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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A HISTÓRIA DA PORTUGUESA LAETITIA CARVALHO E SUA ENDOMETRIOSE UMBILICAL!!


Assim que publicamos o texto "O que você precisa saber sobre a endometriose de pele (de cicatriz e de umbigo) recebi o comentário desta querida leitora portuguesa relatando um pouco de sua história com a endometriose umbilical. Como fala no texto do médico e cientista americano doutor David Redwine, Laetitia nunca havia feito cirurgia anterior. Muitos médicos acham que a endometriose no umbigo só se dá após alguma cirurgia, mas a história abaixo confirma o texto do doutor Redwine. Imediatamente convidei-a a contar seu testemunho aqui para ajudar-nos a acabar com alguns mitos da endometriose. Já pensou você menstruar e sangrar mais de 20 dias pelo umbigo também? Pois é, esta é mais uma história de uma endoguerreira que vai inspirar você a seguir em busca de um diagnóstico para suas dores, mesmo que os médicos não deem tanta importância às suas dores. Nunca se esqueça: somente você sabe o que você passa. Quer ter sua história publicada no A Endometriose e Eu? Conte sua história detalhada com a endo e envie para carolinesalazar7@gmail.com com o título História das leitoras junto com sua foto. Beijo carinhoso! Caroline Salazar

"Meu nome é Laetitia Carvalho, tenho 29 anos e moro em Cascais, Portugal. 

A primeira vez que menstruei tinha 13,14 anos e lembro-me de ter tido umas dores horríveis e umas cólicas que nunca mais acabavam. Mesmo tomando pílula, havia meses em que desmaiava, ou ia parar ao hospital, ora perdia muito sangue ora não perdi sangue nenhum. Foi assim até aos 22 anos.

Em novembro de 2007 deixei de tomar a pílula e engravidei em Janeiro de 2008 da minha primeira filha. Tive uma gravidez sem problemas e um parto normal. Voltei à pílula e as dores já não eram tão intensas e suportavam-se bem. Foi assim durante 4 anos e meio, altura em que voltei a ter dores, a ter perdas de sangue mesmo antes de acabar a toma da pílula e que decidi engravidar pela segunda vez.

Estávamos em novembro de 2013 quando parei de tomar a pílula e começou novamente o pesadelo... dores sem fim, cólicas horríveis, dores pélvicas (que nunca tinha tido antes), dores à volta do umbigo sempre que vinha a menstruação e um cansaço extremo. Claro que atribui alguns dos sintomas ao trabalho que tinha.

Passado seis meses, as dores pélvicas, muitas vezes, não eram suportáveis e as dores à volta do umbigo já não eram só quando menstruava, também as tinha durante o período de ovulação. Nessa altura, quando menstruava, também tinha perdas de sangue pelo umbigo. Gravidez... nem pensar!

Em maio de 2014 decidi ir à médica de família apresentar as queixas. Mas a respostas não tardou a vir. "Essas dores são normais, já as tinha quando era mais nova. Em relação ao umbigo, isso é uma infecção por não ter cuidado com a higiene dessa zona." No mês seguinte voltei à médica de família, pois as perdas de sangue pelo umbigo, já não era só quando menstruava, eram também quando estava no período de ovulação. As dores já eram mais acentuadas e o cheiro era tudo menos agradável, mas a respostas voltou a ser a mesma.. "Se está sempre a mexer na infecção, como quer que isso passe?" Lá passei o verão cheia de dores cada vez que tinha a menstruação e sempre a sangrar do umbigo, até que no dia 16 de setembro de 2014 a minha vida mudou por completo.

Estava a ajudar a criança nos trabalhos da escola quando sinto uma pontada estranha na zona do umbigo, levanto a camisola e estava a sangrar imenso. Claro que o marido assim que se deparou com aquele cenário, mandou-me direta para o hospital, eu não queria ir, mas ele insistiu. Dei de jantar à filha, coloquei-a para dormir e lá fui para o hospital. Esperei cerca de uma hora (o que nos nossos hospitais é um milagre) para ser atendida.

Quando o médico me viu entrar na sala, além de espantado, perguntou-me logo o que me levava ao hospital aquela hora da noite (eram cerca das 22h30) e eu disse-lhe "Doutor preciso de ajuda para isto" (ao mesmo tempo que levantava a camisola).

