Mostrando postagens com marcador tratamento da adenomiose. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador tratamento da adenomiose. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 25 de abril de 2016

6 ANOS DE BLOG! DAVID REDWINE: TUDO QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE ADENOMIOSE!

Já falamos sobre a adenomiose algumas vezes na coluna "Com a Palavra, o Especialista" e abordamos o que é, os sintomas, o diagnóstico e como é o tratamento aqui na do doutor David Redwine. Porém este é um tema que ainda gera muitas dúvidas nas portadoras de endometriose. Por isso no texto de hoje vamos muito além das questões básicas.  Além dos sintomas, as causas e o tratamento, vamos abordar a diferença entre adenomiose e endometriose, o que causa a adenomiose, se as adolescentes também podem ter a doença e a adenomiose compromete a infertilidade estão entre as perguntas do texto. O médico e cientista americano irá sanar todas as suas dúvidas sobre adenomiose. Ele também fala sobre os análogos e se algum medicamento erradica a adenomiose. Mais um texto exclusivo do A Endometriose e Eu que vai te ajudar a esclarecer ainda mais sobre adenomiose e endometriose. Beijo carinhoso! Caroline Salazar 

Entrevista em inglês: Libby Hopton 
Tradução: doutor Alysson Zanatta
Edição: Caroline Salazar


A adenomiose é normalmente considerada uma doença cujo início dos sintomas ocorre mais tardiamente do que a endometriose, e que acomete tipicamente mulheres acima dos 30 anos de idade, especialmente aquelas que já engravidaram.

Libby Hopton: O que é adenomiose?

David  Redwine: Adenomiose refere-se ao tecido glandular presente no músculo uterino, onde ele não deveria existir. O tecido glandular assemelha-se ao tecido glandular que reveste o endométrio (a cavidade uterina). Nós não sabemos o que essas glândulas secretam, mas presumivelmente as secreções são irritativas da mesma maneira que as secreções glandulares da endometriose o são. A adenomiose pode ser difusa, como cupins em uma parede, ou pode ser encontrada na forma de um nódulo delimitado chamado adenomioma. Esse é demonstrado na fotomicrografia anexa. Em latim, o plural de adenomioma é adenomiomata.
Figura 1. Adenomiose difusa na parede posterior do útero.


LH: Quais são os sintomas da adenomiose?

DR: Como a adenomiose é uma doença que envolve a parede muscular do útero, os principais sintomas da adenomiose são cólicas uterinas, especialmente durante o ciclo menstrual. Algumas mulheres com adenomiose podem ter cólicas ao longo de todo o mês, apesar de ainda agravadas durante a menstruação. Quando o útero dói, a dor pode irradiar-se para a região lombar baixa, para a parte baixa da barriga, e abaixo na região frontal das pernas. Durante o exame ginecológico, o útero pode estar doloroso ao toque, especialmente quando os sintomas da adenomiose são severos. Se a palpação do útero reproduzir de alguma maneira a dor que a mulher sente, isso então apontará um dedo em direção ao útero como o causador de pelo menos parte da dor, e a adenomiose será a principal candidata. Como o útero é tocado durante a relação sexual, algumas mulheres com adenomiose podem ter relações sexuais dolorosas. Um útero doloroso também modifica-se com o enchimento ou esvaziamento da bexiga ou do reto, e portanto, a micção e a evacuação dolorosas também poderão ser sintomas da adenomiose. Assim, a adenomiose tem vários sintomas em comum com a endometriose, e isso pode causar confusão no diagnóstico. Uma das características que difere a adenomiose da endometriose é que a adenomiose pode eventualmente causar fluxos menstruais intensos ou irregulares. Já a endometriose raramente causará desarranjos no ciclo menstrual.

LH: Por que você acha que o início dos sintomas da adenomiose se dá mais tardiamente do que a endometriose, e isso é o que sempre ocorre?

DR: Como a cólica uterina é o sintoma clássico da adenomiose, e como muitas mulheres com endometriose podem ter cólicas durante o fluxo menstrual mesmo no início da adolescência, há uma sobreposição deste sintoma da adenomiose com a endometriose que pode tornar difícil saber quando exatamente a adenomiose começou a se desenvolver. Por outro lado, está claro que a endometriose pode ser diagnosticada pela laparoscopia no início da adolescência (ou mesmo nos fetos, de acordo com os trabalhos de Signorile), enquanto o diagnóstico da adenomiose por ressonância magnética (a maneira mais precoce de se diagnosticar a doença sem a realização de histerectomia) seria incomum antes dos 20 anos de idade e mais comum após essa idade. Portanto há alguma evidência que a adenomiose manifesta-se mais tardiamente que a endometriose, mas isso não seria simplesmente porque a adenomiose mais precoce (e portanto menor) não poderia ser vista aos exames porque ela é muito pequena? Apesar da adenomiose costumar ser diagnosticada mais tardiamente do que a endometriose ao longo da vida, isso não significa necessariamente que ela tenha se iniciado após a endometriose. Como a adenomiose geralmente necessita da realização de histerectomia para seu diagnóstico, significa que o diagnóstico será comumente retardado por dois motivos:

1. até que a mulher tenha todos os filhos desejados;

2. após todas as medidas médicas ou cirúrgicas conservadoras terem se esgotado. E como os sintomas da adenomiose são de alguma forma parecidos com os da endometriose, não seriam alguns dos sintomas da adenomiose sub-diagnosticados pela sobreposição dos sintomas da endometriose, a qual chama mais a atenção porque é mais fácil de se diagnosticar?

