta mulheres e jovens durante o auge de suas vidas e não tem qualquer ligação com falhas pessoais por suas escolhas de estilos de vida.

O bem-estar físico, mental e social dessas pessoas é afetado pela doença, afetando potencialmente sua capacidade de terminar seus estudos, manter uma carreira, tendo como consequência um efeito sobre suas relações, atividades sociais e, em alguns casos, fertilidade. Cerca de metade das mulheres com endometriose também sofrem de dor associada nas relações sexuais.


O acesso a um diagnóstico e tratamento atempados para esta grande população de mulheres e jovens não deveria ser afetado pelos mitos e concepções errôneas que, infelizmente, continuam a existir. 

- Dor severa durante o período menstrual não é normal:


Os "problemas das mulheres" deixaram perplexos os médicos do século XIX, que os encararam como indicadores das condições psicológicas instáveis e delicadas das mulheres.

Embora as atitudes em relação às mulheres tenham melhorado durante o século XX, algumas das velhas crenças ainda persistem inconscientemente, e afetam as atitudes dos profissionais médicos em relação às queixas das mulheres, incluindo a dor dourante o período menstrual.

Como resultado, ao procurar ajuda para a dor pélvica (que pode ocorrer fora da menstruação), muitas mulheres com endometriose são informadas de que sua dor (frequentemente severa) durante o período é "normal", "que faz parte de ser mulher" ou "que está tudo na sua cabeça". Outras são informadas de que têm "um limiar de dor baixo" ou são "psicologicamente inadequadas".

A verdade é que se a dor interfere na sua vida diária (seja na escola, no trabalho ou participando de atividades cotidianas), não é normal.

Se a dor interfere com o seu dia-a-dia, por favor, procure ajuda e peça para ser examinada para determinar a causa de sua dor.


- Ninguém é jovem demais para ter endometriose:

Muitos médicos ainda acreditam que a endometriose é rara em adolescentes e mulheres jovens. (nota da editora: leia o texto do médico e cientista americano doutor David Redwine sobre o assunto, o do cientista inglês Matthew Rosser e a história da adolescente Clara Flaviane, de 16 anos, que confirmam que a doença pode acometer tanto a mulher como a menina).

Consequentemente, eles não têm em conta um diagnóstico de endometriose quando meninas e mulheres jovens vão até eles queixando-se de sintomas como dor no período, dor pélvica e relações sexuais dolorosas.

Infelizmente, essa crença já persiste há algum tempo. Antes da introdução da laparoscopia na década de 1970, a endometriose só poderia ser diagnosticada durante uma laparotomia, uma cirurgia importante envolvendo uma incisão de 10-15 cm no abdômen. Os riscos e custos de uma laparotomia significava que normalmente era feito apenas em um último recurso em mulheres com sintomas mais graves que já tivessem passado a idade fértil. Porque somente mulheres com 30 ou 40 anos eram operadas, então a doença era diagnosticada somente em mulheres dessa idade. Subsequentemente surgiu "o fato” de que a endometriose era uma doença que surgia apenas nas mulheres em seus 30 e 40 anos.

Foi apenas com a introdução nos anos 1970 e 1980 da laparoscopia para investigar as mulheres com problemas de infertilidade, que os ginecologistas começaram a diagnosticar a doença em mulheres nos seus 20 anos de idade e início dos seus 30 anos, a faixa etária a ser investigada. Assim, eles revisaram a faixa etária típica para a endometriose até o final dos anos 1920 e início dos 1930 anos. Mais uma vez, eles não consideraram que poderiam estar "encontrando" porque eles estavam "olhando" para ele (o diagnóstico).

A descoberta de que a endometriose podia ser observada em adolescentes e mulheres jovens surgiu como resultado de uma pesquisa feita pelos grupos nacionais de apoio à endometriose em meados dos anos 1980, o que chamou a atenção de alguns ginecologistas eminentes na década de 1990. O doutor Marc Laufer, do Children's Hospital Boston, conduziu estudos em adolescentes com dor pélvica crônica. Um de seus estudos mostrou que as adolescentes cuja dor pélvica crônica não era aliviada por uma pílula anticoncepcional oral e um anti-inflamatório não-esteróide como Ponstan tinham uma alta presença de endometriose - até 70%.

Mais recentemente, o Estudo Global de Saúde da Mulher (The Gobal Study of Women’s Health), realizado em 16 centros em 10 países, mostrou que dois terços das mulheres procuraram ajuda para os seus sintomas antes dos 30 anos, muitas com sintomas desde o início da primeira menstruação.

Adolescentes e mulheres jovens com 20 anos de idade não são muito jovens para ter endometriose - na verdade, a maioria das mulheres já têm sintomas durante a adolescência, mas infelizmente não são diagnosticados e tratados até que elas atinjam os 20 ou 30 anos.