Ele olhou e disse logo: "Ou eu muito me engano, mas a menina tem endometriose". A minha reação foi: "Endo quê? Traduza para português e explique-me faz favor." Mais direto que isto o senhor não podia ter sido e depois de me dar uma explicação muito breve, perguntei-lhe o que devia fazer e ele respondeu para eu ir à minha médica de família solicitar uma consulta de ginecologia no hospital da minha região ou então procurar um ginecologista particular.

Quando cheguei a casa e depois de investigar um pouco mais sobre a doença, falei com o marido e optamos por um ginecologista particular, tendo em conta que com a médica de família nunca me iria safar, porque para ela isto era uma simples infecção.

Consegui consulta com um ginecologista particular para o dia 20 de setembro de 2014, expliquei-lhe o que se estava a passar e os meus planos para uma segunda gravidez e assim que ele dá a confirmação de endometriose. Só me lembro de chorar, chorar, chorar e de ele me pedir calma que tudo se ia resolver, que ele estava disposto a ajudar. Como a endo é uma doença que acaba por ser dispendiosa, ele resolveu falar com um colega que trabalha com ele na Maternidade Alfredo da Costa (hospital público em Lisboa), combinamos um dia e uma hora para nos encontrarmos os três para realizar uma nova ecografia. Fui à MAC no dia 7 de outubro realizar a dita ecografia. Estava tudo ok com o útero, ovário direito apresentava uns cistos não preocupantes e os sacos de Douglas estavam impecáveis. Sendo assim, o ideal era mesmo engravidar.

Passaram seis meses, além de não ver a gravidez, as dores tinham piorado. O nódulo no umbigo tinha aumentado, comecei a perder sangue pelo umbigo durante 20 dias seguidos e o cheiro já era insuportável. Mantive o ginecologista a par da situação e em março telefonou-me para ir ter com ele à MAC para marcar uma consulta de fertilidade.

Tivemos a primeira consulta no dia 14 de abril. Depois de todas as perguntas feitas tanto a mim como ao meu marido, o médico diz: "O seu ginecologista disse-me que você sangra do umbigo quando está menstruada", ao qual respondo muito depressa: "Eu sangro durante 20 dias". O doutor pediu para ver, observou e pegou no telefone "Vem cá abaixo buscar um processo porque a menina não pode continuar assim". Senti-me perdida. Uma funcionária do hospital veio buscar o processo, acompanhou-me ao serviço de fertilidade, onde estava uma médica a minha espera. A doutora pegou no nódulo (comecei a chorar com tanta dor), disse que já estava muito grande e rijo e perguntou-me se eu trabalhava, respondi afirmativamente, então perguntou-me como conseguia trabalhar. Ficou chocada com a quantidade de medicação que tomava e disse-me que eu tinha que ser operada. Fez um relatório clínico para um outro hospital (que faz parceria com eles) para ser operada o quanto antes pela cirurgia plástica, porque eu não podia continuar assim nem mais um dia. Foi então que começou novamente o pesadelo.

Já tinham passado três semanas desde que o pedido tinha sido feito e ainda não tinha obtido qualquer resposta do hospital em questão. Então no dia 4 de maio de 2015 dirigi-me ao mesmo e a resposta que obtive é que o pedido tinha sido rejeitado por não morar na região (eu moro em Cascais e o hospital era em Lisboa) claro que a minha resposta não foi meiga e saí de lá superfrustrada.

Nesse mesmo dia, em conjunto com o marido e como tinha o tal relatório clínico escrito pela MAC, dirigi-me ao Hospital São Francisco Xavier e que fica mais perto da minha residência. Fui atendida por uma médica cinco estrelas, que conhecia de endometriose e que passou um pedido de consulta urgente para o Hospital de Santa Cruz. Logo consegui a consulta para o dia 12 de maio. Fiquei contente e superentusiasmada. O pesadelo poderia estar a chegar perto do fim.