LH: A adenomiose deveria ser considerada como possível causa de dor em pacientes jovens que tenham dor uterina, incluindo as adolescentes?

DR: Sim, apesar de haver pouco a se fazer, porque as adolescentes geralmente ainda não engravidaram e também não tentaram outras formas de tratamento conservador.

LH: Você acha que a associação entre adenomiose com gravidez pregressa e idade mais tardia de início dos sintomas é correta, ou função de um viés de seleção (isto é, mulheres que são mais velhas e que completaram suas famílias são mais propensas a optarem pela histerectomia e receberem portanto o diagnóstico confirmado por biópsia)?

DR: Eu acredito no viés de seleção. Uma coisa que aprendi durante a faculdade de Medicina e na especialização era que a adenomiose seria mais comum em mulheres que já tiveram filhos, mas como o diagnóstico necessita de histerectomia, isso concentraria o diagnóstico em faixas etárias mais avançadas.

LH: O que causa a adenomiose em sua opinião? A adenomiose tem origem embrionária ou poderia também ser plausivelmente uma condição adquirida, como naqueles casos de sintomas que surgem após uma gestação?

DR: Eu acho que a adenomiose tem origem embrionária, assim como a endometriose também parece ser embrionária. De fato, a teoria da Mülleriose, o melhor modelo para explicar a origem da adenomiose, é na verdade um conceito antigo que pode incluir a adenomiose como uma prima da endometriose (leia o texto Mulleriose: A melhor teoriapara a origem da endometriose).

LH: Você acha que o tipo de tecido do local da doença (músculo uterino) pode ter algo a ver com o surgimento mais tardio das dores em comparação à endometriose?

DR: Essa é uma boa pergunta. A endometriose começa no peritônio, que é muito fino e tem uma grande inervação. A adenomiose começa no músculo uterino próximo ao endométrio, o revestimento uterino. O músculo uterino é mais grosso, mas também tem fibras nervosas. Portanto, poderia supor-se que uma doença glandular secretora de substâncias irritativas sobre o peritônio como a endometriose poderia causar dores mais precocemente do que pequenas glândulas que se formam na parede muscular do útero. Mas aí nós retornamos às primeiras questões acima – não se iniciaria a adenomiose no mesmo momento que a endometriose, causando sintomas similares, mas que seria mais difícil de se diagnosticar e causar a impressão de ter se iniciado mais tardiamente?

LH: A adenomiose também comprometeria a fertilidade?

DR: A adenomiose foi relacionada à infertilidade em macacos, portanto ela também pode comprometer a fertilidade em humanos. Algumas mulheres com adenomiose e infertilidade podem gestar após a remoção de parte de sua adenomiose.

LH: Hormônios ou a histerectomia são normalmente oferecidos como formas de tratamento da adenomiose. Obviamente, nem todas as mulheres com sintomas incapacitantes estarão preparadas para a remoção cirúrgica do útero, e os tratamentos hormonais não são bem tolerados por muitas, além de não ser uma opção para aquelas que estiverem tentando engravidar. Há alguma outra opção cirúrgica possível para o tratamento da adenomiose sintomática?

DR: Há vários procedimentos conservadores que podem ser realizados em um esforço para se manter o útero e para reduzir a dor da adenomiose. Um adenomioma isolado pode ser removido cirurgicamente, da mesma forma que um mioma. A principal diferença na remoção de um adenomioma comparado ao mioma é que este destaca-se do útero facilmente, como uma pérola retirada de uma gelatina. O adenomioma não é tão bem delimitado e pode invadir o músculo adjacente, e portanto fica mais difícil removê-lo porque as fibras musculares tendem a se misturar com aquelas do tecido adjacente. Um problema na remoção do adenomioma é que frequentemente pode haver mais adenomiose difusa presente em outros locais do útero, e a doença remanescente poderá continuar a causar sintomas. Para superar esse problema, Osada desenvolveu um procedimento para a remoção de mais tecido muscular do útero. Isso é feito por laparotomia, e mais informações sobre o procedimento, incluindo vídeos cirúrgicos e depoimentos de pacientes, podem ser vistos em www.infertile.com. Um outro procedimento que pode beneficiar as pacientes de alguma forma é a neurectomia pré-sacral (NPS) na qual são cortados os nervos que carregam as sensações de cólicas uterinas. Esse é um procedimento simples que pode ser feito por laparoscopia. Apesar de sua eficácia ter sido demonstrada em um estudo clínico randomizado, ele funciona menos em mulheres que têm a adenomiose como causa de sua dor uterina. O motivo pelo qual se sabe isso é que se a NPS não tiver sucesso em aliviar as dores uterinas, e se a paciente passar depois por uma histerectomia, haverá uma alta prevalência de adenomiose ao estudo microscópico do útero. Um dos motivos pelo qual a NPS pode falhar é que o útero acometido pela adenomiose pode estar também secretando substâncias químicas inflamatórias. Essas substâncias podem irritar as cavidades pélvica e abdominal, resultando em sintomas semelhantes à síndrome do intestino irritável (SII), assim como serem levadas a todo o corpo e causarem sintomas como fadiga, febre de baixo grau, e dores musculares e nas articulações.

LH: Quão relacionadas estão a adenomiose e a endometriose? Qual a frequência que elas ocorrem simultaneamente nesses estudos? Existe uma relação direta entre adenomiose e endometriose invasiva?