- Tratamentos hormonais não curam a endometriose:


Medicamentos hormonais sintéticos como a pílula, progestina, Danazol e análogos de GnRH têm sido usados ​​por muitos anos para "tratar" a endometriose.

No entanto, estes tratamentos hormonais não têm qualquer efeito a longo prazo sobre a própria doença. Eles temporariamente suprimem (silenciam) os sintomas, mas apenas enquanto as drogas são tomadas. Uma vez cessado o uso dos medicamentos, os sintomas voltam com mais frequência.

Isto significa que os tratamentos hormonais não têm um papel no tratamento (erradicação) da endometriose. Se pretende erradicar a doença, a cirurgia realizada por um ginecologista com vasto conhecimento e experiência das técnicas especializadas utilizadas para endometriose é o único tratamento médico eficaz.

Significa também que os tratamentos hormonais não devem ser usados ​​para melhorar as chances das mulheres de conceber. Não só eles não têm nenhum efeito sobre a doença em si, mas também reduzem o tempo disponível para conceber, porque a concepção não é possível enquanto a mulher está sob o efeito de drogas. Se é necessário um tratamento para a infertilidade, a cirurgia feita por um ginecologista especialista é imperativa.

- Gravidez não cura a endometriose:

Felizmente, o mito de que a gravidez cura endometriose está desaparecendo aos poucos. (Nota da editora: leia o texto do doutor David Redwine "A gravidez é a cura para a endometriose?"

No entanto, não está desaparecendo rápido o suficiente! A realidade é que a gravidez - assim como os tratamentos medicamentosos hormonais - pode temporariamente suprimir os sintomas da endometriose, mas não erradicar a doença em si. Portanto, os sintomas geralmente reaparecem após o nascimento da criança. Algumas mulheres podem retardar o retorno dos sintomas por conta da amamentação, mas somente enquanto a amamentação é frequente e intensa o suficiente para suprimir o ciclo menstrual.

- A endometriose não é o endométrio:

Muitos artigos, "recursos" on-line e artigos de imprensa referem-se à endometriose como "endométrio" (o revestimento do útero ou tecido fora do útero). Isso não é correto. Investigadores-especialistas concordam que a “endometriose ocorre quando o endométrio - tecido semelhante ao endométrio (camada que reveste ao útero) é encontrado fora do útero”.

- A endometriose não é sinônimo de infertilidade:

Muitas mulheres jovens têm a ideia de que ter endometriose inevitavelmente significa que elas serão inférteis. Isso não é verdade. A maioria das mulheres com endometriose consegue ter filhos.

Infelizmente, não existem estatísticas confiáveis ​​que indiquem qual a porcentagem de mulheres com endometriose que não têm problemas para ter filhos, ou que têm dificuldades, mas acabam tendo sucesso ou nunca conseguem. Portanto, é impossível dar às mulheres uma informação confiável sobre suas chances em ter problemas de fertilidade. No entanto, no geral, acredita-se que a probabilidade de haver problemas de fertilidade aumenta com a gravidade da doença e, tal como em mulheres sem endometriose, com a idade.

Acredita-se geralmente que 60 a 70% das mulheres com endometriose são férteis. Além disso, cerca de metade das mulheres que têm dificuldades em engravidar eventualmente concebem com ou sem tratamento.

- Infertilidade não é causada apenas pela endometriose nas trompas:

A afirmação de que a cicatrização das trompas de falópio devido à endometriose é uma causa comum de infertilidade está aparecendo cada vez mais nas publicações leigas. Os autores de tais publicações são geralmente pessoas que têm pouca compreensão da condição e provavelmente estão confundindo as causas da infertilidade associada à endometriose com as causas de infertilidade associada à doença inflamatória pélvica.

A doença inflamatória pélvica é uma infecção que danifica ou bloqueia as trompas de falópio. Ela provoca infertilidade, impedindo o movimento do óvulo e esperma através da trompa. Em contraste, a endometriose nas trompas é menos comum e nem sempre causa infertilidade.
Os mecanismos pelos quais a endometriose causa infertilidade ainda são amplamente desconhecidos, apesar de anos de pesquisa. Podem passar anos ou mesmo décadas antes que os enigmas da infertilidade e da subfertilidade da endometriose sejam resolvidos e ou descobertos.


- Histerectomia não cura endometriose:

A endometriose é definida como "tecido semelhante ao endométrio fora do útero".
Remover o útero e ou os ovários sem remover os implantes de endometriose fora do útero não vai eliminar os sintomas da endometriose. 