Quando chego à consulta e explico tudo à médica a resposta foi: "Eu não a posso operar, tem que ser a ginecologia". Contei até 10 e disse-lhe: "Como não pode, se está aqui o relatório que tem que ser vocês, porque têm que reconstruir o umbigo e a ginecologia não o faz? Está a gozar comigo? E acho ainda mais triste a forma como o Sistema Nacional de Saúde funciona, acho triste descontar o que descontam e andar nisto há quase dois anos. Acho triste, se calhar ter que ir procurar uma solução no estrangeiro" (entretanto já estava lavada em lágrimas). Então a doutora pediu o meu número de telefone, disse que ia expor o meu problema aos colegas e que até o dia 16 de maio me dizia alguma coisa e assim foi. No dia combinado por ela recebi a ligação a dizer que seria operada no dia 23 de junho e se houvesse alguma alteração que me avisavam.

No dia 28 de maio recebo uma chamada do Hospital Egas Moniz a perguntar se eu estaria interessada em ser operada no dia 3 de junho. Depois de ter perguntado umas quantas vezes se estavam a falar a sério, disse que sim lavada em lágrimas e a tremer. No dia seguinte apresentei-me no hospital para fazer exames, ter a consulta de anestesia e saber a hora do internação.

Entrei no hospital no dia 2 de junho e fui operada no dia 3 de junho às 12h. A operação durou 1h45m, retiraram um nódulo de 2,5cm, e fizeram um umbigo novo :) Todas as semanas tinha que ir ao hospital fazer o penso e colocar uma compressa redonda no umbigo novo para que começasse a ganhar forma. Tive que usar cinta durante dois meses e não fazer qualquer tipo de esforço. A primeira vez que ganhei coragem e olhei para o umbigo novo não gostei e só me apeteceu chorar. Estava tão estranho. Mas com o passar do tempo lá me fui habituando e adorei o resultado final :) Quem o vê nem diz que é "falso" e que o trabalho ficou cinco estrelas.

Fez este mês, quatro meses que fui operada, mas continuo com muita dor (e não preciso estar com a menstruação), continuo sem conseguir fazer certos movimentos e quando me esforço um pouco mais o corpo dá logo sinal. Sinto que ainda não recuperei a qualidade de vida que a endometriose me fez perder.

Continuo a ser seguida na consulta de fertilidade da MAC, já estou a tomar um suplemento que ajuda na gravidez e não prejudica a endometriose. Já tenho a requisição para fazer uma histerossalpingografia (gosto mais de dizer que é o exame para ver as trompas de Falópio, é menos complicado). Assim que vier a menstruação este mês, vou logo ao hospital marcar o exame. Depois, consoante o resultado, logo veremos as soluções que o médico irá apresentar.

Neste caminho que já vai longo descobri a Mulherendo, o blog A Endometriose e Eu e Conversa de Endogirl :) Foi onde aprendi a conhecer melhor a doença e a saber lidar com a ela, onde muitas vezes encontro a compreensão :)

Olhando para trás, o único arrependimento que tenho, foi não ter procurado logo um ginecologista. Só tenho a agradecer à insistência do marido, à paciência da filha, à compreensão de certos membros da minha família e de amigos que se revelaram mais do que 10 estrelas e, claro, aos dois ginecologistas que seguem o meu caso.


Uma das frases que mais gosto e que quando estou mais para baixo se adequada perfeitamente na minha pessoa é: "The minute you think of giving up, think of the reason why you held on so long" Espero um dia recuperar a qualidade de vida... Beijinho carinhosos :) Laetitia"

terça-feira, 6 de outubro de 2015

DAVID REDWINE: O QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE ENDOMETRIOSE DE PELE (DE CICATRIZ, DE UMBIGO)!!