DR: Ambas adenomiose e endometriose são relacionadas a diferenciação e migração aberrantes dos ductos de Müller. Os ductos de Müller são o substrato fetal dos órgãos genitais internos femininos. Um problema na diferenciação e migração dos ductos de Müller durante a formação embrionária poderia ser a causa de ambas as doenças. É difícil saber qual a frequência de associação das doenças porque a maioria das mulheres que eu operei não desejavam a histerectomia, portanto eu não tinha nenhuma maneira de saber a real incidência da adenomiose em mulheres com endometriose. Em mulheres que não responderam à cirurgia conservadora (nota do tradutor: sem a remoção do útero) e nas quais eventualmente se realiza uma histerectomia, a adenomiose possivelmente está presente em mais de 50% dos casos. Pode haver uma relação entre endometriose e adenomiose avançadas, porque eu encontrei uma associação de ambas muito frequentemente. De fato, a endometriose profunda invasiva costumava ser chamada de adenomioma porque a endometriose invasiva assemelha-se à adenomiose quando avaliada ao microscópio.

LH: A adenomiose e a endometriose são essencialmente a mesma condição apenas com localizações diferentes, ou elas também são histológica e morfologicamente diferentes?

DR: Essa pergunta é certamente Zen. Eu acho que elas são tão fortemente relacionadas que poderiam ser consideradas idênticas, exceto quanto à localização. Isso é especialmente evidente quando se considera a endometriose invasiva e a adenomiose. A endometriose invasiva e a adenomiose severa são praticamente idênticas sob o microscópio, e ambas podem ser muito semelhantes quando observadas a olho nu.

LH: Quando uma mulher passa por uma histerectomia devido à suspeita de adenomiose e a sua biópsia pós-operatória é negativa para a doença, qual seria a explicação possível?

DR: Mesmo um útero “normal” pode causar dores por motivos que não compreendemos completamente, situações nas quais todas as biópsias seriam negativas para adenomiose, mesmo que a paciente apresente os sintomas clássicos. Além disso, se no esforço para se diagnosticar a adenomiose for obtida uma biópsia da parte interna do útero, é possível que a biópsia deixe de diagnosticar a doença escondida em algum outro lugar da parede muscular do útero. Se houver um crescimento óbvio do útero ou uma descoloração hemorrágica de sua superfície, a biópsia poderá demonstrar adenomiose. Mas em muitos casos de adenomiose, a superfície do útero aparenta normalidade, e a biópsia pode ser muito rasa a ponto de não diagnosticar a doença corretamente. Quando o útero é removido, o patologista tem uma grande quantidade de tecido para trabalhar. O procedimento normal para o patologista é obter várias amostras de toda a espessura da parede muscular do útero, assim como amostras de nódulos, irregularidades ou áreas de descoloração que sejam óbvias. Essas áreas são avaliadas com o microscópio na busca de adenomiose. Se o resultado for negativo, o cirurgião pode solicitar ao patologista que avalie mais tecido uterino para estudos microscópicos adicionais. Esses passos reduzem enormemente a possibilidade de que a adenomiose não seja detectada.

LH: As camadas musculares da parede uterina são igualmente suscetíveis ao desenvolvimento da adenomiose, ou a doença tende a se localizar em uma porção específica do músculo? Caso positivo, porque isso aconteceria?

DR: A parede posterior do útero é geralmente mais afetada, portanto a distribuição da adenomiose não é aleatória. O acometimento da parede posterior do útero seria explicado por problemas na diferenciação e migração dos ductos de Müller em sentido distal na pelve posterior, deixando células de endometriose mais comumente no fundo de saco (nota do tradutor: região atrás do útero, entre o útero e o intestino) e a adenomiose mais comumente na porta ao lado, na face posterior do colo uterino. Cuthbert Lockyer ilustrou isso em uma publicação há quase um século atrás.

Figura 2. Adenomioma (adenomiose e endometriose invasiva) do espaço reto-vaginal. Visão
microscópica de corte sagital. 


Este é um desenho de espécime cirúrgico – o útero foi removido juntamente com um segmento do reto (intestino) preso a si. O espécime foi cortado ao meio e representa o que é chamado um corte sagital. Neste desenho, podemos ver o útero como um órgão branco à esquerda e o reto como uma estrutura oca à direita. Entre o útero e o reto encontra-se uma área de endometriose profunda invasiva que resultou na obliteração completa do fundo de saco. O reto está acometido por um nódulo, demonstrado como se fosse um tumor branco arredondado. Notem que fibras de tecido estendem-se desde a lesão de endometriose até a face posterior do colo uterino e parede uterina posterior. Isso representa adenomiose na parede uterina posterior. Notem também que Lockyer estava usando para a lesão o termo du jour – adenomioma – para o qual muitos cirurgiões hoje identificariam como endometriose profunda invasiva.

LH: Qual a diferença entre adenomiose focal (adenomioma) e adenomiose difusa? Qual variação é a mais comum? Essas duas variantes são tratadas da mesma forma?

DR: A adenomiose focal ou adenomioma é menos comum que a adenomiose difusa. Essas duas variações são ilustradas acima. Os adenomiomas focais podem ser removidos cirurgicamente, como discutido previamente. A adenomiose difusa pode ser removida pelo procedimento de Osada ou por histerectomia. Não há nenhum remédio que possa erradicar a adenomiose, apesar da supressão da produção de estrogênios ser capaz de reduzir os sintomas enquanto a paciente estiver usando medicação.

LH: Por que a adenomiose não é normalmente diagnosticada pela ultrassonografia ou ressonância?

