segunda-feira, 11 de julho de 2016

DAVID REDWINE: AVALIAÇÃO DA PACIENTE COM ENDOMETRIOSE - PARTE 1!


imagem cedida por Free Digital Photos
Na primeira parte do texto "Avaliação da paciente com endometriose", o médico e cientista americano doutor David Redwine explica os sintomas da endometriose e como ele pode ser confundido com outras causas de dores pélvicas. Você sabia que não tem idade para ter endometriose? Segundo doutor Redwine a menina mais nova diagnosticada com a doença tinha de 10 anos de idade. Ele também descreve como sentimos as dores: "cortante",  pontadas faca", "de agulha", "queimação". Foi descrevendo assim as dores que eu sentia, que o blog começou a ficar conhecido. Muiras endomulheres se identificaram. O texto explica também o que é e os sintomas da endometriose pélvica, da intestinal, da umbilical, da diafragmática, e dos endometriomas. Ele explica cada uma e relaciona seus sintomas. Mais um texto exclusivo A Endometriose e Eu. Beijo carinhoso! Caroline Salazar

Por doutor David Redwine
Tradução: doutor Alysson Zanatta
Edição: Caroline Salazar

Avaliação da Paciente com Endometriose - parte 1.
O sucesso no tratamento da endometriose depende da diferenciação de seus sintomas de outras causas de dor. Nem toda dor pélvica é causada pela endometriose. Se causas de dor distintas da endometriose forem atribuídas à essa, o resultado do tratamento será confuso. Enquanto a interpretação dos sintomas é parte da arte da medicina, a endometriose é uma doença que costuma produzir sintomas previsíveis.
Sintomas da endometriose:
Um modo comum de aparecimento dos sintomas de endometriose é a ocorrência de dor severa e progressiva associada à menstruação e que se inicia na menarca (nota do tradutor: primeira menstruação). Amigos e familiares podem oferecer o falso encorajamento de que tal dor é “normal” ou “parte de ser mulher”. Entretanto, deve-se ter em mente que a mais jovem paciente já diagnosticada com endometriose tinha 10,5 anos de idade e foi diagnosticada cirurgicamente cinco meses após sua menarca [1]. Pílulas analgésicas e bolsas de água quente são comumente usadas nesta idade. Com o aumento dos sintomas vem a ausência da escola e idas ocasionais ao pronto socorro, onde os exames geralmente são inconclusivos. E quando se fala à paciente que ela pode estar exagerando em suas queixa, a jovem mulher começa a ter dúvida sobre si própria, pensando que talvez “esteja tudo em sua cabeça”, e tenta manter sua dor para si o máximo possível. A dor, entretanto, pode passar a ocorrer cada vez mais cedo antes do ciclo menstrual, e se tornar impossível de ser ignorada. Muitas pacientes ficam incomodadas entre a ovulação e a menstruação por uma dor cada vez mais severa que pode ser descrita como “cortante”, “queimação”, “um tiro” ou “uma facada”. Durante a menstruação, cólicas uterinas fortes podem se sobrepor à dor da endometriose que aumenta durante a fase lútea (nota do tradutor: segunda fase do ciclo menstrual) do ciclo menstrual. Algumas pacientes irão cerrar os punhos como se estivessem segurando uma faca e dar punhaladas fantasmas em seu abdômen, ou virarem seus punhos como se fossem atacar os médicos. Elas podem desistir de atividades físicas porque a dor pode se agravar com atividades extenuantes. Algumas vezes, a dor pode piorar com o simples balançar do automóvel [2]. A endometriose profunda com obliteração do fundo de saco pode às vezes produzir sintomas de uma gripe, com discreta elevação da temperatura corporal. A doença invasiva dos ligamentos útero-sacros pode causar dor irradiada para a região lombar baixa e na região posterior da coxa, em algumas situações. Se o médico escutar atentamente à paciente, ele perceberá padrões comuns de como a dor é descrita e poderá predizer onde a endometriose está localizada, ou talvez supor que a endometriose não seja a causa da dor.
Endometriose pélvica:

A endometriose é uma doença que ocorre de forma previsível e recorrente, e sintomas específicos podem quase sempre ser deduzidos a partir do tipo de acometimento pélvico. O fundo de saco, os ligamentos útero-sacros e os ligamentos largos são os locais mais comumente acometidos pela endometriose. A doença nessas regiões pode afetar o funcionamento de estruturas adjacentes, como o reto e a cúpula vaginal. Assim, com o acometimento peritoneal do fundo de saco ou ligamentos útero-sacros “em padrão de jardim”, pode haver cólicas intestinais dolorosas, especialmente durante as menstruações. De maneira diferente, pacientes que têm obliteração do fundo de saco e envolvimento intestinal podem se queixar de dor no reto à evacuação, ou dor retal à eliminação de flatos ou ao se sentarem. A dispareunia (nota do tradutor: dor à relação sexual) de profundidade é extremamente comum em pacientes com doença superficial ou profunda do fundo de saco e dos ligamentos útero-sacros, e as pacientes podem se queixar que “sentem algo tocar” durante a relação sexual. Com a obliteração do fundo de saco, a penetração profunda durante a relação sexual pode causar dor irradiada para o reto. Devido à dor crescente durante a relação, esta passa a ser evitada de forma cada vez mais frequente, e o parceiro percebe que aquilo que deveria ser um momento de prazer torna-se um ato de dor e resistência para a mulher.

Os endometriomas ovarianos podem causar dor na área ovariana acometida especialmente quando as aderências periovarianas são esticadas, apesar de poder haver dor proveniente de áreas adjacentes e confundirem a questão. Eventualmente, um cisto ovariano que esteja aderido à parede pélvica lateral pode pressionar o ureter subjacente, o qual pode ser encarcerado por fibrose retroperitoneal relacionada à inflamação do cisto adjacente, ou de doença invasiva nos ligamentos útero-sacros que pode causar fibrose ao redor do ureter. Raramente, o ureter será invadido por endometriose proveniente dos ligamentos útero-sacros, resultando em hematúria (nota do tradutor: sangue na urina) ou obstrução urinária. A pressão ou a invasão do ureter pode causar obstrução cíclica durante a menstruação com resultante hidroureteronefrose (nota do tradutor: dilatação do ureter e do rim)  e dor renal. Com uma obstrução lenta do ureter, o rim do lado afetado pode sofrer uma morte silenciosa.
Endometriose intestinal:
Nódulos isolados no cólon sigmoide podem ser assintomáticos ou causarem uma dor vaga no quadrante inferior esquerdo que antecede um movimento intestinal. A endometriose do ceco e do apêndice costuma ser assintomática. São raros os sintomas intestinais obstrutivos quando apenas o sigmoide e o reto estão envolvidos, devido ao seu diâmetro relativamente grande. Quando há sintomas intestinais obstrutivos, estes são quase sempre por lesões obstrutivas do íleo terminal, que obstruem mais rapidamente devido ao menor diâmetro do íleo.
Endometriose diafragmática:
A endometriose do diafragmática é mais comum na forma de uma lesão que envolve toda a espessura do hemi-diafragma direito [3]. As pacientes se queixam de dor torácica ou no ombro direito. Algumas vezes a dor se irradia para o pescoço ou porção superior do braço, e pode ser interpretada como dor muscular, pois ela ocorre como se fosse um peso. A dor pode ser agravada pela respiração profunda e algumas pacientes podem dormir sentadas durante os episódios de dor diafragmática.
Endometriose umbilical:
Esta se apresenta como um nódulo na porção inferior do umbigo que pode crescer lentamente e ficar mais doloroso durante a menstruação. Fora da menstruação, pode ser menor e menos doloroso.

Não é comum que os sintomas de endometriose se iniciem após os 30 anos de idade. Nestas pacientes, deve ser lembrada alguma outra causa ginecológica de dor, como a adenomiose uterina.
Sobre o doutor Alysson Zanatta:

Graduado e com residência médica pela Universidade Estadual de Londrina, doutor Alysson Zanatta tem especializações em uroginecologia e cirurgia vaginal pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cirurgia laparoscópica pelo Hospital Pérola Byington de São Paulo e doutorado pela Universidade de São Paulo, USP. Suas principais áreas de atuação são a pesquisa e o tratamento da endometriose, com ênfase na cirurgia de remoção máxima da doença. Seus inter­esses são voltados para iniciativas que promovem a conscientização da população sobre a doença, como forma de tratar a doença adequadamente. É diretor da Clínica Pelvi Uroginecologia e Cirurgia Ginecológica em Brasília, no Distrito Federal, onde atende mulheres com endometriose, e Professor-adjunto de Ginecologia da Universidade de Brasília (UnB). (Acesse o currículo lattes do doutor Alysson Zanatta). 

sexta-feira, 8 de julho de 2016

ESTAMOS NO SNAPCHAT: A ENDO E EU. SEGUE O BLOG LÁ!