Eu e o médico e cientista americano David Redwine em sua visita ao Brasil em 2014

Já contamos histórias de mulheres que tiveram endometriose de cicatriz, como a da capixaba Danielle Balbino e a da portuguesa Sara Ferreira, mas nunca abordamos em texto a endometriose de pele. O médico e cientista americano David Redwine discorre o tema de maneira precisa e muito bem explicada. Como surge a endometriose cutânea, que pode ser a de umbigo e a de cicatriz, que não necessariamente só ocorre quando  a mulher faz alguma cirurgia. Um texto de perguntas e respostas bem objetivas que aborda as principais dúvidas sobre a endometriose de pele, tais como os sintomas, o tratamento, como surge este tipo de tratamento, por que uma mulher que nunca operou também pode ter endometriose de umbigo? Mais um texto exclusivo do A Endometriose e Eu. Beijo carinhoso! Caroline Salazar

Entrevista em inglês: Libby Hopton  
Tradução: doutor Alysson Zanatta
Edição: Caroline Salazar



Perguntas e respostas sobre endometriose cutânea:
Libby Hopton: Segundo meu entendimento, a endometriose cutânea (nota do tradutor: de pele) é mais comumente encontrada em cicatrizes de cirurgias prévias. Antes de considerar a endometriose cutânea em maior detalhe, há também casos de endometriose cutânea na ausência de uma incisão / cicatriz, e caso haja, onde essas lesões ocorrem com maior frequência?
David Redwine: Segundo meu conhecimento, além dos casos de endometriose espontânea envolvendo o umbigo, a única ocasião de endometriose cutânea não associada à uma cicatriz cirúrgica foi um caso de endometriose na vulva em uma nuligesta (nota do tradutor: que nunca gestou). (Healy JJ. Bilateral endometriosis of the vulva. Am J Obstet Gynecol 1956; 72:1361-3)
LH: No exemplo da endometriose umbilical, costuma haver sempre uma incisão cirúrgica prévia no umbigo antes do surgimento da doença ou essa tende a ser espontânea neste local?
DR: A endometriose umbilical tende a ser espontânea e eu suponho que a maioria dos casos de endometriose umbilical seja espontânea. Há relatos esporádicos de endometriose umbilical que surgiram após histerectomia (nota do tradutor: cirurgia de retirada do útero) laparoscópica com uso de trocater umbilical. Nesses dois casos, fragmentos de endométrio e miométrio foram removidos através do umbigo desprotegido (o trocater foi removido e o tecido foi puxado através do umbigo). (Konninckx PR et al. Umbilical endoemtriosis after unprotected removal of uterine pieces through the umbilicus. J Am Assoc Gynecol Laparosc 2000; 7:227-32.)
LH: Quais são os sintomas da endometriose cutânea e em qual idade essa forma da doença geralmente ocorre? Ela costuma piorar com o tempo? A endometriose cutânea está associada a lesões em outros locais ou ela pode se apresentar isoladamente, como o único local da doença?
DR: A endometriose cutânea se apresenta como um nódulo pequeno, doloroso, que pode crescer lentamente. Muitas lesões parecem atingir um certo tamanho e param de crescer. Inchaço e dor local cíclicas são os sintomas mais comuns da endometriose cutânea. O umbigo é a parte mais fina da parede abdominal, talvez alguns centímetros de espessura apenas, mesmo nas pessoas obesas. Indo de fora para dentro, as camadas do umbigo são: epiderme, derme, fascia, gordura retroperitoneal, e peritônio. Como a espessura da parede abdominal na cicatriz umbilical é tão fina, a endometriose umbilical pode também estar associada a um sangramento cíclico. A endometriose de uma cicatriz cirúrgica (a forma mais comum de endometriose cutânea) geralmente não afeta a derme ou epiderme (as camadas da pele) como acontece com a endometriose do umbigo, portanto o sangramento externo será raro, se é que ocorrerá alguma vez. A endometriose da cicatriz cirúrgica acomete primariamente a fáscia, com alguma fibrose da gordura subcutânea sobrejacente à fáscia. A endometriose de cicatriz cirúrgica raramente tem alguma conexão mais profunda em direção ao peritônio ou cavidade endometrial.
LH: No caso da endometriose que surge nas cicatrizes, quais são os possíveis mecanismos causais (i.e, tecido endometrial transplantado e “preso” na incisão e/ou tecido saudável que se transforma em endometriose como resultado de substâncias químicas liberadas durante o processo de cicatrização)?