DR: Para que alguma doença apareça nos exames, é necessário que ela tenha ou um volume suficiente ou uma diferença suficiente de densidade em relação ao tecido adjacente. Quanto menor for essa doença, menos provável que seja detectada ao exame de imagem. Os exames têm dificuldade em detectar lesões menores que 0,5 cm. A densidade de uma doença comparada ao tecido adjacente também é importante. Por exemplo, uma pequena pérola suspensa em gelatina de limão será vista mais facilmente do que gelatina de framboesa suspensa em gelatina de limão.

LH: Os ginecologistas deveriam evitar propor histerectomia para mulheres mais jovens com dor uterina?

DR: Se todos os tratamentos médicos e cirúrgicos conservadores tiverem sido tentados, ou explicados e rejeitados, então na minha opinião não há motivo para evitar a opção de histerectomia para uma mulher de qualquer idade, cuja vida tornou-se miserável devido a supostos sintomas uterinos, sejam esses devidos à adenomiose ou a qualquer outro fator. A paciente mais jovem na qual realizei uma histerectomia tinha 21 anos de idade. Nos Estados Unidos leis federais proíbem a discriminação baseada em idade.

LH: Em sua opinião e experiência, há coisas do tipo como “muito jovem para realizar uma histerectomia”?

DR: Dizer que alguém é “muito jovem” para realizar uma histerectomia é ser paternalista, além de limitar as opções terapêuticas disponíveis para a paciente, e reduzir a paciente à uma criança. Os médicos não precisam assumir o papel de pais quando tratarem suas pacientes. A principal função do útero é gestar. Mulheres que tiveram histerectomia, mas que ainda tenham pelo menos um ovário podem doar óvulos para que sejam fertilizados por seu parceiro masculino e a gravidez resultante seja levada em um útero de doadora. A disponibilidade de técnicas de reprodução assistida abrandou os efeitos da histerectomia, e reduziram, portanto, a preocupação de que uma paciente seja “muito jovem”.

LH: Existe algum papel para uso de análogos de GnRH, como o Lupron, no tratamento da adenomiose sintomática?

DR: O Lupron demonstrou redução dos sintomas da adenomiose e um pouco do tamanho do útero se ele estiver aumentado pela adenomiose. Quando a medicação é interrompida, o útero pode recuperar o seu tamanho inicial e os sintomas retornarem rapidamente. O análogo pode ser um desperdício de tempo sintomática e muito caro.

LH: Em relação à histerectomia como um tratamento definitivo para a adenomiose, ela teria algum efeito adverso no prazer sexual e na habilidade de ter relações sexuais?

DR: Os estudos mostraram que após a histerectomia as mulheres têm relações sexuais mais frequentemente, com maior prazer, orgasmos mais frequentes, e orgasmos mais prazerosos. Isso ocorre porque a histerectomia é realizada primariamente com o objetivo de tratamento de sintomas uterinos, como dor e sangramento. Esses sintomas geralmente vinham atrapalhando a paciente por meses ou anos, interferindo com sua vida diária e vida sexual. Quando a causa do problema é removida, as pacientes melhoram em todos os aspectos. As mulheres podem passar a ter orgasmos múltiplos após a histerectomia. Se, antes da cirurgia, a mulher tinha sensações prazerosas de contrações uterinas junto com os orgasmos, então essa sensação irá embora. Porém, muitas mulheres relatam contrações uterinas dolorosas com o orgasmo, e então a presença do útero atrapalha essas pacientes. Há muitos outros músculos pélvicos e abdominais além do útero envolvidos no orgasmo, assim como a descarga simpática, e portanto, o orgasmo feminino não tem que necessariamente ser centrado no útero.

LH: Há alguma razão para se realizar uma histerectomia subtotal nessas pacientes (não retirar o colo uterino)?

DR: Os estudos têm demonstrado que, qualquer que seja o motivo pelo qual tenha sido realizada uma histerectomia subtotal, ela não tem nenhuma vantagem sobre a histerectomia total (quando todo o útero é retirado, incluindo o colo) em relação ao suporte pélvico ou função sexual feminina. O colo remanescente pode causar problemas e precisar ser removido no futuro. Eu tive que remover muitos colos uterinos remanescentes ao longo dos anos devido à dor, endometriose persistente, tecido cicatricial, e obstruções intestinais relacionadas a aderências entre o intestino e o colo.

LH: Quais são as possíveis complicações a curto e longo prazo da histerectomia?

DR: Histerectomia refere-se à remoção do útero. Os ovários não são removidos quando é realizada apenas a histerectomia. Quando a paciente adequada é selecionada para cirurgia de acordo com seus sintomas e recebe o tratamento cirúrgico adequado, não há efeitos adversos a curto ou a longo prazo da histerectomia, a menos que haja alguma complicação cirúrgica. As complicações cirúrgicas são possíveis em qualquer cirurgia e se encaixam em três categorias: sangramento, infecção, e lesão a outros órgãos. O sangramento faz parte de qualquer cirurgia e os cirurgiões sabem como controlar o sangramento durante a cirurgia. O sangramento pós-operatório felizmente é raro e pode parar espontaneamente por si só, ou necessitar de reoperação para trata-lo. Muitos sangramentos pós-operatórios ocorrem no primeiro ou segundo dia após a cirurgia, apesar que eu tive uma paciente que teve um sangramento significativo duas semanas após uma histerectomia. A infecção também é rara. As bactérias gostam de locais quentes, escuros e úmidos, e crescem bem no meio do sangue. Eu sempre deixaria um dreno na cavidade após uma histerectomia para que qualquer fluido sanguinolento seja drenado e diminua os riscos de infecção. A minha taxa de infecção entre pacientes com histerectomia foi menor que 0,5%. Estudos com homens mais velhos portadores de outras doenças demonstraram que o uso de antibióticos pré-operatórios pode reduzir a taxa de infecção para 5%, então o governo federal decidiu que eles dariam mais dinheiro aos hospitais se todos os pacientes de qualquer sexo ou idade recebessem antibióticos antes da cirurgia. Isso fez com os que os hospitais passassem a exigir que todos os pacientes recebessem antibiótico antes da cirurgia, independente da indicação do cirurgião. Uma quarta categoria de possíveis complicações pode ser classificada como a dor que ocorre após o término da cicatrização. Tal dor pode ser devida à cicatriz, ou à presença de uma causa extrauterina, como doenças que afetam o intestino, bexiga, ou tecido musculoesquelético.