A Endometriose e Eu está no Snapchat: aendoeeu! Sim, o blog aderiu a mais nova rede social, a queridinha do momento! Nesta rede social de vídeos que virou febre no mundo todo vou mostrar o dia a dia do meu trabalho no blog. Os vídeos ficam disponíveis por 24h a partir do momento da gravação. Por conta da minha bebê, eu não trabalho mais 20 horas por dia! Hoje aprendi a otimizar bem o meu tempo, a ser mais ágil, pois continuo fazendo um trabalho de qualidade e em menos horas trabalhada. Voltei a trabalhar mais à noite e vou até de madrugada mais ou menos até às 2h da manhã. 

Confesso que fiquei muito em dúvida se aderia ou não ao Snap (como é conhecida esta rede social). Sigo alguns de maternidade, onde elas contam suas vidas, o que fazem o dia todo. Confesso que isso não é a minha praia, mas um grande amigo me deu a ideia: por que você não mostra você trabalhando? Bingo! Era a ideia que eu precisava. Segue o blog lá: aendoeeu. Bora lá! Beijo carinhoso!

quarta-feira, 6 de julho de 2016

PUBLIEDITORIAL: A RELAÇÃO ENTRE A ENDOMETRIOSE E O USO DE CONTRACEPTIVOS DE FORMA CONTÍNUO!!

A dor é o principal sintoma da endometriose


Por Caroline Salazar

Pode-se dizer que a relação entre o uso de anticoncepcionais e endometriose ainda é controverso. Uma pesquisada de 2011 publicada no site médico Medscape revela que os contraceptivos contínuos podem minimizar os sintomas da doença, mas não diminui os focos. Muito pelo contrário. Segundo a pesquisa a maioria das pacientes com endometriose infiltrativa teve aumento das lesões.

Isso significa que mesmo sem dor a doença evolui de forma silenciosa. O que pode ser muito perigoso para quem acha que a doença está controlada. Atualmente há no mercado drogas modernas desenvolvidas especialmente para tratar a endometriose. Dentre as disponíveis está o Alurax – dienogeste 2mg -, que controla melhor a doença para aquelas que não há urgência em fazer a cirurgia.  

O Alurax contém 30 comprimidos e é fabricado pela Momenta Farmacêutica. Uma das missões da Momenta é justamente "promover o acesso à saúde e à qualidade de vida com tratamentos a preço justo”. Com cerca de três anos de atuação, a Momenta tem qualidade garantida e já é reconhecida pela comunidade médica, pelos farmacêuticos e pelos farmacistas. Converse com seu especialista em endometriose a respeito do Alurax. Vale lembrar que todo medicamento deve ser prescrito pelo seu especialista. Não tome nenhum remédio sem o consentimento de seu médico.


É importante lembrar que por se tratar de doença crônica é importante a endomulher manter sempre seus exames em dia. Algumas redes de drogarias estão vendendo pela internet o Alurax muito mais em conta que nas farmácias físicas – cerca de 25% mais barato que o preço original -, como a Drogasil, por exemplo. Se você tiver dificuldade de encontrar o Alurax em sua cidade, vou deixar o telefone do SAC para você saber quando ele estará disponível na farmácia mais próxima de sua casa: 0800 703 1550 ou se preferir envie email para central@momentafarma.com.br. 

segunda-feira, 4 de julho de 2016

MEDIDAS QUE PODEM AJUDAM PARA QUE HAJA O DIAGNÓSTICO PRECOCE DA ENDOMETRIOSE!