DR: As duas possíveis causas da endometriose de cicatriz cirúrgica são o autotransplante (inoculação diretamente na cicatriz de tecido endometrial originado do útero) e metaplasia (nota do tradutor: transformação de uma célula em outro tipo de célula) relacionada à liberação de substâncias químicas liberadas pelo corpo durante a cicatrização, incluindo vários fatores de crescimento. Um fator que fala contra o autotransplante é que a histologia da endometriose de cicatriz não é aquela típica de um tecido endometrial bastante diferenciado, como seria a do tecido endometrial original do útero. Seria de se esperar que o tecido autotransplantado permanecesse mais idêntico ao tecido de origem uterina. Outro fator contra o autotransplante é a propensão da endometriose de cicatriz envolver primariamente a fascia – se a inoculação de toda uma cicatriz ocorresse, seria de se esperar que a endometriose de cicatriz envolvesse mais uniformemente todas as camadas desde a pele até o peritônio, e não apenas primariamente uma das camadas. É claro e evidente que cada célula no corpo tem o potencial genético de se transformar em outro tipo de célula, dado o estímulo adequado, portanto cada célula no corpo pode ser uma “célula-tronco”. Segundo o conceito da Mülleriose, fragmentos de tecido podem ser distribuídos em locais do corpo que já contêm endometriose, ou que possuem uma capacidade aumentada de passar por metaplasia e se transformarem em endometriose. Na pelve, esses fragmentos de tecido são mais comumente encontrados na pelve posterior mas podem ocorrer em qualquer local da pelve, intestino, ou bexiga. Entretanto, teoricamente esses fragmentos também poderiam ser encontrados em qualquer local do corpo, apesar de que com uma frequência inversamente proporcional à distância ao fundo de saco (pelve posterior). Por esse conceito, a parece abdominal poderia conter esses fragmentos de tecido, distribuídos mais comumente na parede abdominal inferior próximo à pelve. As artérias e veias umbilicais passam pelo umbigo do feto. No feto feminino essas estruturas originam-se das artérias e veias uterinas. Portanto, o umbigo tem uma conexão direta e compartilhada com a pelve que pode se estender à formação da parede abdominal e que pode portanto estar associada com a endometriose de cicatriz que envolve o umbigo. Esse aspecto ontológico (nota do tradutor: relacionado à formação de órgãos) do umbigo pode aumentar a possibilidade de que um fragmento de tecido Mülleriano tenha sido depositado no umbigo com maior frequência em relação a outros locais na parede umbilical. Se fragmentos de tecido Mülleriano fossem depositados no umbigo, o umbigo poderia então apresentar endometriose espontânea (se a endometriose tivesse se originado durante a embriogênese), ou endometriose de cicatriz relacionada à laparoscopia devido à metaplasia de tal fragmento tecidual estimulada por fatores de crescimento durante o processo de cicatrização. Tal fragmento de tecido seria mais propenso a desenvolver endometriose por metaplasia relacionada à cicatrização de uma ou repetidas incisões umbilicais usadas para os trocateres de laparoscopia do que uma outra incisão de trocater onde não houvesse fragmentos de tecido acometidos pela Mülleriose.
LH: Há certos tipos de cicatrizes associadas a determinado tipo de doença mais frequentes do que outras?
DR: A endometriose de cicatriz foi relatada em incisões de laparotomia transversas, verticais, em punções de trocater no umbigo, em locais de amniocentese (nota do tradutor: punção para coleta de líquido amniótico durante a gravidez), e episiotomias (nota do tradutor: incisão no períneo para facilitação do parto vaginal). A endometriose de cicatriz de incisões de laparotomia parece seguir o seguinte padrão – em incisões transversas, a endometriose é pouco encontrada na linha média, e sim mais em um dos lados – o direito sendo o mais comum. A predileção da endometriose de cicatriz pelo lado direito da parede abdominal reproduz a predileção da endometriose inguinal por esse mesmo lado, sugerindo que a parede abdominal direita contém mais comumente fragmentos de tecido Mülleriano do que o lado esquerdo. Com incisões verticais, a endometriose é encontrada mais próxima à sínfise púbica do que do umbigo, sugerindo que os fragmentos de tecido são mais comuns em locais próximos à pelve. A maioria das lesões de endometriose de cicatriz de laparotomia é representada por um único nódulo.