LH: Qual a melhor estratégia cirúrgica para a realização de histerectomia por adenomiose com e sem endometriose associada?

DR: A melhor estratégia para a realização de histerectomia em qualquer paciente com sintomas uterinos é fazê-la de maneira a minimizar a dor pós-operatória, o tempo de internação e da recuperação subsequente, além de obter o melhor resultado cosmético da parede abdominal. Isso significa que a histerectomia laparoscópica é preferível à histerectomia realizada por laparotomia. A histerectomia robótica não oferece vantagens em relação à histerectomia não robótica, apesar de ser mais demorada, necessitar de mais incisões e que são maiores e mais óbvias, e aumentar os custos do procedimento. Se não houver endometriose e a paciente tiver apenas sintomas uterinos, então a remoção do útero será suficiente. A remoção do útero não faz com a que a endometriose desapareça, pois a endometriose raramente envolve o útero. Portanto, histerectomia não é tratamento para endometriose. A histerectomia deve ser realizada quando os sintomas uterinos estiverem interferindo na vida da paciente. Se houver endometriose, esta deve sempre ser removida quando a histerectomia for realizada. Caso contrário, a paciente ficará com uma doença sabidamente causadora de dor pélvica, e poderá necessitar de cirurgia no futuro. Geralmente a remoção dos ovários não é necessária quando for realizada uma histerectomia em mulher com endometriose, e portanto, pode-se evitar a terapia de reposição hormonal para muitas (até que haja redução da função de seus ovários mais tarde na vida).

Nota do tradutor: O Dr. David Redwine responde, de maneira clara e de fácil compreensão, as principais dúvidas relacionadas às causas e ao tratamento da adenomiose, mais uma vez “provocado” pela pesquisadora Libby Hopton. Ele nos esclarece que a adenomiose pode ser causa de dor uterina e sangramento irregular, além de dores durante a relação sexual e dor em baixo ventre. Esses sintomas se assemelham àqueles da endometriose, o que pode dificultar o diagnóstico. O médico destaca ainda que o tratamento mais efetivo para adenomiose pode ser a histerectomia, exceto nos casos onde há necessidade e desejo de preservação uterina.

Interessantemente, o Dr. Redwine desmistifica o conceito que uma mulher possa ser “muito jovem” para optar por uma histerectomia. O procedimento deve ser sempre uma opção de tratamento independente da idade da mulher, desde que esta seja esclarecida (e oferecida) sobre todas as opções de tratamento.

Em relação à histerectomia para tratamento da adenomiose, cito a possibilidade de que grande parte das histerectomias pode ser realizada por via vaginal, como opção à via laparoscópica. Nesse tipo de cirurgia, não há nenhuma punção na parede abdominal (o melhor resultado cosmético entre todas as opções), e o tempo cirúrgico e de recuperação são iguais ou superiores à histerectomia por videolaparoscopia. Os custos hospitalares também são nitidamente inferiores. Contraindicação formal à histerectomia vaginal é a presença de endometriose. Porém, contraindicações comumente usadas como: (a) cesárea prévia, (b) útero volumoso, ou (c) ausência de parto vaginal prévio não se mostram verdadeiras, e podem ser superadas de acordo com a experiência da equipe cirúrgica. Fale com seu médico sobre a histerectomia vaginal, caso necessite desta cirurgia.



Sobre o doutor Alysson Zanatta:

Graduado e com residência médica pela Universidade Estadual de Londrina, doutor Alysson Zanatta tem especializações em uroginecologia e cirurgia vaginal pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cirurgia laparoscópica pelo Hospital Pérola Byington de São Paulo e doutorado pela Universidade de São Paulo, USP. Suas principais áreas de atuação são a pesquisa e o tratamento da endometriose, com ênfase na cirurgia de remoção máxima da doença. Seus inter­esses são voltados para iniciativas que promovem a conscientização da população sobre a doença, como forma de tratar a doença adequadamente. É diretor da Clínica Pelvi Uroginecologia e Cirurgia Ginecológica em Brasília, no Distrito Federal, onde atende mulheres com endometriose, e Professor-adjunto de Ginecologia da Universidade de Brasília (UnB). (Acesse o currículo lattes do doutor Alysson Zanatta). 