Fonte: Discovery Mulher

Por Caroline Salazar

Uma das missões do A Endometriose e Eu é que as endomulheres brasileiras tenham o diagnóstico precoce. A média mundial para uma mulher ter o diagnóstico da endometriose é de 7 a 12 anos, ou seja, muito tempo. Eu sofri 18 anos com as dores severas até descobrir o que tinha. Infelizmente a maioria das portadoras passa por isso. Hoje vou falar sobre o diagnóstico tardio e o que podemos fazer para tentar diminuir esta quase uma década de atraso. Infelizmente ainda somos obrigadas a escutar que “sentir cólica é normal”, “ninguém sente tanta dor no período menstrual”, “a dor que sentimos é frescura”, “quando casar passa” e por aí vai. O que podemos fazer para que haja no Brasil o diagnóstico mais precoce? Vou listar alguns tópicos que acho relevante passar para vocês:

- Informação. A informação correta sobre a doença é uma grande aliada contra a ignorância das pessoas. Saber exatamente o que é a doença e quais seus principais sintomas podem ajudar alguma mulher que tenha a doença, mas que ainda não sabe. Mesmo a mulher que hoje não tem endometriose tem a obrigação de se informar e passar adiante a palavra endometriose. Como o nome da doença não é tão fácil de falar (muitas pessoas engasgam ao pronunciá-la). com certeza vai ficar na memória. Isso é um ato de solidariedade para com o próximo. Campanhas sobre a doença são uma forma de passar a palavra adiante.

- Não se entupir de remédios quando a cólica não passar com apenas um analgésico. A cólica dita como “normal” tem de melhorar com apenas um remedinho. Nada de tomar comprimidos e mais comprimidos, como eu fazia.

- Se você conhecer alguém que esteja tentando engravidar há anos é bom falar a palavra endometriose. Mais uma vez a informação conta muito.

- Se a mulher tem alguém na família com endometriose fique atenta aos primeiros sintomas. Há sete vezes mais chance de uma mulher que tenha parente de primeiro grau com a doença desenvolver endometriose.

- Outro ponto importante para o diagnóstico precoce é observar as adolescentes. Elas são a nova geração de portadoras. Qualquer sinal de suspeita da doença comunicar imediatamente o médico ginecologista ou aquele de confiança da família. Já contei no blog que a minha endometriose foi descoberta pelo meu proctologista. Cerca de 70% das adolescentes com dismenorreia que não melhoram com analgésicos têm endometriose. Confesso que acho esse número alarmante. Mais atenção às endomamães que têm filhas.

- Em minha opinião, toda mulher deveria comentar com seu ginecologista se ele conhece a doença. Não custa perguntar. Muitos até poderão dizer que sabem (mesmo aqueles que nunca ouviram falar da doença). Bom daí você vai perceber pelo semblante, se ele vai enrolar pra dizer, se vai gaguejar e tal. É aí que entra a capacitação do profissional para detectar a doença. Em especial de imagens. Precisamos de mais profissionais (médicos e radiologistas) que entendam corretamente sobre a doença.

A meu ver a informação é de extrema importância. Passar adiante a palavra endometriose poderá salvar muitas vidas femininas do sofrimento. Não tenha vergonha de comentar com amigas, com parentes ou com quem quer que seja. Faça a sua parte. Não podemos ser egoísta. Pense no próximo! Já pensou se esse próximo fosse você? E se você acaba de descobrir que é portadora não se desespere e informe-se. 

terça-feira, 28 de junho de 2016

DAVID REDWINE: DISTRIBUIÇÃO DA ENDOMETRIOSE PÉLVICA DE ACORDO COM A FAIXA ETÁRIA E A FERTILIDADE!

Diariamente leio nos grupos de apoio às portadoras de endometriose a crescente preocupação em relação ao aumento dos focos de endometriose conforme vamos ficando mais velhas. No artigo de hoje,  o médico e cientista americano doutor David Redwine esclarece mais um mito que envolve a endometriose: afinal, os focos de endometriose "se espalham" ao decorrer da nossa vida ou não? Ele também fala sobre a necessidade de usar medicamentos para controlar a doença após a cirurgia. Mais um texto exclusivo A Endometriose e Eu. Beijo carinhoso! Caroline Salazar


Por doutor David Redwine 
Tradução: doutor Alysson Zanatta
Edição: Caroline Salazar

Distribuição da endometriose pélvica de acordo com faixa etária e fertilidade:

A persistente confusão relacionada ao tratamento e história natural da endometriose sugere que algumas de nossas impressões clínicas podem necessitar de estudos mais modernos. Alguns médicos acreditam que a endometriose envolve progressivamente um maior número de áreas da pelve com o envelhecimento da paciente, e que a gestação confere proteção relativa contra a disseminação da doença na pelve. Para avaliar esses conceitos, este estudo avalia a distribuição da doença de acordo com a faixa etária e o status de fertilidade de pacientes com endometriose.