LH: No caso da endometriose de cicatriz, seria o tecido transplantado uma confirmação da teoria implantacional e suportando o conceito de que o endométrio nativo pode implantar-se e invadir outros locais fora do útero? A endometriose de cicatriz é um modelo para a teoria de Sampson da menstruação retrógrada como a origem da endometriose?
DR: A teoria de Sampson sobre a origem da endometriose fala sobre o endométrio menstrual implantando-se sobre superfícies peritoneais. Muitos casos de endometriose de cicatriz não estão relacionados com endométrio menstrual descamado, mas conotam a possibilidade que o endométrio viável tenha sido inoculado em uma cicatriz fresca e receptiva. Isso sugeriria que a endometriose de cicatriz não seria um modelo para explicar a teoria de Sampson. Um outro ponto foi mencionado acima – a endometriose de cicatriz de laparotomia manifesta-se como um único nódulo na maioria dos casos. Eu nunca encontrei um caso onde houvesse um segundo nódulo. Se ocorresse a inoculação ao longo de uma cicatriz de 9 a 10 cm, seria de se esperar que algumas pacientes tivessem mais de um nódulo. Portanto a endometriose de cicatriz não pode ser aceita como um bom modelo para exemplificar a teoria de Sampson. Punções de laparotomia ou de amniocentese são pontos únicos onde esperar-se-ia o desenvolvimento de um único nódulo. Se tal nódulo único da endometriose de cicatriz fosse observado sem o conhecimento do padrão de distribuição da endometriose de cicatrizes de laparotomia, seria fácil concluir rapidamente que houve inoculação local pelo endométrio. Em resumo, as cicatrizes de laparotomia representam um “laboratório” melhor para o estudo das lesões de endometriose de cicatriz do que aquelas de locais de punção. Não se sabe se existe a possibilidade de se estabelecer endometriose em uma incisão cirúrgica a partir de uma lesão de endometriose pélvica.
LH: Quando existe a endometriose de cicatriz, ela tende a acometer apenas a superfície externa da pele ou ela pode penetrar toda a espessura da parede abdominal e mesmo formar um trajeto de fora para dentro ou vice-versa?
A neurocientista inglesa Libby Hopton e eu em 2014
DR: Como respondido acima, a doença costuma envolver apenas a fáscia.
LH: Qual o melhor tratamento para a endometriose cutânea?
DR: Minha experiência pessoal e a literatura publicada tornam claro que a excisão cirúrgica com margens livres é curativa na grande maioria dos casos.
LH: Ela pode ser tratada diretamente por cirurgia?
DR: Sim, é fácil de se operar na parede abdominal. Geralmente a cirurgia não se estende à cavidade abdominal. Quando isso acontece, a área geralmente é pequena comparada às incisões de laparotomia.
LH: Existem alguns tipos mais facilmente tratados do que outros?
DR: Todas são igualmente fáceis de serem tratadas desde que não envolvam estruturas vitais. O reparo cosmético do umbigo é um pouco mais difícil do que o simples fechamento da pele sobre um nódulo de laparotomia.
LH: Se a endometriose de cicatriz pode formar-se puramente como resultado do processo de cicatrização (tecido que passa por metaplasia e se transforma em endometriose sob a influência do ambiente celular durante a cicatrização), o que fazer para evitar que este mesmo processo recorra após a ressecção da área doente e com a formação de um novo tecido de cicatrização?
DR: O fragmento de tecido depositado no período embrionário foi agora removido. Tais fragmentos não são necessariamente feixes de tecidos contínuos que se pareçam com avenidas, apesar de alguns poderem ser. Alguns fragmentos podem ser depositados aqui ou ali ao longo de uma região previamente estabelecida.
LH: Quais medidas podem ser tomadas durante as cirurgias para reduzirem o risco de endometriose nos locais cirúrgicos?