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

DAVID REDWINE: ADENOMIOSE - DEFINIÇÃO, SINTOMAS, DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO!!

imagem cedida por Free Digital Photos

Por doutor David Redwine
Tradução: Dr Alysson Zanatta
Edição: Caroline Salazar


Adenomiose: uma causa comum de sintomas uterinos após os 30 anos de idade
Adenomiosis Uteri é um desarranjo glandular do músculo uterino. É uma causa comum de dores uterinas após os 30 anos de idade. Ao invés de simplesmente lançar esta definição clínica sem explicações adicionais, acho que faz sentido abordar alguns de seus principais aspectos. Por
Pronúncia: a-de-no-mi-o-se
A primeira coisa a se saber sobre a adenomiose é como pronunciá-la. O primeiro “a” é curto, como o “a” de “amor”. O “deno” é pronunciado como “dente”. Em outras palavras, o “e” é curto. O restante da palavra é pronunciado como se escreve, com acentos no “a” e no segundo “o”.
Definição
A segunda coisa a se saber sobre a adenomiose é o que ela significa. O termo médico adenomiose uteri é sucinto e descritivo caso você se lembre do seu Latim do segundo grau (tudo bem, eu posso estar entregando a minha idade aqui). A parte “adeno-” da palavra é um termo médico que indica algo que tem glândulas. A parte “mio” refere-se a músculo. O “ose” é um sufixo genérico que implica desarranjo (irregularidade) do órgão ou tecido que precede o sufixo. Em outras palavras, adenomiose é uma irregularidade de glândulas em um tecido muscular. Em Latim, uteri é a palavra para útero. Coloque tudo isso junto e você terá Adenomiose Uteri: um desarranjo glandular do músculo do útero.
Anatomia do Útero:
O útero é um órgão estruturalmente simples que tem basicamente apenas dois tipos de tecido: o endométrio e o miométrio.
1. O endométrio:
Este é o revestimento interno do útero que produz o fluxo menstrual e no qual o óvulo fertilizado se implanta no início da gravidez. As camadas mais superficiais do endométrio descamam-se e são eliminadas a cada mês com o fluxo menstrual, para então se regenerarem a partir das camadas profundas. O endométrio contém glândulas em sua estrutura.
2. O miométrio:
Este é o músculo relativamente espesso que dá ao útero sua forma semelhante à uma pera. A atividade muscular é importante para expelir o bebê do útero durante o parto. Essa atividade muscular pode também ser dolorosa quando o útero estiver expelindo grandes coágulos que podem ocorrer durante um ciclo menstrual.
Normalmente, esses dois tecidos não se misturam. Na condição da adenomiose, a parede muscular uterina é invadida por tecido de seu revestimento. Há duas teorias para explicar como o músculo é invadido pelo revestimento endometrial. Considera-se que muitos casos possam ser explicados pela invasão direta do endométrio no miométrio logo adjacente. Essa teoria é suportada pelo fato que durante o exame microscópico da adenomiose no laboratório, é possível acompanhar o endométrio formando uma camada contínua e ininterrupta desde a sua localização habitual e observá-lo invadindo o músculo.
Uma segunda possibilidade é que por algum motivo o músculo uterino pode se transformar em um tecido que se parece com o endométrio. A mudança de um tipo de tecido em outro é chamada de metaplasia. A metaplasia é suportada pelo fato que algumas “ilhas” de adenomiose podem existir no interior do músculo uterino sem nenhum contato aparente com o revestimento endometrial.
Nós não sabemos porque algumas mulheres desenvolvem adenomiose, mas ela se torna mais comum com o envelhecimento. Ela é mais comumente diagnosticada na faixa dos 30 aos 45 anos de idade. Alguns autores acreditam que a doença esteja relacionada à gestação, sob a hipótese que o stress do parto e o subsequente reparo uterino possam permitir que células endometriais invadam a parede muscular. Entretanto, a adenomiose também pode ocorrer em mulheres que nunca engravidaram.
Sintomas:
Dor uterina e sangramento são os principais sintomas da adenomiose. Os sintomas costumam aparecer após os 25 anos de idade, mas a adenomiose pode ocorrer em mulheres mais jovens. Não causa surpresa a presença de dor se você considerar que glândulas hormonalmente ativas que invadem o músculo secretam algo que o irrita. Imagine como o seu bíceps (músculo do braço) doeria se você tivesse pequenas fábricas de glândulas em seu interior produzindo suco de limão ou algum outro líquido irritativo.
A dor uterina pode ocorrer por várias maneiras. A mais óbvia seriam as cólicas uterinas com o fluxo menstrual, mas algumas mulheres podem ter essas cólicas dias ou mesmo semanas antes do fluxo menstrual. Algumas poucas mulheres podem ter cólicas uterinas durante todo o mês, com piora durante a menstruação. É como se o útero estivesse sendo queimado por carvão quente em seu interior. A irritação crônica pode levar a outros tipos de dor. Se o útero dói como um tornozelo torcido, então qualquer coisa que atinja o útero pode causar dor. O útero repousa diretamente sobre a porção final da vagina e é tocado durante o ato sexual. Se o útero está irritado por adenomiose, pode haver dor durante a relação sexual, particularmente próximo ao período menstrual.
Em sua parede posterior, o útero também pode ser tocado por fezes que passam pelo reto, e isso pode gerar dor associada aos movimentos intestinais.
A expansão e a contração da bexiga também podem afetar o útero, e algumas pacientes também podem ter dor durante à micção.
Em algumas raras pacientes, a analogia do “carvão quente” pode ser ainda mais clara do que você poderia esperar. Eu pude observar casos ocasionais de diarreia, distensão e náusea que se resolveram após a remoção do útero com adenomiose.
A adenomiose não é tida como causa de redução da fertilidade, apesar de que é virtualmente impossível saber o real efeito sobre a fertilidade, já que é difícil diagnosticar a doença nas mulheres que não retiraram o útero. A adenomiose costumava ser chamada de “endometriose interna”, pois ela pode se parecer de alguma maneira com a endometriose quando é analisada sob o microscópio. Porém, a adenomiose ocorre na parede muscular do útero, e não sobre superfícies pélvicas como ocorre com a endometriose.
Não parece que a adenomiose seja mais comum em pacientes que têm endometriose. Entretanto, ambas são causas frequentes de dor, e portanto algumas mulheres podem ter dor por endometriose em fases iniciais de sua vida, e mais tarde devido à adenomiose.
Diagnóstico:
A história clínica é claramente importante para o diagnóstico de qualquer doença. Infelizmente, os sintomas da adenomiose (dor durante o ciclo menstrual, dor durante a relação sexual, dor com os movimentos intestinais durante a menstruação, etc.) podem se parecer com os sintomas da endometriose. O questionamento e a escuta cuidadosos podem ajudar a distinguir entre as duas doenças.
Eventualmente, a paciente irá relatar sua dor como sendo igual às cólicas do trabalho de parto. Isso pode nos ajudar a direcionarmos para o útero, ao invés de pensarmos em endometriose.
Muitas pacientes apontarão para o centro do osso púbico como a origem da dor e podem estar convencidas que elas identificam o útero como a causa da dor. O médico deve escutar essas pacientes e acreditar nelas.
Enquanto as pacientes com endometriose podem relatar uma sensação de cólica por sua doença, elas raramente relatam que essas cólicas sejam causadas definitivamente pelo útero.
Outro ponto importante da história das pacientes é que a dor da adenomiose parece começar mais tardiamente do que a dor da endometriose. As pacientes com endometriose descrevem a dor como se iniciando praticamente com o início dos ciclos menstruais, e dores adicionais podem ser relatadas após os 20 anos de idade. As pacientes com adenomiose parecem relatar a dor iniciando-se após os 30 anos de idade.
O útero está preso fisicamente à região lombar baixa pelos ligamentos útero-sacros, à região superior da coxa pelos ligamentos redondos, e à região umbilical através do úraco e artérias umbilicais obliteradas que se originam a partir das artérias uterinas. Portanto, muitas pacientes que tenham dor de origem uterina podem relatar dor nessas regiões. Isso pode ajudar a diferenciar a dor uterina da dor da endometriose.