Materiais e Métodos:

Cento e trinta e duas pacientes consecutivas, de 16 a 52 anos de idade, que passaram por laparoscopia ou laparotomia, constituíram o grupo de estudo. A dor pélvica crônica estava presente em 72%, dismenorreia em 45%, dispareunia em 39%, e infertilidade em 29% das pacientes. Treze pacientes eram assintomáticas, a doença sendo descoberta durante cirurgias por outras indicações. Sessenta e cinco pacientes tinham engravidado, enquanto 51% tiveram parto. Quatorze por cento das pacientes tinham abortado natural ou voluntariamente suas únicas gestações, e sem terem gestação subsequente.

A magnificação da superfície peritoneal foi empregada rotineiramente, consistindo de laparoscopia de aproximação através de técnica de punção dupla ou tripla e manipulador uterino, ou uso de microscópio operatório durante laparotomias nas fases iniciais do estudo. Qualquer anormalidade do peritônio pélvico era considerada como possível endometriose pélvica. A maior parte das pacientes tiveram várias amostras enviadas para biópsia. A endometriose foi confirmada histologicamente em 129 pacientes pela presença de ambos epitélio glandular e estroma, e diagnosticada pela presença de implantes “negros em pólvora” em 3 pacientes. Cinco pacientes tinham um diagnóstico prévio de endometriose, e a revisão de suas descrições cirúrgicas não mostrou nenhuma mudança da posição de sua doença na pelve em comparação às suas cirurgias prévias.

Foi utilizado um mapa que divide a pelve em 16 áreas separadas para avaliar prospectivamente a distribuição da doença comprovada por biópsia. O estudo buscou identificar áreas de disseminação não contíguas em alguns centímetros ou mais. A “microdisseminação” local, a distribuição local de placas fibróticas, e a suposta invasão peritoneal não foram avaliadas porque não eram objetivo do estudo.

As pacientes foram agrupadas em faixas etárias a cada cinco anos, e pacientes acima de 36 anos foram agrupadas conjuntamente.

Foi considerado um valor de probabilidade (p-value) menor que 0,05 para excluir a hipótese nula de que não haveria diferença significativa entre as médias dos grupos. A probabilidade foi determinada pelo uso de desvio-padrão entre as diferenças das médias.

Resultados:

A tabela 1 demonstra a frequência de acometimento por endometriose das áreas pélvicas estudadas.


Tabela 1. Frequência de acometimento de áreas pélvicas versus idade


16-20 years21-25 years26-30 years31-35 years36-52 yearsAll ages
Fundo de saco78.678.352.856.052.661.4
Ligamento largo direito57.143.532.139.320.036.6
Ligamento útero-sacro direito57.139.143.425.012.037.9
Ligamento útero-sacro esquerdo42.952.232.125.020.035.6
Ligamento largo esquerdo35.739.135.825.012.032.6
Bexiga14.326.122.614.38.019.7
Ovário esquerdo013.09.617.924.014.4
Fundo uterino7.19.09.410.721.011.3
Sigmoide7.121.79.44.016.012.1
Ovário Direito08.711.321.416.013.6
Tuba uterina esquerda 08.73.83.64.04.5
Ligamento redondo esquerdo005.73.603.0
Tuba uterina direita0007.15.32.3
Parede abdominal direita003.8001.5
Ligamento redondo direito000000
Parede abdominal esquerda000000
Número total de pacientes1422522519132


Pacientes de 16 a 27 anos de idade (n=55) tinham uma média de 3,25 ±1,92 (desvio-padrão-DP) de áreas pélvicas acometidas, enquanto pacientes de 28 a 52 anos de idade (n=77) tinham 2,60 ±1,64 (DP) de áreas acometidas, uma diferença significativa (p<0 o:p="">

Mulheres nuligestas (Nota do tradutor: que nunca engravidaram) de 16 a 27 anos de idade (n=27) tinham uma média de 3,59 ± 2,12 (DP) áreas acometidas, enquanto nuligestas de 28 a 52 anos de idade (n = 20) tinham uma média de 3,00 ± 2,00 (DP) áreas acometidas, sem diferença significativa.