DR: Se a endometriose de cicatriz for causada pela estimulação de fragmentos teciduais embriológicos, não haveria nenhuma prevenção óbvia, já que o processo de cicatrização teria que ser interrompido. Dada a raridade da endometriose de cicatriz – muitas mulheres submetidas a laparotomias ou laparoscopias jamais a desenvolverão – não faria sentido você tentar interferir no processo de cicatrização de 100% das pacientes para prevenir a endometriose de cicatriz em < 0,5% delas. Se a endometriose de cicatriz fosse causada por inoculação da cicatriz cirúrgica, então talvez colocando-se uma barreira sobre cada camada da parede abdominal (especialmente a fascia) antes de se adentrar o peritônio talvez fizesse sentido. Mas surge a questão novamente – você assumiria os esforços e os custos em 100% das pacientes para proteger < 0,5% de um problema benigno, facilmente tratado? Eu tenho certeza que alguma indústria de produtos médicos responderia que sim.
LH: A endometriose pode se formar (por metaplasia) ou tornar-se parte (por excisão cirúrgica incompleta) na cúpula vaginal (nota do tradutor: porção superior da vagina onde o útero se inseria, e que torna-se uma cicatriz após a sua remoção) após uma histerectomia? Caso positivo, quais seriam os sintomas (dor, sangramento cíclico)?
DR: O tecido da parede vaginal é um epitélio escamoso estratificado, exatamente igual à pele. A diferença é que a parede vaginal não tem folículos pilosos ou glândulas sudoríparas. Portanto, todo comentário feito a respeito da endometriose de cicatriz aplica-se à parede vaginal. A parede vaginal posterior atrás do colo uterino é o local mais comum de ocorrência da endometriose de vagina, geralmente associada a uma lesão no reto com obliteração do fundo de saco de Douglas, ou a um nódulo no ligamento útero-sacro. Caso o fórnice posterior da vagina normal não tenha sido removido juntamente com um nódulo no reto ou ligamento útero-sacro, há uma chance de que este local ainda possa formar uma lesão de endometriose no futuro, já que fragmentos de tecidos embriológicos permaneceram no local e podem se manifestar como endometriose no futuro. O Professor Donnez, na Bélgica, observou isso e recomenda que o fórnice vaginal posterior seja removido rotineiramente quando houver um nódulo adjacente para a diminuição da recorrência pós-operatória (o que parece ser por um processo de metaplasia). Voltando à reposta específica da questão, o meu palpite é que a maioria das lesões de endometriose de cúpula vaginal é relacionada a nódulos adjacentes que não foram removidos e que a endometriose foi simplesmente incorporada à cúpula vaginal durante seu fechamento cirúrgico.
Nota do Tradutor: Em mais um texto claro e autoexplicativo, Dr. Redwine responde à Libby Hopton, neurocientista e dedicada pesquisadora da doença, perguntas sobre a endometriose de cicatriz, especialmente a endometriose de umbigo e a endometriose em incisões cirúrgicas.
O ponto mais interessante dessa entrevista são os argumentos expostos pelo Dr. Redwine que contrariam a teoria de que a endometriose de cicatriz tenha sido causada por inoculação cirúrgica direta, proposta pelos expoentes da teoria de Sampson, ou teoria da menstruação retrógrada. Dr. Redwine explica que esse tipo de endometriose possivelmente se deva à uma estimulação de tecidos embrionários que foram depositados naqueles locais, durante o processo de cicatrização. Isso explica os casos de endometriose de umbigo que surgem em mulheres que jamais foram operadas. Pessoalmente, tive a oportunidade de tratar duas mulheres com endometriose de umbigo, e ambas jamais tinham sido operadas.
Entender a causa e os mecanismos da endometriose (a de cicatriz, ou as outras formas da doença ) significa escolhas acertadas, e maiores chances de sucesso no tratamento.


Sobre o doutor Alysson Zanatta:
Graduado e com residência médica pela Universidade Estadual de Londrina, doutor Alysson Zanatta tem especializações em uroginecologia e cirurgia vaginal pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cirurgia laparoscópica pelo Hospital Pérola Byington de São Paulo e doutorado pela Universidade de São Paulo, USP. Suas principais áreas de atuação são a pesquisa e o tratamento da endometriose, com ênfase na cirurgia de remoção máxima da doença. Seus inter­esses são voltados para iniciativas que promovem a conscientização da população sobre a doença, como forma de tratar a doença adequadamente. É diretor da Clínica Pelvi Uroginecologia e Cirurgia Ginecológica em Brasília, no Distrito Federal, onde atende mulheres com endometriose, e Professor-adjunto de Ginecologia da Universidade de Brasília (UnB). (Acesse o currículo lattes do doutor Alysson Zanatta).