A dor da endometriose pode se irradiar à região lombar baixa quando há doença invasiva nos ligamentos útero-sacros, mas raramente se irradia às regiões superiores das pernas ou da região umbilical.
O exame físico pode ser útil já que o útero pode ser doloroso devido à adenomiose, enquanto sua porção posterior pode ser dolorosa devido à endometriose. Infelizmente, nem todas as pacientes são examinadas com uma palpação individual do útero para ver se este ou ambas as áreas são dolorosas. Muitos médicos estão interessados principalmente no tamanho, forma e posição do útero e tamanho dos ovários, mas não se interessam sobre pontos dolorosos específicos.
Não há teste sanguíneo para o diagnóstico da adenomiose, e ela é apenas eventualmente detectável à ultrassonografia, tomografia computadorizada ou ressonância magnética, já que a densidade do tecido pode não diferir o suficiente da parede muscular circunjacente. Às vezes o útero pode ser descrito como levemente aumentado e de modo simétrico, com um padrão sombreado visto na musculatura uterina.
Algumas formas de adenomiose podem ser vistas como nódulos ou ilhas de doença como pequenas pérolas na musculatura uterina, apesar que algumas lesões de adenomiose nodular podem alcançar o tamanho de uma bola de pingue-pongue. Quando há uma adenomiose deste tamanho detectável ao exame de imagem, ela é geralmente confundida com miomas uterinos, outra condição benigna que pode estar associada com dor e sangramento.
A mensagem é que muitos casos de adenomiose não serão diagnosticados por exames complementares, e permanecerá a impressão médica de que ela esteja presente. Os exames têm apenas dois resultados possíveis: será completamente normal ou identificará alguma anormalidade (que pode nem estar relacionada ao útero).
Se o resultado for normal, a paciente ainda terá dor. Se houver alteração, a paciente ainda terá dor. Portanto, nós voltamos à opinião médica que será baseada quase completamente na história clínica e no exame físico. Enquanto isso possa parecer arcaico, lembre-se que você está pagando seu médico para exercitar seu julgamento baseado nas evidências disponíveis, e você frequentemente terá que acreditar nele ou nela.
A aparência visual do útero durante a cirurgia nem sempre ajuda no diagnóstico da adenomiose. Em muitos casos, o útero pode parecer completamente normal. Nesse caso, a adenomiose estará localizada inteiramente no interior da parede uterina e pode não estar associada a um aumento do volume uterino.
Ocasionalmente, o médico pode palpar (tocar) o útero com uma pinça durante a laparoscopia ou com os dedos durante a laparotomia e descrevê-lo como “amolecido”, indicando que o útero é mais esponjoso do que a média. “Amolecimento” é impreciso, já que o útero pode estar um pouco aumentado e amolecido em mulheres que já tiveram filhos, mesmo que não haja adenomiose.
Em algumas pacientes, podem haver nódulos de adenomiose, porém que se parecem com miomas, e então o diagnóstico pode ser confuso. A questão volta à opinião clínica do médico.
É possível realizar uma biópsia do útero, seja por laparoscopia ou histeroscopia. Entretanto, geralmente não há um local óbvio a ser biopsiado, e a biópsia será realizada às cegas. Assim como os exames de imagem e a aparência visual do útero, uma biópsia às cegas terá dois resultados possíveis: será inteiramente normal ou poderá mostrar alguma anormalidade, como a adenomiose. Se a biópsia for normal, a paciente ainda terá dor e poderá ter adenomiose oculta em algum outro local do útero. Dessa forma, a biópsia poderá confundir e não ajudar no tratamento da dor da paciente. Se a biópsia mostrar adenomiose, a paciente ainda terá dor e a presunção que será feita é que o restante do útero tem adenomiose.
Seja um exame de imagem, a aparência visual do útero durante a cirurgia, ou uma biópsia às cegas, o médico deve se perguntar “O que eu farei com o resultado desse exame?”. Se os resultados forem normais, seria dito à paciente que não há nada de errado e que seus sintomas não são reais? Tomara que não.
Se os resultados forem anormais, eles apontam para algo específico que possa ser tratado com uma alta probabilidade de resolução da dor e que não envolva a remoção do útero? Geralmente não.
Em muitos casos, a única maneira para o diagnóstico de certeza da adenomiose será a remoção do útero seguido do exame microscópico para checar se existe adenomiose. Mesmo assim, até 15% das pacientes que têm sangramento e dor claramente de origem uterina não terão achados significativos à biópsia. Isso não significa que essas pacientes passaram por histerectomias desnecessárias, já que elas estarão finalmente curadas de seus sintomas. Significa apenas que não somos inteligentes o suficiente para sabermos todas as maneiras que o útero pode se comportar.
Tratamento:
O diagnóstico final e o tratamento definitivo da adenomiose requerem a histerectomia. Se a paciente tiver sintomas e sinais de adenomiose e já tiver completado a sua prole, então a remoção do útero trará as maiores chances de alívio dos sintomas uterinos com as menores chances de nova cirurgia futura para estes sintomas.
Dada a incapacidade dos exames de imagem diagnosticarem a doença, e já que os resultados dos exames ou das biópsias não trarão novas opções de tratamento para dores uterinas significativas, é claramente mais comum e aceitável que o ginecologista recomende a histerectomia baseado apenas na história clínica e no exame físico, sem outros testes adicionais.
A remoção do útero não trata a endometriose, portanto a endometriose deve ser removida caso seja encontrada durante a histerectomia por adenomiose. Mulheres com importantes dores uterinas ficam claramente surpresas pela maneira como se sentem após a remoção do útero.
A remoção dos ovários não é necessária, já que a adenomiose afeta apenas o útero. Obviamente, algumas mulheres têm a infelicidade de terem problemas ovarianos como cistos ou dor. Em algumas situações, tais mulheres podem se beneficiar da remoção concomitante dos ovários.
O tratamento médico pode ser uma opção para as mulheres que ainda não tiveram todos os filhos que desejam, ou que não estejam preparadas para a remoção do útero. Como nenhum remédio erradica a adenomiose, o tratamento médico é frustrante para ambos médico e paciente, pois o melhor que fazem é mascararem os sintomas, e eventualmente com efeitos colaterais.
Como o útero é um órgão responsivo a hormônios, os hormônios são a base do tratamento médico. Seu médico pode prescrever pílulas anticoncepcionais, ou pílulas ou injeções de progesterona. Apesar do fato que agonistas do hormônio liberador de gonadotrofinas como o Lupron terem demonstrado redução dos sintomas uterinos ou da adenomiose, os sintomas retornam rapidamente após o término do efeito da medicação.
Analgésicos, sejam com ou sem prescrição médica, podem ser usados para ajudarem as pacientes nos momentos mais difíceis. Eles podem mascarar sintomas, e os narcóticos podem causar problemas de tolerância a longo prazo, ou mesmo dependência química.
Resumo:
A adenomiose é uma causa comum de dores uterinas em mulheres acima dos 30 anos de idade. Em última análise, o diagnóstico da adenomiose depende primariamente de uma completa revisão e do entendimento da história clínica da mulher, além de informações do exame físico. Atualmente, a remoção do útero é o melhor tratamento para essa doença.
Nota do Tradutor: Assim como a endometriose, a adenomiose pode ser importante causa de dor pélvica e sangramento uterino irregular, como bem destacado neste artigo do Dr. Redwine. Porém, diferentemente da endometriose, nós não temos a opção de tratamento cirúrgico conservador (manutenção do útero) para aquelas mulheres que ainda não tiveram todos os filhos desejados. E isso pode ser muito frustrante.