Todas as mulheres nuligestas (n=46) tinham uma média de 3,39 ± 2,00 (DP) áreas acometidas, enquanto mulheres que já haviam gestado (n=86) tinham uma média de 2,45 ± 1,64 (DP) de áreas acometidas, uma diferença significativa (p<0 o:p="">

Como as mulheres com gestação prévia eram em média cinco anos mais velhas que as pacientes nuligestas, e como as pacientes mais velhas nesse estudo, por algum motivo, tinham um número pouco menor de áreas pélvica acometidas, foram realizadas as comparações controladas por idade, demonstradas na Tabela 2. Com o ajuste por idade, houve uma diferença significativa no número de áreas pélvicas envolvidas em duas faixas etárias de pacientes nuligestas comparadas com pacientes que tiveram até quatro partos. Não foi notada nenhuma diferença significativa em três faixas etárias.

Tabela 2. Número de áreas pélvicas acometidas versus paridade controlada por idade
Número de áreas pélvicas envolvidas ± DP

Number of pelvic areas involved ± SD
16-20 years21-25 years26-30 years31-35 years36-52 years
Paridade
02.80 ± 1.87 (n = 10)4.20 ± 2.34 (n = 15)3.27 ± 1.39 (n = 26)2.56 ± 1.42 (n = 9)2.67 ± 2.89 (n = 3)
1-43.50 ± 0.58 (n = 4)2.00 ± 1.53 (n = 7)2.27 ± 1.69 (n = 26)2.50 ± 1.32 (n = 16)2.31 ± 2.17 (n = 16)
P0.1, NS*<0 .01="" font=""><0 .046="" font="">>0.5, NS>0.5, NS
*não significante

Discussão:

Eu acredito que há apenas duas maneiras de avaliarmos objetivamente o conceito de eventual disseminação progressiva da endometriose ao longo do tempo: (1) realizar laparoscopia em um grupo de pacientes não tratadas ao longo de vários anos, mapeando prospectivamente o acometimento pélvico e (2) identificar um grupo maior de pacientes em faixas etárias mais velhas com acometimento mais frequente de áreas pélvicas individuais ou com mais áreas afetadas do que pacientes mais jovens. Esse estudo tenta utilizar a segunda abordagem. Os resultados sugerem que a endometriose é uma doença posicionalmente estática, e que não se espalha pela pelve com o aumento da idade.

... os resultados sugerem que a endometriose é uma doença posicionalmente estática, e que não se espalha pela pelve com o aumento da idade...

O conceito de que a gestação protege contra a disseminação pélvica da doença pode ser testado ou pela comparação da frequência da distribuição de áreas pélvicas acometidas estratificada por faixa etária e fertilidade, ou encontrando uma relação inversa entre o número de áreas acometidas e a exposição prévia à gestação. Este estudo tenta utilizar a segunda abordagem. O achado de mais áreas acometidas em pacientes nuligestas do que pacientes com gestação prévia é mitigado pelo fato de que essa relação inversa não foi demonstrada em todas as faixas etárias, em uma análise mais detalhada.

Um maior número de áreas acometidas em pacientes nuligrávidas em comparação às pacientes com gestação prévia não significa necessariamente que uma maior quantidade de doença causa infertilidade, ou que seriam resultado de postergação de gestação. A presença de endometriose pode simplesmente ser um marcador de algum estado patológico adquirido ou embrionário, que pode estar relacionado à infertilidade e que persiste após a resolução da endometriose.

Como o sintoma mais comum nesse estudo foi a dor, teria esse grupo seleto de pacientes uma distribuição anormal da doença? A preocupação sobre o viés de seleção poderia se aplicar a qualquer estudo sobre endometriose, porque presumivelmente a doença é encontrada em função de cirurgia realizada por alguma indicação clínica, geralmente infertilidade. A diminuição aparente de doença com o avançar da idade notada aqui poderia significar que pacientes com maior número de lesões teriam mais dor, e que, portanto se apresentaram ao diagnóstico em fases mais precoces da vida.

A sugestão de que a endometriose seja uma doença posicionalmente estática traria nova ênfase à cirurgia conservadora para o tratamento de pacientes com desejo de concepção.

O mapa pélvico utilizado neste estudo é uma potencial e poderosa ferramenta para a investigação da doença, particularmente quando combinada à magnificação peritoneal, e vigorosas biópsias realizadas por médicos atentos às várias manifestações visuais da doença.