A endometriose é fisiológica e não emocional:


"Distúrbios emocionais" não são a origem da endometriose.
A endometriose é uma doença que está enraizada e muito real, altamente complexa com causa hereditária, epigenética e com bases moleculares – uma verdadeira doença multifatorial e fisiológica.
Mulheres com endometriose lutam com a angústia emocional causada pelos sintomas implacáveis ​​de dor e infertilidade, mas essas emoções são um resultado do impacto da doença - eles não causam a doença.




- Aborto não causa endometriose:

Não existem evidências científicas que liguem o aborto ao consequente desenvolvimento da endometriose. Aqueles que afirmam o contrário podem estar a confudir "endometriose" com "endometrite" (nota da editora: inflamação do endométrio provocada por uma infecção).

- Ducha vaginal não causa endometriose:

Não existem evidências científicas que liguem a ducha vaginal – (lavagem vaginal) a um consequente desenvolvimento de endometriose. Aqueles que afirmam o contrário podem estar a confudir "endometriose" com "endometrite".


Nota da tradutora:

Olá, meu nome é Miriam Ávila, tenho 34 anos e sou natural e residente nos Açores, Portugal.

Foi-me diagnosticada endometriose em janeiro de 2015 por meio de uma citologia. Como foi feita colheita para biópsia, ficou-se aguardar a resposta para depois escolher um tratamento adequado. Seis meses depois voltei a fazer nova citologia, pois não apareceram resultados da primeira biópsia, e a médica que me avaliou na altura apenas receitou-me uma pílula diferente da que estava a tomar. Quatro meses depois dei entrada em internamento devido a hemorragias e por já estar anêmica. Fiz a ressonância e tomografia axial computadorizada que confirmaram a endometriose no canal vaginal com cisto. A resposta que me foi dada foi que não havia solução, que não se podia operar aquela zona. Então decidi procurar por ajuda na internet, quando me deparei com o blog “A Endometriose e Eu”, de Caroline Salazar. Foi meu porto seguro.
Li muitos dos posts coloquei dúvidas nos comentários que me foram respondidas pelo amigo Alexandre Ferreira (um endomarido, também colaborador-voluntário do blog) que em seguida me passou o contato da Associação MulherEndo em Portugal, que por sua vez encaminharam-me para consulta com o doutor Helder Ferreira na Maternidade Júlio Dinis da cidade do Porto.

Tive a primeira consulta já em maio de 2016 e fui logo diagnosticada com endometriose retovaginal, depois fizemos exames (ressonancia, tac, ecoanal e análises) e fiquei logo em lista de espera para cirurgia.
Minha primeira laparoscopia foi feita em 9 de dezembro de 2016 e estou feliz de dizer que neste momento não tenho qualquer foco de endometriose. Claro que continuo fazendo pílula contínua, que é muito importante, pois a menstruação piora nossa situação e como eu não pretendo ser mãe pelo menos por enquanto.

Para além de endometriose, tenho colite ulcerosa o que ainda agrava mais a situação, por isso tem sido uma luta constante! Mas cá estou! Vencendo!

E esta é minha história! Sobre minha personalidade: sou muito sociável, brincalhona, mente aberta, gosto de ajudar, e tenho ganhado muita confiança e espírito positivo, força de vontade de fazer mais por mim e pelas mulheres que passam pela mesma situação e que infelizmente não tem quem lhes ajude e fale por elas!

Por isso, amigas endoguerreiras! Vamos à luta!  A vida é muito para ser insignificante e despercebida! 

5 comentários:

  1. Adoro os textos. São sempre esclarecedores e dão suporte para poder discutir com médicos. Obrigada!

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  2. Muito esclarecedor.
    Essa doença não é fácil não, mas vamos a luta.
    Gurias sexta-feira,dia 6,vou para minha oitava cirurgia,tenho um único ovário e este aderiu agora ao inrestino,sigmoide ,acima da vagina,e no peritonio,então lá vou eu pra mais uma.Dessa vez será com uma equipe,segundo meu médico. Peço a Deus que de tudo certo.Obrigada por esclarecimentos.Bjs

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  3. Depois de conhecer o blog "A endometriose e Eu , tornei me mais forte na luta.

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  4. A menopausa.nao cura a endometriose?
    Existem mulheres que mesmo que.nao menstruem mais ainda sofrem com endometriose intestinal?

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  5. a um ano a traz comecei sentir dores fortes depois da retirada de um polìpo dentro do endometrio procurei o medico e ele desconfio que podia ser endometriose as dores continuou, o medico decidiu fazer a video laparoscopia e nâo achou nem um foco de endometriose , ela colocou o diu de mirena e falou que provavel que eu fosse portadora da adenomiose , coloquei dia 24/01/2017. estou com náuseas, mas o resto ta bem

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