Felizmente, as situações extremas e avançadas de adenomiose que inviabilizariam uma gestação são incomuns, especialmente na mulher jovem. Em boa parte das vezes, a doença é suspeitada pela ultrassonografia ou pela ressonância magnética, e merecerá acompanhamento periódico. Em mulheres com diagnóstico precoce da doença e que ainda não gestou, o uso do dispositivo intrauterino (DIU) hormonal (Mirena®) pode ser uma boa opção para controle dos sintomas, e possivelmente, para controle da evolução da doença. E, como mencionado, a histerectomia é uma ótima opção para aquelas mulheres que já gestaram e que sofram de sintomas intensos.


Sobre o doutor Alysson Zanatta:
Graduado e com residência médica pela Universidade Estadual de Londrina, doutor Alysson Zanatta tem especializações em uroginecologia e cirurgia vaginal pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cirurgia laparoscópica pelo Hospital Pérola Byington de São Paulo e doutorado pela Universidade de São Paulo, USP. Suas principais áreas de atuação são a pesquisa e o tratamento da endometriose, com ênfase na cirurgia de remoção máxima da doença. Seus inter­esses são voltados para iniciativas que promovem a conscientização da população sobre a doença, como forma de tratar a doença adequadamente. É diretor da Clínica Pelvi Uroginecologia e Cirurgia Ginecológica em Brasília, no Distrito Federal, onde atende mulheres com endometriose, e Professor-adjunto de Ginecologia da Universidade de Brasília (UnB). (Acesse o currículo lattes do doutor Alysson Zanatta).