Resumo:

Nessa série de pacientes, a endometriose não afetou um maior número de áreas pélvicas em idades mais avançadas. A exposição à gestação está associada a uma leve diminuição de acometimento pélvico, apesar desse efeito ser inconstante quando diferentes faixas etárias são estudadas individualmente.

Nota do Tradutor:

Nesse estudo relativamente simples e com baixo número de pacientes, o Dr. David Redwine contesta objetivamente a longa crença de que a endometriose “se espalha”, de que “invade” locais progressivamente, como se fosse um câncer. Esse conceito, jamais comprovado e também derivado da teoria da menstruação retrógrada, atrasa avanços no estudo da endometriose. Pior: é um fantasma para as mulheres com a doença, que temem a menstruação não só pela dor, mas pelo pensamento que, a cada menstruação, estariam disseminando e aumentando a doença.

Curiosamente, esse “fantasma” é tão presente que, mesmo aquelas mulheres que passaram por um tratamento cirúrgico efetivo e que não tem sinais da doença, ainda costumam temer pelo retorno da doença caso continuem menstruando. Se o tratamento cirúrgico for efetivo, não deveria haver necessidade de medicações para suprimirem a menstruação, por um simples motivo: a endometriose não é causada pela menstruação.

domingo, 26 de junho de 2016

ENDOMETRIOSE E INFERTILIDADE: ENTENDA A RELAÇÃO DA DOENÇA COM A DIFICULDADE DE ENGRAVIDAR

imagem cedida por Free Digital Photos

No mês internacional da infertilidade, a doutora Graciela Morgado Folador preparou um texto exclusivo para o A Endometriose e Eu explicando porque a endometriose causa infertilidade. Um texto conciso e bem explicativo que vai sanar de vez suas dúvidas sobre o assunto. Um beijo carinhoso! Caroline Salazar

Por doutora Graciela Morgado
Edição: Caroline Salazar

Endometriose e infertilidade: entenda a relação da doença com a dificuldade para engravidar



Uma das principais causas de infertilidade entre as mulheres é a endometriose. Estima-se que 47% das pacientes inférteis foram diagnosticadas com essa patologia. Além disso, estima-se que atualmente ao menos 25% de todas as mulheres aos 30 anos apresentam endometriose e, entre estas, 30% a 50% são inférteis.

A razão mais provável relacionada à diminuição da concepção refere-se ao dano anatômico dos órgãos pélvicos, principalmente, em caso de doença avançada. Outros fatores, como a possível deficiência de ovulação, alterações inflamatórias que acontecem na pelve, além de falhas de implantação do embrião e abortamentos precoces são frequentes em portadoras de endometriose.

Apesar de toda evidência de que a endometriose possa afetar o número de óvulos produzidos, a qualidade dos embriões formados e a evolução da gestação, vários estudos clínicos ainda não conseguiram relacionar o estágio da endometriose aos resultados em ciclos de reprodução assistida.

Assim, quando avaliamos uma paciente com endometriose e infertilidade, devemos levar em consideração a idade, a duração da infertilidade, a história familiar, a presença de dor associada ao estadiamento da doença a fim de formular uma melhor estratégia de tratamento.

Portanto, em mulheres submetidas a procedimento cirúrgico com diagnóstico de doença estágios I (mínima) e II (leve) com tubas uterinas pérvias, a excisão completa dos focos seguido de indução de ovulação com Coito Programado - que consiste no uso de medicações para indução de ovulação acompanhada de ultrassonografia transvaginal seriada para controle de ovulação, isto é, medição dos folículos até que estes alcancem um tamanho de 20mm e após isto programa-se a relação sexual, por isso o nome Coito Programado ou Namoro Programado -  e inseminação intrauterina  (IIU) - que consiste no mesmo princípio do Coito Programado, porém quando os folículos atingirem o tamanho de 20mm, é realizado um preparo de sêmen no qual somente os espermatozoides móveis e progressivos são inseminados no útero da paciente) devem ser considerados , principalmente em pacientes com idade inferior a 35 anos.

Nas pacientes com 35 anos ou mais, e que apresentem uma baixa resposta ovulatória ao estímulo ou àquelas que têm tubas uterinas obstruídas, devem ser preferencialmente tratadas por meio das técnicas de maior complexidade, como a Fertilização in vitro (FIV) ou a Injeção intracitoplasmática de espermatozoide (ICSI).

Já em mulheres com endometriose estágios III (moderada) ou IV (grave) a FIV ou o ICSI (que consiste na micro-injeção de um único espermatozoide no citoplasma do oócito-óvulo) devem ser indicadas como primeira linha de tratamento complementar para a infertilidade após abordagem cirúrgica, por fornecerem melhores taxas de sucesso.

Sobre a doutora Graciela Morgado Folador:


Ginecologista e obstetra, Graciela Morgado Folador tem Pós-graduação em Endometriose, em Cirurgia Minimamente Invasiva, em Infertilidade Conjugal e Reprodução Assistida e Especialização em Vídeo-histeroscopia. É membro da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH), da Sociedade Brasileira de Endometriose (SBE) e da Advancing Minimally Invasive Gynecology Wordwide (AAGL). É médica-colaboradora do setor de Endometriose do Hospital das Clínicas de São Paulo, USP. Siga a fanpage da doutora Graciela

quinta-feira, 23 de junho de 2016

"COM A PALAVRA, O ESPECIALISTA" DOUTOR HÉLIO SATO!!

Em mais uma "Com a Palavra, o Especialista", o doutor Hélio Sato fala sobre a cirurgia de returada de endometrioma durante a gestação e também porque algumas mulheres sentem cólicas durante a amamentação. Graças a Deus eu não tive nenhuma dor na minha gestação e muito menos na amamentação. Eu ainda amamento minha filha de 1 ano e três meses e sou muito grata por ainda viver esse momento especial entre mãe e filho. Todos aqueles problemas que muitas mulheres relatam no início da amamentação eu não tive. Minha princesa teve a pega correta logo de primeira e meus seios nunca racharam, nunca sangraram. Agradeço muito a Deus por me presentear com esta dádiva. Mas para quem não consegue amamentar, você não é menos mãe por isso. O mais importante é o amor e a forma como você trata seu filho. Beijo carinhoso! Caroline Salazar


 Perdi o ovário esquerdo, fiz FIV e estou esperando gêmeas, estou de cinco meses. Tenho sentido muitas dores e descobri que se trata de um enorme endometrioma no ovário direito. Vou precisar operar grávida, pois as dores estão cada dia pior e insuportáveis. O doutor já teve algum caso parecido? É possível operar e continuar a gravidez normalmente? Anônima

Doutor Hélio Sato:  Via de regra, durante a gravidez os implantes de endometriose ficam inativos pela alta quantidade de progesterona que é produzida inicialmente pelo ovário e posteriormente pela placenta. Assim, sugiro reavaliar se de fato o cisto é um endometrioma e também se a dor é causada pelo cisto. E, tenta-se todas as alternativas anteriormente à intervenção cirúrgica durante a gravidez. Porém, se eventualmente o cisto estiver em crescimento ou outras possibilidades da dor forem descartadas, pode-se partir para a cirurgia que neste fase, normalmente, é feita com corte. Pois, em decorrência do grande volume do útero limita a laparoscopia.

– Quando amamentei minha filha eu quase não tinha leite e morria de dor por conta da endometriose, eu sentia muita, muita cólica. O que tem a ver a amamentação com a cólica? Luciane Cunha - Paquistão

Doutor Hélio Sato:  O estímulo dos mamilos durante a amamentação libera a ocitocina, hormônio produzido pelo hipotálamo (estrutura do cérebro) que tem como função contrair células musculares que estão em tornam dos ductos que transportam o leite do fundo da mama para o mamilo. Porém, esta ação, também, ocorre no músculo uterino e deste modo, ocorrem contrações vigorosas que levam às cólicas durante a amamentação. E, este fenômeno auxilia no controle do sangramento após o parto.

Sobre o doutor Hélio Sato: 

Ginecologista e obstetra, Hélio Sato é especializado e endometriose, em laparoscopia e em reprodução humana. Tem graduação em Medicina, Residência Médica, Preceptoria, Mestrado e Doutorado em Ginecologia pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), e foi corresponsável do Setor de Algia Pélvica e Endometriose da mesma instituição. 

Hélio Sato tem certificado em Laparoscopia pela Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e de Obstetrícia. É membro da AAGL “American Society of Gynecology Laparoscopy” e é coordenador de pesquisas da clínica de reprodução humana GERA e está à frente nas seguintes linhas de pesquisas: endometriose, biologia celular e molecular, cultura celular, polimorfismo gênico e reprodução humana. (Acesse o currículo Lattes do doutor Hélio Sato).